Forever Unchanging
4 Four - O Porão
Notas iniciais
Yuu acordou assustado, não notara em qual momento adormecera, e nem qual dos dois mais velhos lhe trouxera ate o quarto.
Sentou-se na cama, arrumou os cabelos ouriçados, notando a janela, agora com suas cortinas entreabertas, revelando o fim da madrugada, onde o céu se fundia em tons azulados e lilás. O ar frio entrava no quarto, e lhe causava alguns arrepios mesmo que ainda estivesse coberto pelos lençóis pesados.
Sentia o corpo pesar, ainda estava cansado, mesmo que tivesse dormido quase o dia anterior inteiro.
Espreguiçou-se de forma contida, e levantou da cama, indo em direção a porta, a entreabrindo e vendo o corredor ainda escuro. A curiosidade sobre o porão, voltara a aflorar em sua mente, mas não queria ser pego espiando de novo, isso poderia ofender ao seu anfitrião.
Fechou novamente a porta, e seguiu para a cama a arrumando e sentando-se na beira da mesma, olhando para a porta, tentando não deixar a curiosidade lhe corroer totalmente.
Respirou fundo fechou os olhos, logo ouviu a movimentação no corredor. Passos pesados, apressados, que pararam diante da porta, que não demorou a ser aberta.
Abriu os olhos, e encontrou seu anfitrião, já parado bem próximo a si.
— Bom dia, Yuu... – sorriu, estendendo a mão. – Hoje iremos conhecer a mansão antes do desjejum, espero que goste do passeio.
— Oh... pensei.... que esperaríamos amanhecer.
— Até conseguir abrir aquela porta velha, o sol já estará brilhando. Vamos, estava curioso ontem, dormiu falando no porão. Até Akira ficou interessado. – disse de forma dócil, fazendo com que Yuu sorrisse levemente.
O mais novo segurou sua mão, e ambos seguiram para fora do quarto. Kouyou andava apressado, quase arrastando Yuu, que mal conseguia completar as passadas.
Em pouco tempo, alcançaram a sala de jantar, onde Akira terminava de empurrar a pesada mesa de madeira para longe do local que deveria ser a porta do porão.
Kouyou soltou a mão do mais novo, e se aproximou do outro, abaixando-se e puxando a peça diferente das demais, revelando uma maçaneta, um alçapão, o qual abriu rapidamente.
O mais novo continuou parado afastado de ambos, não que tivesse perdido a curiosidade, mas um receio, algo o mandava não sair do lugar, o manda ir embora dali, com muito mais intensidade que anteriormente.
— Yuu? – voltou a si, ao ouvir a voz grave de Kouyou, e a proximidade do mesmo. – Vamos, te ajudarei a descer ao porão. – estendeu a mão para ele, que observou seus dedos por alguns segundos, antes de aceitar o convite sutil.
O mais velho lhe levou até o local, e o ajudou a descer a pequena escada velha que levava até o porão.
Não enxergava nada, nada além da iluminação que vinha da sala de jantar;
— Akira, poderia buscar uma lamparina para nós, não é mesmo? – Kouyou se pronunciou, fazendo com que Yuu o olhasse brevemente, mas voltasse a encarar a escuridão profunda;
— Sim, Kouyou... – respondeu brevemente, antes que o mesmo descesse a pequena escada;
Yuu soltou a mão de seu anfitrião, ainda mantendo-se parado próximo a luz fraca.
— Yuu... Não saia desse lugar, irei pegar a chave, tem um corredor secreto, acho que gostará de explorar ele também. – Kouyou beijou a testa do menor , e voltou a subir a pequena escada. Deixando-o sem ação por algum tempo, o suficiente para que tivesse saído do cômodo superior, lhe deixando mergulhado em um silencio profundo.
— Milord... – se desesperou ao ver que o outro havia mesmo lhe deixado só.
Ouviu o barulho novamente, o soco abafado na madeira, bem próximo a si. Havia algo ali, mas não conseguia ver no breu em que se encontrava.
O medo em seu corpo era gigantesco, sentia o arrepio percorrer sua espinha de cima a baixo. Em um aviso de que corria algum perigo eminente, e também novamente, aquela sonolência repentina voltava a habitar seu corpo.
Em um impulso, virou-se para subir à sala de jantar, seus pés prenderam-se no pequeno degrau, lhe fazendo perder o equilíbrio, e acabar caindo com força sobre a pequena escada.
[...]
Abriu os olhos, vendo a iluminação forte e as paredes claras do quarto de forma embaçada, nauseante.
— Que bom que despertaste! – ouviu a voz de Kouyou, e voltou os olhos na direção que ouvira, o vendo ainda de forma distorcida, segurando algo escuro em seus braços; — Esse era um dos motivos do barulho no porão: Um gatinho, estava preso entre os degraus ! – disse de forma feliz.
— O... o que houve comigo, milord? – sussurrou ainda confuso, sentindo a cabeça dolorida.
— Você teve uma queda... bateu com a cabeça na escada. Quando Akira e eu retornamos, estavas desacordado, o gato estava sobre você. – sentou-se próximo ao mais novo, e acariciou seu rosto com a ponta dos dedos. – Hum.... está febril... deve ter sido a causa do seu desmaio, precisa descansar mais.
— Não parecia o barulho de um gato preso. — sussurrou. – Há algo mais naquele porão, milord?
— Não há nada no porão Yuu... o que teme? – questionou depois de longos segundos em silencio. O mais novo ainda não o via nitidamente, mas manteve os olhos na sua direção.
— Por que tudo sobre este lugar parece misterioso, milord? Porque cada momento parece que esconde algo, que age como se não quisesse que eu descobrisse algo?
Kouyou sorriu largamente.
— Está há pouco tempo convivendo comigo, em minha casa, claro que todo parecerá cercado de mistério. – se aproximou para, mais uma vez, beijar a fronte do mais novo, que se afastou rapidamente.
— Toda vez que faz isto comigo, fico sonolento... – disse, tentando soar inquisidor, para que o outro lhe respondesse, sanasse todas suas duvidas.
Mesmo o conhecendo por tão pouco tempo, ele queria saber, logo, tudo sobre o seu anfitrião, para sentir-se seguro, ou se afastar o mais rapidamente dali.
Kouyou riu alto. Algo que fez Yuu encolher-se nos lençóis, incomodado com tal atitude do mais velho. Parecia que havia se tornado outra pessoa, bem diante de seus olhos.
Como se aquela gentileza inicial houvesse se esvaído completamente, e ali só houvesse sobrado a ironia daquele riso. Era como se o mais velho simplesmente achasse patético aquele tipo de pergunta direcionada a si.
— Não pergunte o que tem medo de saber. – voltou ao tom habitual, se levantou da cama, e seguiu para fora do quarto, deixando o mais novo atônito.
Yuu permaneceu em silencio por longos minutos, com o gato negro ainda ao seu lado.
— estou com medo disso... Acho melhor ir embora daqui... – levantou-se ainda cambaleante, mas mesmo sem equilíbrio, seguiu rapidamente para a porta, e ao abri-la esbarrou em Akira, que segurou-lhe pelos ombros.
— Não devia estar descansando? Tens um ferimento na cabeça, melhor não esforçar-se tanto.
— Irei embora... agradeço a preocupação de ambos, mas não poderei mais ficar... – sussurrou, tentando disfarçar a falta de equilíbrio;
— Não deixarei que cometa tal loucura... Poderia correr riscos andando nessa situação. – respondeu, levando, facilmente, o mais novo de volta á cama, onde o gato ainda estava.
— Não importo-me, apenas deixe-me ir... – insistiu, mas o outro apenas lhe cobriu, e lhe acariciou ao lado do rosto.
Sentiu o corpo pesar, e um desespero em seu interior.
Akira também causava aquela sonolência.
Antes que seu corpo, afundasse no sono pesado, balbuciou a pergunta anterior, que não obteve resposta com seu anfitrião;
— Porque fico sonolento com esse toque repentinos que fazem em mim?
Os olhos encheram-se de lágrimas, estava com medo daquilo, não confiava mais em nenhum dos dois que lhe cediam ‘abrigo’. Estava com medo de estar afundado em problemas. Talvez estivesse mesmo.
Akira sorriu, e tocou seu rosto mais uma vez.
— Almas puras sentem isso, com o toque de impuros sugadores de pecados.
[...]
Fale com o autor