Notas iniciais
Olá a todos! _ Essa história é baseada no RPG The Middle Age. Nós, as autoras, participamos do RPG e tivemos a ideia de criar uma história baseada nele, já que nós gostamos e nos identificamos bastante com nossos personagens e com o enredo em geral. _ Gostaríamos de reforçar que esta é uma história cheia de personagens, detalhes e estruturas que foram criadas, então nós achamos necessária a criação de um grupo e página no Facebook onde as informações adicionais serão postadas, pedimos a todos que curtam e solicitem a participação. _ O link do RPG e dos grupos estão disponíveis no disclaimer. Desejamos à todos uma boa leitura!

Hemlock nunca fora tão vazio como naquela manhã. O reino comumente habitado pelos mais diferentes tipos, cheio de mercadores sujos e sábios aos farrapos, parecia desértico e hostil, mergulhado em uma estranha calmaria, um torpor que causava apreensão em cada um que conseguia senti-lo. A tensão maculava o famoso estado de agito permanente do reino.

Era comum avistar homens sempre aos brados, comércio sempre muito movimentado, portos sempre cheios de embarcações, das mais humildes as mais pomposas, em outros cantos ouvia-se o grito das lamentações e o choro das crianças. As cidades se esparramavam numa mistura heterogênea. Caos e ordem. Luxo e miséria. Saber e ignorância. Ambos os polos hoje se encontravam mergulhados em silêncio e melancolia.

Naquela manhã, o vento espalhava-se pelas ruelas, trazendo apenas as notícias estranhas, até mesmo os comerciantes estrangeiros não ousavam pisar fora das hotelarias. A apreensão vinha como uma neblina, enervando a vista. Nos sussurros que passavam pela boca de guardas, criadas, vendedores e nobres. Quando o sol chegou ao ponto mais alto do céu, o assunto não era outro. Sempre as mesmas palavras sussurradas, as especulações que se formavam, os olhos e ouvidos atentos a qualquer movimento que trouxesse consigo o prelúdio de uma loucura. Uma retaliação que não vinha. E a frase permanecia ecoando, ecoou por dias a fio, até alcançar os pontos mais escuros e mais extremos do reino.

O rei sumiu.

Não se falava noutra coisa. E tão logo o anúncio era ouvido, as perguntas começavam. Como assim sumiu? O que houve? Em seguida, é claro, discutia-se a linha de sucessão, afinal, não era novidade que Anne Hemlock não queria ver Sebastian, o gêmeo mais velho e herdeiro por direito, no comando. Alguns camponeses seguiam em igual rotina, porém os nobres já se perguntavam o que o futuro lhes guardava.

— Isto é um absurdo! — ao se passar pelos corredores do castelo, a voz de Anne parecia mais rouca e aguda a cada sílaba, estridente e sempre acompanhada de passadas insistentes sobre o assoalho de mogno — Como que meu filho vai a uma caçada e simplesmente nenhum dos incompetentes da guarda real o segue?! Não é para isto que são escolhidos e treinados? Estes guardinhas miseráveis... Apenas outros dos parasitas que temos que aguentar por conta do Conselho.

— Calma — a rainha, com olhos inchados, falou de modo suave, sua voz melodiosa, ainda que ríspida — Estou certa que vão encontrá-lo logo — e a frase soou suficientemente áspera para entenderem que não era um pedido. Era uma ordem.

As duas mulheres consolavam-se, daquele modo que irritava propositalmente os homens na sala. Foi com pouco esforço e com os olhos inchados que conseguiram ficar sozinhas no aposento — o quarto de Elizabeth. A velha e a nova rainha, tia e sobrinha, enxugaram os olhos com as pontas dos dedos e um sorriso idêntico e mínimo nos lábios.

Elizabeth admirava a sogra, em uma cumplicidade digna de mãe e filha, personalidades fortes e determinadas. Não foi à toa que Anne tinha ascendido a sua posição, também não fora à toa que convencera sua sobrinha em casar-se com seu único filho. Com muito custo, discussões, acordos furtivos e palavras sagazes, a velha rainha tinha conseguido o que sempre desejara: o poder do reino em suas mãos, ainda, é claro, que hoje fosse apenas "a mãe do rei", a Rainha Velha, a monarca de ascensão humilde e uma estranha história de amor e tragédia.

As Hemlock tinham os mesmos cabelos negros, o mesmo rosto fino, os olhos em um tom misterioso, entre o mel e o castanho. Elizabeth, entretanto, tinha em sua face lábios fartos, com um belo formato de coração, os quais crispavam suavemente quando ela sorria e marcavam covinhas em suas bochechas. Anne via o despontar de seus primeiros fios brancos, disfarçando-os de todos os modos que conhecia — os quais não eram poucos — tinha um porte altivo, mesmo que fosse pequena se comparada a sua nora, parecia que pondo os ombros para trás e erguendo o queixo conseguia intimidar até o mais forte dos guardas. Ou como as criadas costumavam dizer, eram daquele tipo que ficava bem na corte, mesmo sem o sangue azul.

Ela se ergueu, os anos parecendo curvar-lhe os ombros por um segundo. Caminhou de um lado a outro, parando ao lado de Elizabeth, enlaçando os dedos aos dela, em um aperto amigável. Anne fitou a atual rainha e fechou os olhos, murmurando uma prece ininteligível que apenas as duas compreendiam perfeitamente. Ao abri-los, falou:

— Mande chamar Sebastian e envie um corvo a Godfrey. Com sorte teremos apoio do rei Willian na empreitada pela Floresta.

Entreolharam-se, Elizabeth parecendo surpreendida no primeiro momento, então compreensiva. Aquiesceu com um aceno, observando uma janela prostrada ao fundo do quarto.

— Decerto que enviaremos um a Rumancek também. Por mais que eles estejam muito ao norte...

— Claro. — concordou a mais velha, soltando as mãos e saindo dos aposentos de sua Majestade.

E foi somente ao chegar nos corredores que se pode ver esboçado um riso preso em seus lábios.

***

— Charlie! — um homem bradou na soleira carcomida e entrou no estabelecimento com um bater de botas.

Uma meia dúzia de olhares o fitaram por um segundo, mas logo voltaram aos seus afazeres. Afinal, tudo o que era ilícito e amoral poderia ser encontrado no bar mais medíocre de Rumancek.

— O que conta de novo, Marell?

A dona do lugar logo apareceu, saindo de detrás de um balcão velho, caminhando por meio salão em direção ao recém chegado. Charlotte Nightshade, ou como ela insistia: “Charlie para todo aquele que pode me pagar uma bebida”. Com uma cintura fina, seios fartos, um quadril proporcional e longos cabelos negros, por vezes a dona do Pérola era confundida com uma de suas “garotas”. Não que ela não se fizesse confundir, porém a Nightshade podia se dar ao luxo da escolha.

Achava engraçado como nem sempre o bar tinha sido sinônimo de um bordel, mas com o falecimento de seu pai, Aaron Nightshade, as contas terminaram falando mais alto que quaisquer escrúpulos. E ela se perguntou: por quê não? Afinal, ela não pretendia ter a vida de uma matrona, repleta de pentelhos em sua saia e um marido infiel e gordo.

A mulher analisou o velho a sua frente por um segundo, um de seus fornecedores de bebida, comumente vinhos, que trazia de Hemlock, junto as notícias que insistia em repassar.

— Uma informação por um beijo, querida! — bradou, despertando a risada de muitos que apenas bebiam no hall de entrada. A moça deu um sorriso arteiro, aproximando-se devagar do velho e tirando o chapéu que estava em sua cabeça calva ao sussurrar com uma piscadela:

— Só pago depois de conferir o produto.

Então ela saiu do estabelecimento, acenando para uma das garotas para que cuidasse do lugar naquele instante.

— É sério, Charlie, você não vai acreditar! — o homem continuou falando enquanto acompanhava a moça com passos curtos e apressados em direção a sua carroça, cheia de caixas e cobertas.

— O que foi?

— O tal do rei Sandor sumiu! — ao ver a sobrancelha erguida da mulher, gesticulou — Sim... Ninguém sabe como foi, num dia estava lá e no outro não se via mais o sujeito. A rainha está um caco, parece que o príncipe vai assumir, mas a Rainha Velha não ficou muito contente com isso, não! Falando nele, não é o tal do principezinho que está comprometido com a nossa princesa?

— Não presto atenção aos acordos da corte — retrucou ela. Mesmo que fosse mentira, gostava de discutir o que acontecia nos salões reais e quase sempre ouvia relatos no mínimo interessantes.

— Tudo certo? — o velho perguntou, olhando para ela com curiosidade. A morena conferiu as caixas uma segunda vez, e acenou afirmativamente — Agora ganho meu beijo? — perguntou ele, pondo o chapéu velho sobre a testa, fazendo a Nightshade sorrir. Ela se aproximou dele devagar e beijou-lhe o rosto, sussurrando baixinho ao por uma sacola cheia de moedas nas mãos do homem:

— Vá para casa, Marell.

***

Era um dia nublado, daqueles que não é possível dar um palpite sobre há quantas já avançava o dia, de tão cinzentas e pesadas que eram as nuvens. A neblina espessa, geralmente uma exclusividade da região mais ao leste, hoje era um grande cobertor sobre todo o reino de Godfrey.

O clima só conferia uma atmosfera ainda mais sombria à porção sul do território, marcada por uma paisagem árida e seca, nada convidativa aos de alma covarde. Até mesmo a bela floresta, na serra ao norte, demonstrava a inquietante sensação de abrigar grandes perigos a qualquer um que resolvesse se aventurar por seu terreno.

O castelo real parecia flutuar acima da camada de névoa, aparentando ainda mais imponência que de costume, solitário sobre o topo de um sinuoso penhasco. O lugar poderia passar por vazio, já que todos os seus moradores estavam recolhidos em seus aposentos esperando a noite cair, exceto por um deles.

Batia o pé ritmadamente contra a madeira escura da mesa, os dedos enrolando e contorcendo mechas dos longos cabelos. Um grande mar de livros amontoava-se à sua frente. Os olhos fixos e atentos, estudando cuidadosamente cada palavra. Absorvia, com um esboço de sorriso nos lábios, cada informação relevante que encontrava, fossem elas úteis para planos imediatos ou para chantagens futuras. Jogou para o lado um livro e pegou outro em seguida, começando imediatamente a ler as páginas amareladas e gastas. Gostava dessas horas de paz que a luz do dia proporcionava. Não havia servos espreitando por todos os cantos, a presença incômoda de damas de companhia, muito menos sua família a querer lhe impor limites.

E se havia algo o qual nunca possuíra era limites. Não importava o quanto tentassem lhe colocar amarras, outorgar regras e costumes ou os obstáculos em seu caminho, sempre dava um jeito de contorná-los, não importava o quanto custasse.

Já anoitecia quando ouviu algo se movimentar ao longe em direção ao castelo. Desviou o olhar para a janela e, pouco depois, um corvo pousou ao batente com um pergaminho preso a perna. Levantou-se e caminhou na direção da pequena ave, pegando o papel. Seus lábios crisparam-se quando viu o selo estampado na cera. O corvo viera de Hemlock.

Por meio deste, informamos que o Rei Sandor Hemlock desapareceu, visto pela última vez no território da Floresta Sombria. O reino conta com o posicionamento favorável de Godfrey na busca de nosso Senhor.

Solicitamos com urgência uma reunião do Grande Conselho, para que o assunto possa ser discutido.

Soltou uma ruidosa gargalhada. Seus olhos emitiam um brilho afiado de satisfação e felicidade. Em um andar quase infantil, desceu as escadas em espiral da torre da biblioteca e atravessou um longo corredor em direção ao seu quarto. O farfalhar do tecido de seu roupão arrastando e dos seus pés descalços contra o chão de pedra quebravam o silêncio.

Tirou a peça de roupa e a jogou em cima de um baú de madeira, colocando um vestido de linho azul escuro. Estava terminando de ajeitar a saia, quando escutou a voz atrás de si. Virou, se deparando com a figura de seu irmão que despertava.

— De pé tão cedo? Caiu da cama? — a olhava com uma sobrancelha arqueada e o semblante sonolento.

— Não cheguei a dormir se é isso que queres saber.

— Deixe-me adivinhar, novamente no meio dos livros tramando maluquices? — perguntou com um sorriso debochado nos lábios.

— Admiro o seu esforço em tentar me irritar, Gustaf. Porém sinto em dizer que por esta noite estou imune às suas pequenas farpas. — disse, enquanto trançava o cabelo.

— Posso saber o que a deixou com tão inabalável bom humor? Creio que o motivo não sou eu. — ele levantou da cama, aproximando-se dela.

Recostou na cômoda e mordeu suavemente o lábio, com o esboço de um pequeno sorriso, admirando o corpo desnudo dele. Gustaf era um perfeito reflexo de si mesma: possuía o mesmo cabelo ondulado de um tom dourado claro — porém os dele eram um emaranhando rebelde até a altura dos ombros, enquanto os dela pendiam até abaixo da cintura -, a pele alva, os olhos de um verde intenso e profundo. Além da aparência, os irmãos eram também parecidos em personalidade, ambos tinham verdadeira paixão por aventuras e uma boa diversão.

— Um corvo chegou de Hemlock. Sandor está desaparecido.

— Ora, isso sim é uma ótima notícia! — assim como a irmã havia feito, Gustaf gargalhou prazeroso com o que acabara de ouvir.

— Sim, menos um estúpido para me preocupar. Bem que a mãe dele podia ter sumido junto. Aquela ali irá dar trabalho.

— Não se preocupe, Lyra. Nem mesmo ela conseguirá ficar de pé quando você e sua fúria chegarem aos outros reinos.

Ele parou a sua frente e esticou o braço pegando a delicada tiara de ouro e safiras que estava no móvel e a colocou na cabeça da irmã, para em seguida, dar um suave e rápido beijo nos lábios dela.

— Vista-se e depois vá para a sala do trono. Não iria se perdoar caso perdesse o espetáculo que se aproxima. — fitou os olhos dele com aquele ar travesso que tanto o encantava.

— A noite mal começou e já está procurando agitar os ânimos... Você não cansa, irmã? — perguntou, afagando a nuca dela. Observava e admirava os traços de Lyra, com os olhos meio cerrados. Era como se com esse gesto pudesse desvendar os pensamentos dela.

— A esta altura já devias ter aprendido, querido irmão. — mordiscou o lábio dele e então completou em um sussurro: — Sou insaciável.

***

Os bardos narram que dentro da Floresta Negra há mistérios que jamais nenhum homem ousa imaginar. São tesouros perdidos antes mesmo da forja do mundo, segredos enterrados em espessas camadas de folhas, bênçãos escondidas na íris dos poucos que conseguem sair – afinal, adentrar a floresta é uma tarefa fácil e igualmente desaconselhável. São estes que pouco falam sobre o encontrado, tudo fica perdido em um mar de lendas e mitos, passadas pelas diversas gerações, alteradas à medida que as árvores se tornam mais e mais grossas, quase como uma muralha que separa os três reinos daquele território místico.

Porém, há muito além do que ousam narrar.

A Floresta Negra, como é chamada por todos de Ekatomb, está além da mancha impenetrável no extremo sul do continente. Ela é mais que o lugar inexplorado de onde escuta-se das mais temíveis às mais fascinantes histórias. O lugar esquecido pelos deuses, imaculado e inalcançável. Abrigam-se nela diversos seres, e é uma afronta acreditar que são apenas um único povo, uma única raça, pois em mínimas diferenças nota-se logo suas distintas habilidades, forças e maestrias. Cooperam, entretanto, como parte de uma imensa família, protegendo-se mutuamente, sempre alheios aos acontecimentos dos reinos – atados às suas próprias obrigações.

Mas esta situação estava mudando. Não era mais impossível ouvir um ou outro comentário sobre a política dos reinos e também sobre a morte que os atingia sorrateira e cada vez mais frequentemente. Invasão e violência. O que costumava ser apenas um mal distante, agora se espreitava nas noites e exibia-se ao alvorecer, trazendo nos tons mais rubros que os raios de sol.

Alvoreceres que não se distinguiam, aos olhos cinzentos da fada empoleirada no galho de uma árvore. Eram sempre os mesmos tons rubros que rompiam os céus, o laranja que tomava a negritude pouco a pouco, substituída por um azul vívido e claro, o sol que mostrava às copas seus tons verdes e penetrava sorrateira até tocar o solo repleto de húmus. Ela não tinha dormido aquela noite, o que já era quase um costume, o brilho do luar sempre lhe era companheiro em sua vigília resoluta, a luz iluminando suas feições pálidas e melancólicas.

Emitiu um suspiro baixo, uma espécie de resmungo para consigo mesma. Em um impulso, pousou no chão suavemente, sentindo sob os pés a fuligem que jamais tinha abandonado aquele lugar. Não precisava procurar por cacos, ou pela prova imutável de uma noite caótica, o nascer do sol a mostrava, com clareza, o que ela jamais conseguia esquecer. E não conseguia não olhar, não conseguia se afastar do vilarejo que um dia fora sua morada. Aquele era o ímã que a atraía há vinte anos, uma mácula na terra e em sua mente, uma cicatriz horrenda e profunda, restos de tudo que ela teve de deixar para trás.

Os pés deram duas passadas incertas, suaves, arrastando as imensas asas translúcidas no chão, maculando um vestido claro com o pó escuro que nunca abandonava os restos de Éviros.

Então ela ouviu o eco de um galho partido e seu corpo se contraiu instintivamente. As costas se retraindo, as asas se abrindo. Os passos ficaram mais insistentes, pesados, próximos. Estava prestes a alçar voo quando a silhueta que se aproximava tornou-se conhecida. Os olhos azuis vivazes como uma chama ao se destacarem, a barba mal feita, a pele queimada por algum sol escaldante, os lábios finos sempre curvados em silencioso menosprezo.

— Ah, és tu... — falou, a voz fria e seca, sem se intimidar pelo tamanho dele, pelos braços repletos de cicatrizes escondidas nas mangas sujas de uma camisa escura. Eram dois opostos frente a frente, entrando em conflito cada vez que se encontravam.

— Esperava alguém? — a resposta, dita de maneira rude, desafiadora enquanto ele se aproximava com uma expressão quase animalesca, dando um mínimo sorriso debochado ao dizer — Ou está apenas tentando provar a si mesma que é tão podre que nem a morte a quis...?

— É isto que falas a ti mesmo cada vez que sobrevives? És tão podre que nem a morte o quer.

A expressão que ele trazia no rosto se desfez, os olhos azuis a encarando em fúria. O maxilar se tornando tenso num trincar inaudível de dentes. Ela sempre parecia saber irritá-lo e ele sempre repetia para si que não a deixaria vencer aquela interminável batalha.

— O que queres, Askar? — perguntou ela, ríspida.

— Me chame assim novamente e a farei engolir esta sua língua afiada.

— Falas como se tuas ameaças perturbassem meu sono.

— Ah, mas eu sei exatamente o que te perturba o sono, alteza.

A ironia inflamou na fada uma raiva silenciosa e mortal. Ela não pronunciou nenhuma outra palavra, apenas o fulminou com um olhar, fazendo-o deleitar-se por ter conseguido irritá-la. Ele então deu um meio sorriso debochado e falou simplesmente:

— Vim conferir se ainda estava viva.

Ela riu, alto, sua risada fria o atordoando por um segundo.

— Que tocante, querido. Quase me fazes acreditar...

— Não vim aqui para discutir, Katrina — interrompeu ele, impaciente — Trago uma notícia.

— E desde quando te dispões a tanto?

Não se deu ao trabalho de responder, sabia bem que se o fizesse perderia uma boa oportunidade de finalmente incutir a ideia que há tanto tempo permeava sua mente.

— Sandor está desaparecido.

A fada refletiu por um instante, associando o nome a figura. Ainda que não estivesse em contato constante com os Três Reinos, sabia os nomes e as famílias reais, isto era o mínimo que esperavam dela. Tão logo o nome foi atrelado ao rei Hemlock ela falou:

— Isto não muda nada para nós.

— É tão boba que dá pena — comentou ele, ácido, pegando com os dedos uma mecha prateada que se desprendia da trança dela — Ele sumiu nesta Floresta, Katrina. Será que não vê o que isto significa?

A fada o fitou, claramente pensativa e ligeiramente irritada. Antes que se pronunciasse, entretanto, ele emendou, olhando ao redor com uma expressão indiferente no rosto:

— A rainha deve querer ser notificada.

O súbito ódio que perpassou aqueles olhos cinzentos durou apenas um segundo. No qual as asas se estenderam, e a boca dela pronunciou em claro desgosto:

— Será.

Notas finais
Esperamos que tenham gostado! Deixem suas opiniões e críticas nos comentários. Nos vemos no próximo capítulo. Até mais! Beijos, Amélia & Layla