Fortuito

6 Não há descanso para os miseráveis


Notas iniciais
Olha eu aqui outra vez. Gracias a todos! *Ju, vou responder teu comentário. Perdoa eu! Frase do capítulo: “No auge do seu cansaço você terá que lutar ainda mais.” Boa leitura!

As gotas do tempo pingavam devagar naquele ambiente. Naoko acusava Hisoka com o olhar. Muito distante da razão, empurrava a culpa sobre ele, esperando que a recebesse de bom grado. Mas ele não tinha outra coisa para expressar além da frieza.

— Não me interessa você nesse estado — impregnou a voz de desdém.

Ela o puxou para si. Os rostos tão perto que os hálitos se misturavam. Hisoka abriu os lábios, conteve o sorriso, não disfarçou o suspiro. Agora entendia que havia enxergado outros olhos nos de Saemi.

Naoko parecia querer lhe comer a carne. Quanto mais ela continha suas ações, mais explodia de cólera por dentro. Fitava-o como se tivesse um leque de formas de mandá-lo ao inferno à disposição e estava a escolher a mais dolorosa. Ou talvez a mais humilhante. Sabia ela que isso o acendia? Naoko vomitaria se percebesse que Hisoka estava saboreando aquilo.

Ele se aproximou mais, apenas centímetros entre as bocas. Os olhos vidrados uns nos outros. Verão no inverno. A neve queimando. O sol derretendo. Um desvio da jornada? Talvez fazer dele uma estrada. Quanto se caminha no pensamento em apenas um minuto?

— Vamos... desconte em mim! — imperativo, provocação e pedido num só tom. Um pouco mais baixo e seria uma súplica. Que ela viesse com seu ódio e arrancasse seu sangue. Assistiria e sentiria com ardor. — Vingue-se...

Naoko percebeu a respiração dele em sua própria boca e o asco lhe tomou de imediato. Hisoka recebeu o soco e se deixou cair no chão para vê-la daquele ângulo, por baixo, subjugado. Esperando o açoite de quem lhe dominava.

— Essa é toda a sua raiva?

Naoko caiu por um segundo. O véu da raiva turbando sua ótica, mas pouco antes de desferir um chute percebeu o jogo.

— Você é desprezível.

— Nós dois sabemos disso — sorriu jocoso.

Então o gelo se partiu.

Cabelo desgrenhado, maquiagem borrada e nariz quebrado. Um soco apenas com todo o ódio que a dilacerava por dentro. E as mãos tremeram com o sangue que jorrou pintando de vermelho a camisa de Hisoka.

Ele riu baixo. E o tom aumentou até se tornar uma gargalhada. Êxtase. E satisfação por ter insistido naquela fruta verde. Illumi nunca saberia o que era amadurecer algo com as próprias mãos, por isso jamais o entenderia. Mas Hisoka amava o processo. Doar a temperatura certa e esperar o ponto da mordida era uma arte que ele dominava bem. Teve que segurar os pulsos dela para impedir o ímpeto de curá-lo.

— Precisa aprender a aproveitar os momentos, benzinho. Conseguimos o que queríamos, não? Não pule para outra etapa antes de aproveitar essa plenamente.

— Você é doente!

— Todos nós somos. — Fitou-a com deleite. Dar emoção àquele rosto inexpressivo lhe proporcionava um prazer singular.

Soltou-a. Sentiu a vibração do nem dela quando suas mãos tocaram seu rosto com força. Contava uma mistura de raiva e medo. Oscilava exatamente como seu espírito. Almas quebradas deixam escapar dor por suas rachaduras.

— Ela se arrependeu? — Naoko murmurou quase sem voz.

Hisoka encarou os olhos que fitavam o chão. Não lhe importava mentir para quem quer que fosse. Com Naoko não seria diferente.

— Não. — contradisse a si mesmo.

Ela levantou o olhar com angústia e o manteve em Hisoka até ouvir novamente:

— Não.

Naoko desmanchou como uma flor morta. O vazio colocou para fora todos os sentimentos que lhe ocupavam e tomou o seu lugar. Sabia que ele não mentia.

— Agradeço por cumprir sua parte... Cumprirei a minha.

Os dedos dela passearam pelo nariz dele, procurando alguma imperfeição, sentindo se todos os pequenos vasos estavam devidamente reconstruídos. Fazia isso com o espírito adormecido, guiada apenas pelo zelo incrustado em seu ser, fruto dos muitos anos em que teve sua habilidade vendida por Saemi.

— Está perfeito... Vamos. Eu já atrasei muito isso.

— Perdi a vontade. — Hisoka levantou, reparando a sujeira na camisa. — Você é igual as borboletas... — Olhou para Naoko. — Voa em direção ao sangue.

♥ ♠ ♣ ♦

Água. Lágrimas. Vapor cobrindo o espelho. Silêncio. Uma mulher encolhida no chão... O sofrimento sempre ajusta o relógio ao seu gosto, fazendo os ponteiros se arrastarem. E Naoko experimentava a eternidade espremida dentro de poucos minutos. O deslocamento da realidade, a garganta ardendo, “por ques” e culpas e o desejo de nunca mais poder desejar algo na vida.

Lamentou que Hisoka tivesse dispensado a luta. Preferia encará-lo do que lidar com os sentimentos que enchiam seu peito. Eram como ondas arrebentando nas pedras. Quando voltavam repuxavam as bordas do seu coração até quase virá-lo ao avesso. Quando se jogavam, arrastavam a ferida até esmagá-las no penhasco.

“Eu não preciso da sua misericórdia.”

“Você não entendeu. Eu perdi o interesse.”

Enfiou os dedos por entre os cabelos, encostando a testa nos joelhos. Não sentia o chão gelado esfriar sua pele, não sentia o vapor tornando o banheiro pouco a pouco mais quente. Era apenas ela e a procura por uma forma de dar fim aos sentimentos. Enfim, a mistura de calor e umidade penetrou em sua mente de forma incisiva e findou a busca. Levantou. Face inchada, olhos vermelhos. Aprontou-se em 15 minutos, colocou nas costas uma mochila pequena. Pôs-se a caminho.

♥ ♠ ♣ ♦

Não gostava de ser o centro das atenções. As luzes a incomodavam e os olhares lhe pressionavam, mas sua resistência progredia a cada vez que era testada. Já subia ao décimo andar embora seu plano era não ter passado do primeiro. Queria ter deixado seu corpo lá, no piso branco recortado em grandes quadrados. No entanto, o orgulho não lhe permitiu aceitar os golpes medíocres que recebia. Não poderia cerrar os olhos de forma tão indigna. Precisava encontrar alguém que estivesse à altura de conduzi-la ao fim do estreito túnel da vida.

Subiu outros dez. Talvez ali sua vontade fosse satisfeita.

Lutas limpas, sem uma gota de sangue. Naoko as evitava de toda forma possível, por isso era recorrente levar seus adversários a nocaute por fratura. Já havia quebrado mais ossos do que podia se lembrar e passara a estudar anatomia a fim de aprender meios de parti-los com mais rapidez e eficiência. Porém, sua fraqueza continuava tão forte quanto antes e ela sabia que não escaparia para sempre da necessidade de enfrentá-la.

Seu estilo de luta havia se tornado conhecido, o que dava a seus adversários a certeza do que esperar dela. Não fosse por seu calcanhar de Aquiles estar em segredo, já teria tombado há muitos combates. Por isso, antes de passar para o vigésimo quinto andar, decidiu pôr fim a sua fraqueza.

Pisou no ducentésimo andar esperando ver o sangue jorrar no primeiro golpe. A expectativa a fazia tremer antes mesmo da luta começar. Havia escolhido o lugar mais próximo e com a melhor visão do ringue. Dali poderia enxergar qualquer gota vermelha que deixasse o corpo dos lutadores.

Quando um dos homens inundou o chão com um rio carmesim, Naoko cerrou os punhos com toda a força que tinha, enquanto gotas de suor escorriam por suas costas. A saliva mudou de sabor, o estômago se contorceu, o coração disparou. A firmeza de seus pés no chão começou a se desfazer e o direito se arrastou como se batalhasse para dar um passo. Sentiu seu corpo virar. Despertou em olhos amarelos.

— Quer que todos saibam?

— Estou tentando superar. — Naoko respondeu devagar, duplamente atordoada. — O que está fazendo?...

— Tente longe da visão dos outros. Você já é uma presa fácil demais e eu não sou o único de olho em você... — Hisoka disse se pondo mais perto. — O camarote A está agitado por sua causa. — Deslizou a mão do ombro as costas de Naoko, repousando-a ali,

— Safina...

— Tá, que se dane! Sai daqui agora.

A respiração de Naoko parou por um segundo e voltou acelerando, evoluindo devagar para uma hiperventilação. A expressão congelada revelava o coração em agonia, o corpo estava a um fio de lhe desobedecer. A poucos centímetros de seu rosto, a cabeça do derrotado estava suspensa no ar, gotejando sangue, presa pela mão direita de Hisoka. Em seu peito, Naoko sentia a pressão do ímpeto de curar o que estava morto. A lógica lhe faltava, apenas sua emoção gritava para correr em direção àquele sangue.

— Olhe pra mim!

Ela obedeceu. As gotas carmesim que atingiram o rosto dele aumentaram as batidas do seu coração. As mãos tremiam, ávidas por tocar a pele suja. Hisoka se desfez da cabeça, cuidando para não respingar sangue, pressionando as unhas contra a costas de Naoko para chamar sua atenção.

— Controle-se — sussurrou devagar.

Em meio às sensações que lhe afogavam, a voz de Hisoka foi como uma corda salva-vidas. Naoko se concentrou nos lábios dele, absorvendo cada palavra derramada por eles. Deixou-se aquecer pelo calor que Hisoka emanava, relaxando pouco a pouco os músculos já doloridos pela força e o tempo que ficaram retraídos. Sentia o cansaço lhe abraçar e a vontade de ceder e desmanchar nesse abraço crescia sem obstáculos.

Hisoka percebeu que o corpo dela amolecia e trouxe para si, permitindo que Naoko lhe usasse como amparo. Tendo calculado o ângulo perfeito, parecia aos olhos dos outros que, dotados de nenhum bom-senso, eles continuavam a flertar após aquele espetáculo de horror.

— Sua dívida acabou de aumentar, benzinho — sussurrou ao ouvido dela.

— Vou pagá-la de uma vez, hoje mesmo. — Naoko rebateu retomando a firmeza em sua voz.

— Não. Eu vou cobrar na hora certa — disse com malícia. — Agora trate de se recompor. Estou ficando irritado de ser vigiado.

♥ ♠ ♣ ♦

— Desde quando você gosta de lutar? — Hisoka perguntou vendo Naoko bebericar o conhaque como se não lhe tivesse ouvido.

Não foi difícil para ele levá-la até o bar. Fragilizada, bastou que a conduzisse devagar pelos corredores até chegar ao destino. Era nítido que ela desejava o amparo de alguém e havia guardado a rigidez de seu critério para um momento mais oportuno. Contudo, um minuto de silêncio junto a um dedo de álcool devolveram a Naoko o equilíbrio.

— Não gosto. Só estou à procura de alguém que me leve a um fim.

— Se é isso, por que não me procurou? — destilou ironia.

— Não foi você que disse que não estava mais interessado? — Naoko o encarou.

Hisoka sorriu. Havia ali uma leve acusação? Ou apenas uma constatação fria? Não importava. Voltaria a conduzir Naoko pelas vielas de seu desejo, dosando a temperatura de suas palavras, soltando e puxando feito seu amor elástico. Conseguiria o que queria, não tinha dúvidas. Todos têm uma estrada aberta a visitantes, e ele era um hábil explorador. Sabia espalhar as sementes pelo caminho.

— Bem... Pessoas mudam de ideia.

Naoko desviou o olhar de asco. Hisoka mexia com seu estômago de duas formas: nojo e nervoso. Por um instante sentiu falta de quando o nojo era apenas por quem ele era, a malícia nas palavras duplicava a repugnância por aquele homem. Cogitou entregar a ele a autoria do desfecho de sua vida. Mas não o faria, pelo menos não agora. Recusava-se a servir de fonte de prazer para um lunático como ele.

— Você é detestável.

— Eu sei. — Hisoka sorriu. — Então, vamos ao que interessa...

— Não vou lutar com você.

Hisoka arqueou a sobrancelha, sentiu-se desafiado. Saboreou. Aproximou-se com a mão apoiada no queixo. A expressão descontraída.

— Repita.

— Não vou lutar com você. — Naoko disse devagar, levantando-se.

— Você ficou ousada. — Ele sussurrou. A voz rouca salpicada de sensualidade. — Perdeu o medo de mim?

— Tendo medo ou não o fim será o mesmo: quando você quiser sua luta virá até mim e vai brincar comigo o tempo que quiser, do jeito que quiser. Vai me torturar por prazer e então me matar.

— Acha mesmo que eu sou tão cruel assim? — Fingiu-se de ofendido. — Que eu sou um monstro?

— Hisoka... — Naoko arrastou o nome dele. A mão pressionava o balcão para conter a raiva, o corpo se inclinou para que seus olhos pudessem engolir as íris amarelas de Hisoka. — Eu detesto joguinhos. Detesto quando os faz. Detesto o tom da sua voz, como seus lábios se curvam num sorriso nojento e seus olhos se apertam como se estivesse excitado. Detesto a vibração que seu corpo emana neste momento e detesto ainda mais pensar que você está adorando ouvir o que estou dizendo agora.

— Estou...

— Você é doente.

— Todos são. A diferença é que alguns não sabem disso. E você... sabe?

— Vamos lá pra fora... Eu mudei de ideia.

♥ ♠ ♣ ♦

Havia uma garoa fina cobrindo a cidade naquele momento, o céu cinza escuro parecia envelhecer a paisagem, mas o ar ainda era quente. Como o corpo de Hisoka que quase derretia as gotas que lhe tocavam a pele.

A praça bem arborizada lembrava o parque onde conhecera Naoko. Parecia esquecida tanto no tempo quanto pelas pessoas. Combinava com o clima, combinava com o encontro e com os olhos que queriam quebrá-lo em pedaços.

— Sempre escolhe lugares assim para fazer suas travessuras?

Naoko o esmurrou no canto da boca. Um segundo soco foi desferido em seguida, mas logo Hisoka percebeu que se tratava de uma estratégia para limpar o sangue que havia escorrido. “Esperto”, pensou, “e rápido.”

— Mas vai falhar com um lutador experiente. — Segurou o punho dela, notando a mão limpa. — É só um paliativo que cedo ou tarde vai se tornar inútil. Você precisa superar isso.

Hisoka a empurrou ao mesmo tempo que saltou dois metros para trás. Sacou seu ás preferido e pressionou-o com precisão sobre a jugular, afundando delicadamente milímetro por milímetro até fazer nascer o sangue. Assistiu Naoko tentar se livrar de sua goma para correr em sua direção. As lágrimas banhando o rosto dela, a expressão de desespero temperada com dor, a hiperventilação, os olhos vidrados, tão azuis, pareciam injetados de drogas. A vontade dela lhe doía. Pressionava todo o seu corpo como se fosse esmagá-lo.

— Vamos, supere — ordenou. O tom decrescendo contra a sua vontade. Sentia o ar escapar, o sangue fugir mais rápido e a garganta apertada como se estivesse sendo estrangulado.

Soltou a goma. Tossiu, puxou o ar com média aflição, viu o mundo girar, procurou apoio, respirou o alívio de seus músculos relaxarem. Viu Naoko de pé em sua frente. Os punhos cerrados, o ódio nítido no rosto agoniado.

— Você tem a sua goma... Não vai morrer.

Naoko tinha razão. Por isso Hisoka não temeu consequências. Teria deixado seu sangue escorrer o necessário e depois fecharia o corte. Simples. Se não fosse a surpresa de experimentar o que ele desejava a algum tempo. A vontade de Naoko o esmagava, sentiu seu peso em cada segundo que a manteve presa em sua goma e sentia agora como se diferentes ondas lhe pressionassem contra as rochas.

— Resista. — Hisoka disse a ela o que bem cabia para si mesmo. A mistura de sensações em seu corpo estava desagradável. Contudo, ele queria arrancar a fraqueza de Naoko a qualquer custo.

Naoko queria resistir, seu corpo, sucumbir. E enquanto essa batalha era travada dentro do seu ser, Hisoka participava do conflito sem ter ao menos recebido um convite. Quando a resistência de Naoko finalmente perdeu, ele pode se concentrar nas consequências da perda de sangue e em estancar a hemorragia.

— Espera. — Ela disse num sussurro quase inaudível. — Eu faço.

O toque de Naoko externava seu cansaço. Suaves e pesadas, as mãos dela envolveram o pescoço de Hisoka como se estivessem se apoiando nele. O tronco curvado, o suor se desprendendo da nuca rumo as costas e as emoções feito água parada. Completamente fragilizada diante dele mais uma vez.

— Como fez aquilo? — Esperou, não por pena, e sim porque o estado de Naoko era deplorável a tal ponto que ela parecia mal conseguir raciocinar. — Aquela pressão foi provocada pelo seu nen. Quanto mais tempo eu te prendia, mais ela aumentava e quando eu te soltei, senti ela desaparecer. — Buscou respostas na expressão abatida de Naoko. — Você podia ter usado isso na nossa primeira luta... Ou talvez não.

Naoko retirou as mãos do pescoço dele e olhou para o nada. Cambaleante se afastou para fora da praça. Quase não sentia o corpo que fora triturado pelas emoções. Seus passos foram interrompidos pela goma em seja calcanhares, que quase a levou ao chão.

— Não é educado sair no meio da conversa.

— Chega. Pare de me atormentar e me mate de uma vez. Eu não sou um brinquedo? Então quebre! Ah, não! Desculpe. Eu sou uma fruta. Então coma de uma vez!

— Você deveria tomar cuidado com o jogo de palavras.

— O que está esperando? — Ela se aproximou. O rosto a centímetros do dele, assim como no dia em que se descontrolou por causa da morte da mãe. O olhar chamando-o, incendiando o que havia começado no interior de Hisoka.

— Você está me chamando para o quê, afinal?

— Que tal uma dança no inferno?

— Só se for para queimarmos juntos. — Sorriu. A vontade bifurcada em dois desejos opostos. O primeiro, se realizado, certamente mataria o segundo. O segundo, se realizado, ameaçaria o primeiro. Um lhe daria o gosto apenas uma vez, o outro poderia ser provado ad infinitum.

— Você me enoja!

— Você me- — “excita.” Completou em pensamento. A pressão voltou calando sua boca.

— Você quer ferrar com a minha mente antes de me matar?! Faz parte do seu jogo?! — As mãos dela tremiam. — Seu filho da puta! A merda que você fez quase arrebentou o meu coração!

Hiperventilação. Taquicardia. Dor aguda. Falha na respiração. Suor frio. Audição prejudicada...

Calor, um lugar macio, conforto, um cheiro diferente, agradável, forte. Ela afunda o rosto para inspirar mais dele. Mais quente, firmeza embaixo da maciez, proteção. Os dedos procuram conhecer o lugar. Não há sons. Ela ainda não abriu os olhos. Silêncio e escuridão juntos não intimidam porque ela está naquele ninho caloroso. Encolhida como um feto. Segurando com todas as forças para não cair dele.

— Não — protestou ao sentir que seu corpo estava sendo deslizado para fora. Congelou ao ver onde estava. — O que?...

— Você desmaiou.

Naoko se agitou nos braços de Hisoka, mas foi vencida pelo cansaço e uma vertigem.

— Muita emoção para um dia só? — soltou ao deixá-la num banco.

— Suma daqui.

— Hum? Há poucos minutos você estava agarrada no meu peito e agora me dispensa? Isso é tão cruel... — Fez tom de ofendido para logo depois cair na risada.

Naoko virou o rosto. Raiva e vergonha disputavam o primeiro lugar em seu peito.

— Tenho um palpite que sua vontade e a pressão tem alguma relação — disse com falsa inocência como uma criança curiosa.

Naoko escorregou no banco. Apoiou a cabeça na parte alta e fitou o céu. Cinza feito sua alma, chuvoso e triste, mostrando relâmpagos que anunciavam que ia desabar. Igual a ela. Desabou antes e desabaria de novo a qualquer instante. Equilíbrio era uma palavra difícil de lembrar o que significava.

— Tem. Se você se coloca contra a minha vontade, você é pressionado. Se demora a fazê-la, é pressionado.

— Interessante. Por que não usou isso quando nos conhecemos?

— Não podia. Eu ainda não tinha te curado. — Ela o encarou. — Essa é a condição: colocar meu nen dentro do seu corpo.

— E então você pode controlar à vontade...

— Não. Não depende da minha razão. Está ligado as minhas emoções, às vontades profundas e intensas.

— Naquela hora...

— Eu queria te fazer parar de sangrar mais do que qualquer coisa no mundo.

— Deu pra sentir o quanto você queria.

— Esqueci de ver se quebrei algo em você. — Suspirou e debilmente se pôs a examiná-lo. — Aqui. — Parou em uma costela. — Fissuras as vezes passam despercebidas.

— Eu posso cuidar disso.

— Sua goma é só um paliativo meia-boca, além disso,... eu quebro, eu conserto.

De súbito, Hisoka segurou a mão de Naoko.

— A quantidade de nen influencia.

— Sim. Agora mesmo você está se tornando mais suscetível.

— A fobia é um blefe.

— Não. — Ela sustentou os olhos nos dele por um longo tempo. — Queria que fosse. Melhor um blefe do que um trauma. Está pronto — disse retomando a posição relaxada.

O céu era o extremo oposto na época. Azul brilhante, puro, sem um risco branco. Só o azul e o dourado do sol escaldante do verão ao meio-dia. O asfalto pegando fogo e o corpo de uma criança estirado nele. Uma pequena distração, um virar de rosto para o lado, um minuto, apenas um minuto. Mas para a morte qualquer segundo é tempo suficiente para a ceifa.

A garota correu até o irmão que nadava numa poça de sangue. Não sabia por onde começar. Sujou as mãos ao tentar empurrar o nen para a parte mais destruída do corpo do pequeno. A ingenuidade de 14 anos recém-completados se misturou ao desespero deixando o pensamento turvo. “Ele não pode morrer”, repetiu até que a frase se converteu num grito.

Óbito assinado. A mãe lhe imputou a culpa por não ter cuidado do irmão. Não foi zelosa, não foi responsável... Negligente! “Se você tivesse... ele não teria morrido.” O luto pesava em dobro. A fuga se tornou aprender a dominar a habilidade de curar e o sangue passou a ser o fantasma de sua incompetência. Sim, incompetente. Outro adjetivo muito escutado, mas não tanto quanto inútil.

Os demais anos da adolescência foram vividos para provar à mãe que poderia ser útil, que tinha valor, que merecia o seu perdão. Todos estes anos foram mortos, assim como a esperança de alcançar o que tanto se buscou durante eles.

Notas finais
Até a próxima!