Em seus aposentos na Casa das Moças, Morgana dormia em sua cama quando um pio longo de uma ave noturna a despertou. Ela levantou-se e foi até a janela. A madrugada ia-se e o sol já era visível no horizonte.

O silêncio caia como uma mortalha fria, e as brumas envolviam a tudo, dando um aspecto aterrador ao cenário. Morgana apanhou um manto e saiu de casa, pensando na noite em que se unira a Artur na ignorância. “Porque nos fizeste isso, Grande Mãe?”

A aparição surpresa e firme abraço de Artur a surpreendeu. Havia esquecido que ele passaria a noite na ilha.

-Morgana!

-Artur, o que está fazendo aqui fora?

Ela inclinou a cabeça e ambos sentaram-se no chão, ao lado da Casa das Moças.

- Tive um sonho, nele eu via alguém como você, era você. — disse ele, sua voz tremia e ele olhou para ela, que viu a saudade nos olhos dele e ela pode ver que assim como ela, ele não havia esquecido a noite em que haviam deixado de ser irmão e irmã perante a Deusa.

-Artur, por favor, não devemos falar sobre isso.

Artur olhou pra baixo e continuou:

-Temos que discutir isso, creio eu. Penso sempre em você, não consigo e não posso deixar de pensar...

- O que está feito, está feito. — interrompeu Morgana, que sabia que teria de dizer algo duro e cortante-Você não deve se lembrar de mim dessa maneira. Fomos deusa e deus de noite e mulher ehomem de manhã, agora voltamos a ser irmã e irmão e o que está feito está feito! Artur tente apenas lembrar que eu fui a Deusa para você, esqueça-se da mulher.

- Eu não posso esquecer, você pode? — insistiu Artur, engolindo em seco.

-Não, isso me assombra também, mas eu não permito que isso interfira na minha vida. Artur, -toma o rosto dele entre as mãos- você precisa seguir, ter filhos com sua rainha e ser um bom rei. O que fizemos não é um pecado aos olhos da Deusa.

Levantaram-se e Artur foi surpreendido quando ela o abraçou. Morgana sentia-se segura em seus braços. Seu filho, seu amante.

Ao se afastar, Morgana viu nos olhos dele que ele sempre a amaria, ele amava sua rainha, mas que eles –Artur e Morgana- sempre seriam um só.

- Eu amo você, sempre amei. Você sempre terá o rosto da Deusa para mim!- ele sussurrou.

- Também o amo, meu bebê, meu irmão e meu amor. — sussurrou ela de volta, combatendo as lágrimas que teimavam em vir, beijou a testa dele. Gwenhwyfar teria o corpo dele, mas Morgana sempre teria seu coração e sua mente. Nessa vida seriam apenas irmão e irmã,mas como dizia a sabedoria druida, eles se encontrariam novamente em outra vida e nela poderiam pertencer um ao outro sem pecado, por enquanto teriam apenas a lembrança dos ritos de Beltane e o filho que em breve nasceria.

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