Forjados em Sangue: A Ascensão das Sombras
9 IX - Desavenças
Notas iniciais

— Ataquem!
Ao comando do príncipe, os três cavaleiros da guarda de Godfrey baixaram o braço que carregava o escudo e ergueram suas espadas em sincronia, avançando como um corpo só em direção ao Lorde Kirsch.
O Comandante da Guarda Real girou em torno de si mesmo, vendo-se encurralado entre os soldados. Seu cenho franziu em estranhamento quando notou que eles não vinham em sua direção na velocidade costumeira, de ataque, mas sim caminhavam. Inicialmente acreditou se tratar do efeito do sangue da princesa em seu organismo, que o fazia enxergar as cenas aceleradas ao seu redor. Então a risada de Gustaf ecoou e viu o vulto do Godfrey mover-se pelas margens da clareira até parar e voltar a ganhar forma.
Gustaf lentamente recuou alguns passos, voltando a se esconder nas sombras. O sorriso presunçoso e divertido estampado no rosto, o olhar afiado e faminto direcionado ao caçador.
— Divirta-se, Kirsch. — Ele via os lábios do Príncipe moverem-se ao longe, mas a voz grossa e rouca ecoava como um sussurro em seu ouvido. — Espero que sobreviva para caçar o prêmio maior.
O caçador ergueu sua espada à frente do corpo, analisando os oponentes. Já tinha lidado com grupos muito maiores de vampiros, selvagens e impetuosos, mas nunca com membros altamente treinados para uma luta.
Os soldados pararam a alguns passos de distância, o silêncio instaurando-se, nem mesmo o som dos animais noturnos se fazia ouvir. Por alguns momentos, toda a cena parecia ter congelado no tempo, apenas os olhos do Senhor Comandante moviam-se de um canto ao outro. Em um rompante, Ichabord ergueu ainda mais a espada, acima de sua cabeça, e lançou-se em direção ao guarda que estava posicionado à sua esquerda. Acreditava que a prata pura iria retardar a reação do soldado devido ao incomodo, o que de fato aconteceu. Pôde ouvir o som da lâmina raspando superficialmente na armadura, mas apenas por um ínfimo instante. No momento seguinte, sua espada cortou apenas o ar, acertando o vazio. A força e velocidade que tinha empregado no golpe foram tamanhas que, sem um corpo para aparar o movimento, acabou desequilibrando-se e cambaleando dois passos para frente. Ergueu o rosto olhando ao redor sem compreender o que tinha acontecido, constatando que os soldados haviam sumido, mas não estavam longe. Ainda estava sob efeito de sangue vampírico, ao concentrar-se era capaz se sentir a presença dos quatro vampiros, ainda que não pudesse definir onde se encontravam exatamente.
Olhou ao seu redor, tentando enxergar nas sombras algum vestígio de movimento. Tudo encontrava-se calmo, como se estivesse sozinho naquela clareira. Segurou com mais firmeza a espada em sua mão, engolindo em seco, preparando-se para dar o melhor de si. Sabia que não seria uma luta grandiosa, da qual se vangloriaria, muito menos da qual fariam canções a seu respeito como muitas outras. Estava ali apenas defendendo seu orgulho ferido, não daria ao príncipe motivos para desdenhá-lo mais do que o fazia.
Ao escutar o fraco tilintar do metal, virou-se na direção do som, porém não fora rápido o suficiente para defender-se do golpe que o atingiu com a espada na lateral esquerda do corpo, logo abaixo do peito. Com a mesma rapidez que este surgira, desaparecera novamente em meio à mata. Antes que pudesse recuperar-se do golpe, um segundo soldado saiu das sombras, vindo em linha reta e o atingindo da mesma maneira, porém do lado direito. Ainda atordoado, sentiu um forte murro nas costas, dado com o punho da espada, levantou o rosto a tempo de ver o terceiro guarda desaparecer entre duas árvores, no mesmo lugar onde o primeiro guarda havia saído.
Bufou irritado. Perguntava-se como conseguiria lutar com o que não era capaz de ver. Seria Godfrey feito de jogadores tão baixos e cruéis, com destreza em manipular tudo e a todos ao seu favor ou apenas covardes que não conseguiam defender-se sem máscaras e ilusões, sem estarem escondidos nas sombras ou atrás de terceiros?
Novamente, ouviu a movimentação e antes de ser capaz de qualquer reação, sentiu-se ser atingido na panturrilha esquerda, o som do metal raspando contra metal, o soldado desaparecendo no mesmo lugar que o primeiro. Outro golpe o atingiu na lombar, o fazendo cair ajoelhado ao chão, virou o rosto de lado vendo o segundo soldado desaparecer onde o anterior tinha saído. Ao levantar-se um terceiro golpe, no ombro direito o fez dar meia volta, vendo o terceiro soldado adentrar a vegetação.
Franziu o cenho, ao constatar novamente que havia um intervalo entre o terceiro e último golpe e o momento antes que os guardas voltassem a fazer investidas contra ele. Havia um padrão. Eles estavam lutando em formação. Atingindo-o de todos os lados a cada série de golpes, mas as direções sempre as mesmas, apesar do sentido variar, sempre em linha reta, cruzando-se em diagonal ou divergindo no ponto de origem. Sorriu de canto ao se dar conta que tinha a chave a para ganhar a luta em mãos, só precisava deixar-se atingir mais uma vez para gravar o lugar de cada soldado. Se sua intuição estivesse certa, mais algumas séries de investidas e logo os guardas voltariam à posição original, repetindo os movimentos uma segunda vez.
Concentrou-se um pouco mais, respirando fundo, as pernas afastadas e levemente flexionadas, as costas retesadas, pronto para apanhar mais algumas vezes. Riu baixo pelo fato de estar gostando de se deixar ser a vítima, iludir seus oponentes, deixarem-nos pensar que estavam no comando, quando na verdade, eles quem eram as verdadeiras presas. A euforia que o desejo de infringir dor ao outro causava, vê-lo ser pego de surpresa, ser o causador da morte de alguém lhe era extremamente excitante, ao ponto de deixa-lo impaciente. Estava sedento por sangue.
Sangue. A palavra o fez sentir as veias arderem levemente, a gengiva formigar. Queria ver o líquido escorrer, denso e escuro, pela ferida. Mais que isso, queria mais da substância, queria tornar-se forte e imbatível, queria mais daquela sensação de imponência.
Rugiu, enojado com os próprios pensamentos. Respirou fundo, tentando recobrar a consciência, voltar a si mesmo. Agora sentia na própria pele o motivo de muitos enlouquecerem a ponto de cometerem verdadeiras atrocidades por algumas míseras gotas de sangue impuro. Fato que o fez repudiar ainda mais essa raça abominável. Quanto mais suas veias ardiam, quanto mais agia movido por impulsos assassinos, por sede de sangue, quanto mais se parecia com um deles, mais passava a desejar a morte de cada vampiro que habitava Ekatomb, a começar por Gustaf Godfrey.
As investidas começaram novamente, o primeiro guarda lançando-se na sua direção em diagonal, atingindo-o na coxa do lado direito, sumindo em meio à mata atrás de si. O segundo percorreu o trajeto em linha reta, passando por suas costas, o atingindo na nuca com um murro que o levou ao chão novamente, desaparecendo nas sombras do lado oposto ao que surgira. O terceiro soldado surgiu do mesmo lugar onde o primeiro sumira, desferindo um golpe de espada em seu braço, devido à força do vampiro, o metal rompeu-se e a lâmina de aço provocou um corte profundo na pele morena do caçador que arfou de dor.
Porém, nem seu sangue derramado, a armadura deformada pelos golpes, ou o corpo latejando fortemente onde fora atingido, foram suficientes para tirar-lhe o sorriso do rosto. Os soldados agora estavam devidamente mapeados em sua cabeça, sabia qual era o seu padrão, portanto sabia precisar de onde eles viriam, e para onde iriam. Iria vencê-los um a um.
Focou no movimento do terceiro soldado apenas, deixando ser atingido pelos dois primeiros, quando o último executou seu movimento, girou para o lado oposto, saindo da rota da lâmina de sua espada. Percebeu então que eles tinham voltado a formação inicial: o primeiro soldado, o mais baixo de todos, estava à sua frente no lado esquerdo, o segundo, cujo elmo era ornamentado com plumas azuis marinho ao invés de negras encontrava-se ao lado direito e o terceiro que tinha a espada mais longa dos três posicionava-se às suas costas.
Caso continuassem se movimentar conforme o padrão, cada soldado tinha somente duas direções às quais poderiam seguir e investir contra ele. Concentrou-se, deixando-se dominar pelos impulsos e instintos que o sangue vampírico o levava a tomar. Não sentia-se mais tão exausto como quando tinha chegado ali, toda sua fraqueza transformara-se em força. Logo conseguiu apurar seus sentidos, os ouvidos conseguiam captar o leve farfalhar dos passos esmagando as folhas secas sobre os pés, conseguia precisar onde estava cada guarda, mesmo que não os visse, sentia suas presenças, até mesmo conseguia identificar o Príncipe sobre os galhos de uma árvore atrás dele, observando a tudo de um ângulo privilegiado.
O primeiro soldado atacaria em movimento diagonal, pela esquerda ou pela direita. Assim que o mesmo preparou-se para avançar, sorriu ao ver-se capaz de antever a inclinação para leste. Assim que o guarda saiu como um grande borrão das sombras, esquivou-se erguendo a espada ao lado do corpo, afastando-se alguns passos para a o lado oposto. O barulho do metal raspando metal causado pelo choque de suas espadas ecoou, tinha se defendido.
Mal o primeiro soldado desaparecera nas sombras, o segundo já investia contra flanco esquerdo de Ichabord, que abaixou-se, a lâmina do guarda cortando o ar vazio. Faltava apenas um, o terceiro, que saiu das sombras a toda velocidade, os dois primeiros o atacaram pela frente, rapidamente deduziu que este o atacaria pelas costas, vindo pelo único caminho possível caso mantivesse a formação, caminho oposto pelo qual o segundo guarda tinha investido. Assim que o último soldado adentrou a clareira, Ichabord ergueu a espada, girando em torno de si para ganhar impulso, assim que sua espada entrou na reta da trajetória de seu oponente, apoiou-se sobre o joelho direito no chão, deixando os braços continuarem a mover-se.
O som do forte choque da espada contra a base da placa de metal que protegia o abdome do guarda, fez um grande sorriso abrir-se no rosto de Ichabord, que forçou a lâmina para baixo, fazendo-a encaixar-se na junção da armadura, atravessando o aço e cortando a carne. No instante seguinte, a espada de prata estava coberta de escarlate e, a alguns passos de distância jazia o terceiro soldado, o corpo divido em duas partes que jorravam sangue em abundancia, pintando rapidamente o chão em vermelho.
Mal teve tempo de levantar-se e os outros dois guardas investiam em sua direção no mesmo instante, num ataque cruzado. Sacou uma adaga de prata e lançou na direção do guarda que estava mais distante, atingindo-o certeiro logo abaixo de seu elmo, perfurando-lhe a garganta. Girou para a direita, saindo da rota do outro soldado, brandindo a espada de baixo para cima, novamente acertando na junção do metal que, com o impacto, cedeu, cortando a carne e decepando a perna do último guarda que foi ao chão. Sem perder tempo, o Senhor Comandante, aproximou-se do guarda, retirando seu elmo e baixando a espada, decapitando-o e dando fim ao embate.
Ouviu a risada rouca e cortante ecoando. Ergueu-se, virando na direção do som, a espada empunhada, pronto para dar cabo do último de seus tormentos. Deu alguns passos à frente, parando bruscamente ao ouvir palmas atrás de si.
— Ora, saiu-se melhor que esperava. Preciso admitir que é digno de seus títulos. — O vampiro fez uma leve reverência, em deboche. — Me pergunto como serão as canções a serem compostas em sua homenagem. A história de um bravo cavaleiro, que ainda jovem chegou ao topo — Gustaf dizia as palavras se aproximando passo a passo. Tinha um sorriso de canto, a postura imponente. De espada embainhada, o príncipe vestia apenas trajes de caça, nenhuma peça de metal ou armadura o protegia, os três servos encarregados de mantê-lo seguro estavam mortos. Kirsch sorriu. Podia muito bem lançar uma adaga diretamente no peito dele e acabar com tudo naquele instante, mas parte do juiz queria prolongar aquele momento, vê-lo definhar e implorar por seu fim. A frase permaneceu no ar por um segundo, até que o sorriso se alargou e o Godfrey completou — mas que encontrou seu fim nas mãos de um monarca impiedoso.
— Não seja tão prepotente, Gustaf. A única pessoa que terá um final amargo será você. Sem ninguém para lamentar que tenha partido, afinal possui somente o título, nada mais.
— É aí que se engana, Lorde Kirsch. Haverá uma única pessoa, e temo em lhe dizer que ficará decepcionado em saber que é sua amada princesa.
A distância entre eles era mínima, o olhar fixo no do outro, brilhando em desafio. Ambos tinham os punhos cerrados e o cenho franzido. A tensão era palpável.
— Não, ela estará muito ocupada para chorar sua morte, Godfrey. Ocupada em meus braços. — Ichabord bateu no peito, um sorriso orgulhoso no rosto. Apesar de começar a sentir o corpo reclamar pelo esforço extremo, sentir-se fraco, o gosto de vitória ainda estava fresco em sua boca e pretendia aproveitar aquela sensação ao máximo.
— Você não passa de um tolo se realmente acredita que ela o ama...
— Eu sei que ama — ele bradou, interrompendo o Príncipe.
— Realmente, é pior do que pensava. — Gustaf gargalhava em alto e bom som. Respirou fundo, tentando recompor-se, mas uma nova onda de risadas escapou. — Ela é uma ótima atriz. Soube te envolver como ninguém.
Ichabord o olhava irritado, sentia a raiva aumentar cada vez mais, mas não tinha palavras para rebater Gustaf. Apertou mais o punho da espada, desejando que aquilo fosse o pescoço do vampiro.
— Acha que ela irá querer alguém como você ao lado dela? Fraco, manipulável, apenas um mortal... ela apenas o usa. É apenas um peão em suas mãos, descartável. Quando perder seu posto, quando seus feitos se restringirem apenas às canções e inspiradoras histórias infantis ela irá esquecê-lo.
Farto de todo aquele falatório, o Caçador, ergueu sua espada batendo com a parte sem fio no rosto de Gustaf, que cambaleou alguns passos para trás. A prata pura queimando e provocando uma grossa marca em sua face.
— Você não sabe o que fala. É tão cego por poder e vaidade que torna-se nada mais que mais um de muitos — ele rugiu, a raiva toda sendo descontada. Queimava o corpo de Gustaf em diferentes partes e este apenas recuava, extremamente incomodado pela prata e pelas feridas. — Mesmo que eu seja uma peça, você também o é. Não é o herdeiro, é somente um peão influente. Quem lhe garante que não será dispensado, até mesmo antes que eu o seja?
— Minha influência. Não o sou somente por um título, Kirsch. Sou influente também sobre sua amada. Eu e ela caminhamos juntos, poder e crueldade. Somos um só. — Fez uma pausa, sorrindo sádico para o Caçador. — Estamos atrelados um ao outro de todas as formas. Mais que minha irmã, Lyra é minha amante. Surpreso? Acho que não, já deve ter ouvido os boatos. Dói ver que eles não passam da mais pura verdade não é mesmo? Dói ver que ela não é sua como acreditava. Pobre mortal.
— Não... isso não é verdade! — Ichabord, desferiu um golpe contra Gustaf, louco de ódio. Porém o vampiro fora mais rápido que o homem cansado e desviou da trajetória, sofrendo apenas um corte profundo. — É baixo demais até mesmo para os seus padrões.
Ele riu, encarando fixamente o humano. Gustaf segurou a lâmina da espada, mesmo que esta o queimasse e cortasse profundamente sua pele. Empregou força e entortou-a, soltando em seguida, e andando despreocupadamente em direção à densa mata, parando às margens da clareira por alguns instantes, dirigindo a palavra ao Senhor Comandante, antes de sumir em meio à escuridão:
— Alimente-se de suas ilusões, caçador. Quando finalmente conseguir enxergar a verdade, estará dando seus últimos suspiros.
* * *
A dupla de caçadores viajou por caminhos opostos, cada qual encarregado de percorrer o território em busca de pistas sobre o desaparecimento do Rei Sandor Hemlock.
Arthur percorreu toda a parte sul do reino, enquanto Nero varreu toda a porção norte, junto à sua dragão. Depois de uma semana de viagem, finalmente chegavam ao ponto de encontro. Uma aldeia de pescadores à beira-mar, localizada no extremo sul do condado de Hílerya, área fronteiriça com os territórios sob custódia do Rei Willian Godfrey.
Já se passava da metade da noite quando reuniram-seno bosque, próximo à aldeia.
— Mas o que é isso? — perguntou Nero a si mesmo. Tinha o cenho franzido, recostado contra uma árvore.
— Guardas de Godfrey, a julgar pela armadura — respondeu Arthur que já se encontrava agachado no centro da clareira, junto a um amontoado de corpos, observando-os. — Provavelmente estavam embriagados e meteram-se em uma briga.
— Mas porque estariam tão longe do castelo? — O Tsvietz ainda mantinha-se ao longe, olhando atentamente toda a cena, os braços cruzados à frente do corpo.
— Você realmente não sabe o motivo? — O vampiro lançou um olhar afiado para o dragonesi, rindo baixo. — Ora, não muito longe daqui há um bordel, as melhores putas de sangue deste reino disponíveis em fartas quantidades e a um bom preço. Não à toa a vida noturna deste vilarejo é bem agitada.
— Isso explica porque toda a aldeia trancou-se dentro de suas casas ao cair da noite. — O caçador suspirou, descruzando os braços e aproximando-se de Arthur, olhou o corpo por cima do ombro do vampiro. Segurou um dos braços do cadáver e começou a erguê-lo, carregando-o para fora da clareira.
— Não mexa neles. Não dizem respeito a nós. — disse simplesmente, enquanto retirava o elmo de um dos soldados, arqueando a sobrancelha surpreso ao reconhecê-lo. — Ainda mais quando um deles é o chefe da guarda, não quero problemas com o reino.
— Deixaremos essa cena grotesca aos olhos de que qualquer um? — Nero que ainda não tinha se afastado mais que alguns passos, largou o corpo bruscamente ao chão. Abaixou-se ao lado de outro corpo, examinando as feridas. — Não acredito que tenha sido uma briga qualquer, estavam batalhando, os cortes são muito precisos.
— Mais um motivo para os deixarmos aí, quem quer que seja o culpado irá pagar por isso. E não estou nem um pouco a fim de sofrer a misericórdia do Rei. Gosto de entrar e sair daquele castelo vivo. — Arthur levantou-se sorrindo. — Vamos, o sol dará cabo deles ao amanhecer.
— O que tanto tem para resolver com a realeza, Helwin? — perguntou levemente desconfiado, porém não aguardou pela resposta, colocando-se a caminhar sem esperar pelo vampiro.
Arthur ainda estava a olhar a cena, aproximou-se do mais distante deles, o olhar estreito, um detalhe chamando-lhe a atenção. Colocou a mão no punho da adaga que estava cravada na garganta do soldado, retirando-a e observando a arma, reconhecendo-a. Suspirou pesadamente, os lábios crispados. Limpou o sangue da lâmina na grama e guardando o objeto escondido dentro de uma pequena bolsa de couro que trazia junto de si.
— Assuntos do passado. — o Caçador alcançou o outro, dando de ombros. Andavam lado a lado, mantendo certa distância um do outro, o olhar fixo à frente. — Meu pai... digamos que tem certas dívidas para com Godfrey. Estou colocando as coisas em ordem.
—Sabe que não podemos nos envolver nos assuntos os reinos... — o tom de voz de Nero era baixo, porém cortante. Não lhe agradava a ideia de que um Caçador não fosse comprometido integralmente com os valores que jurou seguir. — Deixe para que ele resolva.
— Estou apenas fazendo cobranças das quais ele não têm conhecimento. Quero que sua memória seja honrada, não ficando apenas restrita a canções sobre sua bravura. Tornei-me caçador para ficar mais próximo a ele, enquanto ainda posso. — O vampiro pigarreou, inquieto com o assunto. Nero limitou-se a assentir. — E você? Porque tornou-se um caçador? — perguntou, tentando parecer minimamente interessado no que o outro teria a dizer.
O dragonesi olhou de canto para Arthur, uma de suas sobrancelhas arqueadas, estranhando seu comportamento. Ficou longos instantes em silêncio antes de respondê-lo.
— Sempre quis lutar pelo que acho certo. Não gosto dos jogos políticos e de como somos usados como peças por aqueles que detêm o poder. Como um Caçador posso servir a todos consciente de que ninguém está sendo manipulado.
— Ainda acredita que todos são morais e justos? — Helwin gargalhou, desdenhando do outro. — Todos são corruptíveis, Tsvietz. Quando o desejo por algo fala mais alto não hesitamos em pegar o atalho.
— Respondo apenas por mim, Helwin. Acredito que todos têm consciência do que fazem. Aqueles que ficam cegos o suficiente a ponto de achar que atalhos não deixam rastros, uma hora caem.
A esta altura, já tinham saído do bosque, a aldeia já podia ser vista ao longe, descendo a colina sobre a qual se encontravam. A dragão de Nero estava a espera deitada sobre a relva. O Dragonesi montou em seu animal, partindo em silêncio, tornando-se apenas um contorno no céu noturno.
* * *
O grande salão se encontrava apinhado de gente. As diversas mesas tomadas em sua maioria por vampiros que serviam-se de um caneco de bebida, ou então tinham uma, até mesmo duas mulheres semi nuas ou completamente despidas em seu colo. Chegassem desacompanhados ou então em grupos, fossem casais ou apenas buscassem um pouco de diversão e prazer, todos reuniam-se naquele lugar.
Ricamente decorado com todo o conforto que somente um membro da realeza podia dispor, o estabelecimento há décadas mantinha a fama por realizar todas as fantasias, sejam elas quais fossem, com o máximo de discrição. Mesmo que desfrutar deste lazer não fosse algo barato, o local sempre fora altamente frequentado, com clientes dispostos a dar tudo o que tinham por alguns momentos.
A maior procura era pelos homens e mulheres mais belos e caros, chamados formalmente de Fornecedores. Estes estavam ali para satisfazer os desejos da carne e do corpo. Mesmo que a atividade fosse proibida no reino e a consequência fosse, por lei, a execução, ninguém preocupava-se genuinamente com isso. Todos ali dentro estavam sob os cuidados do proprietário que, naquela noite, encontrava-se sobre uma superfície elevada, sentado em um cadeirão de madeira ricamente ornamentado com pedras e entalhes em ouro puro.
— Alteza, Arthur Helwin deseja vê-lo — anunciou uma jovem, não tinha muita idade, a cabeça baixa e as mãos juntas à frente do corpo entregando o quanto estava assustada de estar naquele ambiente.
Gustaf Godfrey tinha o corpo largado de modo desleixado, com uma das pernas apoiada sobre o braço do cadeirão, na outra possuía uma bela mulher de cabelos cheios e cacheados. Seus dentes estavam cravados no pescoço moreno, as mãos deslizando numa lenta carícia pelo corpo nu. A cada gole, sentia-se mais revigorado. A mulher por sua vez, estava quieta, a cabeça pendendo levemente para trás, emitindo leves gemidos, prazerosa.
O príncipe ergueu uma das mãos, sinalizando para que a criada esperasse alguns instantes, sua atenção ainda estava concentrada no sangue que fluía por sua garganta, saboroso e intenso, como apenas o sangue de alguém tomado pelo êxtase conseguia ser. Não tardou para que a morena caísse flácida em seus braços, sem vida. Alguns fios de sangue escorrendo das perfurações de suas presas em direção aos seios. O vampiro limpou o rastro com a própria língua, saboreando as últimas gotas. Largou o corpo da mulher bruscamente e, antes que esse caísse ao chão, servos o seguraram e retiraram-na do local em silêncio.
Com um pano, limpou resquícios de sangue em seus lábios e ajeitou-se no assento. Olhou para a palma de sua mão, sorrindo ao ver que o profundo corte já cicatrizava, em alguns instantes sumiria, deixando a pele alva imaculada novamente. Podia sentir as queimaduras em seu rosto e corpo irem regenerando-se lentamente conforme o sangue da humana penetrava em seu corpo.
— Vejo que os negócios estão cada vez mais prósperos. — Arthur subiu os degraus até onde o Príncipe se encontrava, um largo sorriso no rosto e os braços abertos.
— Helwin. — Cumprimentou com um aceno de cabeça. — Bom vê-lo novamente, já estava me perguntando o que tinha acontecido ao meu melhor cliente. — O Godfrey levantou-se passando um braço ao redor de Arthur e virando-o de frente para o salão.
— Apenas tratando de negócios, como sempre — disse sorrindo de canto. — As novas irão chegar até a próxima lua, se tudo der certo.
— Ótimo! — Gustaf juntou as mãos à frente do peito, um largo sorriso abrindo-se no rosto, o olhar afiado. — Nada como novos sabores durante uma guerra, não é mesmo? Quando todos não hesitam em pagar pelos prazeres, movidos pelo medo de não haver a noite seguinte. Você não adora guerras, Helwin?
— Gosto do caos. Não me dou por satisfeito enquanto não vejo tudo em chamas. — Os olhos verdes de Arthur faiscaram sádicos, observando cada rosto no recinto. Um semblante de satisfação iluminou seu rosto ao imaginar todas aquelas pessoas gritando em agonia.
O Príncipe tinha os olhos pousados sobre o Caçador, estudando-o atentamente.
— Em determinados momentos, você me remete a minha irmã. Partilham de mesmo gosto pelo caos. — disse, voltando a fitar o salão.
— Garanto que este é o motivo que a torna a Princesa tão atraente, pelo menos para mim. — riu suavemente, completando por fim: — Se realmente uma guerra está por vir, quero assisti-los devastar tudo que estiver pela frente.
— Que estas pobres almas aproveitem o tempo de paz que lhes resta. — disse num tom de lamento fingido, arrancando gargalhadas de ambos em seguida. — Qual será a escolha da noite?
— Meu favorito.
— Sua atração peculiar por mulheres que remetem à minha irmã me custa caro, Helwin. Sabe como é difícil encontrar tantas características na mesma pessoa.
— Não se preocupe, sempre lhe pago devidamente, não é mesmo? Pagarei em dobro se necessário.
— Sabe, se fantasia tanto assim sobre ela, talvez um dia possa deitar-se com a própria. — Gustaf abriu um sorriso zombeteiro, o olhar brilhando divertido. — Fica o convite para passar uma noite conosco, quando desejar.
— Oferta tentadora, devo admitir. — Arthur riu fracamente, a cabeça baixa e olhar vago. — Mas acredito que a princesa tenha um gosto refinado, além do mais, é um pouco rude referir-se a ela desta maneira.
— Apreciamos todos os gostos, Helwin. Se tem algo que não abrimos mão é de experimentar coisas novas. — o sorriso do Godfrey se alargou. Virou-se para Arthur aproximando-se um pouco mais dele, completando em um tom baixo: — Além do mais, um a mais ou menos na conta dela, que diferença irá fazer? Para ter o que deseja dela, basta ter o que oferecer.
— Como ainda mantém sua cabeça sobre o pescoço, Gustaf? Creio que se essas palavras chegassem ao ouvido dela, estas seriam suas últimas. — Olhou para Gustaf atentamente, o cenho franzido, como se o estudasse. Sua expressão era um misto de raiva e divertimento.
— Lyra não levantaria um dedo contra mim. — ele riu, afastando-se, voltando a percorrer o olhar pelo salão.
— Não teria tanta certeza assim, ela tem seus segredos. Porque ela seria inteiramente transparente mesmo com você? — Arthur tinha o olhar estreito, os lábios franzidos, seus dedos tamborilando sobre a bolsa a qual trazia guardada a adaga que reitou do corpo do soldado.
— Está insinuando que tem conhecimento de algo que não sei, Helwin? — o semblante de Gustaf era raivoso, tinha os punhos levemente cerrados.
— Como poderia? Sou apenas um Caçador, que serve ao Continente. — ele riu desdenhoso. — Se não se importar, gostaria de aproveitar minha noite.
Gustaf assentiu bufando, largando o corpo novamente sobre o cadeirão e fazendo um sinal para que uma das serventes acompanhasse Arthur.
— Até mais ver, Godfrey. Espero que se recupere logo destes arranhões. Estão grotescos! — o vampiro disse, divertindo-se com toda aquela situação.
Gustaf limitou-se a grunhir baixo, os dentes à mostra. Porém logo deixou a raiva de lado e ocupou-se em tomar outra mulher para si.
***
O Caçador seguiu a moça até um patamar inferior de teto baixo e pedras salientes, iluminado fracamente por algumas tochas pontuadas entre as diversas portas ao longo do corredor. A maioria delas estavam fechadas, mesmo assim não eram uma barreira forte o suficiente para impedir que os sons atrás delas vazassem. Gemidos e gritos, xingamentos e juras de amor, uma experiência diferente a cada cômodo.
Ao fim do corredor, a servente colocou-se ao lado da última porta, gesticulando para que Arthur entrasse.
— Desfrute de sua noite, meu senhor — ela disse num tom de voz baixo, a voz doce, quase infantil. Tinha a cabeça baixa, não tenho olhado um segundo sequer no rosto do vampiro. Fez uma pequena mesura e saiu, voltando rapidamente por onde tinham vindo.
Arthur fechou a porta atrás de si, sorrindo ao ver a mulher sentada sobre a cama, trajando apenas um roupão de seda verde-escura que estava desamarrado, deixando a mostra seus pequenos seios. Aproximou-se, esticando a mão em sua direção, fazendo uma pequena reverência e beijando os dedos longos e delicados quando ela colocou sua mão sobre a dele, a puxando delicadamente e levantando-a.
Rodeou-a, coçava o queixo com o polegar e o indicador enquanto a observava nos mínimos detalhes. Parou a sua frente, deslizando as mãos pelos ombros da mulher e tirando seu roupão. Pegou duas mechas dos longos cabelos ondulados cor de ouro, usando-as para esconder-lhe os seios.
— Você é muito bonita — disse mais para si mesmo. Acariciava o rosto dela com suavidade. Era uma das melhores que tinham lhe servido até aquele dia. De feições delicadas e pele alva, para muitos, a jovem seria o tipo de mulher o qual diversos homens disputariam como companheira.
— Obrigada, meu senhor — ela respondeu, um sorriso encantador despontando em seus lábios.
O vampiro passou alguns instantes em silêncio, observando-a. Comparando-a. Percebeu que o tom dos olhos era de um verde mais aberto, o nariz não era arrebitado e sim levemente arredondado, o cabelo era mais escuro, num tom de palha. Notava-se a pele levemente bronzeada e os lábios apesar de bem desenhados, eram finos.
Os lábios do Caçador crisparam-se, o semblante suave substituído por um cenho franzido e o olhar estreito, louco. Seus dedos fecharam-se entorno da garganta da mulher, firmemente, apertando cada vez mais, impedindo-a de gritar. Tentava a todo custo livrar-se do aperto, mas não tinha forças contra Arthur.
— Infelizmente, não é ela... — ele a ergueu, suas unhas já provocavam profundos cortes na pele do pescoço fazendo escorrer filetes de sangue. Observava prazeroso os olhos arregalarem-se em desespero, a pele lentamente arroxeando-se. — Mas terá de servir por agora.
Jogou-a contra a parede. A mulher arfou ruidosamente, caindo ao chão com um baque surdo. Arthur aproximou-se, prendendo-a sob seu corpo, segurando seus braços acima da cabeça com uma das mãos.
— Por favor, pare! Pare, eu lhe imploro! — clamava em meio a soluços, chorando intensamente.
— Shhh... — Ele colocou o indicador sobre os lábios dela. Estava tomado pela raiva e pela loucura. Quando mais percebia que a mulher estava debilitada, mais o sorriso em seu rosto se alargava. — Logo irá acabar.
Ele sacou a adaga da pequena bolsa de couro, observando-a contra a luz. Segurou firmemente o punho, deslizando a ponta sobre a pele desde o rosto até o busto, provocando diversos arranhões.
— Ainda vou ouvi-la chorar, implorar quando seu destino estiver em minhas mãos. Não me importo com ouro ou glórias, apenas quero vê-la definhar. — ele sussurrou, parecia conversar consigo mesmo, o olhar estava vago, inconsciente das ações que tomava, aplicando demasiada força sobre a arma, provocando cortes profundos na carne da humana.
Parecendo recobrar a consciência, olhou para a mulher abaixo de si, observando o estrago que tinha feito. Ela chorava em silêncio, não tinha forças para mais que isso. Seu pescoço estava inchado, exalando tons fortes de roxo, as feridas sangravam intensamente, pintando-lhe o rosto, seios e cabelo. Uma pequena poça já se formando no chão ao seu lado.
Gargalhando, lentamente cravou a adaga na garganta, retirando-a em seguida. Os olhos verdes ficaram sem vida, vidrados e incrédulos em Arthur. O vampiro aproximou os lábios do corte, que jorrava sangue com fluidez, bebendo-o enquanto o coração ainda pulsava, deleitando-se com o sabor que o medo e a dor conferiam ao seu banquete.
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