Notas iniciais
(atualizando no prazo hell yeeeaaahhhh) Gente, eu estou radiante porque essa fic — a mesma que eu escrevi em tempo recorde e me dediquei totalmente por mais ou menos três meses — recebeu outra recomendação. That's right, a primeira fic MorIzuki do Nyah recebeu sua segunda recomendação, e eu tive que me controlar pra não chorar (de novo). Isso é foda. Mas sabe o que é mais foda? Quando os leitores dão um feedback positivo em alguma coisa que você se dedicou tanto. Amo vocês. Gostaria de agradecer também aos 20 acompanhantes (puta merda, isso é um recorde pra um ship impopular nessa tag) e aos 6 favoritos (!!!!!!!!!!) que a história conquistou. Isso me deixa emotiva. *se controla pra não chorar de novo* Queria dizer também que eu finalmente TERMINEI o último capítulo — estava empacada fazia quase um mês, e em um momento de inspiração, eu consegui terminar de vez e começar o epílogo — e estou (ainda mais) chorosa. Gente, essa fic é tão importante que vou ficar perdida sem ela. As dicas ali do lado sugerem capítulos com no máximo 4 mil palavras, mas eu odeio regras, então fiquem com 5 mil e poucas heheheh boa leitura!

Izuki Shun não parava de andar incansavelmente de um lado para o outro atrás de uma solução para seus problemas. De fato, não eram muitos — a floricultura, Suzume e o italianinho, Moriyama, o que fazer para o jantar, as contas —, mas uma em especial pinicava a mente do rapaz naquela tarde de verão, em que as abelhas zuniam e os passarinhos choravam à brisa morna que sussurrava entre as cerejeiras.

As visitas do italianinho à floricultura dobraram no final da primavera e início do verão. Pelo menos quatro vezes por semana ele aparecia, e ele e Suzume conversavam por meia hora antes de ele comprar uma única flor — geralmente uma anêmona — e ir embora, somente para voltar no dia seguinte.

E, ah, ninguém fazia ideia do quão preocupado Izuki Shun estava.

Ninguém o entenderia, também. Talvez Moriyama, mas mesmo assim, ele não conhecia Suzume como Izuki. Sendo o irmão mais velho, aquele que a criou desde que a mãe deles fora embora, ele sabe todos os traços da personalidade de Suzume do mesmo jeito que conhece a palma da mão.

Suzume era irônica, sim. Não tinha o menor filtro na boca e na mente, e por isso falava tudo o que pensava, resultando em várias broncas por parte do mais velho; mas ela não se incomodava com isso. Era meiga também — quando queria, claro —, e sempre foi a mais dependente do irmão. Não tinha muitos amigos na escola, e sempre foi a gêmea estudiosa.

Além disso, Suzume era feita de vidro. Quer dizer, por baixo da casca grossa de durona, ela era só mais uma jovem apaixonada pelas dúvidas e incertezas da vida, que gostava de filmes de romance e músicas sentimentais.

Izuki Shun reconhecia que ela era uma garota fenomenal, de uma beleza simples, e de ótima personalidade. Entendia porque o italianinho, filho do dono do restaurante italiano no fim da colina, tinha se interessado por ela. E a cada dia que se passava, ficava mais evidente. É claro que Izuki Shun sabia disso.

Ele só não gostava dessa ideia porque lhe chegou aos ouvidos que ele era o maior galinha da escola onde estudou, e ele sabe que Suzume se apaixona fácil demais. Como tudo nela é muito intenso, não existe essa de "meio-amor"; era tudo ou nada, 8 ou 800. Ou seja, se Suzume gostasse mesmo do italianinho — o que já parecia evidente —, partiria o coração da garota se ele aprontasse alguma com ela.

Isso deixava Izuki de cabelos em pé. Oras, que tipo de irmão mas velho (do tipo super protetor que Izuki era) quer ver a irmã mais nova sofrendo por um babaca? Obviamente que nenhum. Por isso essa aproximação dos dois o deixava aflito, e entrava na categoria "Problemas a Resolver" do jovem rapaz.

Mas aquela não era sua principal preocupação. Ah, não senhor. Era a floricultura em si. Fazia mais de dois meses que isso lhe rondava a cabeça, mas ele sempre pensava "agora não, depois penso nisso".

"Depois resolvo".

Agora parecia ser um pouco tarde demais.

Izuki é despertado do seu devaneio pelo sininho da porta, que toca alegremente quando um moço adulto entra com a feição retorcida.

— Oi, como posso ajudá-lo? — Izuki pergunta educadamente, ainda meio disperso.

— Oi, o que você me sugere para pedir desculpas?

— Desculpas? Hm... — ele coloca a mão no queixo e enxerga as várias páginas da Enciclopédia das Flores passando pela sua cabeça — Ciclames. Dependendo para quem for, a cor tem um significado diferente.

— Para minha noiva — ele explica, e Izuki sai de trás do balcão, seguindo pelos curtos corredores da floricultura atrás do vaso dos ciclames. O homem o acompanha de perto e continua falando — Ela está grávida, e infelizmente nós brigamos ontem e eu não quero que ela fique muito estressada. — o homem sorri tristemente — Não faz bem para o bebê. Olha, ela é linda, não é?

O homem liga a tela do celular, e Izuki espia o aparelho por cima do ombro. O rapaz quase deixa cair a tesourinha quando vê Miya e seus grandes olhos azuis de plano de fundo.

Izuki inspira lentamente.

— É claro. Ela é mesmo muito bonita.

Izuki corta um pequeno buquê de flores para o homem. Ele tem os cabelos super claros e olhos mais claros ainda, e parece genuinamente preocupado. Izuki faz um embrulho bonito e coloca uma fita branca ao redor das flores. Miya gostava de laços brancos.

— Normalmente os ciclames vermelhos são pedido de desculpas para aquele que mais se ama, então acho que ela ficará feliz. — Izuki coloca o buquê nos braços do homem e sorri, ajeitando o cabelo — Espero que dê tudo certo.

— Também espero.

O homem paga pelas flores e se despede. O sininho da porta toca novamente, e Izuki fica sozinho mais uma vez. Kobato e Suzume, por sinal, foram buscar o almoço no restaurante do italianinho faz quase uma hora — outro motivo para Izuki se revirar a noite na cama.

Moriyama também o incomodava um pouco. Nas últimas duas semanas eles mal se viram, apesar de serem praticamente vizinhos. Moriyama parecia constantemente ocupado com alguma nova receita, ou fazendo cookies, ou saía com os amigos do trabalho.

Não é como se Izuki estivesse com ciúmes, não. Claro que não.

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Moriyama Yoshitaka estava genuinamente preocupado.

Izuki Shun, especificamente, deixava-o preocupado.

Fazia quase duas semanas que não se viam. Tá certo que ele realmente andava ocupado, mas a última vez que Izuki e ele saíram juntos, Izuki manteve a mesma expressão morta durante todo o tempo, e se recusou a falar sobre o que o icomodava. Isso deixava Moriyama inseguro.

Por causa disso, achou melhor deixar Izuki resolver seus problemas antes de interceptá-lo de novo, pelo bem do namoro deles. Por isso teve que arranjar gente nova para sair — seus colegas de trabalho. Eram todos muito legais e anos mais velhos que o próprio pseudo-chef, e todos compartilhava o mesmo cheiro de caramelo que ele.

Mas naquela tarde, durante a última hora de trabalho, Moriyama não conseguia parar de pensar em uma única coisa:

"Quero ver Izuki-kun hoje".

Seu chefe, o doceiro principal da loja em que trabalhava, tinha comentado que um novo bar — era mais um pub do que um bar em si — tinha surgido mais ou menos na região sul da cidade. O nome era The Blue Captain, e estava se tornando muito famoso pela ótima cerveja e bolinho de camarão. Moriyama estava empolgado para ir, e queria que Izuki o acompanhasse.

Ao sair do trabalho, passou em sua casa e tomou um banho rápido. Escolheu uma roupa legal e foi para a floricultura, encontrando Izuki olhando fixamente para o chão com o rosto apoiado nas mãos. Ele não despertou com o barulho do sininho.

Moriyama teve que chamá-lo algumas vezes até que Izuki erguesse o olhar.

— Izuki-kun, você está bem? — Moriyama franze a testa e abaixa até ficar na altura do outro. O rosto de Izuki estava confuso.

— Ah? Claro...

— Escuta, vamos sair hoje? Quero ir num bar novo, dizem que o bolinho de camarão é...

— Desculpe, Moriyama-san... Tenho muita coisa pra fazer mais tarde — Izuki diz sem a menor empolgação e pendura seu avental no gancho na parede.

— Mas... Mas a gente não se vê faz tempo, queria sair contigo...

Izuki permanece de costas para Moriyama, apoiando o braço na parede, com a cabeça meio baixa. Moriyama aproxima-se e coloca uma mão em suas costas.

— O que foi, Izuki-kun?

Izuki parece meio desesperado, talvez até triste. Mas logo sua expressão muda, e ele ergue o olhar cansado.

— Nada. Tem razão, Moriyama-san. Faz tempo que não saímos e preciso de um porre hoje.

Moriyama sorri para o namorado.

— Então vamos tomar um porre hoje.

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A verdade é que Izuki tentava afogar suas mágoas e problemas naquela cerveja geladinha do The Blue Captain, e se empanturrava com os bolinhos de camarão na esperança de encobrir suas tristezas. Moriyama sabia que havia algo de errado, mas sabia que Izuki não responderia caso perguntasse. Somente bebeu e comeu junto dele.

Por um lado, estava feliz. Estava feliz que Miya era noiva de um cara tão decente, tão preocupado com a saúde e bem-estar dela e de seu bebê. Por outro, sentia-se triste por isso também.

Mas quem tinha encontrado no The Blue Captain aquela noite não era ninguém menos que Kaena, a paixão de dois dias de Izuki Shun.

— Oi, Izuki-san! Tudo bom com você? — Kaena pergunta ao se aproximar dele no balcão enquanto Moriyama buscava mais bolinho — Faz um tempo, não?

— K-Kaena! Nossa, faz um tempo sim — ele ri. Ver Kaena era bom, ela o deixava mais leve — Estou bem, e você?

— Estou bem também. — ela sorri e balança seus curtos cabelos ruivos. Ela não tinha mudado muito de uns meses para cá.

Kaena olha Izuki de cima a baixo algumas vezes enquanto conversam alegremente, e interrompe a discussão sobre os bolinho de camarão com a seguinte pergunta:

— Mas e então, será que rola outro round? — ela ergue as sobrancelhas de um jeito sugestivo.

Izuki primeiramente se sente confuso, mas depois entende. Ele também olha Kaena de cima a baixo, mas desvia o olhar respeitosamente.

— Acho que não... Desculpe.

— Qual é, Izuki-san. Só um sexo sem compromis—

Moriyama chega com um olhar zangado no rosto, mas força um sorriso para a ruiva, que cala-se de imediato.

— Tudo bom? — Moriyama pergunta de um jeito retórico — Viu, Izuki-kun — Moriyama pega na mão de Izuki e entrelaça os dedos nos dele — O de camarão acabou, então trouxe de lula.

— Ah, ok. Pode pegar um se quiser, Kaena-san.

Aqueles três segundos que Moriyama e Kaena se encararam deixou muita coisa implícita. Kaena conhecia aquele olhar com a cabeça tombada daquele jeito, e Moriyama sabia daquele biquinho desafiador.

"Sai de perto do meu namorado."

"Eu só quero transar com ele."

"Não quero que uma piranha como você chegue perto dele. Vaza."

"Ele é ótimo de cama, porque você não vaza?"

"Eu sei que ele é."

"Não há nada de errado com um sexo casual entre amigos. Afinal, Izuki-san é muito amigo meu, e nós somos muito íntimos também..."

"Vaza."

Kaena ergue o queixo e sorri de um jeito provocativo para os rapazes. Izuki não faz ideia da discussão mental, e continua segurando o bolinho na frente de Kaena. A moça pousa o olhar nele.

— Não, obrigada. Eu disse que vinha pegar uma bebida, e já demorei muito. Meus amigos estão me esperando na mesa.

— Ok, depois a gente se fala.

—Claro. Até depois.

Os dois se despedem com beijinhos nas bochechas, e Kaena vai embora, não antes de mandar mais um olhar de desprezo a Moriyama.

Felizmente, Izuki estava alheio aos acontecimentos.

O sangue de Moriyama fervia em suas artérias, e seu coração batia com uma raiva esmagadora. Virou seu copo de cerveja e tratou de disfarçar quando Izuki começou a falar sobre como o calor do verão não o agradava muito.

Moriyama odiava o fato de Izuki e Kaena serem amigos. Odiava.

.

.

Moriyama Yoshitaka paga o taxi e ele e Izuki Shun sobem para o apartamento no terceiro andar daquele predinho gasto e de carpete puído. Não estão muito bêbados, só um pouco tontos. O encontro com Kaena fizera Izuki se esquecer momentaneamente de suas preocupações, e acrescentara uma a mais na lista de Moriyama.

Moriyama abre a porta de sua casa e acende as luzes. Ele vai até a pia e enche um copo com água, enquanto Izuki desamarra suas botas na entrada.

— Então — o mais velho começa, espiando o mais novo por cima do copo — O que a Kaena veio falar com você?

— Ela me falou que tinha largado o antigo emprego e que agora estava trabalhando de designer numa marca de roupas por aí.

— Hmm.

— Ah, ela disse também que tinha gostado dos bolinhos de salmão do bar. E pediu conselhos de flores.

— Entendo.

Mas um dos piores efeitos da bebida sobre Izuki é que ele se torna como Suzume: um livro aberto, dizendo tudo descaradamente e sem o menor filtro. Desse jeito, acabou falando:

— E ela meio que falou pra gente ter outro round, sabe? — ele ri sozinho e deixa as botas no batente, parando no meio da sala — Tipo, mais sexo sem compromisso. Esqueci de falar que...

Mas que piranha.

— ...Quê?

Izuki pisca algumas vezes e encara a nuca de Moriyama, que deixa o copo na pia.

— Que mulher vulgar. Cara de pau. Ficar dando em cima do namorado dos outros...

— Ela não sabia que a gente estava namorando, Moriyama-san. Não precisa falar assim.

— Claro que sabia, Izuki-kun. — Moriyama tem uma carranca no rosto e evita olhar para Izuki — Ela sabia e mesmo assim falou isso. Que oferecida.

Izuki franze a testa.

— Na verdade, nunca achei a Kaena tão bonita assim. Ela é irritante. E é dada. Onde já se viu, sair distribuindo assim? Que horror. Além de mesquinha, claro.

Izuki sente seu rosto pegar fogo.

— Honestamente — Moriyama olha pela janela automaticamente — Acho que até poderia chamá-la de putinha... Porque olha, essa aí gosta de dar.

Izuki dá três passos largos, batendo os pés forte no chão, e fecha o punho na bochecha esquerda de Moriyama, que dá um passo para trás meio desorientado.

Izuki está vermelho de raiva. Sua respiração está curta, e seus punhos, cerrados.

Moriyama ergue o rosto e olha abismado para Izuki, colocando a palma da mão na maçã do rosto. Seus olhos se arregalam de maneira surpreendente e ele abre a boca.

— V-Você me bateu...!

Izuki continua encarando-o com raiva. Moriyama ainda está meio idiota e surpreso.

–Não fale dos meus amigos. — Izuki diz ameaçadoramente entre dentes, sua fúria esvaindo em ondas de todo seu corpo.

Moriyama fecha a cara também. Ficara com raiva.

— Só estou dizendo verdades, Izuki-kun. A Kaena não presta, e nunca prestou.

— Se ela gosta de "dar", o problema é dela, Moriyama-san. O corpo é dela e ela "dá" pra quem quiser, então antes de vir falar algum tipo de merda machista na minha frente, saiba que eu tenho duas irmãs mais novas que me educaram muito bem sobre o que é ou não é ser machista. Então se ela quiser transar com metade da cidade, o que você tem a ver com isso? Para de tentar rotular os outros baseado na vida sexual deles, e para de tentar falar dos meus amigos quando os seus são um tanto "esquisitos" também, porque, convenhamos, o Kise e o Kasamatsu estão a um dedo de terminarem o namoro, Hayakawa é mais tapado que uma porta e o Kobori claramente é um filho da puta de um corno...

Moriyama pega na frente da camisa de Izuki e puxa-o contra si, os olhos pegando fogo de fúria.

Quem você pensa que é pra falar dos meus amigos desse jeito? — ele empurra Izuki contra a parede e esmaga o corpo dele, sufocando-o. Os dois se encaram de forma febril, as ondas de raiva e ódio esvaindo por todos os poros de ambos os corpos — Seu filho da puta, retire o que você disse.

— Só se você retirar o que disse sobre a Kaena. — Izuki rosna de volta e afasta Moriyama de si, empurrando-o.

Moriyama percebe que está perdendo a razão. Mesmo com raiva, afasta-se e se debruça sobre a pia, deixando Izuki sozinho contra a parede da sala.

— Não sou machista.

— Nossa, desculpe, acho que confundi seu discurso machista com um discurso machista.

— Eu não quis dizer aquilo.

— Mas disse. E não ofendeu somente a mim, mas a mais ou menos todas as mulheres. Se eu quiser dar pra cidade inteira você também vai ficar me chamando de oferecido e vulgar e putinho? Vê se cresce, cara. Olha a decadência do seu discurso.

O quê? ­— Moriyama olha por cima do ombro — Quando eu disse isso?

— Quando você falou que só porque alguém gosta de transar com várias pessoas diferentes ela é uma puta oferecida. Eu gosto de transar com pessoas diferentes. Eu devo ser a maior puta oferecida que você já conheceu.

— Izuki-kun, para com isso. Olha a merda que você 'tá falando.

— Você fala como se você odiasse transar.

— Eu gosto de transar. Agora a gente está brigando por causa de sexo?

Faz-se silêncio por alguns segundos; Izuki passa a mão no cabelo algumas vezes antes de falar.

— Olha, eu... — apesar da raiva, Izuki sentia-se imensamente triste — Eu não quero brigar com você, Moriyama-san. Desculpe. Não queria ter falado aquelas coisas dos seus amigos. Eu estava com raiva.

— Eu também não queria ter falado da Kaena daquele jeito. Desculpe.

— Não queria ter falado desse jeito contigo. Estou me sentindo uma bosta. Desculpe. Acho melhor eu ir embora de uma vez.

Moriyama tenta dizer algo, mas nada sai de sua boca. Izuki vira e caminha até a porta, virando a chave na maçaneta, mas é impedido de abri-la por um braço que passa na altura de sua orelha esquerda . Ele sente a testa de Moriyama apoiada em seu ombro direito. Izuki Shun respira pesadamente ao encarar a mão pálida contra a porta a sua frente.

Dentro da casa de Moriyama bate uma brisa gelada, proveniente da janela da sala aberta. Izuki estremece levemente, e ergue sua mão esquerda, tirando a de Moriyama da porta e entrelaçando seus dedos nos dele na lateral de seu corpo.

— Não vá embora.

— Não vou embora.

E Izuki não foi embora.

.

.

Moriyama Yoshitaka e Izuki Shun tomaram um banho rápido antes de irem se deitar. Moriyama tinha conseguido comprar uma cama de verdade para colocar seu colchão, e seu quarto já estava razoavelmente decorado com uma mesinha ao lado da cama, um armário, um espelho, e cortinas nas janelas. Por elas, podia-se ver o topo das árvores do parque, com suas folhinhas verde-brilhantes, e as poucas luzes dos prédios dos bairros mais chiques. Não era muito tarde — 1:30 da manhã —, mas todo mundo já parecia estar dormindo.

Izuki e Moriyama olham-se no escuro, de mãos dadas por baixo da coberta. A noite estava fresca e o cheiro das árvores entrava no quarto pela janela. Moriyama via nos olhos de Izuki que algo o incomodava, mas antes tinha que tirar uma dúvida fatal.

— Izuki-kun — ele diz baixinho.

— Hm?

— ...Por que você disse que o Kobori era um filho da puta de um corno?

Izuki desvia o olhar rapidamente e afunda metade de seu rosto no travesseiro.

— Ahn...

— Pode falar.

— A namorada do Kobori-san ficou dando em cima de mim a noite inteira.

— A Mandy?

Izuki sacode a cabeça, e Moriyama franze a testa.

— Eu juro por Deus que não estou inventando isso, Moriyama-san... Ela ficou se esfregando em mim, e mostrou o decote, e levantou a saia, e colocou minha mão na perna dela, e piscou pra mim, e fica me olhando e mordendo o lábio e eu acho isso tão errado...

— Ah, meu Deus...

— E eu vi ela se agarrando com pelo menos três caras diferentes naquele corredor ao lado do banheiro...

Faz-se silêncio. Moriyama fecha os olhos e coloca a mão na testa, esfregando o rosto.

— Mas que bosta. — solta o ar rapidamente.

— O que foi?

Moriyama afasta a mão do rosto e a coloca sobre a bochecha de Izuki, tirando seu cabelo escuro de seu rosto.

— Ele estava pra pedir ela em casamento, Izuki-kun.

Foi como um soco no estômago. Izuki arregalou os olhos e pensou em um monte de palavras inapropriadas.

— Eu não deveria ter falado, Moriyama-san. Desculpe.

— Não — Moriyama sorri levemente e chega mais perto de Izuki — Ainda bem que você falou. Eu vou contar pro Kobori. É bom que ele saiba com quem ele convive.

Izuki também chega mais perto de Moriyama. Os dois dividem o mesmo travesseiro, somente há alguns centímetros entre eles.

Izuki está nervoso. Imensamente nervoso. Moriyama deixa-o assim; não é de propósito, mas deixa. Ao mesmo tempo que seu coração bate rápido, dói. Os olhos cor de carvão encaram-no ternamente, deixando-o aquecido por dentro.

O olhar de Izuki, segundo Moriyama, é sofrido. Parece que ele está com dor. Mas ao mesmo tempo, faz com que o mais velho sinta alguma coisa quentinha ali do ladinho do coração. É um sentimento gostoso. Os olhos prateados de Izuki percorrem seu rosto e observam cada detalhe. Moriyama também o observa; poucas sardas no nariz, duas pintas no pescoço, o jeito que a pele se estica sobre as maçãs do rosto, os lábios levemente vermelhos dos beijos no chuveiro.

Moriyama chama-o baixinho.

— O que te preocupa tanto? — pergunta, passando as pontas dos dedos em seu rosto.

E Izuki lambe os lábios. Ele vê que Moriyama faz força para tentar entender o que se passa, ele vê que o outro tenta ajudar. Mas os olhos estreitos e levemente puxados, que vasculham-no de cima a baixo, a ponte do nariz perfeitamente reta, as sobrancelhas finas, o cheirinho de banho tomado, a mão gelada e o corpo quente encostando no seu...

— Esqueci.

E o beijo deles parece pegar fogo.

Os peitos se incendeiam. Logo depois, a cama, e a casa, e a cidade toda está em chamas, labaredas que lambem as paredes e queimam até o alicerce. Ninguém sobreviveria.

Ninguém.

.

.

Depois daquele sexo matinal gostoso, Izuki-kun e eu comemos rapidinho — acabamos nos atrasando — e cada um partiu para seu trabalho.

A manhã da sexta-feira estava morna, mas não o suficiente para sair sem um casaco fino. Mas eu sabia que perto do meio-dia ficaria quente, então nem me preocupei direito com a roupa que vesti.

Essa história que Izuki-kun me contou noite passada me deixou meio abalado. Eu sentia pena de Kobori. Pude ver o quão apaixonado ele estava, e me sentia péssimo em ter que contar a verdade para ele. Não gostava da ideia de acabar com a felicidade do meu amigo, mas ele deveria saber no que estava se metendo.

Por sinal, acordei com um roxo no rosto de tamanho razoável, e Izuki-kun deve ter se desculpado umas quinze vezes. Não o culpo. Eu realmente não deveria ter falado aquilo tudo, então acho que mereci.

Dizem que falamos bêbado o que pensamos sóbrios, não é? Acho que é verdade. Droga.

A manhã no trabalho foi legal. Fizemos biscoitinhos de canela e mel, ficaram bem gostosos. Eu já tinha pegado o jeito da coisa e me dava bem, e gostava muito do que fazia. Sei que isso não tem nada a ver com a minha formação — arquitetura, por sinal —, mas eu gostava. Quem disse que mudanças são ruins? No meu caso, deram mais do que certo.

Dentro da caixinha, há alguns biscoitinhos que trouxe para as meninas e Izuki-kun. Já está calor, e estou suando um pouco. Felizmente bate uma brisa boa. O parque está cheio de crianças e velhinhos, e todos parecem felizes.

Por isso que amo o verão.

Continuo reto na rua do parque e começo a subir a colina. Lá no topo, consigo ver o toldo vermelho da floricultura. A calçada tem algumas pétalas. Sorrio involuntariamente e aperto o passo.

A plaquinha na porta informa que a floricultura está fechada. Ué. Espio dentro, e vejo Izuki-kun, Kobato, e Suzume. Empurro a porta levemente, o sininho toca.

Kobato e Suzume estão abraçadas ao lado de Izuki-kun, chorando. O mais velho está com uma cara péssima e segura o avental na frente do corpo. Ele ergue o olhar quando me vê entrando. O clima na loja está pesado. As prateleiras estão meio vazias.

Tudo parece imensamente... Sem graça.

— O que aconteceu? — fecho a porta e me aproximo dos irmãos, colocando a caixinha em cima do balcão. Afago as costas das garotas e olho para Izuki-kun pedindo uma explicação. Ele somente desvia o olhar para o outro lado.

Abaixo um pouco para falar com as meninas. Elas choram abraçadas. Passo a mão na cabeça delas.

— O que aconteceu, meninas? O que foi?

— M-Moriyama-san... — Kobato ergue a cabeça. Seu rosto está molhado e ela soluça — A-A loja...

— A gente vai ter que fechar a loja — Suzume diz, também chorando, mas ela parece estar com raiva ou muito magoada. Sua voz nem treme.

O quê? — quase grito. Olho para Izuki-kun, mas ele ainda está olhando para o outro lado — Como isso aconteceu?

Kobato enfia as mãos no rosto, e Suzume a abraça enquanto diz:

— Parece que a loja vem dando mais prejuízo que lucro nos últimos meses... — ela morde o lábio inferior — E-E agora, Moriyama-san?

— Eu não sei o que fazer — a voz tremida de Izuki-kun ecoa, e eu me viro. Ele me olha com os olhos cheios d'água e a expressão mais triste que já vi no rosto dele — Eu literalmente não sei o que fazer agora. Eu me sinto perdido.

— E-Eu não quero fechar a loja, Shun-nii — Kobato diz entre lágrimas — Eu n-não quero. O que a mamãe vai pensar q-quando voltar?

Meu coração pesa vinte quilos.

Sei como essa loja é importante para eles. Sei como Izuki-kun trabalhou aqui a vida toda, desde que sua mãe fora embora, e que Kobato e Suzume ajudam desde que se lembram. Sei que eles amam o que fazem mais do que tudo nesse mundo, sei que eles sentem prazer em fazer a vida de alguém mais feliz ao vender coisas simples como flores.

Não consigo ver essa família fazendo qualquer outra coisa. Não consigo ver Izuki-kun num escritório, ou Kobato e Suzume fazendo qualquer coisa que não fosse colher flores tão bonitas quanto elas.

Agora entendo a preocupação de Izuki-kun. Ele não tinha formação; não fez faculdade depois da escola, e a floricultura era a única fonte de renda deles. Kobato e Suzume se formaram faz um ano, e nenhuma delas estuda também.

Ah, Deus, eu consigo entender perfeitamente.

Tenho vontade de chorar também. Puxo Izuki-kun, e abraço todos os irmãos. Abraço-os bem forte por uns cinco minutos. Quando nos afastamos, puxo Izuki-kun de lado.

— Por que não me falou? — pergunto, segurando-o pelos ombros. Ele não olha pra mim.

— Não queria te envolver nos meus problemas. Moriyama-san, você não tem nada a ver com essas coisas...

Eu poderia ter ajudado.

— Eu não queria te envolver nos meus assuntos. Eu não queria... Eu não...

Mas sua voz se perde e ele morde o lábio com força, tentando não chorar.

— Ah, meu Deus... — digo.

Puxo-o contra mim. Ele treme de leve. Tento não chorar também.

— Moriyama-san, eu não quero ter que fechar a loja. Esse lugar é importante pra mim. O que minha mãe vai pensar quando voltar, hein? Que nós deixamos a floricultura dela falir? Que merda de filho que eu...

— Izuki-kun.

Meu coração dispara, e ele percebe.

— ...O que foi?

Afasto-me dele.

— Espere aqui um segundinho, ok?

— O-O quê...? Moriyama-san?

Mas eu já corri para fora da loja e saquei o celular. Ele atende no terceiro toque.

— Alô?

— Alô, Hayakawa?

.

.

— Cinco minutos.

— Você disse isso cinco minutos atrás.

— Mentira. Esperem só mais cinco minutos, tá?

— Moriyama-san...

— Confiem em mim.

Kobato me olha de um jeito preocupado, mas volta sua atenção a porta. Izuki-kun, do meu lado, apoia a cabeça nas mãos e encara o chão impacientemente.

Suzume estava brava e por isso subiu para fazer o almoço. Estou empolgado, acho que vai dar certo.

Quer dizer, eu espero que dê tudo certo.

Meu celular vibra nas minhas mãos, e eu levanto num impulso. Kobato e Izuki-kun chamam meu nome, mas abro a porta da floricultura e ponho metade do corpo para fora, olhando para os dois lados da rua vazia. Um carro prata estaciona uns 20 metros para a direita. Aceno loucamente.

Olho rapidamente para trás. Izuki-kun e Kobato me olham como se eu fosse louco, mas continuo acenando até que vejo Nora e Hayakawa saindo do carro de mãos dadas. Eles acenam de volta para mim. Seguro a porta até que eles se aproximem.

— Moriyama! — Nora diz meu nome empolgadamente e bate na minha mão, e a gente se cumprimenta com um beijinho em cada bochecha — Faz tempo, né? Como você 'tá? Olha, que loja legal!

— Viu? — rio — Eu disse que era legal! Pode entrar — abro espaço na porta, e Izuki-kun ergue-se de imediato.

— Prazer, sou Izuki Shun — ele sorri, ainda meio confuso.

— E eu sou Izuki Kobato — a garota exibe um sorriso largo.

— Que coisa mais fofa! Você é uma gracinha — Nora aperta as bochechas de Kobato — Podem me chamar de Nora. Cadê o Hayakawa, hein? Aquele bicho lerdo.

Cumprimento meu ex-colega com um aperto de mão e um abraço, e agradeço-o por ter vindo.

— Que nada, bem que a gente estava precisando passar num lugar desses — ele sorri — Nossa! Eles são parecidos! — e aponta para Kobato e Izuki-kun.

— ... Eles são irmãos, Hayakawa.

— Ah.

Nós entramos e Nora e Hayakawa começam a ver as flores e falar alto.

— Moriyama-san... — Izuki-kun me puxa pela manga — Não estou entendendo nada...

— Relaxa, Izuki-kun — seguro nos ombros dele e sorrio — Deixa comigo. — largo dele e me pronuncio — Então, casal! O que vocês vieram fazer aqui mesmo?

— Ver flores, dã — Nora revira os olhos e depois ri — 'To brincando, a gente veio perguntar se vocês decoram casamentos. Porque, sabe, a gente vai se casar em breve e só agora lembramos que precisamos de flores!

Como alguém se casa sem flores?!! — Hayakawa grita energeticamente e eu rio.

— Aí o Moriyama ligou dizendo que conhecia uma floricultura bem legal e disse para virmos dar uma olhadinha! — Nora olha ao redor — E a gente gostou, então eu queria perguntar se vocês estão a fim de decorar nosso casamento!

Izuki-kun olha para frente meio bobo, e Kobato põe a mão no peito.

— Hmm... — Hayakawa, vendo que eles não respondiam, ergue as sobrancelhas — A gente paga adiantado...?

Kobato abre um sorriso e sai pululando até os noivos, escolhendo com cuidado as flores e fazendo perguntas sobre a decoração e ela estava tão animada que era empolgante.

Izuki-kun continua parado no lugar, e aperta o avental na mão. Vou até o lado dele.

— Izuki-kun? Você está bem?

Mas ele pula para frente e vai falar com o resto do pessoal, deixando-me plantado no meio da floricultura. Mas não reclamo. É bom ver Izuki-kun feliz e discutindo com Kobato quais as melhores flores para um casamento que tem tons de azul.

Sinto-me feliz.

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Hayakawa e Nora só deixaram a pequena floricultura ao anoitecer, depois de terem resolvido quais as flores que fariam parte do salão e quais estariam na igreja. Deu muito trabalho, mas Izuki sentia-se plenamente satisfeito e muito cansado.

Verdade seja dita, eles não decoravam casamentos. Nunca haviam feito nenhum evento grande — a maior encomenda que receberam foram as coroas de flores dos formandos de Seirin, e quase tinham morrido afogados em pétalas.

Izuki, Kobato, e Suzume, que descera para anunciar o almoço e logo entendera o que acontecia, sabiam que teriam um trabalho imenso. Mas sabiam também que seria recompensador. Além disso, foram convidados para a cerimônia.

Mas o mais importante: a loja estava salva.

Moriyama soube disso no momento que Nora e Hayakawa foram embora, porque Izuki veio correndo e se jogou nos braços dele, enfiando a cabeça em seu pescoço e abraçando-o tão forte a ponto de perder o fôlego. Kobato e Suzume se abraçavam e choravam juntas, dando pequenos gritinhos.

Moriyama apertou Izuki em seus braços e fechou os olhos com força. Izuki estava tão feliz que poderia morrer, e tudo isso por causa de Moriyama.

— Moriyama-san, obrigado, obrigado, obrigado... — ele estava quase sem fôlego.

— Não tem de quê, Izuki-kun.

E eles se apertaram mais forte, apoiando as testas nos ombros e agarrando tecido com afinco. Um peso de quinhentos quilos tinha saído de cima do peito de Izuki — o mesmo peso que o preocupava tanto, que era a principal causa das suas noites de insônia, que lhe atormentava a mente nesses últimos dois meses.

— Eu amo você, Moriyama-san.

— Eu amo você também, Izuki-kun.

Kobato e Suzume juntaram-se ao abraço também.

Parecia estranho, mas é como se fossem uma grande família. Podiam até não ser — e com certeza não eram —, mas absolutamente se amavam como uma.

E como se amavam.

Notas finais
(EU TAMBÉM AMO!!!!!) Curiosidades #11 -Kaena, de fato, não sabia que Izuki estava namorando, e gosta do jeito que Izuki aperta os lábios quando está com muito tesão. -Nora e Hayakawa se conheceram jogando boliche — eles estavam em pistas próximas e começaram uma competição "quem faz mais strikes" (Hayakawa ganhou).