Forseti
1 Capítulo 1 - Resgate
Notas iniciais
Resmungo, acordando do meu sono, olho ao redor, vejo que estou cercado por grandes árvores e pessoas desconhecidas, tento me mover, mas cordas que me prendiam a um cavalo me impedem. Na minha frente, um homem, com uma armadura de couro e sua espada embainhada na cintura estava guiando o cavalo lentamente pela floresta, ao meu redor havia mais três homens montado em cavalos, na qual dois deles tinham mais duas pessoas presas a cordas, uma delas uma pequena garotinha e o outro um homem, ambos pareciam estar inconscientes.
Começo a me lembrar do que aconteceu na noite passada, as pessoas amarradas, nada mais eram a minha prima e o meu tio, recordo-me que passei pela cidade de Horath, onde eles moravam junto ao meu avô, que é dono de vastas extensões de terras, e uma das pessoas mais ricas e influentes em Horath. Pensei ter sido uma boa ideia pagar uma visita a eles enquanto estava na cidade. Estes homens eram sequestradores, não me lembro de muita coisa além de uma pancada forte em minha cabeça a qual me fez desmaiar na noite passada.
— O que vão fazer conosco e para onde estão nos levando? — Pergunto, chamando a atenção deles. Eles desviam o olhar para mim, notando que estava acordado, um dava uma curta risada maliciosa, mas ninguém respondia a minha questão.
— Exijo uma resposta! — Dizia com um tom um pouco elevado.
— Fique calado se sabe o que é melhor para você. — Respondia o que estava na minha frente, guiando o cavalo.
— Se aquele velho valoriza suas vidas, ele irá pagar o nosso pequeno pedido em moedas de ouro. — Outro complementava.
Então é isso, vão nos usar como reféns, fico em silêncio durante o resto da viagem, que não dura muitos minutos, logo chegávamos em um acampamento, com algumas tendas e um pequeno lago perto, ao ouvir os cavalos se aproximando, dois homens saiam das tendas.
— Então conseguiram mesmo, não estava botando muita fé nesse plano de vocês. — Um deles dizia.
— Foi mais difícil do que parece. — Respondia o homem que guiava o cavalo onde eu estava amarrado.
— Onde está o Karl?
— Esse é o problema, na hora da saída, um dos guardas nos avistou, o Karl acabou sendo ferido e tivemos que abandoná-lo.
— O quê? — O homem falava com o tom alterado. — Vocês abandonaram ele? E se ele falar a localização do nosso acampamento?
— Relaxa, é só nos mudarmos. — Ele falava e o outro parecia se acalmar um pouco.
— Ainda assim, a perda do Karl.
— Pense nisso como um sacrifício necessário, por causa dele é que conseguiremos essas cinquenta mil moedas de ouro. — O homem dizia descendo do cavalo, os outros logo faziam o mesmo.
— Vamos começar a guardar as coisas. — Um outro homem dizia, e o resto começava a andar até o acampamento, começando a desfazer as tendas e guardar os suprimentos, meus familiares e eu continuávamos amarrados aos cavalos.
Me pergunto se o meu avô iria pagar o resgate, se tem uma coisa que ele valoriza mais que a família, é o dinheiro. Alguns minutos se passam enquanto os sequestradores se preparavam para partir, quando então ouço um barulho de mato se mexendo um pouco distante do acampamento, os sequestradores parecem não ter ouvido. Alguns segundos depois, e ouço outro barulho, dessa vez uma coisa passando por cima da minha cabeça em alta velocidade, olho em direção aos sequestradores, e um deles cai no chão. Um virote sobrevoou acima de mim, o acertando em cheio na cabeça.
— Estamos sob ataque! — Um dos homens gritaram, todos eles sacaram suas espadas, dois se aproximavam rapidamente em minha direção e aos outros dois reféns. E então uma pessoa aparece do nada, completamente revestida em uma armadura de placas de aço, e com uma alabarda, ele estoca um dos criminosos com sua arma, o fazendo cair no chão, o outro olha assustado e corre em direção ao cavaleiro em armadura, ele tenta um corte horizontal com sua espada, mas o corte é refletido completamente ao se chocar contra a armadura, não tendo muito espaço para manusear sua alabarda, o cavaleiro rapidamente desembainha uma adaga, a qual ele estoca no crânio do sequestrador, que cai imediatamente no chão.
— Mantenham a calma! — Dizia um dos sequestradores que parecia ser o líder do grupo, os outros dois homens olharam para o cavaleiro receosamente, parecia que estavam a ponto de entrarem em pânico e correrem. — Somos três, ainda temos uma chance, cerquem-no! — Ele dizia e os três começavam a ir em direção ao cavaleiro que havia embainhado sua adaga enquanto os observavam se aproximando lentamente.
Ele então, analisando a situação, da uma rápida e feroz investida com sua alabarda contra o suposto líder do grupo de sequestradores. A arma perfura o peito do mesmo, que começa a gritar de dor enquanto o sangue jorra para todo lado. E como se tudo fosse parte do plano, os outros dois criminosos, vendo toda aquela carnificina e a ferocidade do ataque do cavaleiro, saem correndo para bem longe, em lados opostos, adentrando mais ainda a floresta, o cavaleiro parece não querer persegui-los.
Ele se aproxima de minha prima e tio, que ainda estavam inconscientes, e os soltam, cortando as cordas, ele se dirige até mim, fazendo o mesmo.
— O meu avô enviou você? — Pergunto, saindo de cima do cavalo, aliviado de estar solto daquelas cordas, ajeitava minha capa vermelha que estava toda amassada.
— Não, você teve sorte de eu ter estado por perto quando o sequestro aconteceu. — Surpreendentemente, a voz que saia daquele grande amontoado de metal, soava como a voz de uma mulher.
— Por perto? Por acaso você é um dos guardas do meu avô? Não parece ser um.
— Não, eu só estava na mansão quando isso aconteceu, e testemunhei o ocorrido, consegui matar um deles antes deles terem fugido, não é muito fácil perseguir alguém nessa armadura. — Ela falava enquanto olhava para o meu tio e prima. — E eles, vão acordar ou não? — Dizia cutucando a cabeça do meu tio com a parte de baixo da alabarda.
— E como nos achou? E se não é um guarda do meu avô, por que arriscou a vida por nós?
— Como eu falei, eu tinha testemunhado o ato, e eles fugiram de mim, mas eu não tinha desistido facilmente, segui o rastro de vocês a noite inteira com o meu cavalo. — Ela fala assobiando, e um cavalo branco aparecia se aproximando dela. — E o por quê? Bom, talvez eu seja idiota, sou só apenas uma aventureira que viaja pelo o mundo, tentando o meu máximo trazer justiça e bondade a todos. Vocês tiveram sorte de eu estar por perto, não iria deixar um ato maldoso como esses acontecer na minha frente. — Ela ia falando enquanto pega a minha prima no colo e sobe em seu cavalo. — Mas então, você leva o seu tio.
— Uma aventureira, huh. Que coincidência, pode não parecer, mas também sou um aventureiro. — Digo amarrando meu tio de volta no cavalo, para ele não cair, e começo a cavalgar, com a guerreira me seguindo logo atrás.
— Não parece um aventureiro, que tipo de arma usa?. — Ela pergunta fazendo o cavalo ficar lado a lado ao meu.
— Eu não uso nenhuma arma em particular.
— E como pode ser um aventureiro sem nenhuma arma, como consegue se defender dos perigos do mundo?
— Não preciso de uma arma para me defender.
— Sim, estou vendo como se defendeu muito bem quando foi sequestrado.
— Não foi minha culpa, eles chegaram de fininho.
— Ah claro, você ia derrotar sete homens, cada um segurando uma espada, com apenas os seus punhos.
— Basicamente sim, mas não necessariamente com os meus punhos.
— Tá bom, se você diz, mas vamos mudar de assunto.
— Tudo bem, obrigado por ter salvado a mim, meu tio e a minha prima. — Dizia agradecendo. — Posso saber o seu nome? O meu é Franz.
— O meu é Nadja, prazer em te conhecer, Franz.
Demoramos algumas horas até chegar em Horath, o resto da viagem é cercado por perguntas e respostas triviais, não acabei descobrindo muito de interessante sobre Nadja, com exceção sobre os seus pais que morreram em uma guerra, quando ela ainda era muito jovem, e é isso o que a motivou viajar pelo mundo, e trazer justiça e bondade para todos. Claro, também descobri sua cor, comida e canção de taverna favoritas, informações muito importantes.
Chegávamos em Horath, parecia já estar de tarde, o meu tio havia acordado no caminho, após algumas perguntas, confuso, explicamos a ele o que havia ocorrido, e que Nadja tinha nos salvado. Íamos em direção as terras do meu avô, que era em uma área mais rica da cidade, ao chegarmos lá, avistávamos vários guardas, um deles nos olhou assustado ao se aproximarmos.
— Vocês! — Ele dizia espantado. — Entrem, rápido, vou avisar ao senhor Emmerich imediatamente. — Ele fala adentrando a mansão, meu tio seguia logo atrás.
— Nadja, uma pergunta me veio a cabeça, o que você estava fazendo na casa do meu avô mesmo? Ele não tem uma reputação de confiança com aventureiros, já que minha mãe estava arranjada de casar com um nobre, mas ela fugiu com o meu pai, que era um aventureiro que estava passando pela cidade.
— Bom, essa mansão é grande o suficiente para eu nunca ter dado de cara com o seu avô, foi Melissa quem me convidou para passar a noite aqui. — Ela falava o nome da minha tia, que era filha de um grande mercador, e havia se casado com o meu tio, que era filho do meu avô, em um casamento arranjado. — Quando criança, eu costumava visitar essa cidade à negócios com os meus pais, e acabei conhecendo Melissa em uma dessas viagens, e acabamos se tornando grandes amigas. Quando cheguei na cidade recentemente, ela me convidou a passar a noite aqui, em um dos quartos de hóspedes.
— E quando ocorreu o ataque, o que estava fazendo acordada aquela hora da noite?
— A verdade, é que eu estava com um pressentimento mal, então vesti minha armadura e fui fazer patrulha junto com os outros guardas, e bom, meu pressentimento acabou se tornando verdade. Ainda não faço ideia como eles conseguiram passar despercebidos pelos guardas do seu avô.
Pensava naquilo sobre os guardas profundamente, estávamos na sala de estar da mansão, sentados em sofás e poltronas, enquanto esperava o guarda chamar o meu avô. Alguns minutos de conversa fiada, ele chegava, com a minha tia ao lado.
— Franz, não sabia que estava na cidade. — Ele dizia sem mostrar nenhuma emoção a não ser uma face de nojo. Não é surpresa ele não ter me visto, eu havia chegado na mansão bem de tarde, ele provavelmente já estava dormindo. — Como vai a imprestável da sua mãe?
— Vai bem, eu acho, mas ela está um pouco depressiva porque o meu pai está desaparecido.
— O seu pai, desaparecido, hah. Uma noticia boa finalmente, após todo esse mar de merda que aconteceu ontem a noite, o meu próprio filho, sequestrado por um bando de malfeitores, vou demitir todos esses malditos guardas e contratar novos — Ele resmungava com raiva. — E você, ouvi do meu filho que foi você quem os salvou. — Ele fala virando o olho para Nadja.
— Só fazendo o meu trabalho, senhor.
— Trabalho balela! Ouvi de você, uma aventureira que minha nora abrigou. — Ele diz olhando para a minha tia que estava calada ali do lado. — Vocês não passam de parasitas sem trabalho, já falei para o Franz mil vezes que isso não gera fortuna, tentei educar ele de acordo com os meus padrões, até iria esquecer de seu parentesco com aquele imprestável de seu pai, mas ele me ouviu? Não, ele preferiu seguir os passos do pai. — Ele resmungava mais ainda, mas acabava se acalmando um pouco. — Ugh, ainda assim, como obrigação acho que devo presentear você com alguma recompensa. — Ele diz pegando uma pequena bolsa que estava amarrado em sua cintura, ele tira algumas moedas de ouro e a entrega para Nadja. — Faça bom proveito delas, aventureira. — Ele diz a última palavra com nojo. — Agora saiam da minha casa, não são bem-vindos aqui. — Ele fala, saindo da sala de estar, minha tia seguia ele logo atrás, mas antes ela dava um último olhar para Nadja, como se estivesse pedindo desculpas.
— Bom, isso foi divertido. — Falo ainda sentado em uma poltrona. — Quanto ele te deu? — Pergunto curioso.
— Vinte moedas de ouro, vai durar alguns dias.
— Melhor sairmos daqui logo, antes que ele solte os cachorros. — Digo me levantando e andando para fora dali, ela seguia, ao meu lado. Andamos um pouco até nos encontramos no lado de fora, na rua onde a mansão do meu avô se encontrava.
— E então, o que pretende fazer agora? — Ela pergunta enquanto parávamos no meio da rua.
— Eu vou me alojar em uma estalagem aqui perto, e depois vou continuar a minha jornada em busca do artefato e do meu pai, a última coisa que ouvi sobre ele, é que ele estava atrás desse artefato também. E você, o que pretende fazer?
— Ainda não pensei direito, vou ter algo amanhã, eu espero. E onde fica essa estalagem, ela é barata?
— Fica um pouco perto daqui, mas não nesse distrito de gente rica, então não é muito cara.
— Ótimo, vou me alojar lá também. Me mostre o caminho. — Ela diz, e acabei percebendo que até agora ainda não vi a face dela, que ainda estava cobrido por um elmo.
Andamos durante alguns minutos até chegarmos na estalagem, que servia como uma taverna também. Ao entrarmos lá dentro, já havia alguns bêbados se enchendo de cachaça. Chegamos perto do taverneiro, um homem barbudo e gordo com pelo menos trinta anos de idade, e ordenamos dois quartos e duas refeições.
— Vai ficar com essa armadura de placas para sempre? — Pergunto, enquanto sentávamos em cadeiras com nossas refeições.
— Eu costumo ficar com minha armadura o dia inteiro, só por precaução, caso algo de perigoso aconteça.
— Ao menos tire o elmo, ainda nem sei como é o seu rosto. — Ela acena e remove o elmo revelando sua face. — Para uma guerreira que vive arriscando sua vida, você até que é bonita. — Digo, a olhando, ela tinha curtos cabelos castanhos e olhos castanho-escuro, tinha uma pequena cicatriz em sua bochecha, que suponho que seja comum em guerreiros que vivem lutando.
Ela agradecia o elogio e passamos o resto da tarde conversando trivialidades, descobri que o pai dela era um soldado, e a armadura que ela veste, pertencia a ele. A mãe dela era uma famosa herborista, conhecida por viajar por cidades, curando os enfermos com suas ervas medicinais. Os dois morreram em uma guerra envolvendo dois reinos rivais, a cidade onde eles estavam havia sido invadida e muitas casualidades civis e militares ocorreram. Hoje em dia, os dois reinos em questão estão em um pacto de não-agressão. Após horas conversando, e após termos ficado um pouco bêbados, Nadja se despede de mim e vai para o seu quarto no andar de cima, após alguns minutos, faço o mesmo, pronto para uma boa noite de sono.
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