Notas iniciais
Yo! EU SEI, A GENTE DEMOROU PRA CARAMBA. PERDÃO ~implora de joelhos~ Demoramos sim! E eu assumo a culpa, pq foi minha. :c Maaaaas, aqui estamos. Trazendo mais um capítulo gostosinho. Espero que nos perdoem e apreciem! ^^ ~Marimachan ~*~*~*~*~ Há quanto tempo, caros leitores! Ainda estão acompanhando? Não acredito! Como prêmio por sua incrível perseverança e paciência, aqui está: um capítulo cheio de comédia no estilo Gintama de sempre! E aliás, sobre isso... A personagem Sheeta q será mencionada é a garotinha protagonista do filme do estúdio Ghibli Laputa - castle in the sky. Tendo esclarecido isso, vamos à leitura! Aproveitem :3 ~Ginko

Mais uma vez a noite chegara, e até então o clima no dojo era calmo, apesar de quase todos os que passaram a morar sob aquele teto estarem presentes ali. As exceções eram: Takasugi e Katsura, que resolveram ir dormir mais cedo; Oboro, que também se retirou para o quarto que dividia com os outros meninos com a explicação de que tinha algo para pesquisar; Nobume, que ao anoitecer saiu sem nada dizer e sem ser percebida – ou quase, pois Shouyou havia notado – e não havia voltado até aquele momento; e Shinpachi e Kagura, que ainda não haviam retornado do trabalho voluntário nas ruas de Kabukichou.

Esses últimos, porém, não demoraram a aparecer.

Otae voltava da cozinha, onde foi deixar vários pratos sujos de bolo – que aliás, haviam cumprido o verdadeiro objetivo por trás de seu tamanho, rendendo várias fatias aos felizardos que chegaram cedo –, quando os dois jovens yorozuyas chegaram.

― Okaeri, Shin-chan, Kagura-chan ― saudou os recém-chegados, ouvindo um “tadaima” uníssono enquanto voltava a seu lugar, carregando consigo um recipiente contendo algo que só poderia ser descrito como matéria negra. ― Kagura-chan, encontrou Umibozu-san?

― Sim, anego, ele estava...

― Não! Kagura-chan, não diga. ― Shinpachi se apressou em interromper a menina, aumentando sua voz para sobrepor-se à dela. ― Não diga... ― abaixando o tom, repetiu, com uma cara de quem estava lembrando-se de algo realmente desagradável.

A ruiva nada entendeu, mas ao invés de insistir no assunto, apenas deu de ombros e partiu para o que planejava fazer desde a manhã.

― Shouyou-sensei! ― Saltitou em direção ao mais velho, sentando-se frente a ele. ― Me conte sobre as vergonhas de criança do Gin-chan!

Alguns dos que estavam presentes ali, seja encostados em um canto ou escondidos sobre o forro do teto, afiaram sua audição ao repentinamente ouvirem o pedido da yorozuya, a fim de ter certeza que ouviriam cada detalhe daquela conversa claramente.

― Crianças e adolescentes passam vergonha; faz parte do crescimento. Fazer o quê? ― ela continuou a falar, posando como adulta. ― Só o que se pode fazer é constrangê-los na vida adulta falando das vergonhas do passado. Se não souber por onde começar, Shouyou-sensei, pode começar por até que idade o Gin-chan fez xixi na cama! Ou se ele teve alguma namoradinha! Como ela era? Ela era retardada?

― Oe, Kagura-chan! Vai com calma! ― Shinpachi advertiu a garota, que se empolgou no meio dos questionamentos.

Shouyou ria, divertindo-se com a empolgação da jovem.

― Bem, Gintoki sempre controlou bem sua bexiga ― iniciou sua resposta, ainda sorrindo. ― E namoradas... não houve nenhuma de que eu tivesse conhecimento.

― Não me surpreende nem um pouco que aquele olhar de peixe morto e o ninho de ratos que ele chama de cabelo não atraíam ninguém. ― Catherine não perderia a oportunidade de deixar um comentário ofensivo.

― Então quer dizer que o Danna não era popular... ― expressou-se também Yamazaki, com uma feição compreensiva, ao lado de um Shinpachi que exprimia o mesmo, enquanto ajeitava os óculos de forma dramática.

― Eu entendo, Gin-san.

― Ah, ah, eu esperava mais que isso. ― A yato inclinou-se para trás, se apoiando nos braços. ― Não tem mesmo nenhuma história constrangedora pra contar?

― Eu não disse isso. ― O mais velho sorriu serenamente, como se não estivesse se divertindo com aquela situação. ― Vejamos... Numa noite de primavera, após aprontarem num festival, ele, junto a Katsura e Takasugi, voltaram mais tarde do que deveriam e acompanhados por...

― QUEREM PARAR COM ESSA MERDA?! ― o pequeno samurai de cabelos prateados, que estava sentado no assoalho do corredor, berrou, apontando para a garota e o professor com uma veia pulsando na testa.

― Ora, Gintoki, já está acordado?

― NÃO MUDE DE ASSUNTO, SHOUYOU! Você pretendia mesmo me expor, seu maldito... Estava se divertindo, não é?! ― Cada vez mais veias latejavam no rosto do mais novo, que percebia que o mestre estava prendendo o riso. ― AÍ ESTA! Essa cara de quem ri da desgraça alheia! Finalmente está mostrando sua verdadeira face, huh?! E você, sua menina gorila, eu te acolhi na minha casa!

― Não é sua, é minha, e eu não me lembro de ter te dado. Mas me lembro muito bem do dinheiro do aluguel que você me deve – pronunciou-se Otose, o que foi completamente ignorado pelo garoto.

― Te alimentei com 5 quilos de arroz todos os dias!

― O arroz também era meu!

A ruiva, por sua vez, apenas o olhava com sua típica feição de quem não ligava para sequer uma palavra do que o outro dizia, enquanto vasculhava uma das narinas com o mindinho.

― Gin-chan, eu já conheço suas vergonhas da vida adulta, e já te carreguei bêbado. Isso paga qualquer coisa. Até acho que é provável eu ir para o céu. Vou finalmente encontrar Laputa! ― Empertigou-se, animada com a ideia. ― Obrigada por ser um vagabundo imprestável, Gin-chan!

― Como é que é, sua maldita pirralha?!

― Acho que não é preciso lembrar que você também é um pirralho agora, não é, Gintoki? ― Shouyou puxou o mini-samurai, sentando-o perto de si, e bagunçando seus cabelos rebeldes, o que o fez ficar com uma carranca de mal humor.

Até então, os envolvidos na discussão não haviam percebido que se fazia mais silêncio do que o normal naquele cômodo com tantas pessoas; mas ao fazê-lo, bastou apenas um riso contido, que não se soube de onde veio, para que todos os outros caíssem na gargalhada.

― Parece até que o pavio do Danna diminuiu junto com o tamanho! ― algum membro aleatório da Shinsengumi comentou em meio às risadas.

― Ora, mas até que ele está uma gracinha. ― Riu Kondou de forma estranha: uma mistura de sua própria risada espalhafatosa com a agonia mal disfarçada, causada pela ingestão da matéria negra quase radioativa que Otae cozinhara.

O pequeno yorozuya, por sua vez, cogitou assassinato por empalamento, logo, porém, desistiu da ideia e suprimiu sua irritação – gastava energia demais. Além disso, ao deixar sua aura assassina escapar, seu instinto o levou a olhar para o de cabelos claros ao seu lado, que já sustentava aquele sorriso sinistro, inumanamente calmo, que fazia seu estômago gelar. Levantou-se então e retornou ao seu lugar do lado de fora do dojo, disposto a voltar a dormir.

A confusão daquela noite, no entanto, só estava começando.

― Ei, China. ― Okita Sougo segurava seu celular, apontando a lente da câmera para a yato. ― Olhe para cá e repita a parte em que você parece uma menininha de 6 anos que ainda acredita em um castelo voador.

Foi o bastante para despertar o lado mafioso da ruiva. Em um instante ela estava cara a cara com o rapaz, com sua melhor feição de “quer brigar, maldito?” estampada no rosto.

― Ahn? O que pensa que ‘tá fazendo, sádico nojento? Eu vou te fazer engolir esse celular, e não vai ser pela boca.

― Parece que você gosta de se iludir, Sheeta. ― O mais alto ficaria satisfeito ao perceber a raiva crescente que transparecia no rosto pálido de Kagura, se não fosse pela sua própria paciência que estava se esgotando. ― Mas eu posso te ajudar com seu sonho. Não quer ir para o céu, Sheeta? NÃO QUER QUE EU SEPARE SUA ALMA DO CORPO, AHN, SHEETA?

Quase que imediatamente os dois se atracaram, medindo forças de mãos agarradas, empurrando um ao outro até que alguém caísse ou quebrasse os pulsos. No entanto, aquilo não estava levando a lugar algum e logo se soltaram, para iniciarem uma troca de golpes que impressionaria até Kondou e Hijikata, se esses não tivessem visto os dois rivais lutarem dezenas de vezes.

Todavia, diferente de seus superiores, os demais policiais se empolgaram, até mesmo formando uma torcida e apostando em quem iria ganhar – o que eles esperavam que seu vice-comandante nunca descobrisse ou estariam destinados a cometer seppuku sem nunca ler as revistas adultas que foram apostadas.

Shouyou apenas observava a bagunça, entretido, pensando em como, de certa forma, tudo aquilo lembrava uma versão crescida de sua antiga escola.

― Isso acontece muito? ― perguntou num tom animado à Shinpachi e Yamazaki, que se sentaram por ali, já que não queriam ser atingidos por algum golpe ou objeto voador, o que costumava lhes acontecer, e aquela área era a única a salvo da baderna.

― Todo santo dia ― responderam em uníssono, como se já estivessem cansados daquilo.

O mais velho riu.

― Ei, Shinpachi-kun. ― o espião da Shinsengumi chamou a atenção do seu semelhante no papel de “cara normal”. ― Como eles conseguem ser assim todos os dias?

―Me pergunto a mesma coisa o tempo todo.

(...)

Gintoki observava entediado os outros garotos balançando espadas de madeira, chocando-as umas contra as outras. Não era uma má ideia juntar-se a eles, mas não tinha ânimo algum para aquilo. Talvez o que lhe faltasse fosse sua fonte de energia preferida: açúcar.

― Não vai se juntar aos outros? ― seu mestre, que observava o treino de seus discípulos, perguntou casualmente, ciente de que às vezes o de cabelos prateados tinha seu próprio tempo.

― Quem sabe.

Levantou-se, pretendendo ir à cozinha procurar qualquer coisa doce que lhe satisfizesse. Dirigiu-se à esquina daquele corredor, onde mudava de direção para a direita. Seus passos mal faziam qualquer barulho enquanto andava pelo piso de madeira, o que contribuiu para o que veio a acontecer a seguir.

― Foi mal ― Hijikata falou rapidamente, percebendo que esbarrara em alguém ao virar no corredor, antes de olhar para baixo e ver os cabelos daquele pequeno indivíduo. ― Pode ser o das olheiras ― pensou, torcendo para que assim fosse. ― Mas o cabelo do de olheiras não parece um permanente...

O mais baixo então levantou o olhar de peixe morto para o policial, que, desagradado em ver a confirmação daquilo que menos desejava, já expressava isso nos cantos de seus lábios, que se voltavam para baixo em ângulos estranhos.

Por que Deus? Por que ele?

― Foi mal? É assim que se desculpa quando esbarra em alguém? Não sabe o que é ter educação? ― o yorozuya indagou, sem alterar a expressão.

― Isso mesmo. Ninguém me ensinou nada disso. ― Ele queria acabar o mais rápido possível com aquilo, e teria ido embora naquele momento, se o outro não tivesse continuado.

― Tudo bem, Hijikata-kun, eu te ensino. ― O tom do menino era completamente natural, como se não estivesse fazendo isso só para irritar o policial. ― Repita comigo: Me desculpe, por favor.

― Como é?! Seu...

― Tosshi! Você pode conversar com o yorozuya depois. Vamos! ― O chamado vinha de Kondou, que estava a poucos metros dali, ao lado de Shouyou.

― Hijikata-kun, vamos, diga: Me des-cul-pe, por fa-vor ― repetiu, incentivando o outro, ignorando o comandante e as tarefas que aquele em sua frente provavelmente tinha.

Era difícil ver o rosto do vice-comandante demoníaco tão deformado quanto como estava naquele momento. Ele sorria – de pura raiva, mas sorria –, forçando os cantos da boca para cima como se sua vida dependesse disso, enquanto suas sobrancelhas franzidas tremiam e três ou quatro veias pulsavam em seu rosto. Estava decidido a não se entregar facilmente. Além de alguns de seus subordinados que ainda não haviam saído, seu comandante também estava ali, e seria uma vergonha deixar que eles o vissem brigando com uma criança. Não, não deixaria aquele vagabundo tamanho P vencer.

― Ah, que fofo, né?! Que gracinha, né?! ― O tom do moreno era extremamente forçado, quase cuspindo os “elogios”. ― Dá até vontade de... só um pouquinho... ― E então grudou suas mãos em forma de pinça nas bochechas pequenas.

Balançava o mais baixo, enquanto esticava e apertava suas bochechas violentamente até ficarem de uma cor vermelha escura. Quando finalmente o soltou, o de permanente natural não esboçou qualquer reação, encarando-o por alguns segundos, até que, por fim, decidiu se jogar no chão.

― Ai, ai, ai, ai, ai, ai! Ai! AAAAAAI! ― Esperneou, com uma feição de puro sofrimento.

Hijikata, por um breve momento, chegou a pensar se não tinha exagerado com a violência, mas ao ver que por um instante o sofrimento deu lugar a uma cara de “eu também posso fingir”, ele esqueceu completamente o que era piedade.

― Esse maldito permanente... ― resmungou para si mesmo, olhando o escândalo do outro sem poder fazer nada, rangendo os dentes até saírem faíscas.

― Tosshi! ― O líder da Shinsengumi foi ignorado novamente.

― Por que você faz isso comigo, Hijikata-kun?! ― o pequeno choramingou. ― Eu queria te ajudar, eu queria...

― TOSSHI!

Gintoki se levantou num salto.

― CALA A BOCA, GORILA DE MERDA!

― CALA A BOCA VOCÊ, MOLEQUE DESGRAÇADO! ― Hijikata finalmente cansou de se conter, respondendo o outro também aos gritos. ― Só eu chamo o gorila de gorila!

― Moleque? Ei, Hijikata... ― cantarolou o nome do adversário. ― Moleques também podem abrir pessoas ao meio. ― Sorriu sinistramente.

― Gintoki, não acha melhor guardar sua energia para o treino? – perguntou seu professor, que durante todo aquele tempo apenas ouvia a situação sem tirar os olhos de seus outros alunos.

― Não se meta Shouyou. Só tenho que matar rapidinho esse desgraçado.

― Pode vir, permanente. Tente a sorte.

― Morra, Hijikata.

Os dois então sacaram suas espadas, ouvindo ao longe um “Danna, essa frase é minha” de Sougo, que se aproximava para ver a briga.

O primeiro choque das lâminas afiadas ocorreu sem mais demora, o que fez o Okita se surpreender por um minuto, finalmente percebendo algo que não havia notado antes, e Kondou se locomover até o foco da briga.

― Tosshi! Onde está com a cabeça para estar confrontando uma criança?! ― ralhou o comandante.

― Esse maldito não é uma criança! ― Continuava trocando golpes com o menor. ― É um vagabundo bêbado mais velho que eu! ― defendeu-se, desviando de um ataque que provavelmente iria cortar seu braço fora, caso não tivesse pulado para o lado à tempo. ― Isso parece uma criança pra você?! ― gritou num misto de irritação extrema e perplexidade para o chefe.

― Pare de choramingar, seu maldito cobrador de impostos! ― O permanentado chamou o outro para a luta, não estando disposto a deixar aquela passar.

Hijikata então moveu-se para contra-atacar, assim como Gintoki estava preparado para devolver, e continuariam com aquilo até algum dos dois cair, caso o instinto do prateado não lhe alertasse sobre algo realmente muito perigoso.

― Merda. ― xingou audivelmente, ao perceber a aura negra caminhando tranquilamente até ambos; o que deixou o policial levemente confuso ao ver que o outro não iria reagir ao ataque.

― Com licença ― pediu, fazendo Kondou se mover alguns milímetros para o canto e logo perceber que aquilo não teria resultados alegres. ― Sinto muito, Kondou-san, mas não posso deixar isso dessa maneira ― explicou, já abandonando um cascudo no topo do crânio de Hijikata, que logo foi acompanhado pelo outro no de Gintoki.

Ambos caíram desacordados. Shouyou, por sua vez, embainhou a espada do discípulo e logo saiu arrastando o pequeno pelo corredor, segurando-o pelo colarinho do kimono infantil até o local aonde Takasugi, Nobume e Oboro testavam suas habilidades no novo corpo com o qual tinham que se habituar. Enquanto isso, Kondou, Sougo e outros que tinham vindo ver a bagunça, apenas observavam a cena, lembrando-se de anotarem mentalmente para não se meterem em confusão com algum dos pequenos, considerando que provavelmente aquele seria o fim deles caso esquecessem daquilo.

Sougo, obviamente, não perderia a oportunidade, e por isso mesmo tomou seu celular em mãos, guardando aquela imagem do vice-comandante demoníaco completamente derrotado ao chão, para logo em seguida cortar o silêncio comentando o que tinha observado instantes antes.

― Desde quando o danna usa uma katana e não a bokutou dele? ― Levantou-se de onde estava abaixado, percebendo que o comentário havia chamado a atenção dos outros.

― Eu também percebi isso, mas acabei me esquecendo de perguntar ― Kondou respondeu, ajudando Hijikata a se levantar, já que esse começava a despertar. ― Você está bem, Tosshi? ― questionou de certa forma preocupado, embora segurasse o riso.

― Sinto como se tivesse sido atropelado dez vezes seguidas. ― Levou a mão direita até o calombo em sua cabeça.

― Agora vocês sabem o que passamos durante todos os anos com ele ― Katsura, que havia deixado seu treino rapidamente para ir pegar água, fora quem comentara, compadecido com a dor que o policial sentia, já que sabia exatamente como era aquela sensação.

― Vocês passavam sempre por isso? ― Yamazaki perguntou, fazendo careta ao pensar sobre o quanto aquilo devia doer.

― No mínimo umas três vezes ao dia ― respondeu o pequeno de cabelos compridos, para logo seguir de volta ao salão no qual treinavam, deixando os homens que ali ficaram estarrecidos.

― Não me admira vocês serem uns monstros ― Yamazaki comentou baixo, meio admirado, meio perplexo.

― Ah, e sobre a espada do Gintoki ― Zura lembrou-se de responder quando já deixava o corredor ―, ele a pegou ontem, na casa dele, enquanto procurávamos a mulher. Nem eu sabia que ele ainda a guardava ― completou, voltando então a caminhar, deixando os homens com a informação.

Enquanto isso, no dojo, Oboro travava uma luta contra Takasugi, enquanto Nobume esperava por Katsura, para voltarem a treinar juntos. Esse chegou logo após seu mestre adentrar o salão, ainda carregando Gintoki desacordado.

Shouyou, por sua vez, sentou-se em um canto próximo à parede para poder observar melhor seus alunos em treino, ajeitando o garoto também no chão e colocando a cabeça desse sobre suas pernas cruzadas em posição de lótus. Não demorou muito, porém, para que Gintoki acordasse, tendo como sua primeira vista o rosto sorridente do mestre, o que o fez acordar com uma careta desgostosa.

― Não me olhe com essa cara, seu psicopata sádico ― reclamou se levantando. ― Se quer me matar faz isso direito, seu maldito! ― xingou irritado.

― Eu não estava querendo te matar ― iniciou tranquilamente, passando a observar os outros pequenos lutando ―, estava te impedindo de matar alguém. Veja bem, são coisas diferentes, não acha? ― concluiu sorrindo novamente, a seu modo, fazendo o pequeno bufar num misto de frustração e irritação.

― Oe, Nobume! ― chamou, já se pondo de pé e abandonando sua espada no lugar onde antes estava sentado. ― Troca comigo ― pediu se aproximando dos quatro. ― Preciso descontar a raiva que aquele maldito cobrador de impostos me fez passar em alguém ― declarou sorrindo nervosamente.

― Não venha descontar suas desavenças com o Hijikata em cima de mim! ― indignou-se Katsura. ― E por que tem que ser eu?!

A verdade é que o pequeno de cabelos compridos estava muito bem treinando com Nobume, que assim como ele dava seu melhor no treinamento, mas não levava a luta a sério como tinha certeza que Gintoki faria a partir dali – como sempre fizera –, ainda mais estando tão irritado como estava.

― Porque o emo só vai me irritar mais ― respondeu já pegando a shinai das mãos da garota.

― Do que você me chamou, desgraçado?! ― pronunciou-se Takasugi, que rapidamente fora segurado por Oboro para não avançar em cima do companheiro.

― Oe, Takasugi ― chamou o de olheiras. ― Você está treinando comigo ― lembrou-o, logo o soltando em seguida.

― Eu tenho certeza que você não quer treinar comigo porque sabe que vai perder, não é, Gintoki? ― Ignorou o comentário anterior, provocando com um sorriso raivoso e algumas das veias saltando em sua testa.

― O que você disse, seu parasita deserdado? ― devolveu o de cabelos prateados, fazendo com que as duas testas se unissem.

― Nós continuaremos com o treino ou eu vou ter que me meter no meio? ― A voz perigosamente suave do professor soou no cômodo, fazendo os dois briguentos paralisarem instantaneamente.

― Tsc. Vamos de uma vez, Zura. ― Gintoki afastou-se de Shinsuke, pondo-se em posição para começar a treinar com o amigo.

― Zura jyanai, Katsura da! ― repetiu sua frase preferida, também se posicionando.

Após aquele momento, os quatro que ficaram ao centro do dojo passaram a treinar com vigor, enquanto Nobume caminhou até o mestre, sentando-se ao lado direito dele, para também observar os companheiros. Passaram-se alguns minutos assim, com ambos quietos e assistindo ao treino, até que o silêncio fora cortado pelo mais velho.

― Nobume-chan, o que me diz de me ajudar a preparar o lanche? ― perguntou em meio a um sorriso doce e convidativo.

A pequena aceitou o convite acenando afirmativamente com a cabeça e então se levantou junto do professor, para seguirem em direção à cozinha da propriedade dos Shimura.

(...)

Shouyou retirou o avental que usava, colocando-o sobre a mesa. A massa que preparara mais cedo e deixara fermentar já estava no forno, depois dele e a pupila terem modulado-a em vários biscoitos recheados com chocolate. Nobume se encontrava sobre um banquinho, lavando a louça que eles tinham sujado no processo. Por alguns instantes, observou a pequena fazendo o trabalho, e então sorriu consigo mesmo.

― Isai Nobume ― proferiu com zelo. ― Foi ele quem lhe deu esse nome, certo?

A menina respondeu apenas em um aceno afirmativo, ainda concentrada em enxaguar a louça que faltava ser limpa. O professor, por sua vez, pausou por um momento, em silêncio, ponderando suas próximas palavras, mas por fim decidindo-se por definitivo.

Sentou-se em uma das cadeiras à mesa, pondo-se a encarar o piso encerado por alguns instantes.

― Acho que lhe devo muito mais do que um pedido de perdão, não é mesmo? ― Finalmente voltou a se pronunciar, sorrindo, embora um sorriso que carregava verdadeiro lamento.

De início, a frase lhe trouxe surpresa; logo em seguida, porém, uma mistura de vários sentimentos diferentes preencheu-lhe o peito. Ela achava que já havia superado a perca, mas aparentemente estava um tanto quanto enganada. No entanto, jamais culparia aquele homem.

Era verdade que fora a Naraku, subordinada à Utsuro, que causara a maior parte do caos naqueles dias; isso, porém, não deveria estar sob as costas de Shouyou.

― Não ― contestou, trazendo surpresa também ao mestre. Desceu do banquinho, enxugando as mãos no pano de prato, e encarou o mais velho. ― Você não me deve desculpas. Até porque, ele morreu da forma como queria morrer. Foi uma decisão dele. E, além disso, eu só tenho que te agradecer... porque foi você quem me deu a oportunidade de conhecê-lo, Shouyou-sensei ― tranquilizou o mais velho, que ainda tinha surpresa nos olhos, mas agora eram também tomados por um brilho terno, acompanhado de um calor manso em seu peito.

― A pequena menina a quem eu conheci naquela época parece estar muito mais convicta de suas próprias decisões. ― Sorriu docemente, o que trouxe leve rubor às bochechas fofas da pequena. ― Obrigado. ― Levantou-se, afagando levemente o topo dos cabelos negros e então seguindo em direção ao forno.

Realmente, naquele momento, uma das certezas mais certas lhe tomou o coração. Ele jamais se arrependeria de ter acolhido aquelas crianças assim como o acolheram. Eram elas que o faziam perceber: ele podia ser muito mais que um monstro imortal; era por conta delas que ele podia ser o samurai que desejava realmente ser.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.