Forgotten Faces

1 Dont Talk About The Past, Please.


A plateia era estonteante, quantas pessoas poderíamos afirmar estarem lá, gritando histericamente para uma banda que provavelmente nunca haviam visto na vida? Cinquenta mil? Sessenta? Para falar a verdade, não fazíamos a menor ideia. A fumaça branca do palco se espalhara por toda a parte, causando um campo de visão turvo, e respirações pesadas de todas nós. Luzes coloridas dançavam sob nossas cabeças e salpicavam nossos instrumentos, o calor era insuportável e o suor já havia tomado conta de 90% do meu corpo, as ágeis batidas e ritmo acelerado do heavy metal me faziam cansar mais rapidamente que as outras, porém esse era um sentimento quase imperceptível no meio de tanta emoção e concentração.

Lexie segurava firmemente o microfone, se recusava a deixa-lo descansado na base, para ela isso tirava a emoção do momento, pelo menos era o que explicava com sua teoria de “a vocalista tem que demonstrar mais entusiasmo, é seu papel por natureza”. Seu cabelo era ferozmente bagunçado pelo vento de fim de tarde, um loiro quase branco, de madeixas esvoaçadas rodeando sua cabeça. O tom de pele era tão claro como o do cabelo, porém era levemente rosado em certas extremidades causando um efeito mais suavisador quando em contraste com os longos e negros cílios-meia-lua que contornavam o brilho amendoado do olhar cheio de paixão. Sua voz é do tipo hipnótico, que faz qualquer pessoa que um dia tenha pensado em cantar, sentir vergonha de si mesmo. Um dom natural sem tamanho, que apenas teve sorte de ser encontrado na hora certa. Em fim, o ícone da beleza da banda. Estava a encantar todos ali, seu estilo, o charme de seu pierceng na narina direita, e o timbre seduzente de suas palavras.

Fora um magnífico show. De longe um dos melhores da nossa carreira até agora. As pernas tremiam ao descer do palco, era impossível piscar. A felicidade era algo contagiante entre todas, ao sair pelo back stage, Eleonora não conseguia se conter, passava as mãos com força pelo curto cabelo castanho escuro de mechas vermelhas, olhos explicitamente arregalados não suportavam a emoção.

– CARALHO! Esse foi o melhor show do mundo! Sem comparações! Vanilla Poison !NÓS fizemos parte disso. Vocês tem noção de para quantas bandas importantes nós abrimos o festival?! Simplesmente Slipknot, Three Days Grace, A Day To Remember, Rise Against, Avenged Sevenfold….

“Avenged Sevenfold, Avenged Sevenfold, Avenged Sevenfold...” O nome repetia diversas vezes em minha mente, senti minhas costas ficarem tensas, meu plano tinha que dar certo, eu não podia dar para trás agora. Só tínhamos que esperar até o fim do festival para se certificar que o encontro das bandas ia acontecer, e se acontecesse, tínhamos que dar um jeito de entrar.

O resto do festival aconteceu tranquilamente, em todas as apresentações a plateia estava mais que intusiasmada, vibrante, era como o paraíso para qualquer bom apreciador do rock por bandas modernas. A noite estava clara e agora mais fresca, estávamos dentro do trailer e ouviamos claramente a agitação do outro lado do parque.

Eu engolia uma garrafa de Heineken atrás da outras, agora se finalizava a apresentação da última banda, o fim da música Drown era facilmente reconhecida, e assim que Three Days Grace silenciou seus instrumentos, meu coração disparou. A quarta garrafa estava para ser aberta quando Lexie segurou sutilmente minha mão, retirando a cerveja e botando-a no carpete vermelho imundo do chão.

– Desse jeito não irá sobrar nenhum neurônio sóbrio para conseguir falar com ele. — Ela se ajeitou no sofá de couro, para mais perto de mim.

– Nada garante que iremos conseguir entrar lá para início de conversa. Somos uma banda inferior a todas que pisaram naquela porra de palco hoje! É quase improvável que irão nos chamar para aquela reunião pós-show que eles fazem depois do festival...

– Cala a boca Jacky, olha onde conseguimos chegar? Você nos inscreveu para o teste de banda de abertura, e passamos! Primeiro passo dado, Tocamos e o povo adorou! Segundo passo dado! Agora é só você parar de agir como uma cuzona, levantar dessa porra de sofá e dar o jeito que você milagrosamente sempre consegue quando quer algo! — Lexie me segurava pelos dois ombros, e gritava em um falso tom de fúria. As outras riam da cena, eu confesso que cheguei a me assustar por alguns segundos. Mas quem realmente conhece Lexie, sabe que apesar da descontração, ela falava sério. Seus fartos lábios foram cobertos com batom vermelho-sangue e sorriam delicadamente para mim. Ela deu um soco de leve em minha cabeça, despenteando uma parte de minha longa cabeleira negra, meu cabelo era comprido, chegava ao meio das costas, porém ainda sim não conseguia ser maior que o de Lexie, que esse ano estava abaixo da cintura.

Suspirando me levantei e fiquei de pé no meio da sala do trailer, porém não dei um passo se quer. Eleonora me fitou por alguns segundos com seus cristalinos olhos azuis, porém achou mais interessante continuar acariciando sua SG Shelter Detroit, ou como ela preferia chamar “Tisha”. Seu temperamento nunca foi dos melhores, se irritava muito facilmente. Eleonora tinha um gênio difícil, reclamona, sarcástica até demais, porém era uma esplêndida guitarrista e o tipo de amiga que espancaria a máfia italiana para te defender.

Rose e Cristina enchiam a cara com todo o estoque de Whisky que conseguimos de cortesia na cozinha, sentadas no balcão de aço provavelmente cairiam cedo, não eram tão fortes quanto pensavam. Alguns segundos se passaram e Lexie ficara realmente impaciente com a minha inércia, dando agora um chute realmente forte na minha bunda, fazendo com que meia dúzia de palavrões fosse cuspida antes que eu deixasse o trailer.

Fui andando pela grama úmida pensando em um bom jeito de nos botar para dentro. A essa altura as bandas já haviam se reunido no seu ritual de fraternização, enchendo a cara com qualquer coisa que apresentasse álcool em sua composição. O que realmente me preocupava era se eu seria reconhecida por ele.

Explicando-me melhor, há alguns meses atrás, finalmente tive notícias de um velho amigo de infância, o qual crescemos e aprendemos a tocar bateria juntos. Só que não foi só isso. Ele foi mais do que qualquer pessoa seria para mim.

Era uma época difícil, meus pais não paravam de brigar, várias ameaças diárias, confusões e até alguns casos de polícia vinham infernizando minha vida. Era insuportável para uma garota de dez anos que não tinha para onde se esconder em uma época assim. Minha mãe me falava para nunca contar nada a ninguém, eu tinha que fingir estar sempre feliz, e se não estivesse gritavam comigo. Ouvia sempre meu pai dizer como foram idiotas de terem tido uma filha, que isso só lhes causava problemas e mais problemas. Eu era odiada por ele, isso não era mistério. Uma noite, depois de chagar extremamente bêbado em casa, ele me viu tentando pegar um copo na prateleira, infelizmente deixei o copo cair no chão da cozinha, fazendo milhares de pequenos cacos se espalharem por toda a parte. A surra que levei aquela noite fora tão grande que andei com hematomas por uma semana. Morávamos no subúrbio de Huntington Beach na Califórnia, era meu primeiro dia na escola Huntington Beach High School, eu estava nervosa, não tinha facilidade para fazer amigos e geralmente crianças são bem cruéis nessa idade.

Entrei na sala, não foi grande coisa, a professora me apresentou sem muita demora e mandou sentar em um dos dois lugares que estavam vazios. Um era na segunda cadeira, atrás de uma linda garota loira de olhos claros, que demonstravam bastante tédio ao me ver lá ,parada na frente de todos com cara de bunda. Ao lado dela outras garotas igualmente fofas e arrumadas como pequenas princesas, faziam cara de nojo ao olharem para mim, e tinham razão. Enquanto elas usavam lindos vestidos estampados e frescos de acordo com o tempo, eu estava vestida com um moletom cinza e velho de algum time de basquete desconhecido. Meu cabelo (que já era enorme desde aquela época) estava solto e pousava sobre o ombro, sem nenhuma presilha ou fita colorida. Senti-me intimidada, ficar perto delas só traria mais vergonha do que eu já sentia no momento. Sem pensar, corri para o fundo da sala, o outro lugar vazio era na segunda fileira, na penúltima cadeira junto a um grupo de garotos bagunceiros que nem se importaram quando me sentei ao meio deles. Eu era invisível lá, e isso era confortante, pelo menos foi o que eu pensei até alguém atrás de mim puxar meu cabelo com força, fazendo minha cabeça virar para trás e praticamente deitar na mesa dele.

– O seu cabelo é TÃO maneiro! Deve ser o mais comprido que eu já vi! Parece com o daquela mulher da família Adams, como é o nome dela?! Ei Você gosta de família Adams? Adoro a mãozinha queria ter uma mão de estimação, sem ser a minha sabe, uma que tivesse vida própria! Imagina andar com uma mão amputada para toda parte? Muuuuito maneiro! – O garoto de vibrantes olhos azuis não parava de falar um segundo, e ainda brincava com meu cabelo, rodando e embaraçando – o para todos os lados. Usava uns óculos de armação grossa e cabelos castanhos bem escuros, seu rosto era bem redondo e seu queixo era duplo, igual ao meu.

– Jacky não é?! Eu sou James! James Sullivam, mas pode me chamar de Jimmy, só meus amigos de verdade me chamam assim, mas você parece precisar de algum amigo, então eu deixo você me chamar assim.

Fiquei sem palavras por algum tempo, olhando-o assustadamente. Ele riu uma gargalhada alta e gostosa, parecia se divertir com meu pânico, como se já não bastasse meu cabelo.

– Não liga não, o Jimmy é assim mesmo, com o tempo você se acostuma. – O garoto sentado a minha frente disse dando de ombros. Olhos castanhos, pele mais morena que os demais. – Você praticamente assinou sua sentença quando sentou perto dele.

– Cala a boca Brian, na verdade ela teve muita sorte! Sentando aqui ela pode ter a chance de me conhecer, coisa que eu sei que essas meninas vivem querendo fazer, mas falta coragem. – Jimmy disse fazendo várias poses engraçadas como se fosse algum tipo de modelo. Era impossível não rir.

– Parem de perturbar a garota. Ela é muito bonita pra vocês. — Um terceiro se intrometeu na conversa, este era de fato, muito bonito, tinha um lindo sorriso largo, olhos verdes e cabelos castanhos.

– Desculpa senhor “Matt Pegador”, esqueceu que só você é o cobiçado pelas garotas aqui. – Jimmy se curvou para Matt um em tipo de falsa reverência.

–Desculpe-me, mas não sou bonita. Não como elas. Por favor, não diga... Isso. –Falei em um tom baixo, mas infelizmente nítido o suficiente para ser entendido por todos, Assim que terminei a frase, quis engolir minhas palavras de volta. Fiquei vermelha.

– Mas o que diabos você está falando?! –Jimmy puxou meu cabelo novamente para trás, obrigando-me a olhar para ele. – Só porque você não parece com aqueles modelos demoníacos de Barbies em tamanho real não quer dizer isso. Até hoje acho que não sei diferenciar umas das outras. Então cala a boca e fique feliz de não ser assim. –Ele parecia realmente irritado por um tempo, mas logo depois todos começaram a rir, inclusive eu.

– Você é diferente, é por isso que ele tá tão interessado. Cuidado para ele não babar em você- Matt falava botando seus braços atrás da cabeça. Logo depois ganhou um empurrão de Jimmy que o fez quase cair da cadeira. — E ele tem razão, você é bonita, adoro olhos pretos assim. — Matt piscou para mim de brincadeira, me fazendo corar.

– Eu sou apenas um pouco fissurado em família Adams, isso não é um problema. E ei, não faz isso! Se piscar assim para ela eu não terei chance nenhuma! – A brincadeira dos dois se estendeu por bastante tempo. Brian continuava calado, e ignorando a palhaçada deles.

Era primeira vez que me sentia descontraída em um ambiente diferente. Foi nesse exato momento em que percebi que, pelo menos uma vez, eu poderia não ser um erro.

Jimmy e eu começamos a conversar muito, o tempo passou e com ele ficamos inseparáveis. Ele era considerado o esquisitão da escola, algumas pessoas realmente gostavam dele, outras simplesmente o ignoravam. Muito palhaço e descontraído, era impossível ficar triste perto dele. Ele era a pessoa que eu precisava. Na escola meu mundo desaparecia, toda a dor, raiva e angústia que me sufocavam diariamente sumiam, e lá estava ele. A única pessoa capaz de sorrir a me ver chegar, de perguntar como eu estava e que realmente se importava com a resposta. Ele era a pessoa a me amparava quando tudo estava desmoronando, sentava comigo no outro lado da rua quando uma briga feia começava em casa, geralmente tentava me arrastar para o mais longe de lá, porém eu preferia ficar por perto caso tivesse que ajudar minha mãe.

Na escola Brian e Matt também conversavam comigo, adorávamos falar sobre música, filmes, e sonhos bobos como fazer uma banda de sucesso. Jimmy e eu já fazíamos três anos de bateria, entramos juntos como um jeito de extravasar nossas emoções, e Jimmy desenvolveu uma paixão e habilidade inigualável pela coisa.

O tempo passou, os meninos montaram uma banda legal com esse nome comprido “Avenged Sevenfold”. O sucesso foi vindo aos poucos, e de surpresa apareceu na cara de todos eles. A essa altura Jimmy já havia largado a escola há muito tempo , mas nos víamos todo dia, ele ia me buscar e passávamos a tarde juntos, antes de ele ter de ir para os ensaios e eu voltar para casa. Só de ver seu sorriso uma vez por dia, meu coração se acalentava, me sentia mais segura, e motivada para acordar no dia seguinte. Pelo menos foi assim até tudo desabar de vez. Jimmy veio entusiasmado me dizer que a banda iria para seu primeiro Tour. Fiquei feliz no início, mas logo depois percebi o que isso queria dizer. Não iria vê-lo por um bom tempo. Ele prometeu ligar todos os dias, porém com os ensaios e correrias as ligações se espaçaram, e logo desapareceram. Os shows eram longe, e cada vez mais frequentes, a ultima vez que pude vê-lo, foi quando ele me fez uma surpresa de natal. Aparecendo na minha janela, depois de meia-noite, com aquele velho sorriso contagiante. Usava um gorro vermelho e entrou com bastante dificuldade na pequena parte aberta da janela, já que estava enorme com seu 1,98 metros. Segurando o choro, abracei-o com toda a força, não queria que aquele momento acabasse nunca, ter ele de volta, mesmo que fosse por uma noite fez com que o caos se dissipasse por completo. Não consegui dizer absolutamente nada. Deitamos em minha cama um de frente para o outro, lagrimas escorriam pelo meu rosto, mas ele as limpava, fazendo questão de não deixar nenhuma escapar.

– Eu não mereço essas lágrimas... Eu não mereço que você fique feliz de me ver aqui agora, depois de tanto tempo. Você tem suportado tudo isso sozinha, e quando eu pensava nisso, meu coração se apertava, doía de uma forma inexplicável. Eu esperava chegar aqui e receber a maior surra que uma garota de 18 anos poderia me dar, e ao invés disso recebo as mais puras lágrimas de alegria. Isso dói tanto. Então eu não mereço isso. – Ele estava realmente sentido, parecia segurar o mundo de culpa nas costas. Seus olhos úmidos me fitavam com compaixão, e sua mão agora acariciava meu cabelo, tirando as mechas que usavam a cair em meu rosto.

– Você veio isso que importa. Você não me abandonou de verdade... – Depois disso nos abraçamos e ficamos assim o resto da noite.

Não muito tempo depois ele saíra com a banda de novo. Depois disso não o vi nunca mais. Logo fugi de casa e conheci Lexie em um bar que parei no meio da viagem. Ela cantava para homens bêbados que nem se quer reparavam a beleza de sua voz, contentando-se em falar baixarias sobre seu corpo. Conversamos e descobrimos que tínhamos muito em comum, principalmente o motivo pelo qual estávamos no bar. Depois disso tudo desandou. Eleonora já tocava com Lexie a um tempo, então entrei para o grupo como linha de percurção. resolvemos montar a banda, Cristina, e Rose apareceram subitamente interessadas no projeto, e a banda feminina Vanilla Poison foi formada.

O nome deles aparecia em todo lugar, eles estavam realmente famosos. Porém não tínhamos oportunidade nem tempo de fazer nada. Estávamos trabalhando realmente duro na banda, e procurar por Jimmy para mim já não era mais uma opção. Ele provavelmente havia cansado de mim, assim como todo mundo. O tempo passou até que, um dia saindo do Starbucks, em Seattle, avistei um cartaz pregado em um poste, anunciando o festival anual de “Seattle Rock”. Fiquei realmente feliz quando vi que ainda estavam a procura de uma banda de abertura, ainda mais sendo em um super festival que por coincidência acontecia bem na cidade em que estávamos, mas meu coração parou de vez quando vi que uma das bandas participantes era Avenged Sevenfold. Arranquei um dos telefones de contato e corri para nosso apartamento, até agora não sei o que me passou pela cabeça para vir parar aqui agora.

Agora eu estava andando, em meio ao parque de exposições de Seattle, sem ter a mínima ideia de como entrar na reunião das bandas. Quer dizer, nós sabíamos que havia uma, mas não tínhamos sido convidadas. Ainda.

Notas finais
então, desculpem o exesso de detalhes, esse capítulo foi mais para apresentar os personagens e todo seu envolvimento, ainda teremos muita trama pela frente, mas enfim, esse é mais para mostrar o psicológico da protagonista.