Forlorn

3 Capitulo 2


Ele os avistou.

“Aparentemente, não vão me oferecer muito desafio”, pensou.

“Será que devo apenas pegar o pequeno e fugir? Mas o maior tem mais carne. De toda forma, eu tenho minhas presas”.

A chuva já se foi fazia alguns cantar do galo. Gelada, mas com o calor do sol que já estava no alto não fez muita diferença. Kyan despertou, com sua cabeça repousando em cima de um aglomerado de pedras junto com seu manto para que ficasse mais confortável.

— Bom dia, estava começando a achar que iria ter que comer o seu almoço também.

Kyan ainda estava um pouco tonto de sono. Parecia que não havia tido um descanso daquele em muito tempo.

— Bom dia para você também – respondeu.

— Caso tenha fome, ainda tem alguns coelhos que podemos fazer. Mas decida-se rápido porque nesse sol, eles vão começar a cheirar mal antes do seu estomago roncar.

Meio desnorteado ainda, porém orientado pelo ronco de seu estomago que logo aparecera, respondeu:

— Sim, vou querer um por favor.

Kyan parou para enxergar onde estavam. Uma espécie de acampamento improvisado, com nada além da fogueira que havia sido acesa há um bom tempo já que os galhos e pequenos troncos já se tornaram carvão e algumas de suas vestes que foram usadas como travesseiros e folhas como um colchão. O cheiro de verde também se fazia presente. Debaixo de uma grande arvore que servira de abrigo para a chuva do dia anterior, alta e com marcas que mostravam o quanto tempo ela estava ali. Havia também algumas marcas com iniciais e algumas formas que lembravam um coração, mas que certamente quem as fez já não estavam mais juntos ou vivos, visto que alguns fungos já estavam se formando das feridas. Eles não deviam estar tão longe assim da capital, mas longe o suficiente para que houvesse apenas uma trilha por onde passava as carroças, fora isso, uma vastidão de verde para leste e oeste.

— O rei está-

— Morto, é você me disse – interrompeu o homem, enquanto arrancava mais um pedaço do coelho com a boca e preparava um no galho para o garoto comer.

— Os boatos que circulava na cidade são reais.

De fato, a algumas semanas havia se espalhado boatos de que o rei enlouquecera e se trancafiou em sua torre, pois ninguém o teria visto a um bom tempo. Nem nos seus passeios semanais pelo reino para coletar os impostos e nem em cerimonias realizadas pela Igreja dos Nove, que eram abertas com a benção do rei.

— Eu tenho uma pergunta: como um garoto como você saberia de uma informação dessa? Afinal, para afirmar uma coisa dessa, ou você o matou ou você é-

— Eu sou o filho do rei. – respondeu apressado – e de certa forma eu o matei.

— Você não tem jeito de assassino. Muito menos os olhos. Sua aparência está mais para a de um lobo assustado.

E como sempre observador, o homem estava certo. Além de observar os olhos do garoto, também parou para enxerga-lo por inteiro, visto que a noite passada não o ajudou nisso. Cabelos lisos castanhos, não muito longos, uma pele clara, porém que claramente já viu o sol mais do que deveria para os padrões reais. Olhos verdes como uma esmeralda e algumas sarnas em suas bochechas. Não era magrelo como esperado, mas não havia musculo ali. Poderia ser capaz de segurar uma espada, mas não de balança-la por muito tempo. Cobrindo toda sua aparência, ele carregava um manto azul com emblema real em dourado. Um milagre ninguém da taverna o ter reconhecido e talvez o sequestrado, mas por estarem bêbados, não devem ter reparado nisso.

“Eles estão distraídos, agora devo apenas esperar a hora certa”

— Foi o que eu disse. Eu não o matei, mas eu não tive outra escolha senão fugir – respondeu o garoto enquanto abaixava o tom de sua voz para um soar mais triste – As ultimas palavras de meu pai foram para eu sair de lá, procurar pelo homem que conhecia esse lema e então eu estaria a salvo – completou.

— Você viu o corpo?

— Não, mas ouvi os gritos.

— Gritos podem significar muitas coisas. Dificilmente, morte

— Mas, eu...

— Tenho certeza que seu velho fez o que pode pra te proteger. Sinto muito, mas o máximo que posso fazer é te ensinar a caçar para você poder sobreviver até se reestabelecer.

— Eu vi a forma que você luta. Por favor, me ensine. Desse jeito, -

— Desse jeito você só vai acabar jogando fora o sacrifício do seu pai. – Cortou-o com um tom sincero. – Além do mais, um garoto como você contra algo que conseguiu passar pela guarda real nunca teria chances. Pelo terceiro, quem irá dizer que talvez a própria guarda real já não se tornou sua inimiga a essa altura?

As palavras do homem o acertaram em cheio, porém isso não o abalou tanto. Ele sabia que era verdade cada coisa que ele disse, mas mesmo assim não poderia deixar as coisas do jeito que estavam. “Como vou sobreviver?”, pensava.

— E além disso, não sei se posso confiar em você garoto.

— Meu nome é Kyan, não garoto.

— Certo, e o meu é Senhor Esponja. Não acredito que esse foi o único nome que você pensou para ser seu disfarce.

O garoto gelou. “Como assim? Quem é esse cara”, pensou ele com receio.

— Além do mais, se eu sou a pessoa que você procura, porque escondeu de mim o seu nome?

— Meu pai me disse para não dizer meu nome real. Sob nenhuma circunstância.

— Se seu pai te dissesse que era para você correr berrando que você era o filho do rei até alguém aparecer e te ajudar você o teria feito? Claro que não. O filho de um rei desprotegido dessa forma, apenas inverter as letras não é o suficiente para te proteger, Kayn.

Ouvir aquilo o deixou em alerta. Kayn pela primeira vez parou para observar o homem de quem estava tentando esconder algum tipo de segredo. Cabelos longos e negros como a noite que haviam indícios de terem sido cortados manualmente por ele mesmo, devido sua forma. Olhos com uma sua aparência cansada, com um castanho apagado que certamente foi causada por muitas coisas que ele nem sequer conseguia imaginar. Seu físico não podia ser notado, pois ele estava envolto por uma roupa que combinava o algodão e o couro. Leve e confortável, mas com os pontos vitais certamente protegidos pela solidez do couro, pelo menos o protegeria contra alguns cortes. Ele estava sem a espada, que repousava em um tronco perto dele. Com braços apoiados nos joelhos, ele olhava fixamente para os olhos de Kayn.

— Agora você percebe que não adianta esconder muita coisa de mim, não é?

Aquilo era verdade, mas os ensinamentos de seu pai era a única coisa na qual ele se agarrava para que continuasse vivo.

— Qual o seu nome? – perguntou Kayn.

— E porque quer saber?

— Meu pai – se interrompeu – porque não é justo apenas eu revelar quem eu sou.

O homem notou que o garoto quis por um momento, passar a imagem de que ele estava agindo pelos instintos e não por ordem do pai.

— Bem, eu já sabia quem você era antes de você acordar. Conheço essa capa e também esse método de ocultar o nome. Devo dizer que não é o melhor, vir com um nome totalmente diferente seria melhor, mas isso o faria tremular na hora que você tivesse que dize-lo. E bem, não conseguiria enganar nem mesmo um batedor de carteira.

A expressão de Kayn se assemelhava com a de uma criança que estava recebendo bronca de seus pais. Ao mesmo tempo que entendia que cada uma daquelas palavras era verdade, ele apenas queria mostrar o quão maduro ele já estava. Olhou fixamente para o homem e então disse:

— Meu nome é Kayn Lokigraw. Primeiro e único herdeiro do trono. A pouco tempo, vivi um pesadelo enquanto tentava escapar do castelo para sobreviver por ordens diretas de meu pai. Eu queria lutar, mas o olhar de meu pai já me dissera que não poderia enfrentar o inferno que estava acontecendo aquela noite no castelo. Ele me disse que um homem que estaria com uma espada solitária em suas costas poderia me ajudar. E eu encontrei você. Pode me ajudar?

O homem observou cada uma daquelas palavras. Kayn não havia mentido em nenhum instante, embora o tom de sua voz tenha sido de certa forma o de vergonha. Não por sua falta de força para ajudar o pai, mas sim por estar tão perdido que não saberia nem que tipo de ajuda ele precisava.

— Eu já te disse garoto. Caça e talvez pesca. Nada mais que isso.

— Eu consigo segurar uma espada – diz ele apontando para a espada do homem – ela não deve ser mais pesada que as do castelo.

— Essa espada é mais pesada do que qualquer uma que você irá erguer nessa vida. Vai por mim.

Kayn sentia que essa conversa não ia levar a algum lugar. O homem já mostrou que não tinha interesse em ensina-lo a lutar, mas sim sobreviver. Não que isso não fosse importante, mas o que ele tinha em sua cabeça era o desejo de salvar seu pai.

— Kayn, escute. Eu sei exatamente o que você está sentindo. E sei aonde isso pode te levar. Vou ser sincero com você: recomece. Vou te ensinar como caçar pequenos animais para que você sobreviva. Talvez se você caçar mais de alguns e conseguir armazenar eles em um barril de sal, você pode vende-los e render alguma grana. Isso por si só, já é uma vingança contra aquilo que atacou vocês no castelo. Ficar vivo é sua única forma de lutar.

“Está na hora.”

— Escute – diz Kayn.

Kayn se levantou. Havia algum tempo que ele não esticava as pernas e alongava seus braços. Deu leves tapas nas suas roupas para tirar pedaços de folhas, galhos e até pequenos insetos que haviam escalado os tecidos.

— Eu vou voltar para cidade. – completou.

— E ser morto pela Guarda Real?

— Ficar aqui com uma pessoa que não irá me ensinar a lutar não vai me levar a lugar nenhum. Além disso, na cidade tem a guilda de aventureiros. Posso me alistar lá e pedir para alguém me ensinar.

— De fato, isso seria interessante. Mas e então? Você iria de noite pro castelo apenas pra se jogar na espada do primeiro que vier?

Kayn se agachava para pegar seu manto.

— Não da pra saber se não-

“Agora!”

— Pare – interrompe o homem – tem algo vindo.

— Como assim?

Um galho se partira. A pisada que o homem ouviu era forte o suficiente para quebrar o galho, mas leve demais para ser um humano. O coração de Kayn acelerou, pois não estava entendendo o que estava acontecendo.

— Kayn, não se mexa. Olhe atrás de mim. O que você vê?

Ele curvou a cabeça lentamente para a direita. De repente, de trás do homem, surgiu a figura de um lobo. Grande. Com seus pelos acinzentados e suas patas manchadas pelo barro, já dizia que ele estava de olho neles a muito tempo.

— Um lobo – ele disse – um dos grandes.

O homem sabia exatamente o que fazer. A melhor alternativa contra aquele animal era pegar uma pedra e arremessar em seus olhos. Tamanha dor faria o animal recuar e assim eles teriam tempo para correr.

— Ele está sozinho? – pergunta.

— Sim. E parece que ele sabe que estamos cientes de sua presença.

O homem levou sua mão para sua pequena bolsa de couro e enquanto mexia por dentro dela, Kayn pode se ver seu conteúdo. Eram pedras. Várias. Em diferentes tamanhos e formatos. Parecia até que o homem as estava colecionando.

— Quando eu der o sinal, você corre e sobe em alguma arvore.

— Entendi – respondeu Kayn.

Mas essa não era a intenção de Kayn, que olhava fixamente para a espada do homem. Estava muito longe para ele ir pega-la, mas talvez depois que ele acertasse o lobo, ele teria essa chance. Porém, o lobo não esperou Kayn terminar de pensar e saltou na direção do homem, assim o derrubando no chão e mordendo seu antebraço enquanto a espada havia sido empurrada para perto dele. O lobo mordia de maneira feroz, talvez o antebraço do homem já estaria em pó se não fosse pela proteção que ele utilizava. Ele se debatia, tentando enfiar o pé para chutar o lobo para longe, mas o mesmo se movimentava para direção da cabeça. Se o lobo soltasse, poderia abrir espaço para os dois fugirem, então ele apertava mais e mais, na intenção de deixa-lo exausto. Enquanto eles lutavam, uma pedra foi arremessada na direção deles. E logo depois outra, que dessa vez acertara o lobo bem na cabeça. Ele rosnou de dor e ao virar os olhos, percebeu Kayn parado, com uma cara de uma criança assustada.

“Você será o primeiro então.”

O lobo largou o braço do homem e já partiu pra cima do garoto.

O plano de Kayn era simples: quando o lobo saltar, ele iria puxar a espada do homem e acabar com ele em apenas um golpe no meio do ar. Parecia simples e perfeito demais para funcionar. O lobo saltou, mas Kayn ao puxar a espada se deparou com algo que despertaria o medo nele.

A espada estava quebrada. Havia um pouco de lâmina acima da guarda da espada, mas não o suficiente. E além disso, ela emanava um leve brilho azul, mas ao contrario do que aparentava, ela estava com a lâmina totalmente cega.

“Morra!”

O desespero tomou conta de Kayn. Enquanto o lobo já abria a boca para morder sua garganta, ele só conseguia pensar no quão cruel a vida se tornou para ele. Um príncipe, destinado a ser rei. Em apenas um dia, ele perdeu seu título, seu nome, seu futuro. Ele fechou seus olhos e pode sentir um pouco da saliva do lobo caindo em seu pescoço. Mas ele não havia morrido. Quando abriu os olhos, ele se deparou com uma cena. O homem havia conseguido agarrar o lobo, de tal maneira que ele pode usar uma técnica que matava até mesmo leões.

“Quando?! E como?!”

O homem se agarrava ao pescoço do lobo, usando seu braço que havia sido machucado como uma forca, enquanto aplicava pressão usando o seu braço que estava em bom estado. O lobo se debatia. Rosnava. O homem trincava seus dentes e fazia uma expressão clara de dor e ódio, mas acima de tudo, o desejo de proteger. E assim se passou alguns segundos.

“Maldito!”

E minutos.

“Maldição!”

De repente, num movimento de braços, ouviu-se um estralo. E depois, o silencio. O lobo agora estava tendo seus últimos espasmos. Seu rosnar se abaixava para uma leve liberação do ar que um dia enchera seus pulmões. Ele estava morto.

O Homem o deitou no chão. Apesar daquela criatura quase ter ceifado a vida de ambos, ela não merecia o descaso. Afinal, ele era um animal. E o outro, um humano.

— Que o quarto leve embora sua alma e que seus restos alimente o quinto. – Orou o homem em um tom cansado.

Após isso, ele caiu no chão. Tentou usar as mãos para se apoiar, pois sabia que se ele deitasse, talvez não levantaria depois.

— Sua espada... está quebrada...

O homem olhou para Kayn, que agora estava com milhares de pensamentos na cabeça. “O que eu fiz?”, “Porque a espada está quebrada?”, “Ele está furioso!”. Porém, o que ele ouviu, foi um simples:

— Você está bem? – em um tom gentil – Se machucou?

— Não pense em mim, olha só pra você! – replicou.

O homem sorria. De uma forma que talvez não tenha feito em anos.

— O importante é que você está bem.

— Temos que voltar pra cidade, esse ferimento no seu braço pode não ter sido tão feio, mas temos que limpar isso.

— Isso? É, tenho que dar uma olhada depois.

Kayn não estava entendendo. Um homem que ele conheceu a tão pouco tempo havia se metido num confronto mortal apenas para poder protege-lo. O homem se levantou, mexeu os braços para ver se estava tudo certo com sua flexibilidade. Seu pulso estava doendo por conta da mordida e da luta, mas nada que um pouco de descanso não o faria se sentir melhor.

— Você não está bravo? – disse Kayn impaciente.

— Bravo? Sim, mas estou mais aliviado em ver você bem. – disse o homem enquanto recuperava o ar.

— Porque?

— Eu não podia falhar com um velho amigo.

— Você conheceu meu pai?

— Isso é história pra outro dia – respondeu enquanto retirava o cinto para poder segurar um remendo que estava improvisando.

— Se vocês são amigos, isso não é motivo a mais para me ajudar?

— E eu estou. Estou ajudando seu filho a não seguir o caminho da vingança.

— Eu não estou nessa por vingança. Eu só quero salvar meu pai.

— Mas agora você acha que ele está vivo, mesmo depois dos gritos?

— Gritos podem ser qualquer coisa, não é mesmo?

A situação se invertera. De fato, Kayn teve sua casca levemente aberta após alguns momentos com o homem. Aquele encontro com o lobo havia deixado ambos mentalmente cansados, apesar do sol ainda se encontrar céu. Kayn pegou a espada do homem e a guardou em sua bainha.

— É por isso que você não a usa? – perguntou ele.

— Não. Tenho outros motivos.

— Então porque você a carrega por aí?

— Na natureza, alguns animais pequenos, que facilmente seriam devorados por outros, ao invés de desenvolverem camuflagens que os esconderiam de predadores, acabam tendo cores mais vivas, que os destacam no meio de toda uma floresta.

— Porque eles são venenosos, não é?

— Alguns, sim. Mas isso não é uma regra. É um alerta para todos de “não mexa comigo”, da mesma também não é qualquer um que vai querer enfrentar alguém com uma espada. Melhor você ter presas e nunca as usar do que morrer sem ter tido meios para lutar.

— Da maneira que você fala, até parece um caçador.

— Eu tive... um bom mentor. Que caminha comigo a todo instante.

Ambos já haviam se organizado enquanto conversavam. Kayn havia batido em seu manto para deixa-lo limpo para que pudesse vesti-lo. O manto azul escuro com o logo em dourado parecia que havia ganhado um novo brilho graças a água da chuva. Enquanto isso o homem colocava sua espada novamente nas suas costas, por meio de um jogo de couro que a deixava firme o suficiente para que ela nunca se soltasse, mesmo se ele fizesse alguma acrobacia. Se agachou para pegar algumas pedras para reencher sua bolsa que acabou se esvaziando devido ao combate com o lobo.

— E o que faremos com ele? – apontando para o cadáver – vamos enterra-lo?

— Não, nunca – disse o homem enquanto erguia o corpo do lobo e o colocava em seu ombro – Toda vida tem que ser aproveitada ao máximo. Irei tirar o couro dele para fazer uma roupa mais quente. A carne para nos alimentarmos e bem, os ossos podemos fazer armadilhas para coelhos e lagartos.

— Seu professor realmente te ensinou muitas coisas. Mas para onde nós iremos?

— Eu não vou te ensinar a lutar. Vou te ensinar a caçar e te dar algumas noções de sobrevivência. Mas conheço uma pessoa que pode nos ajudar, mas a viagem será um pouco longa.

— Para onde iremos?

O homem levantou um sorriso discreto.

— Para o Deserto de Zihr.

— Deserto? Mas lá é impossível que exista vida devido ao calor, não é?

— Zihr é um Oasis. Uma cidade habitada no meio do deserto cruel. Se nos apressarmos, poderemos chegar na estrada para Zihr até o crepúsculo. Podemos usar a pele desse lobo para fazer uma camada extra, já que o deserto é inversamente frio durante a noite.

Kayn sentia em seu coração que iria começar uma jornada, a mesma que vários heróis fizeram em longos contos que seu pai o contava durante sua infância. Porém ele já vivenciou parte do horror dessas aventuras que não são registradas.

— E a propósito – disse o homem – me chame de Ayel.

— Esse não é seu nome de verdade, não é mesmo? – questionou.

— Como você saberá? – perguntou em um tom sarcástico.

— Você não me contou da primeira vez, então não tem o porquê você dizer agora – respondeu Kayn – por isso vou te chamar de Senhor Esponja.

— Fica com Ayel que é mais fácil seu sabichão.

Os dois caminharam pela estrada. Algumas carroças velhas com camponeses passavam por eles, mas nenhum parava para oferecer carona. Conseguiram conversar com uma caravana para pegar uma faca para poder escalpar o lobo. Porém, ela não iria para a direção do deserto então foi tudo que eles puderam fazer para ajudar os viajantes. Talvez estivessem muito atrasados em suas vidas que não poderiam ajudar outras. Essa era a vida nesse reino. Ayel sabia que o caminho mais seguro era pela trilha das carroças, mas, como eles haviam lidado com a única ameaça daquele local, ele decidiu pegar o atalho por entre as arvores. Afinal, que tipo de animal se atreveria viver nas mesmas áreas que aquele monstro?

“Eu vou ficar mais forte”, Kayn repetia para si mesmo, “Eu vou salvar meu pai”.

De longe, Ayel apenas observava o jovem, lembrando as vezes de si mesmo quando era mais jovem. Tempos esses que ele preferiria esquecer. O rei que outrora foi seu amigo, agora poderia estar morto. E a única criança que ele teve estava em suas mãos. “Está acontecendo novamente”, ele pensou, “Mas agora eu posso mudar o final”.

Enquanto passavam por entre as arvores, o cheiro do verde agora se misturava com o cinza das areias. As flores que antes eram cheias de cores, começavam a secar por entre seus pés. Kayn sentiu seu manto se enroscar em um galho seco, mas nada que um puxão não fosse o suficiente para quebra-lo. De longe, uma aparência se formava. Dunas. Grandes montanhas de areias cortavam o crepúsculo, formando uma paisagem que nem mesmo um artista conseguiria replicar em uma arte.

— Quem estamos procurando?

— Um velho amigo, mais pra conhecido. Seu nome é Susan.

— Susan? Não é nome de garota?

— Em Zihr, “Su” e ”san” possuem um significado. “Su” para areia e “san” para “aquele que é amigo”. Nomes carregam significados. É um costume que temos de pegar palavras com significados belos e harmônicos e coloca-los em mulheres e outras palavras mais brutas e fortes e por em homens. Porém o inverso é totalmente valido.

— Eu nunca conheci um homem com nome de mulher.

— Então, deixe-me te contar garoto – disse o homem enquanto segurava uma risada – “Ka” e “Yn”. “Ka” vem de “aquele que nasce” e “Yn” é o nome de uma flor rara no reino.

— Ei! Eu sempre achei que era coincidência meu nome ter parte do nome da flor favorita da minha mãe.

— O importante garoto, é nunca julgarmos ninguém por seus nomes ou aparências. E sim suas almas.

— E Ayel? Significa o que?

— “Ay” significa viajante e “el” é apenas “um”.

Ambos já estavam com seus pés na areia, tendo seus passos atrasados por apenas algumas folhas e galhos que estavam soterradas pelas areias do deserto. Ayel já sabia que era hora de preparar novas roupas. Kayn pegou a faca que haviam comprado a pouco e entregou para o homem.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Você já fez várias, garoto.

Kayn sem nem ligar pro que Ayel disse.

— Qual era o nome do seu mentor? E como ele te acompanha a todo momento?

Ayel olhou para Kayn.

— Morte. Seu nome é Morte.

Kayn sentiu um gelo em suas espinhas. Podia ser pelo fato dos ventos do deserto estarem fortes naquela hora e isso significava que eles precisariam dessas novas roupas antes que eles congelassem. Mas também porque aquilo que o homem havia dito tinha lhe assustado mais do que o próprio lobo.

Notas finais
Bem, agora a proxima parte vai ficar para semana que vem, porque to organizando muita coisas de listas pra significados e tudo mais haha
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.