Fotografias
44 Decisão Final
Notas iniciais

A arrumação da festa tinha ficado melhor que a encomenda. O tema era sobre o que Luquinhas mais gostava: Galinha Pintadinha. De acordo com as mães corujas, ele ficava o dia inteiro pedindo para colocar o DVD e, quando colocavam, não saía de frente da televisão por nada no mundo. O pequenino de olhos puxados gostava tanto que estava maravilhado com toda a decoração azul e branca.
Por um lado do enorme salão, que tinha as paredes e piso brancos, havia duas dezenas de mesas redondas. Estavam forradas com toalha azul clara e sobre elas havia enfeites do tema e um balão azul com pintinhas brancas, preso a um cano de plástico transparente, que o deixava em pé no centro da mesa. As cadeiras também estavam forradas, combinando com o resto do ambiente.
A mesa principal estava simples, porém perfeita. Diversos personagens estavam espalhados entre os doces e o bolo, que tinha um formato retangular. Nele havia uma enorme fotografia do pequenino sentado no meio de um monte de ursinhos de pelúcia, todos do desenho que tanto gostava. Escrito em azul e branco: Feliz Aniversário Lucas.
Era oito da noite quando a festa chegou ao seu auge. Estava muito lotada. Todas as mesas preenchidas e ainda havia pessoas em pé. Crianças corriam para todo lado, sendo embalados pelo som da Galinha Pintadinha e algumas vezes pela Xuxa. Mini pizza, cachorro quente, hambúrguer, refrigerante e salgadinhos eram servidos a todo o tempo, deixando os convidados sempre com a boca ocupada. Para os adultos, os garçons levavam cerveja, energético e tira-gosto.
A galera estava sentada num trio de mesas, conversando sobre assuntos aleatórios. Quando Sarah chegou, Manu fingiu que não a viu, apesar de ser uma tarefa praticamente impossível. Ela estava vestida num vestido preto colado, que modelava o corpo esguio e mostrava as curvas que só Manu sabia que ela tinha. Ela estava perfeita demais.
E com certeza todos notaram o clima pesado entre as duas.
– Vocês estão brigadas? – Claudia indagou para Manu algum tempo depois, assim que a ruiva levantou para pegar Luquinhas, que corria do outro lado do salão.
– Estamos – os olhos azuis da fotógrafa desviaram para o copo de cerveja sobre a mesa.
– Eu tenho notado que vocês estão brigando muito. O que está acontecendo? De verdade, Manu – foi a vez de Nanda dizer. Ela trajava short jeans e uma camisa soltinha por cima. Nos pés, saltos bege. Gustavo corria pelo salão com mais um monte de crianças.
– Ela ficou muito misteriosa. Começou mais ou menos depois do Carnaval do ano passado. Está me escondendo as coisas, sumindo sem me avisar e sempre voltando como se nada tivesse acontecido. E dessa vez ela passou do limite – Manu suspirou longamente.
– Isso tem a ver com o que você me perguntou sobre o time? – David arriscou a indagação, os olhos azuis semicerrados. A atenção da galera agora estava nele.
– Tem. Eu pedi para ir junto, mas ela cismou em dizer que não precisava. Também disse que a viagem acabaria em três dias, mas só chegou hoje. Cinco dias depois. Ela não me ligou, não avisou do porque disso, apenas chegou como se nada tivesse acontecido. Eu não aguento mais essas atitudes dela, vocês não fazem ideia. Eu não consigo não pensar que ela esteja me traindo... Isso é horrível – ela cobriu o rosto com as mãos, controlando-se para não pensar novamente no que Sarah poderia estar fazendo escondido nesses dois dias.
– Sarah traindo você? –Victor a olhou como se aquela questão fosse improvável. – Mesmo sofrendo tudo aquilo das mãos do Júnior, ela sempre manteve fiel seu relacionamento. David e eu a beijamos uma vez, no jogo da verdade, mas só depois de todos insistirem para que isso acontecesse. Sarah pode fazer qualquer coisa, menos isso – Manu tirou as mãos do rosto para olhá-lo.
– Eu concordo com ele – Lia se pronunciou pela primeira vez, olhando para trás, em busca de Sarah e Luquinhas. A japonesa estava mais linda que nunca, parecendo que nunca havia engravidado. – Conversa com ela. Brigar não adianta muita coisa.
– Estou há um ano tentando conversar, Lia. Ela só se esquiva, sempre me dando uma desculpa diferente. Estou cansada disso.
– Tenta mais uma vez – Mari pegou nas mãos da fotógrafa e sorriu de lado. – Se amamos de verdade uma pessoa, devemos lutar para recuperar tudo aquilo que deixamos passar.
– Lutar mais?
– Você a ama? – Foi a vez de Clara perguntar, olhando diretamente para os olhos azuis de Manu.
– Claro, mais que a minha vida.
– E acha que isso ainda não é suficiente para tentar resolver as coisas? – Victor indagou, bebendo um longo gole da sua cerveja logo em seguida. – Vocês se amam, cara. Isso está na cara. Alguma coisa está errada e só cabe a você descobrir o que é.
– Eu também ach... – Mari imediatamente se calou, pois a ruiva apareceu com um mini japonês sorridente no colo. A fotógrafa de cabelos loiros não conseguiu evitar em pensar em como seria se tivessem um filho. Se é que teriam um dia.
– Com quem ele estava? – A japonesa logo levantou da cadeira para limpar o rostinho de Luquinhas, que estava sujo de chocolate. – Deus, o que você estava comendo?
– Eu o peguei sentado no chão, junto com Gugu e mais umas duzentas crianças – Sarah gargalhou ao ver a cara de espanto das duas mães e notou que Manu a fitava, porém, quando a olhou, ela desviou os olhos de um azul perolado. Por hora, apenas ignorou.
Seguindo o conselho de seus amigos, Manu tentou ao máximo não ignorar Sarah, apesar de ainda estar muito chateada com tudo que estava acontecendo. Mas fez o possível, entrando em assuntos em que ela estava envolvida e até chegou a brincar com alguma coisa que ela comentou com Nanda. A conversa prolongou por bastante tempo, mesmo que Lia e Ju saíssem toda hora da mesa para dar atenção aos convidados. Falaram de diversos assuntos, enquanto bebiam cerveja estupidamente gelada e comiam alguns aperitivos. Pouco antes das dez da noite, cantaram parabéns e aos poucos os convidados foram indo embora. Foi só então que a festa realmente começou.
Assim que Luquinhas e Gugu dormiram, Lia os colocou deitados na cama elástica e os cobriu com um lençol que havia trazido consigo mais cedo. Agora poderiam curtir de verdade.
Com os copos recém-preenchidos pelo liquido amarelado, eles embalaram no ritmo da música do eterno Mamonas Assassinas. Por um momento, Manu se esqueceu que estava brigada com a ruiva de olhos verdes. Dançavam todos em circulo, acompanhando ritmo agitado e empolgante. Era realmente bom quando todos estavam reunidos daquela maneira, se divertindo e curtindo o que havia de melhor.
Quando a música mudou para um forró gostoso, Victor puxou a fotógrafa para dançar juntinho. E todos fizeram o mesmo. Lia dançou com Claudia, Clara com Nanda, Mari com David e Juliana com Sarah. Mas, como sempre, foi o casal que chamou mais atenção. Dançaram quatro músicas seguidas, sendo que o restante havia se cansado antes de acabar a segunda. Mas foi quando uma em especial começou a tocar que Manu se afastou do moreno de cabelos cacheados, para então aproximar-se finalmente de sua namorada.
Seu corpo estava suado por causa do esforço feito anteriormente, mas não se importava nem um pouco com isso. Sarah estava magnífica naquele vestido preto, embora não estivesse com saltos por causa de sua altura. O olhar que ela lhe dava era tão intenso que Manu não conseguia controlar seus pelos de se arrepiarem involuntariamente. Queria matá-la por tudo que estava sendo obrigada a passar, mas não podia simplesmente dizer que não a amava, que não estava disposta a ouvi-la se isso precisasse ser feito.
– Dança comigo? – Perguntou ao chegar bem pertinho dela, estendendo a mão para que ela a pegasse. A melodia da música fazendo sua mente viajar para um lugar distante, numa nostalgia gostosa.
Sem respondê-la, Sarah pegou na mão quente, deixando que ela a levasse para o meio da galera. Enquanto dançavam, eles mantinham a atenção indiscretamente voltada para elas. Mesmo assim, não se importaram nem um pouco. Estavam mais que acostumadas com os fofoqueiros com quem conviviam. A melodia era lenta e gostosa, embalando seus corpos a medida que deslizavam pelo salão.
“A lua quando brilha, falo de amor. No gingado desse xote, sinto teu calor. À noite quando acordado, sonho com você. Iê, iê, ê, ê. O som ligado e fico perturbado, sem ter o que fazer”.
Manu envolveu a cintura de sua namorada, colando seus corpos devagar. Seu corpo se arrepiou novamente ao sentir o hálito quente bater contra seu pescoço. E a guiou pelo salão, no famoso passo dois-pra-lá-e-dois-pra-cá.
“E tento sair dessa rotina. Não quero, não, colo de mamãe. Só quero colo de menina e pouco a pouco conquistar seu coração”.
Girou-a para os dois lados, voltando sempre a envolvê-la de maneira sexy, levando-a para além do lugar em que estavam. Parecia que estavam sozinhas. A todo tempo, seus olhos se encontravam. Queria dizer tanta coisa para ela.
– E amar até, amar até... Até quando os dois quiser – Manu sussurrou no ouvido dela, causando-lhe arrepios. – Prova para mim que quer – disse logo após, sem deixar de guiá-la um só segundo. Apertou-a contra o seu corpo e girou junto com ela.
– Como eu posso provar? – Ela indagou depois de alguns segundos.
– Me contando toda a verdade... – suspirou, desviando os olhos por um momento, para então voltar a olhá-la. – Mas mais tarde nós conversamos.
Sarah não disse mais nada, apenas encurtou o espaço entre suas bocas, beijando-a de um jeito calmo, porém possessivo. Tinha ciência que seu namoro estava por um fio, mas não havia muito que fazer no momento. E por mais que ela não quisesse corresponder, não antes de conversarem, em algum momento acabou cedendo, entregando-se nos braços dela. Só Deus sabia o quanto sentia falta daquele beijo, daquele corpo, daquela mulher. Sabia que estava dividida, mas isso não diminuía o amor que sentia por ela, muito pelo contrário, só fazia aumentá-lo. Mas precisava escolher, ou perderia tudo.
– Já chega vocês duas – Lia as separou, como sempre, levemente alterada pela bebida alcoólica. – Vocês ficam se beijando e não dão atenção para a gente.
– Depois que pariu, a Lia ficou mais carente ainda – Claudia implicou, caindo na gargalhada e sendo acompanhada pelos demais quando a japonesa mostrou o dedo do meio para ela. – Mas ela está feliz que vocês estejam se acertando.
– Só veremos isso mais tarde – a fotógrafa esclareceu, não contendo um suspiro cansado. Mesmo que seu corpo estivesse vibrando por ela, ainda não diminuía toda a sua frustração. – Agora, vamos beber mais – ao dizer, virou para a mesa ao lado e pegou seu copo de cerveja pela metade, tornando-o a enchê-lo.
E eles passaram o resto da madrugada curtindo, bebendo e dançando. Sambaram, dançaram pagode juntinhos, arriscaram novamente o forró, funk e praticamente fizeram um show com músicas antigas e inesquecíveis. Para Manu, talvez aquela fosse a última vez que passaria frequentemente momentos como aquele, junto com a galera que tanto amava. Dependendo do que Sarah lhe dissesse mais tarde, já tinha sua decisão tomada. Tudo dependia apenas dela.
Quando finalmente acabou, cada um foi para sua casa. As festas que davam, como sempre, eram em todo inesquecíveis. Mas tudo que era bom tinha seu fim. Adiando ao máximo que podiam a conversa, tanto Sarah, quanto Manu, se mantiveram em silêncio durante todo o percurso. A loira havia ido de carro com Victor, então aproveitou a carona com a jogadora de vôlei na volta. Ao chegarem em casa, alegou que primeiro tomaria um banho, para depois conversarem.
Então aproveitou esse momento para repensar todas as coisas, para rever tudo que havia acontecido, para tentar entender como seu namoro havia chegado àquele ponto sem que percebesse antes. Ao se vestir e voltar para a sala, notou que ela também tinha tomado banho e estava vestida com roupas mais leves e confortáveis. Engoliu em seco, receosa pelo que estava por vir.
– E então...? – Sentou-se ao lado dela no sofá de três lugares, porém mantendo uma distância segura. Não queria que o desejo interferisse em sua decisão final.
– O que quer que eu conte? – Por mais que dissesse em um tom alto e claro, Sarah olhava para o chão, como se continuasse se esquivando.
– A verdade. Por onde esteve todas as vezes em que sumiu e fugiu das minhas perguntas?
– Eu já disse. Precisei resolver alguns problemas de família – a ruiva suspirou. Odiava ter que mentir.
– Por que você sempre mente para mim? Por que simplesmente não pode dizer o que esteve fazendo? Ou ainda está, não sei. Só queria que você confiasse em mim, Sarah – Manu mordeu os lábios e controlou as lágrimas, que já começavam a subir aos olhos.
– Por que não pode simplesmente acreditar em mim? Pelo menos uma vez na vida.
– Por que eu sei que você está mentindo! – Ao exclamar, a loira levantou bruscamente do estofado e passou as mãos no rosto. – Eu não sou idiota, Sarah! – Involuntariamente, seu tom de voz ia aumentando aos poucos. – Você está me traindo? – As palavras escaparam antes que tivesse tempo de contê-las. Os olhos verdes se arregalaram no mesmo instante, incrédulos.
– Você tem certeza que está me perguntando isso?!
– E você quer que eu pergunte o quê, Sarah? Pelo amor de Deus. Você some por dias e aparece como se nada de anormal estivesse acontecendo. Há mais de um ano que você esconde coisas de mim. Mas que diabos eu fiz para isso acontecer? – Afastou-se automaticamente quando ela também levantou. – Eu pensei que você fosse diferente! Como não quer que eu pense que você está me traindo?
– Por que eu não estou! – Sarah praticamente gritou. – Eu amo você, sua idiota! Consegue entender isso?
– Não consigo, infelizmente. Por que você simplesmente não demonstra mais, não como antigamente. Você age automaticamente em todas as suas ações, preocupada com alguma coisa que precisa fazer escondida de mim. Como posso saber que não está com outra pessoa?
– Eu nunca iria querer outra pessoa que não fosse você – os olhos verdes ficaram marejados, porém Manu não se deixou abater.
– Então me conte o que diabos está acontecendo! É o Júnior? É alguma coisa que vá me colocar em perigo de novo? Por que eu não aceito que você me exclua da sua vida mais uma vez, Sarah... eu não aceito, está entendendo?
– Eu já contei tudo que precisava – ela se manteve firme em suas palavras. O queixo de Manuela caiu, juntamente com um par de lágrimas.
– Você tem certeza? – Manu indagou, não querendo ouvir a resposta.
– Tenho. É a minha decisão.
Ao ouvi-la, a fotógrafa levou a mão ao dedo anelar e retirou a aliança. Trincou os dentes, controlando um mar de lágrimas que estava prestes a romper em uma enxurrada de sentimentos. Seu coração estava apertado e os batimentos os fazia doer. Sem uma única palavra, pegou a mão de Sarah e colocou o objeto sobre a palma, enquanto ela a olhava pasma.
– E essa é a minha: Estamos terminando – disse com dificuldade, controlando-se o máximo para não desabar. – Às vezes, até o mais forte dos sóis se apaga.
– Você está falando sério?!
– Nunca falei tão sério em toda a minha vida. Vou voltar para a minha terra o mais rápido que eu puder. Espero que você seja feliz, seja lá com quem você está além de mim.
– Já que é assim... – Sarah suspirou longamente, sentindo suas próprias lágrimas embaçando-lhe os olhos. Mas tinha feito sua decisão. – Eu vou levá-la de volta, afinal, fui eu que a trouxe para cá.
– Não precisa...
– Eu faço questão – sorriu de lado, sem vontade alguma, e colocou o anel sobre o vidro da mesinha de centro. Em seguida, aproximou-se, beijou-lhe a testa e foi embora para sua casa.
Sarah era fã em perceber as coisas quando já era tarde demais. Às vezes, certos sacrifícios precisavam ser feitos.
Continua...
Fale com o autor