Forever Young
10 Capítulo X: Bar do Dio
Notas iniciais
Nico Di Ângelo conseguira ficar ainda mais gato.
Ele estava parado ao lado de um Jaguar XJ 220 1994 preto. Vestia uma camisa do Iron Maiden, calça jeans escura exageradamente rasgada nos joelhos e, nada surpreendentemente, a jaqueta de couro e os coturnos.
O cabelo despenteado caia no rosto de modo descolado.
Olhei para minhas roupas, não poderia estar em desvantagem em relação a aparência. Como ele não tinha me dito onde nós iriamos, tinha vestido roupas que usava normalmente quando saía, uma camisa do Kiss, uma saia preta com rendas e All Star Chuck Taylor.
Estávamos na frente de um bar, não um boteco, um bar temático. A entrada tinha uma porta dupla enorme, havia uma placa de led azul com o nome Bar Do Dio, as paredes exteriores eram roxo uva e tinham caveiras pretas tingidas.
Me senti aliviada.
Eu tinha cogitado a possibilidade de inventar uma doença, porém quanto mais rápido nós saíssemos, mais cedo estaria livre desse compromisso importuno.
– Bar do Dio, tipo Dios? — perguntei.
Nico riu.
– Se Dios for um cara gordo, alcoólico e ex-integrante de uma banda de Rock, sim. — ele respondeu rindo — Vamos.
Ele colocou o braço ao redor da minha cintura me puxando para dentro como se fossemos íntimos.
Por dentro o lugar era espetacular!
No centro do andar térreo tinha um palco onde uns caras de uns quarenta anos tatuados e com rabos de cavalo tocavam Rolling Stones, havia televisores enormes ligados em jogos de Rúgbi e tênis, as paredes tinham pranchas de surfs, shapes de skate, vinis e posters; as mesas eram redondas e tinham sofás ao invés de cadeiras.
Os garçons estavam caracterizados como astros do Rock, isso se o John Lennon usasse avental e carregasse bandejas. E, nas mesas mais afastadas, as pessoas estavam se pegando loucamente.
– Qual é a dos garçons? — quis saber.
– Só entreter. — ele sussurrou perto demais, porque os riffs das guitarras da banda quarentona estavam altos. — Onde quer sentar?
Fiquei surpresa.
– Desde quando você é cordial? — indaguei.
Ele sorriu.
– O.K eu escolho.
Di Ângelo me levou até o mesa de canto se sentando do meu lado.
.
– Você poderia parar de comer com os olhos, Di Ângelo?
Ele fingiu indignação.
– Não estou comendo você com os olhos, Grace. Você não é tão interessante assim.
Um homem parecido com o Paul McCartney parou na nossa frente. Ele estava usando smoking, gravata e camisa social por baixo do avental.
Os caras no palco tocavam Smoke On The Water.
– Paul McCartney. — Nico disse com convicção.
O garçom lançou um sorriso falso.
– O que vão querer?
– Heineken. — Di Ângelo disse e olhou na minha direção esperando minha resposta.
Eu teria escolhido Heineken, porém...
– Duff.
O cosplay do Paul anotou em caderninho preto que me lembrava assustadoramente o diário de Tom Riddle. Talvez fosse inspirado.
– Realmente prefere Duff ou escolheu só para me contrariar?
– Os dois. — respondi.
Ele revirou os olhos.
Outro garçom voltou com duas garrafas de cerveja. Uma Duff e uma Heineken. Esse tinha o cabelo preto arrepiado, lápis preto nos olhos e vestia calça de couro sob o avental. Era a cara do vocalista do Green Day, Billie Joe Armstrong.
– Posse te fazer uma pergunta, Di Ângelo?
– Isso já foi uma pergunta — ele disse e eu tentei dar um soco no peito dele, Nico segurou o meu pulso — Faça.
– Qual é a dessa de ser obrigada a sair com você?
Não poderia negar que eu estava curiosa. Que ele não estava completamente indiferente a minha presença, era óbvio. Ele não teria me obrigado a sair com ele se estivesse.
Nico terminou de beber calmamente e sorriu cínico.
– Tornar a noite torturante para você.
Torturante?
Ele poderia ter me feito morrer de tédio, me levando a algum restaurante incrivelmente chato e com mais talheres para uma pessoa do que as pessoas tem para a família inteira, ou a um boteco onde as televisões de tubo exibem telenovelas.
Mas não o fez.
Decidi provocar.
– Posso tornar isso torturante para você também. — retruquei dando uma golada na cerveja.
Levantei do meu lugar, na confortável poltrona e sentei no colo de Nico Di Ângelo. Minhas pernas estavam sobre a deles, e onde o jeans dele era rasgado nossas peles se tocavam. Nico colocou o braço ao redor da minha cintura apoiando o punho na mesa, e com a outra mão apertou minha coxa brincando com a renda da saia.
Joguei os braços envolta do pescoço dele.
– Isso, com certeza, não é torturante. — ele disse.
Sorri.
– Vai ficar quando você não puder fazer nada. — falei passando o lábio no pescoço dele que, provavelmente, ficou com um rastro vermelho de batom. Pus minha mão sobre a dele, tirando-a da minha coxa.
Nico não se abalou.
Ele inverteu a posição das nossas mãos, deixando a minha por baixo e fazendo com que eu a passasse desde o meu próprio joelho até o final da coxa, levantando a porcaria da minha saia.
Não vestir saia quando for sair com Nico. Ticado.
– Posso fazer você querer que eu faça algo. — dito isso ele pediu outra rodada.
Um dos homens que estava tocando guitarra desceu do palco e deu uma golada em uma garrafa de vinho. Ele sorriu para Nico e veio na nossa direção.
Tinha cabelos escuros presos em um rabo de cavalo baixo e comprido. Nos braços tatuados ele tinha o desenho de um dragão de komodo, uma mulher loira com um dos seios de fora e um tigre albino com olhos amarelos. Ele usava uma bermuda e uma camisa com as mangas rasgadas.
E tinha um olhar maníaco, como se houvesse enlouquecido.
– Quem é, finalmente, a garota de família com quem está saindo, criança? — ele se sentou na nossa frente e dirigiu a pergunta para Nico.
Não gostava das pessoas falando sobre mim na minha frente, ao invés de se dirigirem especificamente para mim ao fazerem as perguntas. Me sentia como se tivesse demência e não pudesse responder por mim mesma.
Para minha surpresa Di Ângelo não fez nenhum comentário irônico e engraçadinho, o que me levou a crer que ele conhecia o roqueiro quarentão.
– O que te leva a crer que eu seja uma garota de família? – perguntei antes que Nico respondesse por mim.
O cara riu.
– Geralmente as garotas já estariam sem camisa, isso se ainda tivessem aqui — ele disse e não consegui distinguir se estava falando sério ou sendo irônico — E, você, ainda está vestida.
Não sabia se levava aquilo como elogio, mas estava grata por estar vestida. Porém ainda estava sentada em cima de Nico, que, a propósito, não parecia nada desconfortável.
– Não exagere, Dionísio. — Di Ângelo disse bebendo um longo gole. — O efeito que causo sobre as mulheres não é tão devastador.
Dioniso, que supus que fosse o dono do bar, gargalhou. Sua risada conseguia ser mais assustadora do que o rosto, as pupilas pareciam extremamente dilatadas, ele escancarava a boca e a cabeça inclinava para trazer.
Um louco digno de ser interpretado por Johnny Depp.
– Não? — ele tentava controlar a risada — Quanto tempo levou para convencer a última garota a ir para sua casa?
Casa?
Nico ficou pensativo.
– Meia hora talvez. — respondeu sério.
Não me incomodei com os comentários dele, não que eu tivesse cogitado começar a me importar com Nico Di Ângelo, mas sinceramente não me incomodei. Essa ilusão de que as pessoas não podiam sair com várias outras e tinham que ser restringir a serem exemplos para a sociedade era falso moralismo, algo criado pra atrair falsos moralistas.
Nico nos apresentou despreocupado e contou que Dionísio era amigo do seu pai, eles tinham se conhecido em uma bebedeira após um show do Metalica, em Nova York.
– Realmente, Hamiro ...
– Hades. — Di Ângelo corrigiu
– Isso! Adenir. Ele era uma das poucas pessoas civilizadas dessa cidade, um pouco necrófilo, mal humorado e suicida, talvez, mas ainda sim era uma ótima companhia depois da quinta dose de conhaque. — não compreendi se ele estava errando o nome de propósito e se a descrição sobre Hades Di Ângelo era séria — Vou indo. E, a propósito, Nico, faz mais de uma hora que estão conversando.
Ele piscou e saiu.
Passavam das duas da manhã quando pagou a conta e me arrastou para fora do bar. Nós tínhamos tido nossa conversa mais longa e, é claro, nos provocado bastante.
Quero te levar a um lugar. — comentou acelerando com o Jaguar.
Eu troquei de rádio, apesar do olhar intimidador de Nico sobre essa atitude.
– Espero que não seja nenhum lugar onde você possa me perverter.
Ele gargalhou. Aliás, tinha feito muito isso ao redor da noite.
– Grace. Qualquer local é lugar de perversão. — ele me lançou um sorriso sensual, entreaberto e inclinado.
Refleti.
– Isso quer dizer que devo ficar atenta a tudo? — perguntei.
– Isso quer dizer que você deve ficar alheia a tudo, exceto a mim. — respondeu irônico — Porque, como eu disse, qualquer local é lugar de perversão, mas nem todo mundo é pervertido.
Eu gargalhei.
Ele estava fazendo uma reflexão filosófica com conotação sexual? Era difícil para mim acreditar que ele conseguia ser irônico e divertido sem estar sendo maldoso, ou que ele tivesse senso de humor, pois, na maioria das vezes, ele estava absolutamente mal humorado e distraído.
– E qual dos dois você é? — perguntei.
Ele riu.
– Pervertido, com certeza.
Ele estacionou.
Estávamos na estrada que ligava Nashville as outras cidades. Do lado esquerdo havia vegetação e terrenos, tudo extremamente caipira, já no lado esquerdo tínhamos uma vista privilegiada da cidade e do céu. Conseguia ver as luzes brancas e azuis das casas e prédios, as pontes, o rio. Um borrão distante, como se observasse o mundo do lado de fora, embora esse mundo fosse um pequeno pedaço do Tennessee.
Nico saiu do carro segurando uma garrafa de Vodka, considerando o tanto que ele bebia antes de dirigir era provável que o departamento de trânsito tivesse muitas ocorrências em seu nome. Ele subiu no capo do Jaguar e deitou sobre o teto do carro.
O encarei.
Quem pisava no capo de um Jaguar?
– Está esperando minha autorização para subir no meu teto? — perguntou rindo enquanto engolia a Vodka pura.
Realmente eu tinha saído com um alcoólico, fumante que participava de rachas ilegais? Levando em conta as pessoas que não eram nada disso e se mostravam verdadeiros canalhas, ele estava no lucro.
– Você é louco. — comentei.
Ele levantou a cabeça focando os olhos escuros na minha direção e riu.
Subi na lataria do Jaguar deitando do lado de Nico. Ele conseguia fazer uma situação onde estávamos deitados lado a lado olhando o céu ficar extremamente não romântica. Puxei a Vodka da mão dele, ele protestou.
Dei uma golada e senti Nico se colocando sobre mim.
Ótimo. Agora corria o risco de acabar me atracando com um alcoólico, fumante que que participava de rachas ilegais. Um sério risco, quando se observa que ele era extremamente irritante, arrogante e sensual.
O cabelo dele estava caindo na testa, os olhos me encaravam divertidos e o sorriso era maroto. Ele ergueu as mãos em sinal de rendição. E eu? Cerrei as unhas no cabelo dele e o beijei.
Surpreendentemente ele não tinha gosto de cinzas de tabaco e sim uma mistura de Trident e álcool. Estávamos praticamente me devorando em cima do Jaguar, Nico já tinha tocado toda e qualquer parte disponível do meu corpo, o que me causava arrepios constantes. E eu me orgulho de dizer que ele era incrivelmente gostoso, cheirava e beijava muito bem e que eu estava passando a mão nos músculos da barriga dele sem estar na garupa de sua moto.
O empurrei.
Nico ficou me encarando impassível. Provavelmente ele não estava acostumado a receber muitos foras, não de acordo com o que Dionisio havia dito, porém não o estava rejeitando eu precisava respirar.
Passei a mão na minha boca e meus dedos voltaram manchados de batom vermelho.
– Qual o nome? — perguntei.
Ele franziu as sobrancelhas. Não parecia irritado ou nervoso, apenas confuso.
– Do Jaguar. — expliquei.
Nico sorriu.
– Monique. — disse encantado, como se o carro realmente fosse digno de um nome carinhoso, enquanto eu me reaproximei e mordi o lábio dele — Está afim de ir para minha casa?
Olhei meu relógio. Faziam quatro horas que estava saindo com ele, o que, com certeza, era melhor do que apenas trinta minutos de resistência.
– Pode ser.
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