Força e Vida - Tomione

59 Capítulo 59 - Jantando com o inimigo


Notas iniciais
Tardei, mas não falhei.

Em um primeiro momento, tudo que eu consegui ver foi a beleza do salão. Como tudo naquela casa, o salão era bonito, decorado com sofisticação, mas o que havia me chamado a atenção foi a sutil claridade do lugar que dava destaque a noite que vinha das inúmeras, e enormes, janelas. Mas assim que comecei a reparar na decoração, não me passou despercebidas as mesas, belas e inúmeras, e logo me veio o número de mesas e pessoas que estavam ali dentro.

Eu não conseguia prestar atenção suficiente em cada rosto para poder reconhecê-los, mas muitos ali já haviam passado pela minha mente. Gente do ministério, pais de alunos que eu havia visto na estação, e principalmente, e mais assustadoramente, inúmeros comensais sobre os quais eu havia pesquisado.

A cada passo que eu dava parecia mais que eu estava andando em direção a uma armadilha. E essa sensação se intensificou ainda mais, quando as portas foram fechadas atrás de nós. Havia sacadas ali, com portas de vidro abertas, mas ainda assim, parecia que a qualquer momento eu seria puxada por algum daqueles comensais e levada para a masmorra.

A cada passo que eu dava, meu corpo parecia ficar ainda mais rígido com o meu nervosismo. Discretamente eu olhava para todos os lados, tentando ver o quanto um ataque poderia ser possível e quais seriam minhas chances de sair dali caso isso acontecesse.

Já estava agradecendo pela bolsa enfeitiçada no meu colar quando Draco soltou a minha mão do seu braço e puxou uma cadeira em uma mesa no fundo do salão. A cadeira que ele havia escolhido para mim era de frente para todos e de costas para os encontros das janelas, mas eu não poderia reclamar do lugar, já que até ele soltar a minha mão eu nem havia notado que já havíamos andado tanto.

Lúcio estava falando algo em um palco que havia na metade do salão, também ao fundo. Felizmente aquela mesa podia ser vista por todos, mas não ficava muito perto do palco, porque pelo espaço vazio no centro, provavelmente haveria música mais tarde, e eu não estava animada.

O discurso do meu pai me passou despercebido, assim como os risos e conversas de todas as mesas ao nosso redor. Muitas pessoas volta e meia olhavam para a nossa mesa e para mim, afinal de contas, eu era a pessoa nova e estava sentada na mesma mesa que o lorde das trevas.

A única coisa em que eu estava prestando atenção era no braço do Draco ao redor da minha cadeira. Ele parecia relaxado e tranquilo, mas eu sabia que aquele gesto era para me dar conforto, e me lembrar de que eu não estava sozinha nessa.

Teria continuado não prestando atenção em nada, porém voltei um pouco à superfície quando Tom se juntou ao Lúcio no palco. Olhar para ele, mesmo que de longe, era dolorido. O moreno estava ainda mais bonito do que sempre foi, e parecia ainda mais belo com o traje formal.

— Esta manhã comecei a colocar em prática alguns planos para a minha primeira aparição oficial. – O salão se encontrava em um silêncio profundo, com todos olhando para o seu lorde. – Nossas conquistas não serão fáceis, mas logo poderemos começar a agir mais rapidamente em prol de uma causa que todos aqui bem conhecem. Essa noite convido a todos a se juntarem a mim neste jantar, para comemorarmos uma nova fase que se iniciará. – Todos se levantarão aplaudindo como se aquilo que ele havia falado realmente era algo bom e animador.

Quando Lúcio veio para a mesa acompanhado da Narcisa, comecei a pensar ainda mais como a ideia de ter vindo para o jantar era ridícula, mas a ideia só começou a parecer assustadora de verdade, quando vi Tom se aproximar lentamente da mesa e percebi que os únicos lugares que haviam sobrado eram duas cadeiras, uma do lado da outra, do meu lado.

Além de eu estar em um salão cheio de comensais da morte sem a minha mãe, eu teria que suportar ficar em uma mesa com o lorde das trevas próximo a mim.

Procurei não olhar para ele enquanto ele se aproximava lentamente. Tentei manter a minha atenção no prato e na taça que haviam se enchidos sozinhos, mas tudo em que a minha mente conseguia pensar era que ele poderia escolher sentar na cadeira ao meu lado, ou na outra, o que não diminuiria meu sofrimento, já que uma cadeira vazia no meio, não era lá grande distância.

Também tentei ao máximo controlar o meu coração que batia cada vez mais desgovernado, porém suspirei desistindo, quando Tom chegou à mesa. Já que eu estava começando a ficar com medo de ter um ataque cardíaco ali, se não achasse um jeito de me acalmar.

Quase suspirei novamente, dessa vez de alívio, quando Tom escolheu a cadeira vazia ao lado do Lúcio. Era apenas uma cadeira de distância, mas isso contra a opção de cadeira nenhuma, eu precisava ver o lado bom.

Devagar fui começando a relaxar. Mesmo que a minha mãe não estava ali, a comida estava boa, Draco conversava comigo sobre qualquer coisa o tempo todo, e o lorde não havia olhado ou tentado falar comigo em nenhum momento, se mantendo em uma conversa com Lúcio ou em completo silêncio.

Mesmo quando Lúcio chamou Draco para passar em algumas mesas, eu já não me sentia mais tão assustada. Até mesmo comecei a me distrair com as músicas tocadas em um piano, já que algumas delas eram trouxas, o que eu achei consideravelmente estranho.

— Tinha sérias dúvidas se você apareceria para esse jantar. – Olhei rapidamente para o dono daquela voz. Agora estávamos sozinhos na mesa, já que Narcisa também havia ido conversar com outras pessoas.

Tom não estava olhando para mim, como eu anteriormente mantinha um olhar longe, em nenhuma pessoa ou mesa especifica. Ele fazia de tudo para fazer parecer um comentário banal, mas eu conhecia sua voz e suas expressões bem demais para saber que não havia nada de banal naquela conversa.

— Por quê? – Perguntei simplesmente, quando vi que ele não iria falar mais nada. Como ele, escolhi olhar para o nada, mas em uma direção oposta.

— Porque a senhorita não havia saído do quarto para nada, até agora. – Tom olhou para mim com um pequeno sorriso de lado, com sua cabeça apoiada em uma das mãos.

Com apenas um rápido olhar e um leve sorriso, meu coração já decidiu que era hora de parar de bater. Eu nem lembrava o que tinha que fazer para falar, quem dirá conseguia manter um pensamento coerente para responder a ele, então antes de mais nada abanei discretamente a minha cabeça, voltando a olhar para o nada, e limpei a minha garganta.

— Eu não estava me sentindo muito bem. – Não tinha nada a ver com o ataque, mas ele não precisava saber que eu passei a noite chorando por causa dele. – E também confesso que não estava muito animada para vir essa noite, não sou fã de tanta atenção. – Completei olhando para algumas pessoas que me encaravam de diferentes mesas.

Durante algum tempo Tom apenas me encarou, eu não estava olhando diretamente para ele, mas acabei olhando depois de perceber a intensidade do seu olhar. O moreno parecia ainda mais jovem quando tinha aquela postura relaxada, e vê-lo com aquele olhar intenso, a mão no queixo e a expressão levemente concentrada, me lembrava ainda mais do rapaz que eu tinha deixado para trás.

Eu teria começado a chorar ali, ou deixado os meus sentimentos explícitos de alguma outra forma, se naquele momento Lúcio não tivesse subido ao palco e chamado a atenção de todos para liberar a pista de dança.

— Com licença. – Saí rapidamente para uma das portas da varanda. Antes que o Tom voltasse a olhar para mim eu já estava do lado de fora, respirando fundo, forte, com os olhos fechados e a cabeça abaixada enquanto me apoiava no elegante corrimão de pedra que havia ali.

Eram em momentos como esse que eu acreditava que não deveria ter vindo embora, já que se eu tivesse ficado, eu não teria sofrido tudo que sofri desde que voltei, e não sofreria ainda mais vendo ele ali. Tom não era mais o meu Tom, mas era nesses pequenos momentos que eu via que ele também não era apenas Voldemort.

Quando eu o conheci ele era muito mais um garoto bonito do que o futuro lorde das trevas, mas eu achava que quando o encontrasse no presente, o acharia apenas Voldemort, com uma aparência horrível, um ódio mortal e sem fim, e não um rosto bonito e um homem que tinha momentos normais.

Talvez ele nunca seria totalmente Voldemort, talvez fosse impossível que o Tom morresse deixando apenas o monstro. Era em momentos assim que eu sentia vontade de voltar nem que fosse para ver como ele havia ficado sem mim, se ele havia sofrido da mesma forma. Era egoísta eu querer que ele tivesse sofrido e sentido a minha falta, mas eu não conseguia parar de desejar isso.

Mas essa era a primeira vez que eu queria que ele soubesse que era eu ali, talvez apenas para ver como ele reagiria depois de tantos anos. Para ver se ele realmente sentia saudades como os meus sonhos falavam, e se ele ainda me amava, mesmo que para ele o tempo tivesse passado de forma lenta.

— Eu me pergunto se alguém lá dentro percebeu quem você realmente é. – Virei-me rapidamente ao perceber que não estava sozinha.

Mas o problema é que eu não estava apenas com companhia. Olhando para trás, soube que provavelmente eu já estava correndo um grande perigo.

Notas finais
Quem estará lá?