Forget-me-not
1 Não se esqueça de mim
Notas iniciais
Mais e mais pessoas entravam e saíam daquele pequeno quarto. Ouvia o choro de muitas pessoas, uns gritando e outros silenciosos. A família nunca saía de perto do caixão agora cheio de flores brancas, mas também se ocupavam para cumprimentar os conhecidos que os visitavam.
Porém, meus olhos já não conseguiam distinguir o rosto das pessoas devido ao suor dos olhos ou, para o resto do mundo, lágrimas. Segurando a foto onde ele estava sorrindo, silenciosamente deixava meus olhos de molharem pela primeira vez em muito, muito tempo.
Sem minha visão, comecei a imaginar como seria se ele ainda estivesse aqui... Eu estaria em casa assistindo alguma série clichê para passar o tempo que ficava sozinho esperando Hiro. Ele chegaria parecendo uma bola pelos tantos casacos que havia vestido ignorando meu aviso de que esquentaria aquele dia.
O moreno tiraria sua vestimenta rapidamente pelo calor da casa e eu reclamaria pelo trilho de roupas até o nosso quarto. Depois, à noite assistiríamos a um filme qualquer, poderia ser um de terror ou de romance. Mais tarde estaríamos enrolados um no outro sem os cobertores. Se eu apenas não tivesse o deixado sair de casa ontem, estaríamos fazendo tudo isso e mais...
— ...kun... Akira-kun? – ouvi uma voz bem familiar me chamar de longe. Lentamente ergui minha cabeça para vê-la. – Pode ir para casa agora. Nós arrumaremos o resto. – agora estava mais nítida, tanto a voz como seu rosto. Não havia percebido até olhar a minha volta que já eram nove horas da noite e apenas sua família e eu estávamos presentes naquele cômodo.
— Ah, baa-chan... – voltando meu olhar para a senhora, percebi que seus olhos não poderiam ficar mais vermelhos. Não apenas ali, mas o nariz e as bochechas também. – Baa-chan, a senhora deveria descansar agora e deixar o resto conosco... – tentei inutilmente sorrir, porém nem o mínimo sorriso apareceu.
— Não precisa. – sua voz estava rouca de tanto chorar, mas ainda era gentil. Ela pegou a foto dos meus braços com um pouco de dificuldade, nem tinha percebido que estava abraçando-a como se fosse o meu tesouro mais do que precioso. – Você que deveria voltar para casa. Já está tarde e você acompanhou todo caminho até aqui hoje. Obrigada, Akira-kun.
Sua voz começava a embargar novamente pela ânsia do choro, contudo levou o lençol aos olhos rapidamente. Olhei para o altar que havia sido feito ali no quarto. Decorado por flores de funeral estava outra foto do moreno. Seu caixão era marrom e adornado nas bordas, ainda estava aberto, mas não tinha coragem de chegar mais perto do que onde estava.
Eu deveria ter sido mais carinhoso, mais sincero, mais gentil, voltado para casa de bom-humor, recebê-lo com mais felicidade, tê-lo mimado mais... Agora vendo onde ele jazia tentava enfiar na minha mente que recusava a acreditar essa realidade tão... cruel.
Até uma semana atrás Hiro estava sorrindo dos meus gestos, rindo das minhas crises de timidez... Até alguns dias atrás trocávamos votos de amor sussurrando como se fosse um segredo apenas nosso... Até ontem o moreno estava andando, respirando, sorrindo, chorando, ficando bravo, reclamando, rindo...
Minha visão começava a embaçar novamente. Maldito suor! Era a última vez que o veria e não era possível vê-lo pelas águas salgadas que surgiam sem freio. Respirei o mais fundo que meus fungos permitiam e desviei meu olhar para o chão quase desabando em lágrimas ali mesmo, quase.
— Akira-kun... – eu não tinha coragem ou força para encará-la mais uma vez. – Obrigada. – foi o que falou e afastou-se para me deixar sozinho com minhas memórias.
Depois de apenas alguns segundos peguei as flores que eu havia trazido comigo. Criando coragem, andei lentamente em direção ao caixão reprimindo a enorme vontade de gritar, tentar chamá-lo de volta, como se fosse possível, e finalmente deitar ao seu lado. Vendo seu rosto pálido, sem expressão nenhum, era tão óbvio que a vida não existia mais ali...
Depositei um pequeno e único ramo de miosótis no meio das flores brancas. Sua cor azul puro se destacava por ser o único com cor, mesmo que fosse pequena.
Apalpei meu bolso e de lá tirei uma caixinha azul escuro. Abrindo-a encontrei os dois anéis idênticos que eu tinha comprado no mês passado. Olhei com certo carinho por instantes e removi uma das circunferências.
Segurei a mão pálida e gelada demais do homem. Por longos segundos tentei esquentá-lo com o meu calor, mas no fundo sabia que não adiantaria nada. Ou será no fundo, no fundo mesmo eu estaria com uma fração de esperança? De que ele se levantaria a qualquer momento falando que era só uma pequena vingança por ter comido seu pudim sem sua permissão...
Quando iria colocar o anel em seu dedo anelar, senti um remorso. Do que isso valeria agora, visto que ele não está aqui para compartilhar esse sentimento? Estaria eu sendo muito egoísta e ignorante da minha parte ao sentir todas essas emoções distorcidas e misturadas sendo que não havia feito nada por ele?
No final, não consegui colocar o anel diretamente em seu corpo. Apenas coloquei de volta na caixinha, retirei o que seria o meu e pus ao lado da flor que eu tinha depositado ali. Aquele pequeno ramo correspondia uma fração dos meus pensamentos. "Relaxa, Hiro... Não irei esquecê-lo... Nem mesmo por um segundo..."
Saí de lá com pequenos e pesados passos. Colocando o primeiro pé na rua, senti gotas de águas caírem na minha cabeça, estava chovendo. Até o céu estava chorando pela minha perda... É o que eu pensaria normalmente, mas hoje nem o vasto, agora, cinza escuro não conseguiria expressar meus sentimentos...
Parei para olhar a aliança de prata que agora não poderia valer nada sem amor. Por que não havia dado para ele antes? Teria sido diferente? Por que eu era daquele jeito, tímido e covarde? Por que as coisas não poderiam ir melhor? Por que Hiro não estava lá ao meu lado?
Levantei meu rosto para cima, mas sem ver o céu, apenas sentindo o líquido dos olhos descer misturando com as gotas de chuva e fazer um percurso pelos lados para cair do meu queixo. Lembranças desse maldito idiota invadiam minha cabeça.
Quando éramos crianças e brincávamos sempre juntos. Quando ele conseguiu sua primeira namorada no ensino fundamental. Quando estava deprimido por ter sua primeira separação e veio até a mim para conseguir consolo.
Quando de repente se declarou que gostava de mim no final do terceiro ano do ensino médio, seu rosto vermelho como pimentão podia ser visto pelas brechas do cabelo que estava cobrindo sua face. Quando tivemos nosso primeiro encontro, nosso primeiro beijo, nossa primeira noite... Quando me prometeu que sempre ficaria junto e me ajudaria em todos os momentos...
Quando saiu de casa ontem de manhã dizendo que iria comprar o café... E não voltou para mim.
Seu mentiroso...
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