Forksford
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Kat acordou sentindo o sol em seu rosto. Pequenos feixes passavam pela cortina e iam diretamente para ela. Sentou-se devagar, tentando recordar com clareza tudo o que havia acontecido no dia anterior. Sentiu uma movimentação e olhou para o lado, tomando um susto ao ver Finn, que ainda dormia tranquilamente, virado para ela. Kat então conseguiu lembrar-se de tudo. Voltou a sentir vergonha pelo episódio com a pessoa que dormia ao seu lado, mas logo se tranquilizou ao pensar em como ele se importara com ela. Finn se mexeu novamente, desviando a atenção da garota, absorta em seus pensamentos, que sorriu. Agradecida, Kat beijou a face adormecida do rapaz e levantou-se com cuidado para não acordá-lo.
A morena colocou seu biquíni preferido, shorts jeans e uma regata amarela, já pensando na ida ao lago mais tarde. Saiu do quarto e caminhou até a cozinha. Max teve o cuidado de deixar comida suficiente para deixá-los à vontade, além de ter uma variedade de opções para cada refeição. Kat preparou o desjejum para todos e depois foi comer na varanda. Montou a rede, inclinou-se e ficou lá, balançando para um lado e para o outro, sem pressa alguma. Não queria acordar os outros naquele momento, pois com certeza eles acordariam de mau humor, xingando e batendo em qualquer um que estivesse perto.
Finn abriu os olhos lentamente. Não sabia se fora um sonho, mas podia jurar que sentira os lábios de Kat em seu rosto. Cruzou as mãos atrás da cabeça e ficou ali por alguns instantes, pensando. Lembrava perfeitamente que invadira o quarto dela e que haviam se beijado loucamente, mas não conseguia ainda acreditar que realmente tinha feito aquilo. Recordou-se da primeira vez que Kat aparecera no estúdio. Ela estava linda e muito animada por testemunhar uma obra sua transformar-se em filme. Era atenciosa e educada com todos e isso chamou sua atenção. Por um feliz acaso, ela se aproximou do grupo de amigos dele e logo passaram a conviver e conversar todos os dias.
Apesar de galã de sucesso entre as mulheres, Finn não entendia porque não tinha coragem de tentar algo com Kat. Ela mexia em seu interior de um jeito que mulher alguma jamais fizera. Assim, eles apenas compartilhavam amizade, até o dia anterior. Não podia deixar de sorrir ao relembrar da expressão desapontada de Kat por terem sido interrompidos pela pedra.
Depois de tanto meditar, Finn voltou à realidade por um instante e reparou que Kat não estava na cama. Levantou-se e foi tomar uma ducha, com os mesmos pensamentos na cabeça. Ao sair, vestiu a primeira bermuda que avistou e foi para a cozinha atrás de seu desjejum. Por preguiça de preparar algo, optou pelo que já estava pronto e seguiu para a varanda atrás de paz e sossego. Assim que atravessou o portal, travou a respiração de susto ao encontrar Kat na rede, deitada e tranquila.
– Parece que gostou da minha comida — disse a moça, sem abrir os olhos.
– Como sabia que era eu? — perguntou Finn, incrédulo e sem jeito.
– Intuição feminina, talvez. — respondeu. Na verdade, o cheiro do desodorante de Finn era inconfundível e forte o suficiente para ser sentido por qualquer pessoa em qualquer canto do cômodo que ele entrasse.
Kat ajeitou-se na rede e deu espaço para Finn sentar.
–Admito que a comida seja boa, apesar de eu nem saber exatamente o que estou comendo. — disse Finn, ao sentar.
– É uma receita antiga de família. Não me recordo do nome, então nem eu poderei dizer do que se trata. — disse Kat, rindo.
Ambos ficaram em silêncio por alguns minutos até que Finn terminasse sua refeição.
– Kat, te devo desculpas por ontem. — começou o rapaz.
– Desculpas pelo o que? — perguntou Kat inclinando a cabeça levemente para o lado.
– Você sabe....
– Eu realmente não sei.
– Você não se lembra do que aconteceu ontem? — perguntou Finn, incrédulo.
– Não — mentiu Kat. Ela lembrava muito bem o que aconteceu, mas não sabia o que pensar daquilo tudo. Não sabia se estava pronta pra aceitar que gostava do cara mais mulherengo do estúdio.
Finn olhou para baixo, confuso. Não sabia se contava a ela ou não.
– Bom, já que não me lembro, não acho que deva pedir desculpas. — disse Kat, tentando quebrar o silêncio.
– Ah, sim... Tudo bem então. — disse Finn, tranquilizado.
Depois de quebrado o gelo, ambos conversaram tranquilamente sobre assuntos banais, apenas para passar o tempo. Ainda pensavam sobre o ocorrido, mas ainda nenhum dos dois sentia-se pronto para expressar seus pensamentos.
Finalmente, Finn começou:
– Kat, eu realmente preciso contar sobre ontem. Não acho certo esconder isso de você por mais tempo. — e então narrou o ocorrido.
Enquanto escutava a narração, Kat relembrava cada sensação, cada toque. Percebeu que o rapaz tinha o cuidado de escolher as palavras, o que era raro. Pelo discurso dele, pôde então ter uma certeza: ela não seria apenas mais uma na vida dele. Ao terminar, Finn completou:
– Bom, acho que te devo desculpas por isso tudo. Você aceita?
– Posso responder da minha forma? — perguntou Kat, sorrindo.
Ele assentiu e Kat o beijou nos lábios delicadamente. Finn a olhou supreso depois que se separam, mas logo se deixou levar e a beijou novamente. Ela sorriu e o abraçou, apoiando a cabeça em se ombro. Sua intenção, na verdade, era esconder o rosto, pois ainda estava envergonhada por terem começado tudo tão freneticamente.
Finn encostou-se na rede e deixou que ela repousasse a cabeça em seu peito para poder acariciar os longos cabelos castanhos da moça. Ele se sentia aliviado e feliz por finalmente ter conseguido contar o que acontecera a Kat, por ela ter aceitado tudo tão tranquilamente e por, possivelmente, ter deixado a zona da amizade para sempre.
Finalmente me entendi com essa menina, pensou Finn enquanto olhava a face da morena adormecida.
Assim ficaram por algum tempo, até que Kat acordou.
– Onde estão todos? — ela perguntou — Ainda estão dormindo?
Fin respondeu que sim e decidiram que deviam acordar os outros para não atrasar mais a ida à lagoa que combinaram no dia anterior. Ele foi para o quarto de Max e Tif, enquanto Kat foi para o quarto de Kevin e Cloe.
Finn abriu a porta lentamente e jogou-se em cima do casal.
– Vai pro Inferno, Finn, seu idiota! — gritou Tif, cobrindo a cabeça com a coberta — Ninguém te chamou aqui, merda!
– Ninguém mandou demorar a acordar — respondeu Finn, rindo, enquanto tentava desviar dos tapas e socos de Max.
– Babaca, filho de uma macaca no cio! Vai atrás da sua mulher e deixa a gente em paz, seu homossexual confuso! — gritou Max, ainda tentando bater em Finn.
– Vamos, casal! Não combinamos que iríamos ao lago hoje? — disse Finn, após pular da cama e puxar a coberta do casal. — Levantem, logo!
Por fim, decidiu deixá-los a sós para se arrumarem e saiu do quarto, rindo. Logo em seguida, encontrou Kat, vermelha de vergonha.
– O que houve? — perguntou alarmado.
– Ah, nada demais. Só entrei e dei de cara com os dois sem roupa na cama e sem cobertas. — respondeu Kat.
Finn gargalhou da expressão dela enquanto relatava o ocorrido, mas calou-se após receber um tapa no braço.
– Continue.
– É isso. Não consegui acordá-los. Saí do quarto logo em seguida.
– Dê-me 5 minutos e seu problema estará resolvido.
Finn foi até a cozinha e voltou com dois enormes copos de água com gelo nas mãos, sorrindo maliciosamente, e entrou em silêncio no quarto de Kevin e Cloe. Alguns segundos depois, gritou alguma coisa parecida com "Acordem, casal pornô!" e saiu correndo do quarto, gargalhando e segurando os dois copos vazios, enquanto o casal gritava maldições e xingamentos.
– O que você fez? — perguntou Kat.
– Joguei um copo na cabeça da Cloe e o outro nas partes baixas do Kevin. — respondeu Finn.
Kat gargalhou até ficar sem ar ao imaginar a cena.
Depois de acalmarem os ânimos, ambos foram para a sala e esperaram os outros se aprontarem. Um pouco mais de meia hora depois, todos estavam prontos e terminando o desjejum.
Os amigos saíram da cabana e partiram em direção ao lago, conversando animadamente. Cloe e Kevin, que estavam de mau humor pelo banho gelado forçado, logo voltaram ao normal.
– Chegamos! — gritou Max abrindo os braços.
Os homens logo começaram a se despir e a caírem na água. Kat não teve pressa alguma em se molhar. Em vez disso, aproveitou o momento para admirar a paisagem e ficou intrigada. Não havia viva alma por perto, o que lhes dava privacidade total. Mas não havia também qualquer moradia na redondeza. Apesar do píer, não havia barco de pesca nem algo do gênero. A mata fechada próxima parecia escura e assustadora. Olhou rapidamente as árvores, porém voltou para elas logo em seguida. Não conseguia distinguir a imagem, mas algo grande estava entre as árvores, observando imóvel e em silêncio. Kat tentou forçar a visão, mas não conseguia, por mais que tentasse, entender o que era aquilo. Estava quase indo em direção a tal coisa, quando Cloe e Tif gritaram, desviando a atenção de Kat.
Elas estavam sendo perseguidas pelos rapazes, que queriam jogá-las na água. E ela não iria escapar também. Kat voltou seu olhar para as árvores, mas a figura não estava mais lá. Despiu-se a tempo para que fosse capturada e jogada na água sem molhar suas roupas.
O lago era profundo e suas águas eram extremamente escuras, como se fossem petróleo. Nada que estivesse abaixo da superfície podia ser visto, o que dava calafrios em Kat. O frio e a sensação de estar no meio do vazio foram suficientes para ela não se demorar na água. Em vez disso, sentou-se na ponta do píer e ficou lá, observando os amigos brincarem. Não demorou muito, Cloe juntou-se a ela.
– Lago estranho, não é mesmo? — perguntou a amiga, tirando o excesso de água dos cabelos.
– Demais. Não precisa ficar aqui, estou bem. — disse Kat.
– Eu também não gostei da sensação de vazio desse lago. Parece que a qualquer momento algo vai me puxar para baixo, ou algo do tipo. — contou Cloe.
Kat sentiu-se aliviada. Não queria dizer nada aos amigos para não estragar a brincadeira, mas percebeu que não era a única. Estava entretida na conversa com Cloe, quando um assunto veio em sua cabeça.
– Cloe, desde quando você gosta do Kevin? Achei que o detestasse! — perguntou Kat, cutucando a amiga com o cotovelo.
– Eu também achava isso. Mas parece que não é verdade. — respondeu Cloe — E não me venha com essa, você não dormiu sozinha, não é mesmo senhorita? — disse piscando o olho.
– Pelo menos dormi de roupa e não rolou nada durante a noite! — retrucou Kat.
– Por enquanto... — disse Cloe. — Quem diria que um dia fossemos gostar desses feiosos.
– Fale por si mesma. — respondeu Kat, pois ela sabia que seu Mr. Músculo estava longe de ser considerado feio — Mas, sim, confesso que nunca pensei que fosse gostar de um galinha como o Finn...
– Nem eu de um pirralho como o Kevin...
Ambas ficaram em silêncio por alguns instantes, enquanto observavam os amigos e pensavam sobre seus novos sentimentos.
Tif não demorou muito para se juntar a elas e ficou deitada no píer esperando o sol esquentá-la.
Kat pensava que esta parecia ser mais uma viagem de casais do que de amigos, o que não era esperado, mas que era algo que ela sempre tivera desejo de fazer. Contudo, logo prometeu a si mesma que não concordaria em fazer troca de casais nem se a pagassem para isso.
De repente, uma nuvem cobriu o sol e ventos gélidos começaram a soprar. Kat e as outras reclamavam do frio, mas os rapazes apenas respondiam para que elas também caíssem na água até o sol voltar. Enfim elas cederam, mesmo com o medo que Cloe e Kat tinham daquele lago tenebroso. Cada uma segurou-se no píer como pôde, não querendo se afastar dele de forma alguma. Finn aproximou-se de Kat e a segurou, para esquentá-la. Dobrou uma das pernas para que ela se apoiasse e assim ficaram durante alguns segundos. Kevin havia feito o mesmo com Cloe, que passara os braços em volta do pescoço dele e repousava a cabeça em seu ombro. Diferentemente dos outros, Tif e Max brincavam entre si. Tif já estava acostumada com aquele lago, por isso não estava incomodada como Cloe e Kat.
Os ventos intensificaram e a nuvem teimava em não deixar o sol aparecer. Cloe e Kat pediram, quase implorando, para que voltassem para a cabana e se aquecerem. Subitamente, em resposta ao pedido delas, os ventos aumentavam ainda mais, uivando e balançando as copas das árvores, e enormes gotas de chuva começaram a cair. Todos saírem da água pegando as roupas que estavam no chão e só pararam quando já estavam dentro da cabana. Encharcados e tremendo de frio, a competição pelos banheiros foi intensa. Por fim, foi decidido que os homens tomariam banho por último.
Kat estremeceu ao sentir a água quente em sua pele. A sensação era ótima e o alívio, instantâneo. Enquanto se lavava, ela viu alguém abrir a porta pelo vidro fosco do boxe. Ela ficou paralisada. A figura era imensa e assustadora. Havia alguma coisa em sua mão. A figura foi chegando cada vez mais perto e o coração Kat batia acelerado. Ela não sabia o que fazer e nem tinha como se defender. A enorme coisa estava muito perto e estava abrindo a porta do box. Kat estava quase gritando, até que surgiu um Finn, de rosto avermelhado e confuso.
– Desculpa entrar assim de novo, mas você esqueceu sua toalha lá fora. — disse Finn, virando o rosto.
– Ah, que ótimo... Some daqui, Finn! Você quase me matou de susto! — respondeu com raiva e jogando água nele.
Kat respirou fundo e tentou se acalmar. Repetiu várias vezes que estava tudo em sua cabeça, não era nada demais. Terminou seu banho, vestiu-se e foi para a sala esperar os outros terminarem. Max, ainda com roupas molhadas, estava sentado próximo a lareira com os outros dois amigos, enquanto aumentava o fogo, colocando mais madeira seca. Instantes depois surgiram Tif e depois Cloe, ambas limpas e aquecidas, tal como Kat. Mais alguns minutos depois, todos estavam arrumados e aconchegados na sala próximos à lareira, conversando e assistindo televisão, enquanto uma chuva torrencial caía do lado de fora.
Tudo ia bem até que as luzes se apagaram. Cloe apenas não gritou devido à luz que a lareira produzia. De repente, algo foi jogado pela chaminé e caiu na lareira, espalhando uma poeira preta que apagou o fogo. Não apenas Cloe, mas todos gritaram de susto, pois não tinham ideia do que estava na lareira. Menos de um minuto depois, as luzes voltaram. Eles se entreolharam e a expressão de medo era visível em cada rosto.
As atenções foram voltadas para o objeto que causara aquilo tudo. Era uma lata suja e grande com algo escrito.
Kevin se aproximou devagar da lata, como se ela fosse explodir a qualquer momento, e a pegou. Ficou paralisado por alguns instantes e arregalou os olhos após ler mentalmente. Com o medo nítido em seu rosto, leu os seguintes dizeres em voz alta:
1- Deus veio até minha casa e eu o matei.
2- Cristo morreu por minha causa; a esperança morreu com ele.
3- Até o amanhecer, um corpo deverá ser oferecido como sacrifício.
4- Que o jogo comece.
Um trovão ecoou, como que em resposta ao fim da leitura.
De repente, ouviram-se passos pesados e lentos vindos de cima. Alguma coisa pesada andava pelo telhado.
As luzes apagaram-se novamente.
Corações disparados, respirações ofegantes e o medo reinavam no cômodo.
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