Forever

2 Capítulo 2 - Cebolas, Bifes e Batatas


Notas iniciais
Após alguma tempo sem postar, outro capítulo dessa minha história para vocês ♥

Durante as férias de verão, Wendy sempre tinha o costume de ir ao clube que ficava no centro da cidade, ela geralmente levava um livro curto de cerca de cem páginas, comprava um picolé de frutas e sentava-se em uma cadeira com uma longa distância para a piscina. Após terminar o livro ela mergulhava. Era como um ritual para a garota.

Mas esse ano o clube havia fechado para uma reforma na parte da frente, os donos ficaram com medo de um possível acidente e resolverem fechar, um azar. No verão o parque sempre ficava mais cheio que o comum, até mesmo atraindo turistas.

Com o local fechado, Wendy aproveitava seu longo tempo livre para a arrumar o quarto, um pedido que a mãe fazia desde o início do ano. Ela estava sentada no chão, de frente para o pequeno, quase minúsculo closet, organizando uma caixa de papelão com cartas e cartões postais guardados. Todas enviadas por parentes e conhecidos da família durante os anos: aniversários, natais, dia de ação de graças e até páscoa.

Wendy não notou quando uma pequena figura parou e se apoiou no vão da porta do quarto, observando. Era Emmy, com suas maria-chiquinhas presas por fitas vermelhas e sardas discretas e claras espalhadas pelo rosto. Ela saboreava um picolé de cereja, sujando as mãos e até o macacão que usava.

— A mamãe vai no mercado, perguntou se você quer alguma coisa. – A pequena disse, despreocupada.

Wendy apenas assoprou uma mecha sobre o rosto, virando-se para a pequena irmã que ainda a encarava.

— Nuggets e ervilhas congeladas.

A pequena deu de ombros, cantarolando e saltitando escada abaixo. Emmy tinha apenas 10 anos de idade, mas era inteligente e astuta demais para sua idade. Durante o verão, Emmy se entretinha na frente da televisão assistindo desenhos animados, ou então brincava de Barbie sozinha em seu quarto.

Demorou mais alguns minutos para Wendy organizar tudo em seu pequeno closet, organizando os sapatos, casacos e caixas. O resto do quarto estava bem arrumado, já que Wendy raramente mexia em algo ou trocava de lugar. Observou o pequeno relógio no criado-mudo, marcava quase quatro da tarde. Anthony havia saído uma hora mais cedo para praticar críquete com alguns amigos e fazer uns bicos na loja de CD’s que ainda trabalhava, ele havia prometido que traria algo para Wendy, caso algum novo CD legal chegasse.

Ela desceu as escadas sem vontade, indo à cozinha e enchendo o copo com um suco de laranja. Podia-se escutar a trilha sonora animada vindo da sala, era o desenho favorito de Emmy que passava. A casa estava mais quieta agora, como sempre ficava quando a mãe estava ausente. O pai estava no mesmo andar, em seu escritório em uma salinha embaixo da escada, provavelmente escrevendo outro catálogo de plantas. Em geral, todos os dias das férias de verão pareciam ser os mesmos, como se todo o dia fosse uma fita rebobinada e assim repetida, quase um déjà vu.

Wendy sentou-se nos pés da escada da varanda branca, na entrada da casa. A vizinhança era quieta e sem muito movimento naquela hora do dia. As crianças passavam de mãos dadas com suas mães, rindo alto e implorando para irem no parque de diversões a noite, saltitando com os pequenos sapatos esmagando as folhas verdes largadas pelo asfalto.

O céu começava a clarear o azul, as nuvens entristeciam e o laranja aparecia aos poucos no horizonte. Aquela visão era digna de um artista parar tudo que estivesse fazendo para pintar aquela bela paisagem.

Wendy esticou os pés na escada de três degraus até seus calcanhares tocarem o chão. Inclinou o pescoço para trás, apoiando os cotovelos no piso da varanda, respirando fundo. Em breve as aulas voltariam e ela teria que saber como enfrentar todos aqueles rostos pelo resto do ano, como fez no ano passado.

Com aqueles pensamentos, ela demorou para notar uma música que tocava. Um carro. Wendy esticou seu corpo para frente em direção à rua, notando um carro Chevrolet 1957 vermelho subindo a rua lentamente. Ao fundo tocava Don’t Stop Believin do Journey. A roda traseira direita parecia com um pouco mais de dificuldade de andar, mas nada tirava o charme daquele carro, subindo uma rua banhada pelo pôr do sol e tocando uma música animada que logo incomodaria os vizinhos.

Wendy se surpreendeu quando o carro parou em frente à casa, de início ela pensou que poderia ser a visita de algum conhecido da família, quando Anthony saiu do banco de passageiro do carro, carregando sua mochila no ombro direito. Ele estava sorrindo e animado, conversando com o motorista, apoiando seu braço no teto no carro, a conversa era sobre algo que Wendy não conseguia escutar bem.

Ela desceu os degraus da escada e caminhou lentamente até meio caminho do jardim, era difícil ver quem era a pessoa no volante, mas aquela pessoa tinha mãos grandes, com algumas veias discretas marcando na pele. Os dedos batucavam o volante animadamente, enquanto a conversa com Anthony parecia ficar mais animada.

— É como eu digo, o cover do carinha da outra cidade nunca vai ser melhor que o do Alex. – Anthony disse animado.

— Nem fodendo!

A segunda voz, que conversava com Anthony, era mais grave e despreocupada, mas também animada. Eles pareciam uma dupla de velhos amigos, conversando sem preocupações e como se o mundo ao redor não existisse para eles, enquanto conversavam sobre bandas, enquanto um rock pesado começou a tocar no rádio.

— A-Anthony! – Wendy não segurou sua boca, algo em si precisou parar aquela conversa.

O garoto virou para trás, quase assustado, batendo sua mão contra o teto do carro.

— Foi mal cara. – Ele abaixou a cabeça na janela.

Wendy observou a mão abanar em negação e um “sem problemas” ser assoprado com cansaço. Ela não conseguia ver quem era, o torso largo e coberto por um moletom esportivo de Anthony tapava a visão, mesmo que ela inclinasse a cabeça.

Anthony abanou a mão para trás com rapidez, logo em seguida e sem pressa. O acelerador foi pisado com força e o carro desceu em velocidade pela rua, marcando o asfalto com o pneu. No final, a identidade daquela figura permaneceu em mistério, Wendy só teve míseros segundos para notar cabelos pretos serem batidos pelo vento, um flash rápido que ela por sorte gravou na memória. Se perguntou quem era aquela pessoa que ela agora só conhecia mínimas características, poderia ser qualquer amigo de Anthony que ela não conhecia, mas ele não era de esconder amigos, ele normalmente teria apresentado eles. O pensamento estourou quando Anthony esfregou seu cabelo com força e carinho, logo entrando na casa e sendo seguido por ela.

Um enorme bife assado, com purê de batata ao lado e cebola roxa picada em rodelas. Era esse o jantar que Christine havia preparado para aquela noite, com seu típico vestido rosa e um avental branco bordado de flores. Ela servia uma tigela com seleta de legumes, uma quantia de duas colheres para cada prato. Quando todos seguraram o olhar sobre a típica cadeira da ponta, esperando que a mãe se sentasse, ela levantou no meio do caminho e voltou para a cozinha, trazendo uma molheira consigo.

— Hoje o mercado estava com promoções ótimas! – A mãe disse com entusiasmo, abafando qualquer som na sala de jantar.

A mesa estava cheia de diferentes opções, quase não sobrando espaço para os pratos e copos. Ao fundo, tocava uma música fonk, na velha vitrola que o pai de Wendy havia ganho do avô dela, há muitos anos atrás. Mas a música mal podia ser apreciada, pelo alto e claro som da voz de Christine animada.

— Querida, me passe o molho, por favor. – O pai da família murmurou com meio sorriso.

Jorge, o marido de Christine, era um homem cinco anos mais velho que ela. Era alto e (quase) magro, exceto por uma leve banha que saltava na barriga. Ele normalmente em casa usava roupas folgadas e um par de pantufas, com o cabelo castanho penteado para trás, com fios grisalhos aparecendo. Em equilíbrio com a personalidade da mulher, ele era calmo e passivo. Muito compreensivo.

Christine deu uma volta na mesa e despejou o molho no purê de batatas, acariciando os cabelos do marido e depositando um beijo no topo de sua cabeça.

— Lembram da Taylor da casa lilás duas ruas acima da nossa? A que ficou grávida há algum tempo. Ela nos convidou para o chá de bebê dela. Ela é um doce!

Quando Christine abria a boca, não havia quem parasse.

— Ah! E o Theodoro, aquele que o tio de vocês praticava golfe, ele está namorando uma mulher vinte anos mais nova que ele. Eu não tenho absolutamente nada contra, mas ele conhece ela faz tão pouco tempo. Ele deveria repensar sobre a pessoa que talvez possa passar o resto da vida com ele e...

Christine falava animada e sem parar, mas isso era algo que a família estava acostumada. Wendy afastou as cebolas roxas do bife, empurrando para a beirada do prato. Bebeu um gole da limonada e comeu um pedaço do bife. Emmy parecia entretida demais em desenhar algo no purê de batatas, enquanto Anthony, sentado ao seu lado, misturava as cebolas no molho e mastigava lentamente. Ver o irmão fez Wendy se recordar do que acontecerá mais cedo. Quem era aquela figura mais cedo?

— Você recebeu carona hoje? – Wendy perguntou baixinho para que só o irmão escutasse. A voz alta da mãe abafando a atenção do pai ou de Emmy.

— Ah. – Anthony pareceu ser puxado dos pensamentos, encarando Wendy. – Ah é, era um amigo do time da escola.

— O Sam ou o Thomas?

— O... Thomas.

Anthony estava mentindo. O último carro que Thomas teve foi uma caminhonete vermelha há três meses atrás, o pai dele havia tomado o carro e posto o garoto de castigo quando o mesmo bateu em uma árvore. Wendy decidiu ignorar e fingir que acreditava, não era bom criar atrito com seu irmão. Se ele mentia, era para ocultar uma verdade que não queria contar a ela. Decidiu esperar uma atitude espontânea dele em contar.

Já era dez da noite quando Wendy jogou-se na cama e fez o possível para adormecer, a única iluminação sendo a luz clara dos postes da rua, que passava pelas janelas. Wendy suspirou e depositou sua cabeça em um travesseiro macio, pegando um segundo travesseiro e o abraçando como se fosse um bichinho de pelúcia. Antes de dormir, a música Don’t Stop Believin tocou em sua cabeça, com os únicos refrãos que ela lembrava se apagando. Era uma noite úmida de verão quando Wendy adormeceu calmamente, com uma música antiga em sua cabeça.