Forward
1 Settle down with me.
Notas iniciais
I’ve been feeling everything
From hate to lust
From lust to trust
From trust to love
I guess that’s just how I know you
Kiyoshi tomou o último gole de chocolate quente em seu copo. A cafeteria estava vazia, e já estava anoitecendo, anunciando o início da sexta-feira a noite. O trânsito do lado de fora já começava a se complicar, as pessoas andando rapidamente e buzinando para alguns carros no intuito de chegarem aos seus destinos o mais rápido possível.
Em sua frente, Hanamiya brincava com o canudo de seu copo misturando o resto de chantilly com o que sobrara do seu chocolate. Ele tinha um ar leve, mas quiçá preocupado, relutante, evitando contato. Kiyoshi sabia que o garoto não era de falar muito, apenas quando resolviam falar com ele. Foi assim desde que entrou para a escola – ninguém perguntava sobre ele, sobre sua família, o que ele gostava de fazer ou o que fazia quando não estudava, e Hanamiya aprendeu a não colocar o nariz onde não havia sido chamado. Isso não mudou muito quando foi pro ensino médio – ele continuava sozinho, mesmo entrando para o time de basquete, tendo apenas um grupo de conhecidos com quem ele trocava algumas poucas palavras: o próprio time de basquete da Kirisaki Daichi, sua escola. Fora isso, o "pouco "que ele fazia era dar as típicas alfinetadas ao time adversário... E às vezes levar as coisas a sério demais, nunca desaforo pra casa. Mas, fora dos ginásios, Hanamiya Makoto era bastante discreto. Era possível dizer que ele era até mesmo tranquilo sem uma bola laranja em mãos e o uniforme do time vestido em seu corpo.
E Kiyoshi não se importava muito com isso. Ele gostava do silêncio, gostava do quão confortável poderia estar assistindo televisão enquanto Hanamiya lia um livro ao seu lado, ou deitado com a cabeça em seu colo ou em seu ombro. Gostava quando o garoto passava uma noite com ele e o ajudava até mesmo a cuidar de seus avós – por incrível que pareça, o rapaz tinha um respeito enorme por pessoas mais velhas. Quando perguntado sobre como ele estava, Hanamiya apenas murmurava um “tudo bem” e logo sugeria alguma coisa. “Comprei um jogo novo, queria estrear no seu Xbox”, “viu o episódio daquela série?”, “o Celtics perdeu a última liga de basquete” e outras frases parecidas, mas que tinham o mesmo fim – mudar de assunto.
“Você vai fazer alguma coisa nesse fim de semana?”
Kiyoshi arqueou as sobrancelhas quando ouviu aquela pergunta, cortando a sua atenção da janela para o mesmo Hanamiya entretido no canudo em seu copo – o garoto tinha a cabeça apoiada na mão e o cotovelo na mesa. Ele fungou levemente e então olhou para Kiyoshi, aguardando a resposta.
“Vou fazer o mesmo que você,” respondeu o mais alto, soltando uma risada nasalada.
Hanamiya sorriu, sem graça, e então tomou o resto do seu chocolate.
“Você não sabe o que eu vou fazer.”
Kiyoshi tocou a mão do garoto por cima da mesa e então abriu um sorriso gentil – ele queria ter acabado com o silêncio na mesa há tempos, mas não queria forçar nada. Por sorte, o outro sentiu a necessidade de falar.
“Onde você for, eu vou,” respondeu Kiyoshi, sentindo o próprio rosto corar levemente. “É o que eu vou fazer esse fim de semana.”
“Idiota,” Hanamiya soltou uma risada baixa, não esperando por aquele tipo de resposta, pegando-o de surpresa. “Bom,” ele continuou, voltando a olhar Kiyoshi nos olhos, “eu estive pensando em uma viagem rápida. Ir pra um lugar diferente.”
“Algo em mente?” questionou Kiyoshi, entrelaçando seus dedos com o de Hanamiya. “Nada muito longe, sim?”
“Akishima,” disse Hanamiya, fazendo que sim com a cabeça. “Uma hora e meia daqui de Tóquio, indo de carro. Sem contar com trânsito e tudo mais.”
“Parece legal,” Kiyoshi deu de ombros. “Mas temos algum motivo especial pra ir? Esqueci algum aniversário? Eu te trouxe pra tomar chocolate.”
“Não...” Hanamiya uniu as sobrancelhas. “É só... Tch, só queria fazer algo diferente. Não que seja chato, é só...”
“Calma,” Kiyoshi riu. “Eu estou brincando.”
Hanamiya respirou fundo.
“Saímos daqui às dez da manhã. Hm?” ele sugeriu. “Sem problema com hospedagem. Eu já organizei tudo.”
“Então eu teria que aceitar mesmo que não quisesse, huh? Muito esperto você, Hanamiya.”
“Unf, idiota,” o garoto murmurou. “Eu iria sozinho, se você não quisesse. Ou ia cancelar, sei lá. Eu passo na sua casa e nós vamos.”
“Sua mãe deixou você usar o carro dela?” Kiyoshi e ele se levantaram, começando a caminhar para fora da cafeteria lentamente, até a estação de metrô.
“Acredite ou não,” Hanamiya abriu um sorriso convencido, “ela me deu o meu próprio carro hoje. Disse que sou responsável o suficiente pra isso.”
“Oh,” Kiyoshi riu. “Eu não teria feito isso, se fosse ela. Não duvido que você leve algumas multas ou atropele, sei lá, um gato.”
“Então você vai dirigir amanhã,” o garoto rolou os olhos e jogou a franja para o lado. “Sem reclamações. Você só vai.”
“Já que vamos de manhã, eu aceito, porque sei que você não é uma pessoa de bom humor, principalmente nesse horário.”
“Ótimo.”
Após alguns minutos, eles finalmente entraram em um vagão do metrô, esperando suas respectivas estações para que se separassem e irem cada um à suas casas. Se despediram com um abraço rápido e Hanamiya saltou primeiro.
xxx
Como esperado, às dez da manhã, Hanamiya bateu na porta de Kiyoshi.
“Pontual,” o dono da casa riu, observando o visor do celular. Não demorou muito para que o mais alto abrisse os braços e acolhesse Hanamiya bem apertado, beijando-o no rosto algumas vezes.
Kiyoshi gostava de Hanamiya pela manhã, mesmo que ele fosse um mal humorado – ele tinha cheiro de cama, o rosto levemente inchado, o olhar sonolento e o cabelo bagunçado. Kiyoshi poderia ficar mil anos citando cada detalhe do que ele gostava.
Hanamiya deu um sorriso de canto e então passou a mão no cabelo, dando a chave do carro na mão de Kiyoshi, antes de cumprimentar os avós do garoto e pedir desculpas por tirar o neto deles de casa durante o fim de semana, mas sorrindo e prometendo que ele voltaria sem um arranhão sequer.
Kiyoshi não sabia muito bem se aquilo era verdade ou se Hanamiya via a viagem como uma forma de sair um pouco da rotina. Independente disso, o rapaz sorriu, também despedindo-se dos avós, que lhes desejaram boa viagem e que praticassem qualquer coisa em segurança.
“Você não vai dormir durante o caminho,” Kiyoshi passou uma alça da mochila pelas costas até aproximar-se do veículo preto – e novíssimo – na frente de sua casa. “Quando você disse que sua mãe te deu um carro,” Kiyoshi arregalou os olhos, “eu não imaginava um...”
Audi.
Justo.
“Relaxa,” Hanamiya abriu a porta do outro lado e sentou-se no veículo, ao lado do motorista – no caso, Kiyoshi. “Relaxa duas vezes, na verdade. Primeiro, eu não vou dormir, e eu sei exatamente pra onde vamos. Segundo, esse carro não é nenhum bicho de sete cabeças.”
“Eu nunca dirigi algo assim.”
“Nem eu.” Hanamiya deu de ombros. “Só nesse caminho entre a minha casa e a sua, que é, tipo, meia hora? Pois é. As pessoas ficam olhando, é muito engraçado.”
Kiyoshi não respondeu nada, porque ele não sabia como responder. Aquilo era meio surreal demais.
O rapaz ligou o carro e observou o namorado colocar um álbum para tocar – cheio de músicas calmas, talvez para surtir algum efeito no espírito do ambiente, dentro dos dois.
E deu certo. Logo eles estavam cantarolando juntos as letras de Ed Sheeran, e às vezes rindo pela dificuldade para pronunciar algumas palavras.
“Definitivamente, eu sei escolher música,” Kiyoshi batia os dedões no volante quando parou em um sinal vermelho. “Acho que Kiss Me é a minha favorita.”
“Você sempre diz isso,” Hanamiya balançava a cabeça no ritmo da música, agora tendo as bochechas minimamente vermelhas. Ele sabia exatamente por que Kiyoshi gostava tanto daquela música. Era uma memória impossível de esquecer.
Foi a música que eles ouviram quando se beijaram pela primeira vez (que finalidade óbvia...). E a música que eles ouviam sempre que eles decidiam ficar deitados na cama, abraçados, vendo a chuva cair impiedosamente do lado de fora.
Não tinha como esquecer algo assim.
Eram as vezes que Hanamiya se sentia vulnerável e não conseguia ver problema nisso. Ele beijava Kiyoshi como quem queria ser amado. E o que ele sentia era que estava se apaixonando cada vez mais.
“Eu gosto de You Need Me, I Don’t Need You,” o garoto deu de ombros, tentando ignorar os flashbacks que viam em sua mente. Sua favorita também era Kiss Me, mas ele nunca admitiria. “Você é um idiota. Hardcore é tão mais legal.”
“Você também gosta, não minta,” Kiyoshi riu ao dar a marcha para continuar o caminho até Akishima, que já estava bem próximo.
“Eu não minto!” Hanamiya, obviamente, mentiu. “Só é meio difícil não acabar se acostumando quando você só escuta essas músicas românticas.”
“Você acaba gostando,” Kiyoshi sorriu. “Essas músicas são boas para rever a vida, Hanamiya. Tranquiliza, faz imaginar que você aproveitou tudo da forma certa.”
“Você fala como se tivéssemos cinquenta anos. Fez dezenove semana passada, idiota.”
“O que eu quero dizer é que eu estou satisfeito com o que temos até agora. Você não está, hm? Foi difícil te convencer a sair comigo.”
“Eu gosto de me fazer de difícil.” Hanamiya colocou uma mão sobre o peito e fez uma careta. “Eu sou independente e não preciso de homem pra viver.”
“Mas está comigo.”
“Eu disse que não preciso, não que não quero viver com um.”
Kiyoshi começou a rir e Hanamiya o acompanhou, e voltaram a cantar mais músicas do ruivo inglês até avistarem a placa que anunciavam que haviam chegado na outra cidade, destino deles.
“Ei,” Hanamiya murmurou, apontando para uma avenida. “Vire ali.”
Kiyoshi fez o que foi pedido e continuou a seguir as instruções do rapaz, até que parecia que não tinha mais lugar nenhum para ir, e parecia terem adentrado uma rodovia, quase saindo da cidade novamente.
Sem fazer muitas perguntas, Hanamiya olhou para a sua janela, como se procurasse o endereço do lugar que ele tivesse reservado. Era um lugar calmo, cheio de casinhas coloridas e grandes, bem arborizado e um céu bem bonito acima deles.
Hanamiya pegou o celular e então digitou rapidamente alguma coisa que Kiyoshi não conseguiu ver, então viu o garoto sorrir.
“Chegamos,” ele apontou para um lugar um pouco mais longe, mas visível. Parecia ser um conjunto de chalés. Kiyoshi os levou até lá em poucos minutos.
“É um lugar lindo,” disse Kiyoshi, saindo do carro e colocando as mochilas nas costas. “Soube escolher bem.”
“É, é...” Hanamiya murmurou, procurando a mão de Kiyoshi para pegá-la. “Parece relaxante, não?”
“Mhm,” Kiyoshi concordou, beijando o garoto rapidamente. “Vamos ter um bom fim de semana.”
“É o que eu espero.”
xxx
O lugar era realmente bonito, Kiyoshi não conseguia parar de pensar aquilo. E, como esperado para alguém feito Hanamiya, frequentado apenas por pessoas da alta sociedade. Houve tempos onde o garoto mais alto sentia-se um pouco intimidado por viver ao redor daquele tipo de gente, mas logo se acostumou, colocando em mente que ele estava com Hanamiya, e não com todas aquelas pessoas que pareciam estranhas aos seus olhos. E por mais que viesse de família muito rica, o garoto não se importava – não tanto – de aproveitar as coisas simples da vida, que Kiyoshi mais gostava – as caminhadas pela praia, passar o dia assistindo filmes, dividir um sorvete.
Quando passaram pelo check-in, Hanamiya apenas conversou por dois minutos com um dos gerentes, que logo os entregou uma chave e desejou uma boa estadia. Kiyoshi não entendia como aquilo era possível – havia levado uma centena de documentos importantes... para nada. Ele deveria esperar que Hanamiya fizesse algo daquele tipo, “burlando” um sistema para que fosse rapidamente para um dos quartos.
“Então... Satisfatório?” perguntou ele, colocando a mochila em cima da cama de casal do quarto de um dos chalés. “Espero que não tenha achado o lugar pitoresco.”
“Pitoresco...” Kiyoshi pensava na escolha daquela palavra. “Não, nada disso,” sorriu, gentil como sempre. “É um lugar lindo. Acho que já falei isso umas quatro vezes desde que saímos do carro.”
“Eu gosto daqui,” Hanamiya levantou-se um pouco e beijou Kiyoshi. “Imaginei que você fosse gostar também. É bem caseiro.”
“Eu disse que você sabia escolher lugares.”
“Legal,” Hanamiya deu um sorriso sem graça, buscando a chave do quarto e então pegando a mão de Kiyoshi mais uma vez, retirando-se do ambiente. “Está com fome? Eu estive pensando em...”
“Hanamiya...” Kiyoshi franziu o cenho e puxou a mão do garoto para que ele o olhasse. Kiyoshi Teppei soava mais sério. “Por que está fazendo isso tudo?”
Hanamiya uniu as sobrancelhas, não entendendo a natureza daquela pergunta.
“Você está sendo ridiculamente agradável,” Kiyoshi relaxou a expressão. “Isso é... Meio estranho pra mim. Sei que você consegue ser incrível algumas vezes, mas...”
“Não posso ser assim com frequência?”
“Pode!” Kiyoshi levantou a voz, e então pigarreou. “Digo, claro. Eu não estou reclamando, é só...”
“Então me deixe ser,” Hanamiya continuou de sobrancelhas unidas, e então umedeceu a boca. “Pelo menos estou tentando.”
Kiyoshi levou aquilo como um motivo para ele se calar e somente aproveitar – o que era o melhor a fazer, sinceramente. Imaginou ser estúpido da sua parte pensar que Hanamiya estava sendo diferente por algum outro motivo – forçado, se pudesse falar – e não livre e espontânea vontade.
Respirou fundo e abriu o seu maior sorriso, observando Hanamiya dar mais um sorriso de canto e então eles saíram do quarto, prontos para explorar o local onde estavam hospedados.
xxx
O fim de tarde era calmo em Akishima. Hanamiya e Kiyoshi caminharam até um campo – um campo, próximo do conjunto de chalés onde estavam hospedados. O sol estava bem baixo, o céu desenhado em roxo, rosa e laranja, o pôr do sol dando o toque amarelado que ambos gostavam. O vento era delicado, e Kiyoshi queria sorrir como um bobo quando viu o cabelo de Hanamiya sendo colocado para trás.
“O fim de semana está fantástico,” Kiyoshi sentou-se no gramado e Hanamiya fez o mesmo ao seu lado. “Entendi porque você gosta daqui.”
“Mesmo?” Hanamiya deu uma risadinha, e então respirou fundo. “Então vamos voltar mais vezes. O que você acha?”
“Eu amo você,” respondeu Kiyoshi, em um murmúrio, mais sério. Hanamiya abriu um pouco mais os olhos, não esperando exatamente aquela resposta. “Eu acho... acho que amo.”
“Não é legal falar ‘acho’ em uma situação dessas,” o rapaz abriu um sorriso tímido, colocando um braço no ombro do outro.
E então ficaram em silêncio. Eles estavam em um campo rodeado de flores de todas as cores, de todos os tipos. Hanamiya passava o dedo entre uma delas, sentindo a textura, como se analisasse como aquilo poderia ser uma flor. Kiyoshi sempre quis saber o que acontecia dentro da cabeça dele – por ser muito inteligente, ele era infantil o suficiente para imaginar que Hanamiya fosse como um computador, vendo números onde quer que parasse os olhos.
Às vezes, ele nem acreditava que Hanamiya fosse humano.
Ou que estivesse ali, ao lado dele.
Pacífico, daquela forma.
“Me desculpe,” disse o garoto mais baixo, quase sussurrando – talvez envergonhado por estar falando algo daquele tipo. “Eu não deveria ter trazido nada dessa forma. Mas não sou bom com isso.”
Kiyoshi não respondeu, apenas observou Hanamiya ainda observar as flores em suas mãos.
“Ele é um cara legal,” Hanamiya continuou. “Nós conversamos bastante... Ele é muito legal mesmo, Teppei. Ele cita Voltaire e gosta de Hobbes. Tem mais livros que eu, pra você ter noção,” e então riu. “Não sei como vamos administrar espaço na biblioteca da minha casa, mas...”
“O que...” Kiyoshi levantou uma sobrancelha. “O que você quer dizer?”
Hanamiya suspirou. Kiyoshi não sabia se aquilo era tristeza, preocupação ou ansiedade.
“Minha mãe vai se casar.”
Hanamiya abriu um sorriso fraco e olhou para Kiyoshi.
“Desde que eu nasci, eu nunca tive um pai,” o garoto continuou. “Vivi por quase vinte anos assim e... Acho que isso tem mudado de uns tempos pra cá. Minha mãe conheceu esse cara e...”
“Isso é bem legal,” Kiyoshi sorriu, observando as flores com Hanamiya. “Ele é legal com você, então. É uma figura masculina dentro da sua casa... Você não precisa se preocupar mais com a sua mãe. Pelo menos não tanto.”
“Pois é,” Hanamiya olhou para cima, como se a qualquer momento fosse quebrar e acabar chorando. Então sorriu. “Aomine Natsu.”
Kiyoshi arregalou os olhos.
“Isso mesmo,” Hanamiya riu. “Minha mãe vai se casar com o pai de Daiki.”
“Não sei dizer se é uma coincidência enorme ou...”
“Eu vou virar meio-irmão daquele garoto, imagina só,” Hanamiya deu de ombros e franziu o cenho. “Foi esquisito na primeira vez que nos encontramos com os nossos pais. Foi esquisito durante esses dois anos. Foi esquisito no jantar de noivado e...”
“E quando eles vão se casar?” perguntou Kiyoshi, curioso. “Em breve você vai ser da família dos azuis. Isso vai ser ótimo.”
“Vou ter que ver aquele Kagami mais vezes do que eu gostaria,” Hanamiya bufou. “Já não basta ele sair com você, agora vai viver na minha casa, também.”
“Ah, pare com isso,” Kiyoshi riu. “Já está com ciúmes do seu meio-irmão? Que instinto protetor...”
“Estou com ciúmes de você, idiota,” Hanamiya murmurou. “E eles vão se casar amanhã. Aqui em Akishima. As duas famílias estão hospedadas aqui nos chalés.”
Kiyoshi arregalou os olhos novamente.
“Você...”
“É.”
“Sua mãe...”
“Ela sabe, Teppei. Foi ela quem pediu pra chamar você.”
Kiyoshi uniu as sobrancelhas e abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada.
“Você fica muito estúpido quando está surpreso,” Hanamiya riu, deitando-se no gramado, respirando fundo. “Mas eu gosto disso.”
“Nós vamos ao casamento da sua mãe amanhã.” Kiyoshi tentou encarar a situação com tranquilidade. “E Aomine está aqui. E Kagami também.”
“Acho que vão chegar hoje a noite,” respondeu Hanamiya. “Foi o que Daiki me disse via mensagem hoje de manhã, quando eu disse que já estávamos aqui.”
“Por que escondeu isso de mim?”
“Eu gosto de surpresas. Não comigo... Mas em outras pessoas. E você gosta de casamentos,” Hanamiya respondeu como aquilo fosse óbvio demais. Provavelmente era, na cabeça dele. “Acho que eu posso gostar também, se você estiver lá.”
Silêncio.
Kiyoshi sorriu.
Ele pegou uma flor e a arrancou do gramado com delicadeza, e observou Hanamiya de olhos fechados, respirando calmamente. Kiyoshi o contemplou por alguns segundos – ele estava mais tranquilo, ou aparentava isso. Talvez torcia para um dia a mãe conseguir achar um homem decente para estar ao lado dela. Talvez quisesse um pai. Talvez quisesse um irmão. Talvez, muito talvez, Hanamiya estivesse satisfeito com o rumo que sua vida estivesse levando, não precisando deixar seu lado agressivo e defensivo falando mais alto. Talvez alguém perguntou a ele o que ele gostava, o que ele queria. Talvez alguém, finalmente, além de sua mãe e Kiyoshi, se preocupasse com o bem estar dele.
Talvez Hanamiya quisesse somente encontrar a sua felicidade. E lá estava ele.
Procurando.
E talvez já tivesse encontrado.
Kiyoshi beijou o rosto do namorado e então colocou a flor que ele havia arrancado na orelha do mesmo, e arrumou o cabelo dele para que permanecesse naquele lugar. Ele soltou uma risadinha e então os olhos verdes de Hanamiya se abriram, junto com um sorriso.
“Você gosta de tirar sarro com o meu sobrenome,” disse ele, sentindo os dedos de Kiyoshi em seu rosto, “não é mesmo?”
“Gosto do fato que seu nome signifique ‘verdadeiro’,” respondeu Kiyoshi, beijando a ponta de seu nariz, “e que você esteja incorporando isso.”
“Pare de me chamar de Hanamiya,” pediu ele, a voz mais baixa, e agora soando triste. “Me chame pelo nome que a minha mãe me deu... Não o que herdei do meu pai.”
“Não sinta vergonha disso.”
“Eu sinto. Posso ser sincero uma vez, por favor?” Hanamiya deixou uma lágrima escapar dos olhos. “Prometo que um dia eu vou me resolver, mas agora não.”
Kiyoshi suspirou. Ele colocou a mão no rosto do rapaz e, delicadamente com o dedão, limpou a lágrima que havia caído.
“Essa é a hora que você diz que essa conversa toda foi uma brincadeira?” ele abriu um sorriso, beijando Hanamiya mais uma vez.
“Ah, eu queria estar brincando,” Hanamiya riu. “Acho que você lembra que Daiki é da Touou. Isso significa que eu vou ser obrigado a ver Imayoshi também. Entende o meu terror?! Queria muito falar que isso é mentira e que eu não vou virar meio-irmão do Daiki. Eu perguntei pra ele o que ele achava sobre Filosofia, e ele me respondeu ‘não sei quem é melhor, Mai-chan ou Mako-chan, só sei que nada sei’. Eu quero morrer.”
Kiyoshi soltou uma gargalhada antes de deitar-se ao lado de Hanamiya e entrelaçar seus dedos com os dele, enquanto o garoto contava como estava sendo suas primeiras experiências com a família nova, ouvindo-o atentamente em cada palavra.
Os dois continuaram conversando até que chegaram ao silêncio, e Kiyoshi finalmente teve tempo de colocar as ideias no lugar, tudo o que Hanamiya havia dito.
Kiyoshi sorriu e Hanamiya fez o mesmo. Era como se pudessem ler a mente um do outro. Eles sabiam – deveriam viver um dia de cada vez. Eram jovens, a vida estava começando agora. Mas Hanamiya jamais foi um rapaz de muitas demonstrações de carinho, quem dirá revelar seus sentimentos. O que realmente importava era que, naquela tarde, ambos chegaram à conclusão de que estavam felizes um com o outro, e desejavam que aquilo se perpetuasse.
Quem sabe, um dia, não fosse a vez de eles se casarem?
“Eu realmente amo você,” Kiyoshi sussurrou em seu ouvido, “Makoto.”
O amor não consiste em olhar um para o outro, mas para frente, juntos, na mesma direção.
– Antoine de Saint-Exupéry
Fale com o autor