Forjados em Sangue: A Ascensão das Sombras
3 III - O coração da Floresta
Notas iniciais

As portas de madeira clara se abriram rápida e silenciosamente e Katrina passou por elas, entre um voo e um andar, acenando com a cabeça para um par de elfos que montavam guarda. Guarda esta que já não estranhava seus hábitos — ou se o fazia mantinha a opinião para si. Ela subiu a escadaria circular sem emitir um ruído sequer, em urgência calculada. Venceu um longo corredor, amplo e de teto alto. Respirou fundo e levou o nó dos dedos a madeira, uma única vez antes de ouvir:
— A rainha não está, milady.
Era a voz de uma outra fada, uma das responsáveis pela manutenção do palácio. Katrina arqueou uma sobrancelha, voltando-se de súbito para a outra:
— Perdão... Como disse? A rainha Ashara regressou ontem mesmo!
— Ela saiu há pouco tempo, disse que tinha assuntos a tratar e foi.
— Onde ela foi desta vez? — a pergunta soou como uma retórica, ainda assim, a resposta foi dita.
— Desculpe, milady, ninguém sabe.
— Não é culpa sua — retorquiu, irritada, girando os calcanhares e tomando um rumo diferente.
Não era culpa de ninguém, ela sabia. Mas a menção das irresponsabilidades de Ashara sempre a deixavam furiosa. O descaso que a Liboiron demonstrava, somado ao insistente lembrete de que — não fosse o massacre de seu vilarejo e os tantos dias que esteve desacordada — ela deveria ser a rainha eram capazes de inflamar uma raiva profunda na Vulchanov.
Os papéis deveriam ser invertidos. Sua prima longínqua deveria ser apenas a conselheira. Era a lei, nenhuma família podia ocupar o posto da realeza duas vezes consecutivas, estes eram os costumes. Contudo, ao regressar à Corbris soube que Ashara era declarada a última sobrevivente da linhagem original e, com isto, era a nova monarca coroada, sem nada que ela pudesse fazer a respeito.
Katrina voou pelos corredores, pensando em como aquela ausência era inconcebível. Necessitava chamar o conselho e informar o que tinha descoberto, porém teria de ser mais comedida que o costume, afinal os demais representantes buscariam as falhas e notariam rapidamente a ausência de Ashara — como sempre.
— Lady Katrina.
Ela voltou-se de súbito, se deparando com o Grão-senhor dos elfos. De pele levemente acinzentada e cabelos negros e longos, marcados somente por uma tiara prateada sobre a testa. Curvou-se suavemente, enquanto seus pés tocavam o chão.
— Lorde Dárius.
— O que fazes de pé tão cedo?
Fosse noutra situação, teria dito que não dormira de fato, porém viu naquela pergunta uma oportunidade sutil.
— Tenho notícias dos Três Reinos.
O elfo arqueou uma de suas longas sobrancelhas, perguntando em sutil reprovação:
— Não me diga que atravessou nossas fronteiras, sabes bem como é perigoso, principalmente para os teus. Como faria para esconder tuas asas?
Era uma preocupação quase paterna, Dárius era um dos mais velhos e tinha convivido com o pai da fada, bem como conhecera sua mãe nos mesmos conselhos que Katrina agora ocupava.
— Não atravessei as fronteiras — negou de prontidão.
— Pressuponho então que foi aquele garoto que trouxe estas notícias...
— Não importa. O que nos interessa mais, o mensageiro ou a mensagem? — antes que o elfo contrapusesse seu argumento, completou — Os homens dos Reinos virão a nossas terras. O rei Hemlock está desaparecido, acreditam que sumiu nos territórios da floresta.
— Se isto for verdade...
— É.
A convicção dela o surpreendeu. Antes, entretanto, que completasse seu pensamento interrompido, um dos guardas se aproximou, curvando-se ao falar:
— Lady Katrina, Lorde Dárius, os caçadores Thalean e Bard estão aqui e desejam falar com o Conselho de Todos.
— Diga-lhes para ir ao Salão Leste — quando o guarda se afastou, Dárius estendeu o braço para Katrina — Acompanhas-me?
* * *
O Palácio de Ymera, como era chamado, era uma construção imponente e austera no centro de Corbris. Tratava-se da sede do Conselho da Floresta — também chamado de Conselho de Todos, composto pelos representantes das diversas raças. Como tal possuía inúmeros quartos, um para cada membro, somados aos honoráveis quartos para visitantes. Arquitetonicamente, era uma construção alta, de traços curvos e telhado oval, de longe parecer-se-ia com o botão de uma flor, encostado na imensa árvore, destacando-se em meio às construções baixas de Corbris com seu material de tom claro e reluzente. Aquele Palácio era um orgulho para os povos, o símbolo da paz entre as raças, apoiado na Mãe da Vida — Ymera — cuja copa alta cobria toda a cidade como um manto, de galhos escuros e folhas verdíssimas. E as suas raízes mergulhavam e emergiam da terra irrigada pela junção dos dois maiores rios da região. De dia, a luz perpassava pela árvore, transformando a Cidade-coração em um interessante jogo de luz e sombras.
Thalean jamais se acostumara ao efeito de Corbris em seus olhos. Sua mente pensava em como a luz se confundia com a própria magia ao cavalgar pelas ruas de seixos lisos. Deveria ser a primeira vez que pisava na cidade desde o falecimento de seu pai — um humano da fronteira — a primeira que se poria sob o julgo daqueles que tanto prezavam suas linhagens puras, sentia-se um invasor em terras inóspitas, ainda que fosse necessário. Era seu dever, por mais desagradável que lhe parecesse.
Ele saltou do cavalo, deixando-o solto, era sabido a maestria dos elfos com os animais e, graças aos deuses, ele parecia ter herdado isto de sua mãe — quem quer que fosse.
— Jamais imaginei que a cidade fosse desse modo — comentou Bard ao desmontar, amarrando o cavalo com que vinha. Thalean deu um meio sorriso, antes que o humano completasse — Realmente foi criado aqui?
— Em parte. Logo vai descobrir que mestiços como eu não são bem vistos por aqui. Aliás, Bard, não sei como reagirão a você.
— Muito bem, eu espero. Não quero sujar as mãos hoje. — o humano retrucou com um sorriso cínico no rosto.
Passaram por uma pequena ponte, atraindo os olhares desconfiados. Thalean logo retirou o capuz, os traços humanos misturando-se ao cabelos dourados cortados pouco acima da nuca e orelhas ligeiramente menores e pontudas. Normalmente, não precisava de mais que seu rosto para ser reconhecido, mas por via das dúvidas levantou as mangas, exibindo os antebraços e as velhas tatuagens rúnicas sobre os braços. Marcas que lhe diziam exatamente sua posição, sua linhagem, como uma espécie identidade cravada na pele em desenhos suaves.
Um par de lanças cruzou-se a frente deles, sobressaltando Bard.
— Humano, identifique-se.
— Este é Bard Galagher — Thalean respondeu, fazendo com que os elmos se voltassem para ele — um dos Dez da Corte Marcial.
— Caçadores. O que querem? — uma voz diferente da primeira perguntou. Bard não sabia dizer de onde vinham, pareciam falar em uníssono e se mover da mesma forma. As lanças prateadas continuavam a sua frente, sem se mover um centímetro.
— Trazemos informações dos Três Reinos que devem ser ouvidas pelo Conselho de Todos.
— Esperem aqui — ordenou, assim que um guarda abandonava seu posto e entrava no palácio, no mesmo instante em que era substituído por outro.
— Como se pudéssemos passar... — resmungou Bard.
— Normalmente não há tanto protocolo, mas acho que sua companhia trouxe esses procedimentos arcaicos de volta.
— O que quer dizer?
— Viu algum humano na Floresta durante o trajeto?
A pergunta ficou sem resposta, porque no instante em que Bard pensava no que dizer, o guarda regressou.
— Lorde Dárius pediu para que se encaminhassem ao Salão Leste — informou, abrindo a passagem com um dos braços.
O meio-elfo acenou em concordância e caminhou, seguido pelo homem. Foram escoltados todo o trajeto, até um corredor largo, Bard observava a tudo com certo fascínio, já Thalean conhecia o rumo, ainda que o palácio se fizesse confundir em meio a portas e corredores muito semelhantes.
— Recomendo que o humano não entre — falou o guarda, antes de se afastar dando-lhes passagem.
— Recomendo que siga com suas obrigações e me deixe cumprir as minhas — Bard contrapôs, porém o elfo já estava longe demais para ouvir.
Os dois caçadores caminharam lado a lado em direção à porta entreaberta, ouvindo uma voz masculina pouco antes de adentrar o Salão.
— Não podes simplesmente vir com uma notícia desta apenas porque ouviu daquele mercenário.
— Lorde Dárius, ainda que seja falsa, esta notícia nos é preocupante — a resposta em voz feminina veio em seguida, fria, ríspida e igualmente melodiosa — Ou será que já esqueceste o que uma excussão de homens pode nos causar?
— Não me esqueci, lady Katrina — Dárius respondeu com um suspiro — contudo há de convir que apoiar argumentos na palavra daquele garoto é tolice.
Antes que houvesse nova resposta, o meio-elfo se adiantou e entrou no Salão amplo e bem iluminado, curvando-se para as duas figuras que discutiam no centro.
— Lorde Dárius, Lady Katrina — falou. Bard o acompanhou, curvando-se para ambos com a mesma saudação.
A fada emitiu um suspiro baixo, quase inaudível, afastando-se então do Grão-senhor, então olhou para Thalean, então para Bard, analisando-o. O caçador a observou intrigado, era a primeira vez que se deparava com uma das duas últimas fadas da nobreza. Admirou os cabelos prateados presos em uma trança de raiz, que estendia-se até pouco antes da cintura, o rosto esguio e com um quê de sublime, os ombros curvados sutilmente para trás, as asas que arrastavam pontas inquietas sobre chão. Logo voltou-se para o elfo cinzento, enquanto o ouvia dizer:
— O que é tão urgente que exija essa visita?
— O rei Hemlock está desaparecido, milorde — Thalean falou e notou como a fada se voltou subitamente ao ouvir a frase — a rainha virá procurá-lo nestes domínios, já que o rei sumiu nas proximidades da Floresta.
— Creio, lorde Dárius, que ai está a confirmação do que lhe disse. Os homens querem invadir nossos territórios outra vez.
— Milady, eles querem apenas encontrar de seu monarca — Bard disse, receoso.
— Perdoe-me, caçador, mas a última vez que os teus invadiram nossas terras, as consequências foram desastrosas principalmente para meu povo e para mim.
— Rechaçá-los ou ajudá-los não é uma decisão que compete apenas a nós, lady Katrina. Convoquemos todo o Conselho, isto deve ser analisado — informou Dárius, soando cansado aos ouvidos do meio-elfo e quando os caçadores estavam prestes a se afastar, ouviram — É melhor que fiquem para informar isto, principalmente Thalean. Os demais quererão saber da mesma maneira que nós.
Ele parou de súbito, concordando com um aceno de cabeça. Havia algo nos pequenos jogos políticos que o irritava. A maneira orgulhosa dos povos da floresta que, por vezes, os faziam entrar em conflito, não que os Três Reinos fossem diferentes sob sua análise, mas o aborrecia aquelas tantas sutilezas que os conselheiros sempre insistiam em enxergar.
Ficou na sala, enquanto o Grão-Senhor elfo distribuía ordens e saía por um instante. A fada permaneceu inerte e absorta, olhando para a cidade por uma das janelas.
— Sua chegada foi oportuna, caçadores — ela rompeu o silêncio, aproximando-se numa caminhada desprovida de som. Bard poderia jurar que flutuava, por mais que suas asas estivessem estáticas.
— Apenas fiz o que era meu dever, milady — respondeu Thalean.
— Claro, todos estamos imersos em obrigações, não é? Por mais que elas nos desagradem.
Por um momento ele imaginou se ela sabia de algo, se pressentia — tal como os náiades — humores e pensamentos. Permaneceu em suas constatações, até que a fada olhou para ambos e disse:
— O Conselho nos aguarda, vamos.
Seguiram-na, sem saber onde iriam, apenas notaram que passavam por diversos corredores no mais absoluto silêncio. Foi assim até pararem numa grande porta de madeira escura, diferente das demais, repleta de entalhes similares aos que Thalean carregava no corpo, ainda que distintos em mesma proporção. Katrina não fez menção para abri-las, mas logo um vento suave passou por eles, fazendo com que as duas placas de madeira girassem ao redor das trancas, após entrarem, o mesmo vento as amorteceu, e ao ouvir o clique suave que eles notaram onde estavam.
Era um salão em forma de meia lua, amplo, com o teto tão alto que parecia não existir e o chão marcado pelas finas linhas que cobrem os troncos das árvores. Ao meio, uma mesa clara e oval se impunha, com sete cadeiras ao seu redor. Havia aberturas nas laterais, emolduradas por grossos galhos, ao fundo o assoalho se unia por uma parede que ia até o teto, cheia de escritos antigos. Thalean avistou Dárius sentado, ao lado de uma elfa de longos cabelos acobreados e pele rosada, com uma coroa dourada adornando-lhe a testa. Runas sutis em sua nuca, ombros e braços. Ela dirigiu ao meio-elfo um sorriso gentil, acenando com a cabeça, e saudou respeitosamente Bard, então retornou sua atenção para a fada:
— Lady Katrina, caçadores, estamos a espera de lady Ilona e lorde Erlael. A rainha Ashara virá?
— Não, lady Sareena.
— Entendo — a elfa disse em um suspiro baixo, sem tecer nenhum outro comentário.
Thalean cruzou os braços, enquanto encostava-se perto da saída, claramente desconfortável, observando uma conversa qualquer entre Dárius e Sareena, notando Bard se aproximar e trocar palavras breves com a fada. A porta ao seu lado abriu novamente, num rompante, atraindo sua atenção e a do outro caçador. O que passou por ela poderia ser descrito como um homem, não fosse as orelhas pontudas. Com pele escura e bronzeada, os olhos verdes destacando-se em um rosto largo e o cabelo negro preso em uma espécie de rabo-de-cavalo, vestia um traje quase bélico, uma armadura pomposa aos olhos do caçador, parecendo se formar por escamas sobrepostas e azuladas.
— Lady Ilona não virá, não conseguimos contatá-la dado o tom urgente desta reunião — a voz dele soou profunda, grave, como uma nota febril ecoando pelas paredes — Qual o propósito de chamar o conselho num dia que, claramente, as sereias não podem comparecer?
— O sumiço de um rei humano — Sareena respondeu, indiferente.
— E o que isto altera para nós?
— A rainha Hemlock mandará um grupo entrar na floresta a fim de fazer uma busca — Thalean respondeu, recebendo um olhar ríspido do recém-chegado, porém o ignorou, notando que os olhos de Erlael iam rapidamente para a fada. Bard recuou alguns passos, se escorando na parede, claramente convencido que sua presença não era bem vista pelo naiáde.
— Onde está a rainha Ashara? — desdenhou, truculento.
— Ausentou-se — ela rebateu tranquilamente.
— Isto é óbvio, porém dada a urgência e as circunstâncias, a presença dela era esperada.
— A menos que esteja interessado nos assuntos que competem apenas ao meu povo, lorde Erlael, ou que duvide de minha capacidade em substituir minha Majestade neste momento, sugiro que guarde a curiosidade para si. A rainha Ashara está ausente e isto é tudo que precisas saber. Ademais, dada a urgência e as circunstâncias, a presença de lady Ilona também era esperada e não estou a questionar sua incapacidade de contatá-la.
A colocação instaurou uma tensão sutil na sala, até que Dárius interrompeu, com um pigarro e maestria:
— Agora que estão todos esclarecidos, vamos começar. Creio que tanto a rainha Ashara como lady Ilona estão bem representadas. Alguma objeção? — o olhar do elfo foi da fada ao náiade, vendo que nenhum dos dois tinha discordado, acenou para os acentos à sua frente, ocupados pelos dois em um movimento símile. O elfo olhou para o humano e, após crispar os lábios suavemente, olhou também para Thalean — Como convidados e membros da Corte Marcial, juntem-se a nós.
Os caçadores se entreolharam, deslocados em meio àquela associação, até que por fim puxaram duas outras cadeiras e se sentaram, Thalean ao lado de Sareena, Bard entre Katrina e o próprio Dárius.
— Por favor, caçador Thalean, repita o que informou a mim e a lady Katrina mais cedo.
O meio-elfo deixou escapar um suspiro quase inaudível e se apoiou sobre a mesa, falando com calma ao descruzar os braços:
— A rainha Elizabeth deseja fazer uma busca na floresta, atrás do rei Sandor, desaparecido recentemente.
— Como souberam disto? — foi a elfa ruiva a perguntar.
— Tão logo a família soube do desaparecimento, mandou corvos aos dois outros reinos e a lorde Kirsch, o qual informou a situação aos Dez, para que a busca fosse supervisionada e as ordens distribuídas aos demais caçadores.
— Corrija-me se estiver enganado, caçador — Erlael proferiu — Haverá uma busca dentro de nossos territórios, regida por humanos, quebrando claramente todos os tratados e a Corte está de pleno acordo com isto?
— Uma reunião será feita em três dias para decidir como será a busca, com representantes de todos os reinos e desta floresta — Bard falou com tranquilidade.
— Se verdade, não entendo o porquê de nossas patrulhas não poderem fazer tal busca, os homens não conhecem este território.
— Está claro o motivo, lorde Erlael, desconfiam que alguém esteja envolvido. Um de nós. — Sareena redarguiu.
— Analisando com cautela, qualquer um pode estar envolvido — constatou Dárius.
— Creio que não tenhamos escolhas — a fada se manifestou pausadamente — caso não mandemos um representante à reunião, hão de crer que estamos de acordo com o desaparecimento do rei, ou que estamos envolvidos de alguma forma e os demais reinos podem obter uma motivação para nos invadir.
— Isto, é claro, se esse tal desaparecimento já não for esta motivação.
— Lorde Erlael, por mais que entenda sua perspectiva, não acredito que a Corte Marcial se envolveria numa invasão unilateral, tampouco creio que os caçadores presentes trariam a informação se este fosse o caso.
— Lady Katrina, nós não costumamos confiar em bastardos... sequer em humanos.
Thalean cerrou os punhos sobre a mesa e pode notar que Bard franzia a testa, ambos determinados a controlar possíveis explosões de seus temperamentos. O meio-elfo odiava regressar a Corbris por isto, pelo modo como era olhado, como escória. Talvez tivesse proferido impropérios, não fosse Dárius ter falado:
— Lorde Erlael, peço que não ofenda os caçadores, eles cumprem o dever que lhes foi dado...
— Se me permite, milorde — interrompeu o meio-elfo não esperando autorização para continuar — Eu jamais concordaria com uma invasão a estas terras e meus motivos competem apenas a mim, náiade, bem como respondo aos meus senhores e somente a eles. Tenho deveres para com a Corte e deveres para com este lugar. Se é incapaz de acreditar nisto, espero que o resto do conselho tenha o bom senso de crer no que digo.
— Ora, acalmem os ânimos — interrompeu Sareena, erguendo as mãos — a colocação foi inoportuna, mas nada que exija tamanha agressividade. Ademais, é óbvio pensar que lorde Kirsch não permitiria uma invasão a nossas terras sem um aviso prévio e sem provas críveis.
— Apenas quero averiguar este relato, lady Sareena. Nada nos garante a veracidade nas palavras deste mestiço, tampouco do humano.
— Ora, lorde Erlael, não me diga que perdeu a maestria em discernir verdades. Achei que os teus soubessem identificar mentirosos ao ouvi-los... — a ironia no sibilo da fada fez com que os olhos verdes a mirassem furiosamente. O náiade bateu a mesa, visivelmente transtornado, erguendo-se.
— Não deveria duvidar de mim, lady Katrina.
— Longe de mim fazê-lo, milorde — zombou — Porém, diga-nos, eles mentem ou não?
No instante que ambos os conselheiros duelavam com olhares e expressões, Thalean e Bard sentiam-se diante de um tufão, jogados de um lado a outro, certamente que os dois outros elfos diriam o mesmo, não fosse a costumeira antipatia entre a Conselheira Real e o Embaixador dos náiades. Analisavam-se silenciosamente, até que Erlael disse por fim, lançando-se na cadeira:
— Não, não mentem. Contudo o que esperam fazer com esta informação? Por guardas na fronteira? Escoltar todos os grupos da busca? Mesmo os dois povos élficos não têm tantos soldados.
— Creio que impedir os humanos não seja o caminho — Sareena falou, tranquilamente — Entretanto, não podemos deixar que adentrem em nossos territórios do modo que bem lhes entende. Precisaremos de alguém confiável a supervisionar esta empreitada.
— Se me permite a palavra, milady — interrompeu o meio-elfo e tão logo foi autorizado, prosseguiu — este é o motivo pelo qual haverá uma reunião do Grande Conselho. Por isto estou aqui, junto a Bard, a fim de escoltar quem representará a Floresta.
Os quatro conselheiros se entreolharam, até que por fim Erlael pronunciou:
— A melhor opção está entre vocês, fadas e elfos. Nós, naiádes, pouca influência temos sobre a terra e acredito eu que esta busca se concentrará acima do solo, ser-nos-ia cruciante suportá-la.
— Qualquer um pode nos representar, contanto que possua ligação com a Floresta e lealdade para com este conselho — proferiu Katrina e sua fala foi seguida por silêncio.
— Não gosto de arriscá-la desta forma — murmurou Dárius para si e emendou em voz alta — Mas, lady Katrina, sei que, apesar das recomendações, teu pai a levava para além da fronteira...
A fada arqueou uma sobrancelha, desconfiada e perguntou pela cordialidade:
— Onde deseja chegar, lorde Dárius?
— Teve, mais do que todos nós, a exceção talvez do caçador, contato com humanos. Principalmente com o garoto que foi criado junto a tua família.
— É possível que sejas a nossa melhor opção — Sareena completou.
A íris da Vulchanov se enegreceu por um segundo, o único sinal de seu humor frente a um rosto impassível, ela se levantou, naquele modo silencioso, as asas abrindo-se apenas um centímetro, as mãos apoiadas sobre a mesa, a boca travada numa linha ríspida.
— Com todo respeito, milordes, espero que não estejam insinuando que eu fique a frente desta empreitada.
— Não vejo os motivos para ser de outro modo distinto — Erlael comentou — tens experiência em tratar com eles, és parte do Conselho e não há quem duvide de sua lealdade com estas terras. Então, pergunto-te, lady Katrina: por quê não?
A fada deu um riso seco, curvando a cabeça em um meneio.
— Se este é o desejo da maioria deste conselho, concordo com o dever a mim imposto. Todavia, ao menor sinal de que eles desejam macular nossas terras, não hesitarei em tomar as devidas providências.
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