Forgiveness
1 Forgiveness
Notas iniciais
“Se você precisa de perdão, eu te perdoo.”
O rapaz sussurrara no escuro, sua voz se partindo em pequenos pedaços, enquanto tentava reprimir as lágrimas que se acumulavam nos belos olhos castanhos. Percy Weasley sempre amara aqueles olhos. Mesmo antes. Mesmo quando não se dava conta. Havia qualquer coisa nos olhos de Olívio Wood que fazia o mundo inteiro tornar-se brilhante e quente. Uma chama que crepitava cheia de vida, paixão e bondade.
Merlin era testemunha de que, naquele momento, o homem do Ministério precisava de algo bom em sua vida. E Olívio era bom. E doce. E simples. No entanto, tudo o que o ruivo estava fazendo era arruiná-lo, o arrastando para o buraco negro de problemas, arrependimentos e agonia que era sua vida. Assassinando sua luz. O despedaçando como fazia com tudo o que tocava.
“Percy...”
O Wood chamou, mas o Weasley não foi capaz de encarar seus olhos. Desviou o rosto para o outro lado do quarto, voltando sua atenção para o pequeno despertador ao lado da cama. Eram três horas da manhã. Do lado de fora, a madrugada caía escura e sem estrelas. Nenhum vestígio de luz quebrando as trevas. O vento uivava sem misericórdia, se tornando o único som a ir contra o silêncio sufocante daquela noite. O mundo inteiro dormia. E ali estavam os dois rapazes. Despertos. Em dor. Percy havia feito de novo.
Atrapalhara o sono pacífico do namorado ao acordar aos berros após um pesadelo. Mais uma vez. O sonho, no entanto, era o mesmo. Estava de volta a Hogwarts e feitiços chicoteavam por todos os lados. Fred estava ao seu lado e lhe sorria – por Merlin, ele sorria! – enquanto dizia: “você está realmente brincando, Percy! Eu acho que nunca vi você brincando desde que...”. Então, o ar explodia, mandando tudo para o inferno. A escuridão o engolia, havia sangue, havia dor, havia destroços e havia o corpo sem vida de seu irmão em seus braços. O fantasma daquele último sorriso ainda em seus lábios.
Então o Weasley acordava, ao lado de um Olívio sonolento e preocupado que tentava lhe confortar, e sentia-se a pessoa mais imunda do mundo. Todo seu ser consumido pelo arrependimento, enquanto constatava – não pela primeira vez – que havia se permitido ser feliz, que havia se permitido amar, que havia se permitido ser amado, enquanto seu irmão estava morto. Por sua culpa.
Percy não havia planejado se envolver com Olívio. Não em meio a todo o caos dos últimos quatro anos. Nem mesmo antes ou em qualquer outro contexto. Nunca imaginara que o Wood – o rapaz obcecado por Quadribol e irritantemente extrovertido com quem dividira um dormitório durante seus anos de Hogwarts – um dia seria a pessoa que ele iria amar. A pessoa que faria seu coração disparar e despertaria nele sentimentos únicos e novos. Entretanto, seus caminhos acabaram voltando a se cruzar em um dos encontros casuais da vida e ali estavam os dois. Não deveriam estar. Não era justo com o rapaz e o Weasley certamente não o merecia. Não merecia nada além de estar a sete palmos do chão, no lugar de Fred.
“Percy...”
Olívio chamou novamente, se aproximando com cautela e tomando as mãos do namorado nas suas. O ruivo ainda não era capaz de encará-lo.
“Você não pode continuar a fazer isso consigo mesmo.”
O Weasley não havia dito uma única palavra. Nunca dissera. Não quando se tratava de seus pesadelos. Ele simplesmente despertava, suado, trêmulo, às vezes aos prantos, e o Wood o confortava, sem indagações ou cobranças. Apenas ficava ao seu lado. Ainda assim, palavras não era necessárias. Olívio conseguia ler cada ansiedade, medo, insegurança e culpa de seu coração. O conhecia bem demais para se deixar enganar.
“Seus pais te perdoaram. Seus irmãos te perdoaram. Fred te perdoou. Agora você precisa perdoar a si mesmo.”
O ruivo fechou os olhos, contendo a respiração. Não podia se dar aquele luxo. Na ânsia de acertar, misturada a sua ambição natural, havia feito tudo errado. Havia feito uma bagunça. Havia fodido com tudo. Não conseguia, portanto, encontrar espaço dentro de si para perdão. A culpa consumira tudo o que restava dele como labaredas em um incêndio.
“Eu sei que você cometeu erros, Percy, mas você já pagou pelos seus pecados. A morte do Fred não foi um deles. Não foi sua culpa.”
Olívio disse tais palavras com tamanha convicção que, por um instante, Percy desejou acreditar nelas. A ideia penetrou em sua consciência por meio segundo, até se esvair nas sombras de sua mente.
“Eu não posso.”
Confessou, se manifestando pela primeira vez. Tudo aquilo era tão complicado!
“Talvez não ainda. Mas um dia você vai. Até lá, se você precisa de perdão, eu te perdoo. Perdoo todos seus pecados, todas as suas falhas, cada mínimo erro que você possa ter cometido até aqui. Perdoo até mesmo os que você ainda vai cometer.”
Percy quis chorar. Percy quis dizer que não era assim que o mundo funcionava. Percy quis amá-lo por toda sua vida. Olívio apertou suas mãos com mais força.
“Eu te amo, Percy Weasley.”
Disse, abrindo um daqueles sorrisos que sempre lhe vieram fáceis, e fazendo o namorado sentir que, pelo menos naquela noite, poderia se segurar a isso. Poderia ancorar-se ao sorriso de Olívio Wood e fazer dele seu porto seguro. Só dessa vez. (Pela milésima vez). Porque não era forte o suficiente para navegar por aquela tempestade sozinho.
“Eu não mereço você.”
O Weasley afirmou, fitando as próprias mãos. Olívio ergueu seu queixo gentilmente, o forçando a encará-lo.
“Eu pensei que você fosse um homem inteligente, Weasley. Devo ter me enganado, porque essa foi a coisa mais estúpida que já ouvi na vida.”
O ruivo foi forçado a rir, sentindo-se um pouco mais leve.
“Eu te amo, Olívio Wood.”
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