Fora de Protocolo - concluída

23 Mudança de Estratégia


O cheiro de giz de alfaiate, lã fria importada e café expresso preenchia o estúdio reservado em Ipanema. Diante do espelho triplo de moldura dourada, Arthur mantinha os braços semiabertos enquanto o mestre alfaiate ajustava milimetricamente a barra da manga do seu terno de noivo.


Eu estava sentado na poltrona de couro ao lado, com um copo de uísque single malt na mão, observando o meu amigo de infância parecer genuinamente ansioso com o caimento de um paletó.


— Dá para você parar de se mexer? O homem vai acabar te alfinetando — brinquei, dando um gole na bebida.


Arthur soltou uma risada, mas não desviou os olhos do reflexo.


— É mais difícil do que parece, Montserrat. Quando for a sua vez, eu vou sentar exatamente aí e rir da sua cara.


— Não prenda a respiração esperando por isso. Casamento não está nas minhas métricas de curto ou longo prazo.


— É o que todo homem arrogante diz antes de cair do cavalo — Arthur rebateu, agradecendo ao alfaiate com um aceno quando o homem se afastou para buscar outro tecido. Ele se virou para mim, ajeitando a gola. — Mas falando sério... Você notou como as coisas mudam? Olho para trás e nem reconheço o cara que eu era antes da Helena. Eu vivia tenso, focado apenas no próximo balanço da holding. Hoje? Parece que eu finalmente consigo respirar. Assumir o que eu sentia por ela foi a melhor decisão da minha vida.


Observei o Arthur. Ele tinha razão. Havia uma leveza nele que eu nunca tinha visto nos anos em que dividíamos salas de reunião. O cinismo corporativo tinha dado lugar a uma estabilidade que, pela primeira vez, não me pareceu um desperdício de tempo.


Arthur caminhou até o balcão, pegando o próprio copo de água e me encarando com aquela intensidade de quem me conhecia bem demais.


— E por falar em cair do cavalo... Helena me contou que o seu jurídico se transformou em um escritório de direito de família de uma hora para outra. Ricardo passou a semana caçando as contas bancárias de um sujeito da Zona Norte. Tem algo rolando entre você e a Lívia?


Girei o gelo dentro do meu copo, sustentando o olhar dele.


— Oficialmente? Nada. Mas eu gosto dela.


Mais do que eu planejava, completei mentalmente. Arthur abriu um sorriso largo, nitidamente satisfeito.


— Eu sabia. Montserrat, presta atenção no que eu vou te dizer por experiência própria: seja honesto com ela sobre o que você sente. Logo de cara. O meu maior erro com a Helena foi tentar manter as defesas erguidas, fingir que era só um arranjo profissional ou casual. Por causa desse orgulho besta, eu quase perdi a mulher mais incrível que já cruzou o meu caminho. Não cometa o mesmo erro com a Lívia. Ela é durona, tem muros altos por causa do passado, mas se você não jogar limpo, ela nunca vai baixar a guarda.


Aquelas palavras ficaram flutuando na minha mente enquanto eu me despedia do Arthur e o motorista me levava de volta para a Zona Sul.


Trancado no meu closet por volta das vinte horas, enquanto escolhia o que vestir, percebi o peso do conselho do meu amigo. A minha mente, tão viciada em analisar métricas e comportamentos de mercado, finalmente começou a decifrar a matriz de risco da Lívia.


Na economia comportamental, Daniel Kahneman define a "Aversão à Perda" como o princípio de que a dor psicológica de perder algo é duas vezes mais forte do que a alegria de ganhar a mesma coisa. O cérebro humano prefere evitar riscos a buscar recompensas. E a mente da Lívia trabalhava estritamente sob essa teoria.


Ela não me afastava por falta de desejo. Ela erguia muros porque a aversão à vulnerabilidade, ao abandono e ao descontrole ditava todas as suas decisões. O cretino do Lucas não tinha apenas deixado dívidas financeiras; ele tinha ensinado àquela mulher que confiar em alguém era um investimento de altíssimo risco.


E, de repente, percebi que o que eu sentia pela Lívia Coimbra era absolutamente novo.


Não era a previsibilidade confortável que eu mantinha com a Bia, onde os limites formavam um contrato de baixo risco e nenhum dos dois se importava de verdade. Com a Lívia, cada barreira que ela impunha me dava mais vontade de quebrar a equação. Eu queria conhecê-la mais profundamente. Queria anular aquela aversão à perda, entender cada cicatriz que o passado tinha deixado e garantir que ela nunca mais precisasse jogar no vermelho.


Eu estava disposto a abrir o jogo com ela hoje. Sem jogadas de marketing, sem blefes com o Bóson. Diria que era tudo muito recente para nós dois, que poderíamos ir com a calma que a rotina dela exigia, mas que eu tinha a intenção real de aprofundar o que estávamos construindo.


Escolhi uma camisa social cinza-escura, sem gravata, e um terno bem cortado, mas sem o alinhamento rígido da empresa. Eu queria parecer acessível. Humano.


Para o jantar, mudei os planos tradicionais de levá-la aos mesmos restaurantes badalados do Leblon onde a minha família costumava ir. Reservei uma mesa exclusiva em um casarão antigo e intimista no topo de Santa Teresa. O lugar tinha pouquíssimas mesas, luz suave de velas e uma vista absurda para as luzes do Rio de Janeiro espalhadas lá embaixo. Era isolado, silencioso e perfeito para a conversa honesta que eu pretendia ter.


Às vinte e uma e vinte e oito em ponto, o meu carro parou em frente à portaria de ferro do prédio dela na Zona Norte. Puxei o celular e disparei a mensagem:


Gustavo: Estou aq embaixo.


Guardei o aparelho no bolso do paletó e olhei para a entrada do edifício. Meu coração bateu um pouco mais rápido contra as costelas, uma reação física que eu não experimentava há anos. Eu estava descendo para o algo novo sem nenhuma estratégia no bolso, pronto para jogar limpo.


Só faltava ela descer.


Quando a portaria de ferro do edifício se abriu, o tempo pareceu desacelerar.


Eu já tinha visto a Lívia de jaleco, de moletom, com os cabelos bagunçados e com a fúria nos olhos. Mas naquela noite, ela estava simplesmente magnífica. A blusa de seda verde-escura destacava o tom da sua pele, e a calça de alfaiataria preta moldava o seu corpo de um jeito que me fez esquecer, por segundos inteiros, como se respirava. O cabelo preso em um rabo de cavalo alto deixava o seu pescoço exposto, um convite silencioso que testou severamente o meu autocontrole.


Saí do carro antes que ela se aproximasse e abri a porta do carona, sustentando o seu olhar castanho.


— Boa noite, doutora — murmurei, a voz saindo mais grave do que o normal. — Você está belíssima.


Ela deu um sorriso sutil, com as bochechas ganhando um tom leve de rosa que me fascinou.


— Boa noite, Gustavo. Obrigada.


Assim que ela se acomodou e eu entrei no lado do motorista, o clima mudou. Não havia a tensão, apenas uma eletricidade confortável. Enquanto eu subia as ladeiras em direção a Santa Teresa, começamos a conversar.


Perguntei pelo Téo com um interesse real, querendo saber como ele estava. Lívia respondeu com os olhos brilhando, a típica expressão de mãe orgulhosa , e logo em seguida quis saber do Bóson, perguntando se o "míssil branco" tinha destruído mais algum móvel da minha cobertura.


Tudo fluiu com uma facilidade assustadora. Até os momentos em que o silêncio se instalava no carro eram confortáveis, preenchidos apenas pelo som suave do motor e pela cumplicidade que estávamos construindo.


Isso me chamou atenção.


Normalmente, o silêncio entre duas pessoas pede alguma coisa: uma pergunta, uma piada, um comentário qualquer. Com a Lívia, não. Bastava ela estar ali.


O casarão em Santa Teresa era exatamente o que eu procurava. O garçom nos guiou até a mesa que eu havia reservado, localizada na varanda de pedra do topo da propriedade. A iluminação vinha quase inteiramente das velas, e a vista das luzes do Rio de Janeiro parecia uma pintura estendida diante de nós.


Lívia olhou o cardápio por alguns instantes e depois o fechou, me encarando com os cotovelos apoiados na mesa.


— Tudo aqui parece incrível e eu não faço ideia do que escolher. O que você sugere?


— Deixe comigo — respondi, chamando o sommelier.


Sugeri um risoto de pato trufado que eu já conhecia e selecionei um vinho tinto encorpado para acompanhar. Quando o serviço começou, a conversa continuou leve. Nós rimos de algumas burocracias da fundação e trocamos histórias cotidianas. Foi entre um gole de vinho e outro que Lívia baixou os olhos para a taça, girando o líquido devagar, e assumiu uma postura quase tímida.


— Eu preciso confessar uma coisa... Faz muito tempo que eu não saio em um encontro. Tipo... muito tempo mesmo. Fiquei até um pouco perdida na hora de me arrumar.


Olhei para ela, tocado pela honestidade daquela confissão. O desejo de esticar o braço sobre a mesa, puxá-la para perto e simplesmente abraçá-la bateu forte no meu peito.


— Então nós vamos ter que fazer isso mais vezes — fixei meus olhos nos dela. — Para você não perder o costume.


Ela me deu um sorriso de canto, aquele que fazia meu peito esquentar, e aceitou o flerte sem recuar. Nós bebemos, conversamos e aproveitamos a companhia um do outro de um jeito que me fez esquecer completamente das coisas que estavam do lado de fora do restaurante.


Naquele momento, achei que Arthur tinha razão. Bastava jogar limpo.


Na hora da sobremesa, o silêncio durou dois segundos a mais. Olhamos um para o outro e, em um sincronismo bizarro, dissemos exatamente ao mesmo tempo:


— Eu preciso conversar com você.


Dei um meio sorriso, gesticulando com a mão.


— As damas primeiro. Pode começar.


Lívia respirou fundo, ajeitando a postura na cadeira. A diretora clínica entrou em ação, e a barreira da aversão à perda se ergueu em um piscar de olhos.


— Gustavo, eu estive pensando muito na nossa situação nesses últimos dias. No que aconteceu na segunda-feira na sua mesa, no jantar com o Bóson... e no processo do Téo. Eu sou muito grata por tudo o que você fez, de verdade. Mas eu preciso colocar os pingos nos is.


Inclinei o corpo para a frente, apoiando os braços na mesa, esperando a declaração que eu pretendia retribuir.


— Eu sei como funciona a sua vida — ela continuou, a voz firme, mas os olhos fixos nos meus. — Eu sei sobre você e a Bia. Sei que vocês trabalham juntos e têm um arranjo leve, uma amizade colorida há anos que nunca virou nada sério, e que ambos estão perfeitamente satisfeitos com isso. E eu acho esse formato maduro. É exatamente o que eu quero para nós. Algo leve, casual, sem cobranças, sem confusão e sem amarras. O que a gente tem agora está ótimo para mim.


O ar pareceu faltar nos meus pulmões.


Eu, Gustavo Montserrat, o homem que passara a vida inteira lendo pessoas antes mesmo que elas abrissem a boca, antecipando reações, negociando interesses e prevendo movimentos com uma precisão quase irritante, me vi completamente desarmado.


Eu tinha interpretado todos os sinais. O sorriso quando eu aparecia. A forma como ela relaxava quando eu estava por perto. O jeito como esquecia a pose clínica e voltava a ser apenas Lívia. Os dados estavam certos.


A conclusão é que estava errada.


A proposta de relacionamento sério que estava na ponta da minha língua evaporou. Pisquei, processando o balde de água fria, e estreitei os olhos.


— Casual? — repeti, a voz saindo mais fria do que eu pretendia. — Você realmente não quer nada mais profundo do que isso, Lívia?


— Não — ela respondeu com uma segurança que quase me fez acreditar nela. Quase. Porque quem realmente não queria alguma coisa não precisava convencer tanto.— É o melhor para a minha rotina, para o meu filho e para nós dois. Você já está acostumado com esse formato, não está? Não precisamos complicar as coisas.


A ironia foi tão grande que quase me fez rir.


Na primeira manhã depois de dormir com ela, antes mesmo de entender quem a Lívia Coimbra era de verdade, eu tinha dito ao Marcos, com a arrogância típica de quem acreditava entender tudo sobre relacionamentos, que jamais me envolveria com uma mãe solteira.


"É furada."


Lembrava exatamente das palavras. Lembrava do tom de absoluta convicção. E lembrava, principalmente, da Lívia passando pelo corredor naquele instante.


Na época, achei que fosse apenas mais uma opinião jogada ao vento. Agora entendia o tamanho do estrago.


Mas finalmente entendi. Ela não estava me rejeitando. Estava tentando preservar um equilíbrio que acreditava existir. Na cabeça dela, eu era um homem acostumado a relações leves. Ela estava apenas oferecendo exatamente aquilo que imaginava que eu queria. Dei uma risada curta, recostando-me na cadeira e cruzando os braços. Decidi testar os limites daquela fortaleza.


— E se eu te falasse que gosto de você? Isso mudaria a sua métrica? Você mudaria de ideia?


Lívia deu um sorriso sutil, relaxando os ombros, achando que tinha ganhado a discussão.


— Gustavo, eu já sei que você gosta de mim. Eu também gosto de você. Nós não estaríamos jantando em Santa Teresa a essa hora se não gostássemos um do outro. Mas gostar não significa que precisamos transformar isso em um drama romântico. Podemos manter as coisas exatamente como estão.


Encarei-a em silêncio enquanto o garçom deixava a conta na mesa. Gostar. Era nisso que ela achava que estávamos. Ela ainda não tinha percebido que eu já tinha atravessado essa fronteira havia algum tempo.


Olhei para os olhos castanhos dela sob a luz da vela e a verdade me atingiu com a força de um soco no estômago. Eu não gostava dela. Aquele sentimento incômodo, descontrolado e possessivo que vinha me dominando há dias não era apenas interesse pequeno ou flerte casual.


Eu estava apaixonado. Completamente ferrado e apaixonado por uma veterinária teimosa que acabou de me dar um fora.


Um sorriso lento e predatório começou a se formar nos meus lábios enquanto eu puxava o meu cartão de crédito. Ela achava que tinha ditado as regras e encerrado o assunto. Mas a Lívia não conhecia o meu histórico em negociações difíceis. Eu nunca aceitava a primeira proposta quando sabia que podia levar a empresa inteira.


Arthur estava errado. Honestidade, por si só, não derrubava muralhas. A Lívia não precisava ouvir que eu estava apaixonado. Ela precisava descobrir, aos poucos, que amar alguém podia deixar de ser perigoso.


— Tudo bem, doutora — respondi calmamente. — Vamos fazer do seu jeito.


Ela relaxou imediatamente. Mal sabia ela que acabara de me dar um novo objetivo. Eu já estava apaixonado. Eu aceitaria o acordo casual. Entraria no jogo dela. Agora faria o impossível para que, um dia, ela olhasse para mim com a mesma certeza.


A partir de agora, o meu único foco seria quebrar cada uma daquelas regras e não apenas fazer a Lívia Coimbra se apaixonar por mim também, mas querer algo muito mais profundo do que um romance casual. E eu tinha todo o tempo do mundo para ganhar aquela aposta.


Notas finais
E abrimos um novo ato: um homem apaixonado com o objetivo de conquistar sua paixão 🤭🩷