CAIO NARRANDO___________
Sabe, Théo... Quando você me disse que alguém havia quebrado a perna do Líon, eu não pude deixar de suspeitar que havia sido você. Não só pelo seu olho roxo, mas porque eu havia começado a prestar mais atenção na forma como você me tratava. Com uma certa delicadeza de quem lida com o que é frágil e bonito. E não posso mentir: isso mexe comigo de um jeito bem fundo; me desestrutura de um jeito bom, me descarna e deixa o meu núcleo exposto ao seu olhar. Mas apesar disso, eu estaria mentindo se dissesse que não me despertou medo saber que você fosse capaz de tamanha violência — ainda que para me proteger.
Você me conhece: eu tenho muito medo. Medo das pessoas, medo da violência. E é muito estranho sentir medo de alguém que me causa coisas tão intensas e bonitas como as que você me causa. É muito confuso, para mim, te olhar e ver, no Théo que me abraça e me protege, também um Théo que é capaz de uma atrocidade. Nunca conversamos sobre isso, mas não consegui tirar da minha cabeça a cena que imaginei, de você quebrando a perna do menino.
Prefiro muito mais quando me deparo com o Théo que conheço, que se conecta emocionalmente com qualquer doguinho que encontre na rua, que tira os insetos das poças de água para que eles não se afoguem. É por esse Théo cheio de ternura que me apaixonei. E são as mãos dele que sinto quando você acaricia meu rosto com as costas da sua mão — uma das coisas que mais mexe comigo. Só de me lembrar de como é me sentir assim — sendo acariciado como um gatinho, sendo observado como se eu fosse a coisa mais frágil e importante desse mundo —, minhas pernas tremem. De verdade. Me vem uma vontade de chorar, que é boa e ruim ao mesmo tempo. Não sei explicar. Você me causa esse tipo de nó na garganta com uma certa frequência, Théo.
Você me faz sentir visto, ouvido. Desejado. Adorado. Você me faz sentir seguro, confortável. Você me faz sentir bem com quem eu sou por dentro — essa criança vulnerável que sempre esforcei para esconder dos outros. Você me aproxima de mim, Théo. Você me acolhe, me esquenta, me dá um lar.
E o pior é que, diante desse medo que venho tendo em relação a esse teu lado mais violento, esses sentimentos todos — que me fazem me sentir no céu quando estou ao seu lado — não são anulados. Pelo contrário. Só se intensificam diante do contraste. Somam-se a uma bola de neve de sentimentos que eu não sei discernir. Fico todo sem saber como lidar com o que sinto.
Mas aí vem o seu abraço — aquele seu maldito abraço, que me rouba o chão, que me puxa para perto de você e me faz pertencer a você — e toda essa confusão simplesmente desaparece. O seu calor e a sua firmeza macia são a âncora da minha existência; são a coisa mais real que eu já conheci.
Espero que eu nunca venha a conhecer esse seu lado violento, Théo. Eu não sei se eu aguentaria. Só de imaginar, me sinto dilacerado por dentro. Não sei se eu seria capaz de te perdoar. Não é que eu seja rancoroso. Eu só sou traumatizado demais para dar uma segunda chance àqueles que me machucam. Eu só torço para que isso não aconteça entre nós.
Com medo, sinceridade e muito amor
Caio
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