Forever

1 Capítulo Único


— Bom dia — ela disse com seu mesmo sorriso apagado das manhãs, ao entrar pela porta. Ela se esforçava, mas a culpa não era dela. Quem seria capaz de sorrir ao ver um ser vivo no estado em que estou?

— Bom dia minha linda — estendi minha mão para que ela pudesse vir para mais perto de mim e do meu leito branco.

— Dormiu bem? — seus olhos eram preocupados e ternos. Era esse olhar que me aquecia e me fazia ter vontade de acordar, para vê-la.

— Acho que estou me acostumando a não me mecher enquanto durmo. Esses fios parecem correntes. As vezes tenho muita vontade de tirar um por um de mim.

— Vai começar logo cedo? Essas correntes fazem você continuar aqui!

— Vai chegar o dia que elas não vão prestar para nada — eu sabia que machucava a ela ouvir isso, principalmente vindo de mim, mas Isabel ia ter que se conformar que um dia eu olharia para ela e seria a última vez que olharia em geral.

— Para! Pedro, para! Esse seu pessimismo não vai te levar a lugar nenhum — dava para ver que ela segurava o choro com dificuldade.

— É a realidade Bel. Você não pode se iludir.

— Não é realidade, Pedro. A realidade é que você não está cem por cento bem, mas nós vamos conseguir arrumar isso. Eu te prometo.

— Eu achava que você só prometia o que podia cumprir.

— Eu vou cumprir, não duvide.

Nós ficamos em silêncio. Seus dedos passavam na minha cabeça de vagar. Isso me acalmava. Era como se ela estivesse passando sua vitalidade para mim. Era quase verdade: Isabel gastava sua juventude aqui, num hospital fazendo juras de amor para um doente, um debilitado, um jurado de morte antes mesmo dos dezoito anos.

Ela podia estar em São Paulo agora. Estudando, indo à festas, se divertindo, programando seu futuro, namorando, mas não. Ela prefere ficar aqui, no Espírito Santo, alimentando esperanças e sonhos que vão morrer junto comigo, machucando ela mais e mais. Eu não queria ver ela chorar por mim, não é justo.

Eu nunca fui tão bom assim para ela, mesmo quando eu estava perdidamente apaixonado por essa franja loira, esse rosto desenhado e esse corpo gostoso. Quando ela era minha, eu não dava muito valor. Foi bom, todos os momentos com ela foram bons. Ela mesma dizia que foi feliz quando eu a beijava, quando eu a abraçava e quando a gente era um só, mas agora eu não posso dar nem ao menos um sorriso de gratidão.

Eu queria poder sair daqui. Não para eu poder viver mais um pouco, mas para não decepcioná-la, para ela sentir que seu esforço valeu a pena, que eu não fui um desperdício de tempo. Mas quem queremos enganar? Eu não vou sair vivo desse hospital e se sair é para morrer em casa. Não queria vê-la chorar por mim; não queria vê-la chorar por nada.

— Sonhei com você hoje — disse à ela de olhos fechados, sentindo sua mão nos meus cabelos.

— Sério? E foi bom?

— Eu disse que sonhei com você. Lógico que foi bom!

E como eu esperava, Isabel escondeu uma risada e ficou vermelha. Ela era linda demais para passar as férias comigo, num quarto de hospital.

— Nunca vai deixar de me xavecar? Diz logo o que sonhou — ela sentou na ponta da cama ao meu lado, sem parar os movimentos com os dedos.

— Foi um sonho bom no começo. Eu tinha criado vergonha na cara e tinha te pedido em casamento e você aceitou — era tão claro em minha mente que parecia realidade

— Isso é óbvio

— De qualquer jeito, nós íamos ser marido e mulher, só que eu estraguei tudo

— Como você fez isso?

— Eu beijei outra, no dia do casamento. E você viu — eu disse com a culpa que eu sentiria se não fosse um sonho.

Isabel não disse nada. Ela só me olhava daquele jeito materno dela.

— Desculpa, eu não deveria ter te contado.

— Não, claro que não! Foi muito bom você ter me contado. Estou tentando interpreta-lo.

— Chegou a alguma conclusão? — Bel tinha um fascínio estranho por psicologia que ajudava bastante a quem pedia conselhos e junto com sua habilidade com palavras, parecia que ela era vidente.

— Eu acho que você sonhou isso porque sente alguma coisa muito forte por mim, não necessariamente amor, mas é alguma coisa boa e grande. E por isso você sonhou com o casamento, que é a oficialização do comprometimento de duas pessoas. Já em relação ao beijo, talvez seja porque você tem medo de me decepcionar, de me magoar e por ser tão precoce, provavelmente é porque você não acredita em si mesmo, Não acredita que você pode... Me fazer feliz.

Eu disse. Ela traduziu perfeitamente.

— É exatamente isso o que eu penso

— Então o senhor está enganado. Quando você sair daqui...

— Se eu sair

— QUANDO você sair daqui, se me quiser só para você, a única resposta que eu vou ter para você é "sim".

— Você não pode ficar presa a mim desse jeito. Eu sou terminal Bel, eu não vou escapar disso.

— Eu estou presa a você desde a primeira vez que senti sua boca na minha. E todos nós somos terminais; "A gente mal nasce, começa a morrer" — ela cantou a última frase baixinho.

— Eu não mereço você.

— Então ninguém merece.

Ela foi e se sentou na poltrona marrom de couro na frente da minha cama. Abriu sua bolsa e tirou um livro grosso e relativamente pequeno de lá.

— O que está lendo? — atrapalhei

— O Morro dos Ventos Uivantes — literatura britânica, já deveria imaginar

— Está em qual parte? — nunca li esse livro, mas eu não queria ficar em silêncio. Não se ela está aqui comigo.

— Na parte em que você realmente começa aacreditar que o Heathcliff ama a Cathy: Ele está abraçado ao corpo dela, chorando.

— Você também vai fazer isso quando for minha vez?

— Se a minha ainda não tiver chegado.

— Você não tem chances de morrer daqui a cinco minutos

— Como você sabe? E se uma das minhas arterias principais entupir nos próximos três minutos? E se eu for até sua casa, para tomar banho amanhã e bater o carro? Ou ser atropelada quando for comer no restaurante do outro lado da rua? Pedro, você tem que parar de ser pessimista! Você tem que começar a enxergar as possibilidades de sair daqui que você tem! Quanto mais você pensar nessa... Morte, mais rápido ela pode chegar! Amor, você não é fraco. Vai abandonar sua vida assim? Vai desistir sem ao menos tentar? Não foi esse Pedro que eu conheci — a esse ponto, ela já tinha se levantado da poltrona e estava bem ao meu lado.

— O Pedro que você conheceu era saudável. Bel, acabou. Eu não vou ficar sonhando com algo que não vai acontecer para eu não ficar frustrado igual à você, quando eu for, porque eu sei que vou. É só esperar.

— Pára de falar que você vai morrer! Pára! Pedro, não tem como você me deixar aqui! Não tem! Todos estamos transformando céu em inferno para tirar você daqui e você acha que não passa de hoje? Pedro, eu vou tirar você daqui, nem que...

Eu não a ouvia mais e eu senti minha respiração falha. Tudo ficou turvo e então eu me entreguei.

Eu achei que dessa vez tinha sido a última vez. Eu abri os olhos e vi tudo muito branco depois de me lembrar só de como era o preto. Eu ouvia também. Não era a voz lírica de um anjo, mas era uma voz linda, que me deixava relaxado, me deixava seguro.

— Não Thiago, os médicos disseram que ele vai ficar bem, só cansado. Nós meio que tivemos um discução... Porque ele está muito pessimista. Ele mesmo disse que pode morrer nos próximos cinco minutos... Thiago, eu não posso deixá-lo aqui, eu não quero. E você está ciente da minha condição de aceitar ir morar no Rio com você — Rio? Rio de Janeiro? Morar com um "Thiago"? O que é isso?

A silhueta das costas de Isabel foi se formando aos poucos e logo eu estava vendo ela falar ao celular, passando a mão nos cabelos.

— Thiago, por favor, não fala assim. Só vou para o Rio quando voltarem as aulas aí... Ta bom, obrigada por entender. Eu também te amo — amar? — Beijo.

Ela fechou o celular e ficou olhando para a janela a sua frente. Percebi que estávamos no meu quarto branco e a frequência do soro ligado ao meu braço era quase de uma cachoeira. As gotas desciam tão rápido que nem precisavam desse regulador. Bel virou-se e se assustou aparentemente.

— Há quanto tempo está acordado?

— Desde agora. O que aconteceu comigo? — eu mal conseguia falar

— Você teve uma parada respiratória e faltou oxigênio no seu cérebro, mas não teve danos. Você voltou a respirar logo e não entrou em coma, apenas dormiu, por causa dos remédios.

— Então ainda não foi dessa vez?

— Você é incrível, sabia? — ela disse com desprezo.

— Você dizia a mesma coisa depois que a gente transava — estava provocando e não sabia o porquê

— Não foi um elogio — devolveu

— Talvez se estivessemos falando do Thiago, fosse um elogio.

— Você estava me ouvindo falar ao celular? — ela perguntou nervosa

— Quando você ia me contar que tinha outro?

— Eu não tenho outro, me respeita Pedro! Eu só tenho um e é o Thiago. E não mude de assunto! Você não tem o direito de ficar ouvindo minhas conversas!

— Quando você vai embora? — eu estava com medo de perguntar isso e com mais medo ainda da resposta. Minha voz saiu falha.

Isabel pausou um pouco e se aproximou mais de mim calmamente, com os olhos cheios d'água.

— Eu só vou embora no fim das férias de julho, como te prometi — ela disse baixo, sentada ao meu lado na cama, segurando e acariciando minha mão.

— Você não vai voltar para casa? Em São Paulo?

— Eu consegui a tranferência de unidade da minha escola de São Paulo para o Rio. Meu pai deixou, achou que fosse melhor eu conhecer outros lugares.

— Mas você não odeia o Rio?

— Odeio, mas o Thiago mora lá, ironicamente, e é muito mais rápido vir para cá do Rio do que vir de Sampa. Todo fim de semana estarei aqui.

— Não seria mais fácil você pedir transferência para a unidade daqui e ficar na casa dos meus pais? Você vai gastar muito para vir para cá todo fim de semana.

— Não! Está louco? Seus pais já foram muito pacientes em me deixar morar com eles enquanto estou aqui. Não quero ocupar espaço. E eu não vou gastar quase nada; Thiago tem um amigo com "paitrocínicio" que vai me trazer e me buscar. Só vou pagar uma parte de combustível.

— Esperto esse Thiago. É muito conveniente manter esse tipo de amizade.

— Eles se conhecem desde a pré-escola

— Nossa! Espertinho desde pequeno. Está de parabéns.

— Porque está fazendo isso?

— Porque você disse que me amava.

— Mas eu amava! Eu amo, mas nunca ia funcionar.

— Achava que você não se importava com minha debilitação.

— Se liga Pedro, não é por isso! É porque... Nós mesmos nos impedimos.

— Bel, eu quero você. Eu te amo.

— Não, Pedro, você não quer. Você quer todas e não quer nenhuma ao mesmo tempo. Quando sair daqui, não te dou duas semanas para voltar à ativa. Você mesmo me disse que não namora.

— Eu mudei conceitos por você.

— Pode retomar os antigos. Eu decidi que não vou mais me machucar nem machucar aos outros.

— Ele é melhor do que eu? — essas perguntas que escapam roucas.

— Em qual sentido?

— Em todos eles.

— Não. Ele não é e nunca vai ser.

— Você é feliz com ele?

— Não mais do que eu fui com você, mas sou muito feliz sim.

— Se um dia ele te fizer chorar, me liga que eu chego no minuto seguinte.

Ela riu fraco e fez que sim com a cabeça. Isabel fazia carinho em minha mão e beijou minha testa.

Eu não dei a mínima para a situação, mas eu precisava dela, nem que fosse pela ultima vez.

Beijei sua mão que segurava a minha e olhei seus olhos verdes-escuro, quase castanhos. Sentei-me com dificuldade na cama, com um pouco da ajuda cautelosa dela. Passei minha outra mão na sua bochecha que antes era rosada, e que agora estavam pálidas de cansaço como sua pele. Coloquei para trás seu cabelo que estava jogado no rosto e fiz uma trajetória até sua nuca. Isabel fechou os olhos e suspirou enquanto eu brincava com suas características.

Instintivamente, nossos rostos estavam cada vez mais perto. Encostamos nossas testas e nossas respirações cansadas — por diferentes razões — e quentes se tornaram uma só.

Agora seria o momento perfeito para dizer um "eu te amo", mas eu não direi nada. Estragaria o momento. Ela também sabe disso e que não preciso dizer as três palavras mais poderosas que existem para que seja verdade.

Não me importa que eu morra agora, hoje, amanhã, mês que vem ou daqui a oitenta anos. Eu só quero ela, só quero que ela seja feliz enquanto estiver comigo, pois eu sou feliz quando estou com ela.

Não havia mais nada a fazer, a não ser sentir o sabor do outro de novo. Para eu levar esse gosto comigo para a eternidade. E, definitivamente, só me faltava os lábios dela para que, enfim, minha vida fosse selada.

Notas finais
Bom, essa fanfic foi escrita após um episódio muito triste e marcante na minha vida e acho que todos os meus sentimentos não estão aqui, mas foi uma espécie de alívio. Provavelmente é o texto mais íntimo que escrevi até agora e estou completamente envergonhada em expô-lo, mas ao mesmo tempo tenho orgulho do que escrevi. Aliás, eu tenho orgulho dele, minha inspiração. Essa fic é pra ele.
Obrigada por ler.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!