Forget-me-not
8 Sakura
Notas iniciais
Sakura
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–Moriyama-san, sua ex-namorada está lá fora.
Kobato parece estar com um pouco de mau humor, mas abre um sorriso logo que lhe beijo a mão. Ah, sim, essas meninas são umas gracinhas.
–Obrigado, Kobato-chan.
Respiro fundo. Ver Mirai ainda era uma dor no peito, mas felizmente estava cicatrizando rápido. Termino de arrumar minha cama e vou recepcioná-la.
Mirai está parada do lado de fora da floricultura com os braços cruzados sobre o peito e parece meio impaciente. Ah, caramba. Ela continua linda...
–Yoshi- Moriyama. Que bom que veio.
–Eu é que agradeço. Trouxe minhas coisas?
Por que ela tem que continuar tão bonita? Não é justo.
Ela parece mesmo um copo-de-leite.
–Trouxe, estão no porta-malas.
Mirai abre o porta-malas do seu carro e tira de lá quatro caixas de papelão de tamanho médio. Ajudo-a. Izuki-kun e Suzume chegam para ajudar também, pegando as caixas e as levando para o quarto em que durmo.
Mirai limpa as mãos nas calças e olha para o outro lado.
–Bom, é isso.
–Obrigado de novo.
–Tudo bem...
Ela se despede, entra no carro, e vai embora. Se Deus quiser, nunca mais vou ter que olhar pra ela. Sinto-me mal, e extremamente cansado. Minha cabeça ainda está doendo por causa da bebedeira de ontem. Suspiro.
Dou meia volta e entro na floricultura. Kobato está lendo uma revista atrás do balcão e Suzume rega as flores cantarolando uma música alegre. O clima está agradável, nem muito frio, nem muito quente, e a loja está super colorida.
–KOBATO, SUZUME! — ouço Izuki-kun gritando do fundo da loja. As duas garotas erguem as cabeças, e até eu me viro para olhar. Izuki-kun surge correndo pelo corredor e para no meio da loja com um sorriso enorme no rosto e os olhos super brilhantes.
–Que foi?
Ah, merda. Ainda estou com aquela ideia na cabeça.
–Olhem só!
Izuki-kun ergue a mão direita e Kobato e Suzume dão um gritinho alegre, e se abraçam e começam a pular. Izuki bate palmas, contente, e eu fico lá meio perdido.
–Moriyama-san, não entendeu? — Izuki-kun chega perto de mim. Ele está tão feliz que mal consigo conter um sorriso.
–Não...
–Sabe o que é isso? — ele ergue a mão de novo e eu vejo um galho com algumas flores rosas.
–Hm, é um sakura, não é?
–Sim! E sabe o que isso significa?
Os olhos dele estão tão arregalados que mal consigo acreditar que nós bebemos todas ontem.
–Não...
–Como não?! Quer dizer o início da primavera!
Ah, sim, a primavera! Como pude me esquecer?! A loja ficaria mais colorida, mais alegre, mais cheirosa, e muito mais bonita do que já é.
Kobato e Suzume correm até o irmão e começam a enchê-lo de perguntas. Observo de longe. Essa família é muito fofa. Izuki-kun está radiante essa manhã e acho que até minha dor de cabeça vai embora. Não posso deixar de sorrir com a empolgação deles.
Como um ser humano normal, não entendo muito bem sobre flores ou primavera, mas entendo como isso deixa Izuki-kun e suas irmãs com sorrisos enormes nos rostos.
Droga, ainda estou com aquela ideia louca na cabeça, e ela não parece querer ir embora.
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–Shun-nii, a gente vai ver as sakuras hoje, né?
–A gente tem que ir!
Kobato e Suzume ficam tão fofas empolgadas, tenho vontade de mordê-las.
–Claro que vamos. — Izuki-kun responde, servindo-se de mais arroz — Algum ano deixamos de ir?
As meninas gritam de empolgação.
O almoço que Suzume preparou está mais do que divino, e como para tentar me recuperar da ressaca. Já estou bem melhor, mas não 100% ainda.
Izuki-kun colocou várias sakuras numa tigelinha com água e a mesa estava adorável e super perfumada.
–Vou fechar a loja mais cedo, aí podemos ajudar Moriyama-san a levar as coisas para a casa nova e visitar o parque antes de escurecer. — ele diz e olha para mim — Pode ser?
–Claro.
Seco o suor das minhas mãos na calça. Por que insisto em ficar pensando nisso? Não é... não é certo.
Os passarinhos cantam alegremente do lado de fora e a loja está cheia de abelhas e borboletas. Arrumamos a loja rapidamente e as meninas atendem os últimos clientes antes de Izuki-kun desligar o anúncio luminoso da frente da loja e irmos todos na direção da minha casa nova, carregando cada um uma caixa de papelão.
O apartamento está vazio, mas cheio de pó e todo fechado. As paredes me dão arrepios, e a cor da bancada da cozinha fere meus olhos.
Juro que se não fosse por Izuki-kun, não teria pegado esse apartamento.
–Nossa, aqui é bem espaçoso — Kobato olha ao redor.
–Mas que bancada feia. E essas paredes estão horríveis.
–Suzume!
–Desculpe, Shun-nii.
–Eu sei disso, Suzume-chan — digo e coloco a caixa no chão — Mas seu irmão disse que era só pintar que tudo ia ficar bom.
–Isso eu concordo. — ela coloca a caixa que carrega ao lado da minha — Então vamos pintar isso logo porque estou ficando nervosa.
–Suzume! Que modos são esses? — Izuki-kun parece horrorizado.
–Desculpe. — ela cruza os braços e vira para o outro lado — Só estou falando a verdade.
–O lado bom é que não fica longe da nossa loja — Kobato sorri alegremente e eu passo a mão na cabeça dela.
–Acho que vou lá fazer uma visitinha de vez em quando, pode ser?
Izuki-kun coloca a caixa no chão e segue rapidamente para a janela.
–Dá pra ver o parque daqui! — ele exclama — Nossa, as sakuras estão muito bonitas.
A luz do sol reflete no cabelo brilhante de Izuki-kun e ilumina seu rosto com uma luz amarelada. Dá pra ver os olhos dele brilhando, e ele parece tão feliz...
Argh, o pensamento não vai embora.
–Shun-nii, vamos ver as sakuras! — Kobato puxa a manga da blusa dele, parecendo uma criancinha.
–Podem ir na frente, eu fico aqui e ajudo Moriyama-san a desembalar as coisas, pode ser?
–Mas vocês não querem vir junto? — Kobato faz carinha de cachorro sem dono e eu rio da fofura dela.
–A gente vai, só vamos terminar as coisas por aqui. Vão na frente, sim?
–Tsc, ir ver as sakuras é coisa pra se fazer com o namorado, não com a chata da sua irmã gêmea. — Suzume revira os olhos.
–Vai chamar o italianinho então — Izuki sorri sugestivamente e as bochechas de Suzume ficam vermelhas.
–Shun-nii... Não seja bobo. — Suzume pega Kobato pela mão e saem pela porta — A gente se vê depois.
Olho para Izuki-kun com as sobrancelhas erguidas.
–Italianinho? — pergunto.
Ele ri e começa a abrir uma das caixas. Ajoelho perto dele.
–Suzume está a fim daquele menino loiro que foi na loja outro dia, lembra?
–Lembro sim.
Ele me passa meu computador e alguns CDs.
–Ele é filho do italiano do restaurante da rua de baixo.
–Ah... — rio — Ele não é feio. Meu rádio! Mirai me mandou meu rádio! — pego-o com cuidado e abraço-o — Cara, senti falta dele.
–Tem mais uns CDs aqui — Izuki pega um e olha a capa — Isso daqui é k-pop?
Pego o CD das mãos dele rapidamente.
–Não.
–Isso é SUPERJUNIOR?! — Izuki pega outro CD e encara-o com os olhos arregalados.
Ele começa a rir e me dá o CD.
–Q-Qual o problema de gostar de k-pop? Eles cantam bem! — digo e escondo os CDs nas minhas costas. Droga, minhas bochechas estão quentes.
–Nenhum! — ele diz, ainda rindo — Nenhum mesmo, Moriyama-san. É que como você ouve Frank Sinatra comigo de manhã, nunca pensei que fosse gostar de k-pop, só isso.
Ele continua sorrindo para si mesmo enquanto tira mais CDs da caixa.
–Depois você me empresta um?
–Claro... Você curte?
–Nunca ouvi — ele afasta a caixa e começa a abrir uma nova — Mas se você gosta, então deve ser bom, certo?
As janelas estão abertas, mas está super abafado aqui dentro.
Izuki-kun está tão bonitinho que aquela ideia maluca pipoca na minha cabeça de novo e de novo.
Pare com isso, Moriyama. Pare com isso.
–Certo — respondo, mas minha voz sai meio sem ar.
Terminamos de desembalar minhas coisas. Fico feliz que Mirai tenha devolvido todos os meus CDs, meu rádio, meu videogame, e minhas roupas. Ela até que não é tão ruim assim.
Claro que não queria ter um motivo para estar me mudando, mas como não é o caso e eu fui embora de casa, preciso arrumar não só minhas roupas, mas também a vida.
Como ainda são duas e meia, pergunto a Izuki-kun se ele quer ir comigo a loja comprar algumas coisas básicas pra casa nova, e ele topa.
Saímos na rua. O chão está coberto de pétalas e flores rosadas, e o ar está infestado por um cheiro suave e docinho. Izuki-kun parece empolgado pelo início da primavera, e quero visitar logo o parque com ele.
Passamos no supermercado para comprar alguma comida, e logo depois na loja de móveis.
–Vai comprar o quê? — ele me pergunta quando passamos pela porta.
–A grana está meio curta, então vou comprar só o básico, tipo um colchão, um armário, um chuveiro, e algumas panelas. Ah, e a tinta de parede.
–Pelo menos o anão do cheetos deixou o fogão dele pra trás — Izuki sorri e sorrio também.
–Só espero que esteja funcionando.
Compramos tudo o que tínhamos que comprar, então eu e Izuki-kun passamos em casa para deixar as coisas novas.
–Onde vamos deixar o colchão se você não tem cama ainda? – Izuki-kun diz sem fôlego depois de subir três lances de escada carregando aquele colchão de casal.
–Na sala mesmo — digo, arfando — Não me importo com essas coisas.
Colocamos o colchão no chão ao lado da parede da janela. Arrumo as panelas e a comida nos armários da cozinha e começo a sentir um cheiro forte.
Izuki-kun está abrindo uma das latas de tinta.
–O que está fazendo? — pergunto e vou até ele.
–Ué, a gente não ia começar a pintar as paredes? — ele pega um dos rolos e mergulha-o na lata.
–Pensei que você fosse querer ver as sakuras lá no parque — digo.
–As sakuras não vão sair de lá — ele diz — Não é como se elas fossem criar pernas e sair correndo.
Sorrio para ele.
–Tem razão. Ah, espere, Izuki-kun. Você não vai querer sujar essa sua camisa de tinta. Vamos pôr umas camisas velhas.
Pego duas camisas da pilha de roupas e entrego a vermelha a ele.
–Obrigado.
Ele tira a própria camisa. Ah, Deus.
Izuki-kun é um cara magro, mas dá pra ver muito bem o contorno dos músculos da barriga dele. Os braços dele são fortes.
Desvio o olhar rapidamente e troco de camisa também. Coloco nossas roupas na janela e nós começamos a pintar a parede da porta. A tinta tem um cheiro forte, mas é de uma cor bem legal. O apartamento realmente fica bonito com uma boa pintura.
Ainda bem que Izuki-kun escolheu esse daqui. E fica pertinho da floricultura, além de ter uma vista bonita.
Não sei por que, mas minha camisa vermelha ficou ótima em Izuki-kun.
Conseguimos pintar mais duas paredes da sala e uma da cozinha antes de a campainha tocar e Kobato e Suzume entrarem pela porta da frente.
–Oi gente — Suzume entra alegremente — Trouxemos...
Ela para de falar e solta três espirros.
–Isso é tinta? — ela espirra de novo — Ah, merda.
–Suzume! E essa boca suja?!
Ela sai correndo do apartamento com a mão no nariz, e Kobato entra logo em seguida. Olho para Izuki-kun pedindo uma explicação.
–Ela é super alérgica a cheiro de tinta — ele explica e suspira — Mas ela hoje está terrível, meu Deus. Mais afiada do que nunca.
–Suzume saiu correndo e me deu isso daqui — Kobato entra segurando a gola da camisa contra o nariz e com alguns galhos de sakura nas mãos e uma sacolinha de plástico — Suzume disse para trazermos uns sanduíches e as sakuras para "animar um pouco aquele apartamento feio e desleixado".
Rio enquanto Izuki-kun chama a atenção de Kobato.
–O que há com vocês hoje? — ele pergunta, colocando a mão na testa como se pensasse o que fez de errado para merecer isso — Estão terríveis!
–Desculpe, Shun-nii. Também não posso ficar aqui ou minha rinite vai vir com tudo. A gente se vê mais tarde, ok?
Vou até Kobato e pego os galhos de sakuras.
–Muito obrigado, Kobato-chan. O apartamento precisa mesmo dessas flores.
Ela desvia o olhar e despede-se. Coloco-as em um copo d'água no parapeito da janela.
–Izuki-kun, não vai querer ir ver as sakuras? Já já vai escurecer — digo.
–Amanhã nós vamos, Moriyama-san. Vamos terminar de pintar a sala.
–A gente pode pelo menos ir assistir o pôr-do-sol no telhado — sugiro, colocando as mãos nos bolsos — A vista deve ser direto pro parque, pelo menos podemos ver as sakuras.
Izuki-kun sorri como se recebesse um presente e nós dois subimos os últimos andares de escada. A porta do telhado não estava trancada, só encostada, então nós fomos comer nossos sanduíches sentados na beirada do prédio.
O vento que sopra nossos cabelos é quente e traz várias pétalas rosas na nossa direção. Apesar de não estarmos muito alto, a visão daqui é nada menos que perfeita.
O sol se põe bem na nossa frente, escondendo-se entre os galhos das sakuras, que estão com uma cor dourada. O parque está todo florido, e há várias pessoas embaixo das árvores fazendo piqueniques ou namorando. Tudo está iluminado com aquela luz amarelada do pôr-do-sol, e o ar cheira a terra e a flores.
Izuki-kun está com a boca meio aberta e os olhos arregalados. A luz do sol faz sombras no rosto dele, principalmente os cílios nas bochechas. Ele parece encantado com a visão. Eu também.
–Meu Deus — é a única coisa que ele suspira.
Izuki-kun está incrivelmente bonito à luz do sol que se põe e com pétalas de flores voando em torno de si.
Aquela ideia idiota pinica minha mente de novo. Faço de tudo para ignorá-la, mas está quase impossível.
Os sanduíches de geleia de framboesa das meninas estão super gostosos. Eu e Izuki-kun ficamos assistindo o pôr-do-sol no telhado, comendo sanduíches e observando as pessoas lá em baixo.
Não consigo parar de olhar pra ele.
Izuki-kun percebe que estou encarando-o e vira o rosto na minha direção. Ele me encara enquanto mastiga e sorri levemente.
–Bonito, né? — ele diz e volta o rosto para frente. Os olhos prateados dele refletem a luz, e há algumas pétalas de sakura em seu cabelo.
"Lindo".
O maldito pensamento não vai embora.
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Quando o sol finalmente se põe, começa a esfriar rápido, e nós resolvemos voltar para o apartamento para terminar de pintar as paredes da sala. Felizmente, só faltam mais duas. Acho que vamos conseguir terminar antes da hora do jantar.
–Moriyama-san, eu com certeza venho ver o pôr-do-sol no seu telhado mais vezes. — Izuki-kun diz enquanto pega um dos rolos e mergulha-o na tinta branca.
–Pode vir quantas vezes quiser.
–Na próxima vez, vamos trazer Kobato e Suzume também. Tenho certeza de que a Kobato vai chorar — ele sorri para si mesmo e passa o rolo na parede.
–Por quê?
–Ela é muito emotiva com coisas assim.
Sorrio também.
Meu CD do Frank Sinatra toca no fundo enquanto pintamos as paredes. O chão está cheio de respingos e a casa está uma bagunça danada.
Terminamos de pintar a parede oposta ao lado da janela, agora falta a do lado da porta. Passo o rolo de tinta em cima da mão esquerda de Izuki-kun num momento de distração com a música.
–Ah! — ele exclama e olha para a própria mão pintada de branco.
–Ops, desculpe. Foi sem querer — digo, franzindo o nariz.
Ele me olha com a testa franzida e passa seu rolo de tinta no meu braço.
–Ei! — afasto-me de perto dele — Isso foi de propósito!
–Claro que foi.
Ele volta a pintar a parede com a cara séria. Que maldito!
Enfio a mão dentro da lata de tinta e meto-a na frente da camisa dele. Izuki-kun exclama, surpreso, e me olha com os olhos arregalados e a boca aberta. Começo a rir.
Izuki-kun coloca as duas mãos dentro da lata ao mesmo tempo que eu e nós começamos a nos estapear, sujando rosto, cabelo, roupas, chão, até mesmo a parede com alguns respingos.
Ele começa a rir e se afasta, analisando as próprias roupas.
–Idiota — ele suspira. Ele tem as bochechas cheias de tinta branca, o nariz tem algumas gotas e a testa tem a marca de dois dos meus dedos de uma ponta a outra.
Pego meu celular e me vejo no reflexo da tela. Minha bochecha esquerda tem uma mão bem clara e definida, a direita está suja desde a orelha à ponta do nariz e as pontas da minha franja estão brancas e grudadas na grossa camada de tinta da testa.
–Maldito...
–Ok, vamos parar com isso – Izuki-kun diz e sacode as mãos, tirando o excesso de tinta — Vamos terminar aqui de uma vez.
–Ok, ok.
Izuki-kun pega seu rolo do chão e volta a pintar a dobrinha da parede com o teto. Sorrio para mim mesmo e mergulho meu rolo na tinta, deixando-o encharcado.
Paro logo atrás dele e pinto-o de branco da parte de trás dos joelhos à cabeça, levantando os cabelos agora brancos da nuca dele. Izuki-kun mal se mexe, então começo a rir que nem louco porque tem uma faixa branca perfeita no meio das costas dele.
Mal vejo quando Izuki-kun se vira e passa o rolo na minha cara, descendo todo meu tronco.
–FILHO DA MÃE! — começo a cuspir a tinta, que entrou na minha boca, e esfrego os olhos.
Izuki-kun começa a se rachar de rir, mas não consigo vê-lo. Tento ir até a pia da cozinha para limpar os olhos e a boca.
–Nossa, Izuki-kun. Nossa. Eu confiava em você.
–Você quem começou, Moriyama-san.
Termino de lavar os olhos e a boca, e ergo o olhar. O cabelo da parte de trás da cabeça de Izuki-kun está todo de pé e branco, e ele me encara furioso.
Ou tenta parecer bravo, mas não consegue porque está rindo.
–Vamos terminar isso de uma vez.
Olho meu reflexo na janela. Minha cara está 60% branca, mas pelo menos consegui tirar a maioria. Só o contorno do meu rosto que está com uma camada mais grossa, e a testa e o cabelo da parte da frente. Minhas orelhas estão cheias de tinta.
Nós pintamos as últimas partes da parede depois da guerra de tinta, e sentamos no chão um ao lado do outro para admirar o trabalho bem feito.
–Você é pior do que a Kobato e a Suzume juntas — ele balança a cabeça e ri.
–Elas são meninas ótimas!
–Elas são malcriadas, isso sim! Ah, meu Deus.
–Quê?
–... Eu que as criei.
A tinta da minha cara começa a endurecer.
–Meu cabelo... — Izuki-kun suspira, passando os dedos pela nuca — Vai ficar tudo duro.
–Toma um banho que isso sai — digo.
Ele esfrega o rosto na barra da camisa, e eu não consigo parar de olhar pra ele. Não consigo. Izuki-kun está bonitinho todo sujo de tinta, e os cabelos pretos dele estão mais escuros do que nunca.
Percebo que estou encarando-o faz tempo. Ele me olha também e ergue uma sobrancelha. Minhas mãos pingam de suor. O pensamento não vai embora de jeito nenhum. Merda. Ele ergue a outra sobrancelha.
–Tem alguma coisa no meu rosto?
–Só a minha boca.
Seguro-o pela nuca cheia de tinta e puxo-o na minha direção, pressionando minha boca contra a dele de um jeito meio eufórico, mas eu não estou nem aí, porque a boca dele é muito macia, do jeito que eu imaginei que seria.
Izuki-kun não se mexe, então eu me afasto dele.
Merda. Eu não deveria ter feito isso.
Izuki-kun não parece assustado, ou surpreso, nem nada do tipo. Ele só me encara com a boca semi aberta e pisca algumas vezes.
–Por que você fez isso?
–Não sei. Desculpe.
–Não. Eu quero dizer, por que você parou?
Meu coração dá três pulos e um twist carpado quando Izuki-kun pega na gola da minha camisa com as duas mãos e me puxa contra ele até que com força, voltando a me beijar.
Minha pressão arterial vai às alturas e eu fico surpreso de não ter infartado.
Inclino a cabeça para o lado e seguro na nuca dele de novo, fechando os olhos e sentindo seus lábios se movendo contra os meus de um jeito super gostoso e que me deixa sem ar. Tudo tem gosto de tinta, mas se você acha que eu ligo, está muito enganado.
A respiração de Izuki-kun bate na minha bochecha e está acelerada que nem a minha. Enfiamos a língua na boca um do outro suavemente. Ele tira as mãos da gola da minha camisa e segura meu pescoço com uma delas, enquanto usa a outra para se equilibrar, colocando-a em cima da minha no chão. Meu coração está batendo tão alto que mal consigo ouvir Frank Sinatra tocando no fundo.
E ele me beija e eu beijo ele; e a gente se beija sem parar, segurando um o rosto do outro bem pertinho. A gente se aperta e entrelaço meus dedos nos dele, e meu coração dispara de novo quando ele passa os dedos pela minha franja dura de tinta e agarra-a com força.
Mordo o lábio dele e volto a beijá-lo. Izuki-kun tem um beijo muito gostoso, e eu poderia ficar assim por várias horas sem cansar. A língua dele se esfrega na minha com vontade.
Acho que o CD do Frank Sinatra acaba, porque agora está silencioso e tudo que ouço é nossas respirações aceleradas e meu coração ecoando nos meus ouvidos. Izuki-kun aperta os dedos nos meus quando ouvimos a campainha tocando.
Não quero parar de beijá-lo.
–Moriyama-san! Shun-nii! O jantar está pronto, vocês vêm comer? — Kobato chama-nos através da porta.
Nós continuamos nos beijando até que a campainha soa uma segunda vez, e eu me afasto dele com a cabeça a mil por hora.
Izuki-kun fica sentado no chão quando levanto para atender a porta, olhando para frente de um jeito meio bobo. Minhas mãos tremem, e mal consigo girar a chave na fechadura.
Kobato solta um grito quando me vê.
–O que é isso?! — ela exclama. — Porque está todo sujo?
Izuki-kun levanta do chão e vira na nossa direção.
–Shun-nii! Você também! O que aconteceu aqui, uma guerra de tinta?!
Izuki-kun me olha com os olhos meio vidrados e eu balanço a cabeça mecanicamente.
–Vocês por acaso são duas crianças?! — Kobato está furiosa, mas eu nem ligo — Vai dar um trabalhão para tirar essa tinta da roupa de vocês! — ela bate o pé e bufa — Bom, vocês vêm jantar ou não?
Balanço a cabeça negativamente. Meu estômago está dando várias voltas.
–Vamos então, Shun-nii. — Kobato diz e Izuki-kun vai até ela, e para de frente para mim do lado de fora de casa — Boa noite, Moriyama-san. A gente se vê amanhã?
Não consigo tirar os olhos de Izuki-kun, e ele me encara também. Balanço a cabeça.
Kobato olha de mim para o irmão e do irmão para mim com a testa franzida.
–Eu hein.
Eles vão embora e eu fecho a porta.
"O que aconteceu? O que diabos acabou de acontecer?".
Eu beijei Izuki-kun e ele me beijou de volta. Não sei por que fiz isso, mas fiz e gostei.
Aquele pensamento pipoca na minha cabeça de novo, e eu olho para a marca de tinta das nossas mãos no chão. Esfrego o rosto várias vezes, sentindo-o super quente, minhas orelhas pegam fogo. Está muito calor aqui dentro.
Começo a andar pela casa sem saber muito bem o que fazer. Estou inquieto, e eufórico; meu coração bate tão forte e tão alto que acho que ecoa pela casa vazia. Sento-me no chão e apoio as costas na parede, afundando o rosto nos braços. Acho que estou envergonhado. Tenho vontade de cavar um buraco e me jogar lá dentro.
O pensamento me cutuca novamente.
"Eu quero beijar Izuki-kun".
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