Forever
6 Capítulo 6 - Temporal e pensamentos nublados
Notas iniciais
Wendy cutucou o espinafre com o garfo, retirando e colocando diversas vezes no prato. Ainda era o final da primeira semana do retorno das aulas, mas ela já se sentia exausta e com vontade de voltar a cama, dormir até nunca mais conseguir sentir sono outra vez.
O som dos pratos e talheres da louça batendo-se ecoavam pelo refeitório, junto a dezenas de vozes que riam, cochichavam e fofocavam. Wendy estava sentada em uma mesa circular ao lado da janela, naquela manhã nublada chovia como nunca, nem parecia verão. O refeitório da Griffin High School era um grande espaço quadrado reservado com mesas redondas que cabiam de seis a oito pessoas, no segundo andar que cobria apenas uma parte do refeitório, eram mesas quadradas que no máximo sentavam-se duas ou três pessoas. As enormes janelas com persianas permitia que os alunos observassem uma parte do campus, do lado de fora. Juntamente a duas saídas para os corredores escolares e uma saída de emergência para o lado de fora, que de minutos em minutos, alunos encharcados pela chuva entravam, para o desgosto do zelador em ter que limpar aquilo.
Cynthia sentou-se em frente à Wendy, a bandeja com um prato de salada de espinafres e peixe empanado. Cynthia era uma garota de cabelo loiro curto, um pouco abaixo da orelha, em channel. Em geral era uma garota bem comunicativa -não tanto quanto Rachel- e com um amor único e diferente por moda francesa e jujubas.
— A aula do da Truman me deixou louca. — Cynthia disse, esfregando as têmporas. — Eu não aguento mais escutar a palavra "Revolução Industrial" sem querer enfiar um lápis no meu pescoço.
Cynthia e Wendy haviam se tornado amigas após sentarem-se lado a lado durantes as mesmas aulas de matemática, no ano passado quando Wendy havia sido transferida. Cynthia era amiga de Rachel, logo se tornando amiga de Wendy também. O trio estava sempre junto, elas eram o que Rachel apelidava carinhosamente de "impopulares", mas de acordo com Meninas Malvadas, que a mesma já havia maratonando mais de cem vezes, elas eram as melhores pessoas que alguém poderia conhecer. Wendy não entendia muito essa lógica, mas estava contente por ter um grupo de amigas e não ser totalmente excluída.
— Como foi a viagem? — Wendy perguntou dando uma colherada em seu pudim de chocolate, ignorando a salada de espinafres que ela nem comeu.
— Oh, foi bem. — Cynthia pareceu pensativa. — A fazenda do meu tio é legal, mas cuidar do meu priminho não foi exatamente a minha programação favorita de férias de verão.
Wendy acenou com a cabeça quando Cynthia abaixou o olhar, prestando atenção em um livro que segurava contra a mesa, lendo enquanto mastigava uma folha de espinafre. Wendy conseguiu ler "Hamlet" na capa do livro, Cynthia também tinha um amor por livros clássicos e já deveria ter lido aquilo pelo menos umas quatro vezes, mas sempre amava rever e reler, aquecendo as imagens que tinha da história na cabeça. A garota releu brevemente um trecho movendo os lábios, murmurando. Wendy sabia que era um sinal que ela estava imersa em sua leitura.
A terceira a se sentar na mesa foi Rachel, cutucando com cara de desgosto um prato com purê de batatas e fígado acebolado. Wendy só havia comido o fígado e deixado as cebolas jogadas de lado no prato. Rachel sacudiu o ombro de Cynthia, a mesma sento retirada de seus pensamento, e tendo uma cebola enfiada na boca sem aviso.
— Caramba, Rachel! — Cynthia engasgou com o legume. — Não faz isso sem avisar.
— Aí é que está a graça!
Wendy balançou a cabeça levemente, dando mais colheradas até finalizar o pudim que tanto adorava. Ela levantou-se com a bandeja.
— Aonde vai, Wendy? — Rachel perguntou.
— Jogar os restos no lixo e devolver o prato e a bandeja.
— Nesse caso, pode me pegar ketchup? Eu não consigo comer isso daqui sem ter algo para disfarças esse gosto.
A morena disse apontando para a salada de espinafres, Wendy, ainda que um pouco confusa com aquela combinação alimentar, apenas assentiu com a cabeça e caminhou até um conjunto de dois lixos que ficava no meio do refeitório, ela era a terceira na fila de espera para despejar os restos, ficando atrás de um garoto de óculos um pouco menos que ela, que com uma mão segurava sua bandeja e não outra jogava um RPG no celular.
A chuva do lado de fora começava a dar uma trégua, a chuva pouco a pouco se reduzindo a uma garoa, em poucas horas ró restariam algumas nuvens cinzentas e a chuva indo para outro lugar. Isso era um alívio para os alunos que pertenciam a times esportivos, não teriam que cancelar suas atividades ou usar a quadra fechada.
— Parece que te encontrei novamente. — Uma mão tocou seu ombro.
Wendy virou-se, quase derrubando o prato na bandeja. O susto passou quando notou a garota alta a sua frente, a mesma que conheceu na festa. O cabelo escuro preso em uma rabo de cavalo e brincos de miçangas.
— Foi mal. — Ela retirou a mão do ombro de Wendy, constrangida. — Não queria te assustar.
— Não, tudo bem. — Wendy deixou escapar um riso fraco. — Eu que me assusto fácil demais.
A mais alta riu, parecendo um pouco mais aliviada. Wendy reparou que não apenas os brincos de penas e miçangas, mas Melanie usava uma regata de camurça, junto à uma calça jeans e mocassins nos pés. Wendy lembrou que na festa ela não parecia usar nada daquilo, mas sentiu uma pontinha de ciúmes, não importasse o que Melanie usava, parecia sempre ficar bom nela.
— É minha mãe. — Melanie disse, chamando atenção de Wendy. — Minha mãe nasceu em uma reserva indígena, gosta que eu use roupas assim uma vez ou outra. Sou uma descendente, o que posso fazer.
— Seu pai também?
— Não. Meu pai era um empresário de Los Angeles quando conheceu minha mãe. Desde então, eu morava lá.
— Não sente falta da...cidade grande?
Finalmente era a vez de Wendy, ela ficou em frente ao lixo, apoiando a bandeja na bancada e pegando o prato, jogando os restos da salada de espinafre e cebolas, junto a um potinho plástico vazio.
— Não muito. — A mais alta respondeu. — Aqui é mais tranquilo, não tem tanta poluição e gente nervosa aos celulares, caminhando na rua.
Wendy cedeu o lugar à Melanie, que apenas jogou um pouco de purê e o mesmo potinho plástico vazio. As duas caminharam juntas para a um pequeno quadrado aberto na parede com vista para cozinha, entregando suas bandejas à uma cozinheira de bochechas gordinhas e sorridente. Wendy estava prestando atenção sobre Melanie contanto sobre sua cidade natal, um pouco entusiasmada. A Califórnia sem dúvidas era bem diferente de como Wendy tinha em mente, aquilo a deixou com uma certa curiosidade sobre o local. Pesquisaria na internet depois.
— Ah, o ketchup! — Wendy virou-se bruscamente, lembrando do pedido de Rachel.
— Wendy, cuidado!
Era tarde quando Melanie avisou, Wendy bateu contra as costas de alguém. A ponta de seu nariz se encontrou contra um dos ossos do ombro e sentiu uma dor aguda, afastou-se pressionando o lugar da batida e um estrondo de talheres caindo. Com sorte, Wendy apoiou-se na barra de ferro da cantina, que limitava as pessoas na fila para pegarem a comida servida pelas cantineiras. Alguns alunos ali a olharam, com certo espanto, até retornarem sua atenção ao cardápio de hoje. A pessoa que trombou virou-se em sua direção. À sua frente estava aquele mesmo rapaz, o mesmo que Wendy não achou que encontraria tão cedo, a encarando. Os cabelos negros lisos, os fios bagunçados uns nos outros e uma blusa preta do David Bowie que parecia um pouco apertada no dorso, grudada ao abdômen por uma fina camada de suor. O antebraço envolvia a bandeja por baixo, pressionando contra o abdômen de forma para que o prato não caísse com a comida ali. Wendy sentiu alívio ao ver que estava intacto. Levantou a cabeça, cruzando o olhar com aquele castanho claro como madeira, a encarando.
Melanie abaixou-se e pegou uma lata de refrigerante que havia caído no chão, o garoto assentiu brevemente e pegou a lata, repondo em sua bandeja.
— Obrigado.
Sem dizer mais nada, caminhou em direção a uma mesa que Wendy não conseguia ver aonde ficava, muitos alunos passando por ali ocultaram a figura daquelas costas se afastando, até que ela os perdeu de vista por completo. Deixou escapar um suspirou que passou despercebido até por ela.
— Ele é tão lindo. — Melanie susurrou, fazendo Wendy olhar para ela surpresa.
— Ah qual é! — A mais alta respondeu. — Ele é um gato. Só notar como as outras garotas olham para ele.
— Acho que não faz meu tipo. — Wendy murmurou.
— Então qual faz seu tipo?
Wendy deu de ombros.
— Já não sei há muito tempo.
♥
A aula de Educação Fisíca da professora Sullivan estava acontecendo no ginásio, com uma enorme quadra interna com bancadas, vestiários e um teto que protegia os alunos da garoa que ainda caía, agora junto há um vento gelado. Wendy amarrava o cadarço de um tênis desgastado, abaixada ao lado de uma bancada com garotas sentadas e conversando algo que se resumia a um filme de romance que passou em um canal na noite passada e sobre irem ao shopping após a aula. Wendy abaixou o olhar.
Já não sabia há quanto tempo não tinha esse tipo de conversa com outras pessoas que não fossem Cynthia e Rachel. Não que as amigas fossem ruins, pelo contrário, Wendy as adorava. Mas perguntou-se e tentou se lembrar quando foi a última vez que foi tão social como elas. Quando não era tão destacável e era algo "comum" para os outros, ao invés de ser alvo de risinhas e comentários infelizes. Ao menos agora, as garotas preferiam falar sobre vestidos e esmaltes do que prestar atenção nela. Isso era ótimo.
O apito soou nos lábios secos e finos da rechonchuda Sullivan, com um moletom cinzento e um rabo de cavalo pequeno amarrado no alto da cabeça, mesmo com seu cabelo já sendo curto. Os fios castanhos era puxados do couro cabeludo, enquanto uma expressão de desgosto estava estampada naquele rosto quadrado.
— Muito bem, crianças. — A mulher disse, a voz alta em um tom de ironia. — As férias de verão acabaram, e agora vocês vão voltar à ralação e eliminar as gorduras que ganharam comendo pipoca nas sextas à noite, na frente da televisão. Façam filas!
Wendy levantou-se, apertando sua barriga por baixo do moletom branco que um dia pertenceu ao irmão, agora pequeno demais e passado para ela. Wendy era uma garota um pouco magrela, sentia que nas férias de verão havia engordado um pouco, pelo menos dois ou três quilos, mas não parecia ter alguma diferença para ela, parecia a magrela de sempre. Aquilo à deixou um pouco magoada, gostaria de ter um pouco mais de carne. As vezes ela sentia um pouco de inveja das ancas e coxas cheias de Rachel, gostaria de ter um pouquinho daquilo, embora Rachel sempre se queixa-se de querer a barriga lisa de Wendy. Cynthia estava bem como estava, ela não ligava muito para engordar ou emagrecer contando que suas roupas ainda estivessem boas nela.
Por falar nela, a loira estava à alguns metros de distância de Wendy, já formada na fila. Ela olhou para Wendy e acenou, esboçando um sorriso nos lábios enquanto apontava para sua frente. Wendy sorriu e caminhou até ela, ficando posicionada à sua frente na fila enquanto a loira pegava um elástico no bolso.
— Quer que eu amarre seu cabelo?
Wendy assentiu com a cabeça, sentindo seu cabelo ser puxado e amarrado em um rabo de cavalo.
Os resto dos alunos formaram duas filas, à direita uma fila somente de meninas e à esquerda uma fila de meninos. À frente estava um bastão erguido à uma altura de mais ou menos dois metros, com um alto colchão posicionado em sua frente.
— A aula de hoje será salto altura. — Sullivan rosnou. — Lembrem-se de tomar o impulso com apenas um pé e erguerem as costas. Quem tiver três tentativas falhas vai para o banco.
A mulher sorriu e lambeu os lábios, pronta para soar o apito quando uma figura atrapalhou seu amado ritual. Noah, com os cabelos laranjas molhados pela chuva, entrou no ginásio de uma maneira cansada, como uma criança que é arrastada pela mãe para entendiantes lojas de sapatos enquanto preferiria ir para a loja de brinquedos. O moletom amarrado na cintura e uma calça jeans que não pertencia ao uniforme, parecia que ele teve preguiça até para o vestir. O garoto olhou para todos que estava ali e bufou com o nariz, enfiando as mãos nos bolsos da calça e caminhando até uma das filas.
Cynthia apoiou as mãos nos ombros de Wenyd, olhando sobre eles.
— Quanta má vontade hein. — A loira murmurou baixinho para a amiga.
— Acho que está sendo obrigado a vir aqui. — Wendy respondeu no mesmo volume.
Cynthia franziu o cenho sem entender. Mas Wendy sabia bem o que era. Ela pensou no grupo de garotos do dia na biblioteca, há três dias atrás. Será que eles teriam obrigado o garoto à vir naquela aula também? A expressão do ruivo não estava muito diferente de quanto teve que ser levado até a sala do Thompson. Ele parecia ter uma inimizade com professores resmungões que quase todo aluno teria, a diferença é que o ruivo parecia não estar nem aí se disfarçava ou não. Ele se posicionou atrás de Shawn Ramone, o último na fila, um garoto mais novo que ele e que havia pulado uma série, o garoto com sardas se encolheu com a presença daquela pessoa. Noah apenas cruzou os braços e olhou entediadamente para seus tênis, retorcendo a boca. Sullivan estalou a língua.
— Como eu estava dizendo, antes da princesa chegar... — Ela pausou, olhando para o ruivo. — Teremos pulo à distância. Cuidado com a cabeça e sem empurra-empurra na fila. Um menino vai primeiro, depois uma menina, então um menino e assim segue a ordem.
A mulher apertou o apito. O primeiro garoto da fila, um rapaz alto bronzeado e de cabelo castanho, que Wendy não conhecia, se posicionou e começou a correr. Ele tomou impulso com um dos pés e jogou-se de costas para baixo contra o bastão elevado, o moletom passou raspando e ele aterrissou de lado no colchão. Levantou-se e voltou ao final da fila, ficando atrás de Noah que agora encarava o bastão de forma entendiante. Wendy notou que ele parecia exausto e com olheiras, além de bocejar de minutos em minutos. As filas continuaram. Wendy fez o possível par dar um bom salto, tendo o tornozelo batendo contra o bastão e aterrissando de forma desajeitada no colchão.
— Melhore essa postura, Sumner! — Sullivan rugiu como um leão quando Wendy passou por ela, voltando ao fim da fila.
No final da fila, Wendy podia observar melhor o garoto ruivo, na frente na outra fila. Ele ainda estava com as mãos enfiadas nos bolsos da calça e olhava para os lados de maneira cansada. Pessoas vêm e vão, chegara a vez do ruivo saltar o bastão. Para a surpresa de todos, inclusive Wendy, o garoto deu alguns passos em direção ao bastão, sem correr, apenas uma caminhada lenta, como alguém que dá um passeio pelo parque. A poucos centímetros, ele jogou-se de peito contra o bastão e ficou por segundos, antes de tomar impulso com o tornozelo e voltar andando até o fim da fila.
Um apito furioso foi soado ao lado da fila feminina, fazendo os jovens estudantes pressionarem a ponta dos dedos contra seus ouvidos, tentando salvar a audição. Em poucos segundos, era Sullivan rosnando como uma fera enjaulada.
— Para o banco, Buckley!
O ruivo deu de ombros, exibindo um sorriso orgulhoso de canto e caminhando até um degrau da bancada. Ele sentou-se com as mãos no bolso e franzindo a testa com uma cara de poucos amigos. Wendy fitou-o com o olhar, curiosamente. Ele, de alguma forma, era diferente da atitude do de cabelos escuros. Enquanto o ruivo era impulsivo e cabeça quente, o moreno era misterioso, calmo e amistoso. Eles eram bem diferentes, mas ao mesmo tempo, eram iguais. Wendy não compreendia.
O ruivo desviou o olhar para ela, franzindo ainda mais a testa e grunhindo. Wendy deu um sobressalto e voltou à encarar sua frente, onde Hannah Sambrose ajeitava freneticamente seu rabo de cavalo loiro, fazendo-o quase chicotear no nariz de Wendy. A aula de educação física encerrava minutos antes comparado às outras aulas, mas para Wendy aquilo parecia uma eternidade. Quando o sinal tocou e os joelhos vermelhos de Wendy não paravam de tremer, foi como escutar a trombeta do paraíso. Todos soltaram suspiros aliviados e começaram a pegar suas bolsas e caminhar para os chuveiros. Wendy se movimentou até sua bolsa de ginástica, algo que ela guardava desde que tinha feito as aulas quando estava no fundamental, ela ficou pelo menos por cinco meses, até finalmente convencer à sua mãe de que não queria aquilo. Era apenas uma bolsa de forma redondo e comprida, mas que Wendy guardava com carinho — e também podia colocar chaveiros e bottons que gostasse. Procurou por algo que deveria ser sua garrafa de água, mas para seu desgosto estava vazia. Ela suspirou, caminhando até um dos bebedouros ao lado da arquibancada.
Noah estava lá, para sua surpresa, formando uma conchinha com as mãos enquanto a água gelada se acumulava sobre as palmas. Wendy pensou que ele beberia, até o garoto erguer as mãos na altura da cabeça e passar toda a água pelo cabelo laranja, penteando-o para trás e deslizando as mãos pelo pescoço, a água escorrendo pela gola da blusa e molhando-a. Wendy contorceu os lábios, sem saber direito o que pensar e sentir. Para que existiam pias ou banheiros? Um bebedouro não era exatamente o local mais apropriado ou higiênico para aquilo, mas ele parecia ter se esquecido totalmente daquilo — ou simplesmente não dava a mínima.
O ruivo a encarou por cima do ombro, estreitando os olhos para os lados e os apertando.
— Tá olhando o quê? — Perguntou rispidamente, os dentes cerrando um no outro.
Wendy engoliu em seco, olhando para o bebedouro e então para ele de novo. O ruivo seguiu seu olhar e pareceu dar um certo sobressalto de surpresa, afastando-se e apoiando o tronco contra a arquibancada, limpando o queixo suado com a gola da regata.
Wendy não disse nada, apenas começou a encher sua garrafa d'água sem encarar muito o ruivo, ela parecia interessada demais em um cartaz sobre a exibição de um jogo de basquete de na escola de quase meio ano atrás que ainda estava colado ali, no esquecimento. Ela não precisava olhar para saber que o ruivo ainda estava ali, queimando os ombros dela com seu olhar. Parecia querer dizer algo, mesmo que ao mesmo tempo também não queria.
As gotas de água pareciam descer lentamente pelo plástico, congelando aquele momento constrangedor que Wendy sentia vontade de fugir. Por fim, a água encher o suficiente e Wendy rodeou a tampinha. Enfim, podia sair dali.
— Escuta...
O ruivo chamou sua atenção, desviando o olhar para os lados e não a encarando fixamente. Do jeito que Wendy via, parecia que ele não era apenas um garoto com aura de valentão, mas apenas um garoto tímido que usava palavras grosseiras demais e abusava da confiança, ela já havia conhecido gente pior. Ela não o odiava, pelo contrário, estava com um certo interesse em uma possível amizade com ele.
— Não me leve a mal pelo outro dia com o gorduch--- Digo, o Thompson. — O ruivo engasgou. — Só não me dou bem com ele e ele não se dá bem comigo, é só a merda de sempre. Não tem nada envolvendo você.
Wendy não chegou a esboçar um sorriso, mas aliviou-se, deixando que as bochechas se esticassem levemente.
— Tudo bem. — Ela respondeu. — Também acho que a forma como ele usou suas palavras foi...rude. Não vou ser sua vigilante ou carcereira, mas apenas uma colega de laboratório.
Ela moeu as palavras em sua mente, não sabendo direito como colocar em uma frase inteira ou muito menos falar em bom e alto tom. O ruivo levantou o olhar, a encarando melhor. Os olhos cinzentos escuros, quase totalmente negros, a encaravam como um gato ou cachorro abandonado encara pessoas nas ruas.
— É só que não pretendo te colocar "nas rédeas". Ele usou o termo errado. Não vou ser assim com você.
O garoto esboçou uma careta e deixou um riso engasgar na garganta, parecia algo zombeteiro, mas não era. Ela então aliviou e soltou um riso fraco, suspirando.
— Caramba! Você usa palavras difíceis demais.
— Isso é, quando eu não falo nada. — Wendy suspirou para si mesma, por sorte, o ruivo não escutou.
Ele não disse mais nada, apenas pegando sua mochila que estava jogada na arquibancada e saindo pela mesma porta que entrou. Wendy pensou que ele não tomaria banho ou algo assim, até ver o garoto caminhando pelas gotas da chuva e se molhando. Ela o seguiu com o olhar até o ruivo chegar a alguns bancos cobertos por um toldo azul, ao lado da quadra descoberta. Um pouco culpada de si mesma por saber que estava sendo uma bisbilhoteira, Wendy apoiou as mãos contra o vidro da janela e apertou o olhar, as gotas d'chuva embaçavam sua vista, mas ela conseguia enxergar um pouco.
Ela enxergou, a metros de distância dali o garoto ruivo retirar a regata e jogar no rosto de alguém, uma feição estressada agora em seu rosto. A pessoa mexeu os lábios um tanto nervoso, mais ainda rindo. Wendy apertou os olhos, reconhecendo o garoto de cabelos negros, o mesmo que ela conversara na bancada e o mesmo que ela quase havia deixado o almoço ir para o chão. O mesmo que beijara... Anthony?
Wendy piscou incrédula quando viu as costas de seu irmão, virando-se e rindo em conjunto com o garoto de olhos castanhos que parecia muito interessado em contorcer a camisa e retirar o acúmulo de água, enquanto o ruivo desamarrava seu moletom da cintura e o vestia. O trio parecia mais como um velho grupo de amigos reunindo-se em um pub[1] numa sexta à noite, despreocupados com ao redor deles. Anthony afirmara que ele e aquele garoto eram amigos, é claro, mas Wendy de certa forma sentia-se desconfortável, mesmo que tudo estivesse já explicado, mas nunca pensou que fosse naquele nível de intimidade. De certa forma, sentiu um ciúmes fraternal que nunca pensou que sentiria antes. Wendy não confiava naquele garoto, ela ainda conseguia pensar nas últimas palavras que ele a disse no primeiro dia de aula.
Você é mais interessante do que eu pensava, Wendy J. Sumner.
O que ele queria dizer com aquilo? A maneira como seu nome rolou pela língua dele a fez sentir-se estranha, era como se ele a conhecesse mais do que ela o conhecia. Tudo bem saber quem era seu irmão, mas como ele saberia o nome dela de uma maneira tão completa e direta? Lembrar daquilo provocou um reboliço de emoções dentro de si, fazendo-a sair dali imediatamente e caminhar nervosa para o chuveiro. Naquela hora, queria apenas um banho quente e demorado.
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