Fotografia
1 Fotografia
Vejo-me dentro de algum tempo – e não faço a mínima idéia de como precisá-lo, sei que serei apenas criança na hora – rodando em torno de mim mesma num lugar em que quiser estar, do outro lado do oceano, esse pólo oposto que atrai o meu norte e o meu sul. Londres, tenho dito a mim mesma, aquela cidade cinzenta e depressiva, encantadora ao meu ver, misteriosa, elegante. Quero porque quero, mas me pego olhando para o mapa europeu em plena aula sonhando em morar naquele paisinho perto da Alemanha: Liechtenstein, até decorei o nome. Imagino lá aquela cena do filme romântico que vi num dia qualquer, com a mureta de pedra e flores, a estrada de chão e a grama verde. Não faço a mínima idéia de onde fica, mas pra mim fica no pontinho cor-de-rosa no mapa. Talvez eu tenha olhado praquilo e me encantado – diante o desconhecido, veja que burrice – porque é um cantinho esquecido, termo que tem me perseguido desde que sonhei com “onde morar”. Sou de cidade pequena e sou pequena, embora proporções não sejam o meu forte. Não quero ir pra nenhuma selva de pedra, elas me engoliriam e eu perderia a mim mesma. Se é por um bom café, faço em casa. O importante é não ser só mais um.
Não estarei sozinha, de jeito e maneira: não estou falando de gente, estou falando de gatos, é o primeiro plano. Casa, dinheiro e um pacote de ração na cozinha: um gato como companhia para aquecer meus pés no inverno, me acalmar e confortar. Bichanos insensíveis os gatos, eu sei, somem a hora que querem e nem sempre estão lá quando se precisa: e talvez por isso eu tenha quase me tornado um deles. Gosto de sumir, gosto de ficar sem “aparecer” na internet por dias a fio, só para ver os contatos se desesperarem. Pois bem, eu estava aqui o tempo todo, deitada num canto, lendo. Quero presença, quero pele, corpo e alma, quero brilho nos olhos na conversa mais coloquial possível, quero corações batendo, quero gente de verdade, quero ver a face real das pessoas, não bonequinhos amarelos – tão pequenininhos e máscaras tão perfeitas. Maldita era digital, facilita a vida mas acaba com o coração.
Europa, confere. Gato, confere. Primeiras necessidades garantidas, arrasto a primeira pessoa que me der como amiga e dividir o sonho; se não der certo, me viro por lá mesmo. Afinal de contas, uma mudança de ares não faz mal a ninguém. E o sotaque britânico me derrete desde a primeira vez que ouvi e vai derreter até a última.
Sotaque britânico, olhos claros, pele clara, também tenho certa tara por cabelos ruivos. Sei que eu pareço – e sempre vou parecer – estar me referindo à uma pessoa ou outra, mas a culpa não é minha se me apareceu um ruivo de olhos azuis pra me tomar os assuntos nas conversas. Mas não, eu não to falando nele, nem no Lucas, nem em ninguém. Tenho tara por olho claro e cabelo ruivo mesmo, se eu fosse macho pegaria a Bonnie Wright, tão perfeita.
E isso sem contar que tenho me encontrado apaixonada por uma pessoa que vi duas vezes na vida, ainda por cima de longe – mais burrice ainda, eu sou ridícula. Mas é verdade, vi o tal garoto duas vezes na mesma rua, na mesma hora, fiquei boquiaberta nas duas vezes. É mais uma paixão platônica pra coleção, to quase completando o álbum. Sério, tem vezes que quero me bater por ser assim, mas é divertido.
Casa, companhia, par perfeito, só me falta um tópico: amigos. Quero gente como eu. Já tive grandes amizades florescendo da distância de gostos, mas depois de conhecer melhor minha gêmea descobri que alguém que possa discutir um livro comigo me faz um bem que nem sei. Alguém que goste de palavras, assim como ela – e a menina que roubava livros — eu não sei dizer quando que livros e palavras começaram a significar tudo, mas reconheço o fato atual. Me alimento de palavras, a maior magia à qual já fui apresentada. Então quero quem que entenda isso, toda essa simples complexidade que me cerca, quem passar por isso chega direto no meu interior. Música,é o que reside ali, músicas que não tem explicação, são apenas músicas, quer coisa melhor? Também quero a distração, o riso, as bobagens, as malícias de hora certa: estar no coral sem as pessoas maliciarem cada vírgula me mostrou um tipo de gente que eu não conhecia e que me agradou. Sarcasmo, drama, gente que entenda as minhas piadas e complemente minhas encenações de filmes, quero sincronias perfeitas, aquele tipo de coisa que a gente sabe que é mais do que a troca de olhares marotos. Quero me conectar, quero ter gente que me entenda. E, se não for pedir demais, que ao menos um deles esteja lá quando eu precisar, porque deve ser uma sensação ótima.
Espero ainda mais de mim: espero acabar com as vozes da minha cabeça, que estão comigo desde que me lembro por gente e que tem me preocupado e me enchido o saco, grosseiramente falando. Refiro-me às várias vozes que falam juntas aqui dentro, tão rápidas que uma delas até tonteia: a verdade é que nunca sei que é realmente eu que está falando. É tão estranho, prefiro acreditar que todas elas sou eu. Aquela que está imaginando uma cena, aquela que cochicha no meu ouvido “você está imaginando uma cena”, a que diz que aquilo nunca vai acontecer, a que manda essa aí calar a boca, a que está contando – porque sempre tem uma contando, seja algo importante ou não – e aquela que atrapalha a contadora, porque não pára de cantar. Juro que é verdade, minha cabeça é um rádio, toca música ali dentro, eu querendo ou não. Tem vezes que eu acordo e não consigo mais ouvir a música, mas aí uma das Lellas volta a cantar, e a outra pobre coitada perde a conta, mais uma vez, e eu me engalfinho comigo mesma e tento sacudir essa coisa-seguradora-de-cabelos-separador-de-orelhas, que está mais para confusão do que cabeça. Não sei se isso é normal ou se eu sou louca, e às vezes acho que a loucura é a melhor saída.
Mas também tem o hoje, e ele me dá um tapa na cara todo dia, como que pra mim me ligar de que ele já chegou faz tempo. Eu nunca alcancei meus objetivos ou terminei uma lista de coisas pra fazer, estou falando de dias e de anos. Não sei bem o que esperava dos meus 14 anos, mas sei que era tudo menos isso. Influência alheia mexe um pouco com as coisas, eu sei, e isso me deixa pior ainda, sou anormal, é o que me passa pela cabeça, se quer saber. Estão todos à frente. Estão todas à frente. E então eu estou à frente – maldita maturidade – me dizendo “tudo bem, não é errado.” Uma criança e uma velha, não me canso de repetir, e ninguém vai me convencer do contrário. Talvez lá no fundinho eu queira mesmo ser mais uma, a Maria-vai-com-as-outras da vida, mas me encontro tão profunda que perderia o ar antes de chegar ao fundo e poder ver quem eu realmente sou. Não consigo segurar a respiração por muito tempo, a realidade vem e me puxa pra superfície, é chato. Respiro e assim continuo todo dia e toda noite, me atrevendo a devanear e a viajar entre linhas e mais linhas, mas continuo penteando o mesmo cabelo toda manhã e colocando o pijama toda noite. E o tempo passar por entre os meus dedos, me chateando, mostrando que cheguei até aqui sem nada no bolso, perdi as oportunidades pelo caminho e do jeito que estou vou perder mais umas poucas e boas. Talvez muitas.
E é por isso tudo que o acaso me surpreende, como no acidente: naquele dia, eu esperava fazer qualquer coisa à noite, menos acordar na casa da minha avó, suada, gritando por causa de um pesadelo com sangue, da minha mãe. Eu sei e muito bem que tudo pode mudar num segundo, e às vezes até acho inútil fazer planos: outra parte de mim acharia até deprimente realizá-los, assim, sem a emoção do “e agora?” nem nada. Mas tem a outra parte, e outra parte, e mais uma, e eu sou várias em uma só. E tem a tal Elietizinha dentro de mim fazendo calendários e me tornando ranzinza, tenho um pavor da possibilidade de virar a minha mãe, mas também não faço nada pra matar essa cópia que veio de brinde dentro de mim. Eu ainda vou acabar me surpreendendo comigo mesma, seja por conseguir terminar a lista de coisas do dia, seja por abrir os olhos e ver que andar sem rumo me levou à uma armadilha. Seja como for, que seja doce.
Angela Letícia Oliveira Biesuz
Fale com o autor