Existe uma teoria na neurociência comportamental que eu costumava aplicar para quase tudo na minha vida amorosa: a dessensibilização do ganho. É o mesmo princípio de andar de bicicleta ou comprar um carro esporte. O desejo consome o seu córtex frontal até o momento exato da conquista; depois que você atinge o objetivo, a recompensa química despenca e o objeto perde o interesse. O cérebro limpa a mesa e passa para a próxima meta.

Eu tinha certeza de que aconteceria o mesmo ali.

Quando aquela tempestade azul-marinho parou ao meu lado e confessou, com uma petulância deliciosamente genuína, que eu era o objeto de uma aposta de cem reais, meu ego deu de ombros.

Eu estava entediado, o uísque estava no fim e a audácia dela era o primeiro elemento divertido em uma noite sufocante.

Puxá-la pela nuca e calar aquela boca insolente foi uma decisão puramente impulsiva, um movimento mecânico para desarmar a provocação dela e provar que eu estava no comando.

Só que, quando afastei meus lábios dos dela, a teoria da bicicleta ruiu como um castelo de cartas.

Minha mão continuou espalmada na pele quente da nuca dela por um tempo mais longo do que o necessário para um beijo casual. Meus dedos se prenderam nos fios escuros do seu cabelo e, por um milésimo de segundo trágico, meu cérebro simplesmente se recusou a dar o comando de recuo.

O gosto de jasmim e algo cítrico que emanava da pele dela, misturado ao calor úmido da sua boca, não disparou a dessensibilização. Disparou um alerta de pane no sistema.

Eu não queria passar para a próxima meta. Eu queria voltar para aquela boca. Exatamente agora.

— Acho que suas amigas acreditaram — falei, e a minha própria voz soou um tom mais grave, mais arrastada do que o meu tom diplomático habitual. Um analista comportamental de Oxford teria diagnosticado o tremor sutil nas minhas cordas vocais como o início de uma perda de controle emocional. Irritante.

Ela abriu os olhos devagar. As pupilas dela estavam dilatadas, escuras sob a luz fraca do canto do bar, e o peito subia e descia contra o tecido de seda azul-marinho com uma pressa que me deixou absurdamente satisfeito.

— Certo — ela conseguiu articular, e o som saiu como um sopro, quase um sussurro desarmado que quebrou a pose de deusa intocável com que ela tinha atravessado o salão. — Certo.

Ela ajeitou a alça do vestido com os dedos visivelmente trêmulos. Eu assisti ao movimento, fascinado pela forma como a clavícula dela se movia. Eu passei os últimos dez anos da minha vida estudando micromovimentos humanos para antecipar reações de acionistas e concorrentes de mercado. Eu sabia ler mentiras no piscar de olhos de um ministro. Mas aquela mulher na minha frente era um borrão de dados ilegíveis.

— Então... por que eu continuo aqui? — ela perguntou, erguendo o queixo oliva com uma ironia forçada, tentando desesperadamente recuperar o território que eu tinha acabado de invadir.

Apoiei o cotovelo de volta no balcão de madeira escura, inclinando o corpo ligeiramente para trás para não deixar evidente o quanto o perfume dela estava me sufocando. Dei um sorriso de lado, o tipo de sorriso que eu usava quando estava prestes a fechar uma aquisição hostil na bolsa de valores.

— Porque agora a próxima aposta é minha.

Ela sustentou o meu olhar. Não recuou um único milímetro na banqueta de couro, e aquilo me pegou de surpresa. A maioria das mulheres que frequentavam os salões dos Harrington ou os jantares da minha mãe sabia exatamente como reagir a um beijo meu: ou desviavam o olhar em uma timidez ensaiada para inflacionar o próprio passe, ou usavam o momento para cravar as unhas no meu terno e garantir um convite para o próximo final de semana em Angra.

A mulher de azul-marinho fez algo diferente. Ela simplesmente me encarou com uma curiosidade crua, quase clínica, como se eu fosse um espécime exótico sob uma lente de acesso.

— E qual seria a sua aposta? — ela desafiou, arqueando uma sobrancelha escura.

Havia um tom divertido e desafiador na voz dela, o tipo de coragem alimentada por algumas taças de champanhe e pelo orgulho de quem acabou de faturar cem reais à custa da minha nuca.

— O dobro do valor — respondi, girando o gelo no meu copo quase vazio. — Duzentos reais que você não tem coragem de tomar mais um drinque comigo. Longe daqui.

Ela soltou uma risada, o som cortando o ruído de fundo da orquestra.

— Você é sempre assim, ou o terno sob medida vem com um manual de arrogância embutido?

— Eu sou um Montserrat. A arrogância está no contrato social da família, mas a proposta é real.

Eu esperava que o nome fizesse algum efeito. No Rio de Janeiro, pronunciar Montserrat em um evento da Harrington costuma alterar a frequência cardíaca dos interlocutores. As pessoas recalculam a postura, suavizam o tom de voz e começam a buscar uma aproximação estratégica.

Ela nem piscou. O nome passou por ela como a brisa que vinha da praia de Copacabana. Nenhuma iluminação de interesse nos olhos, nenhuma mudança na curvatura dos ombros. Nada.

— Montserrat? — ela repetiu, fingindo avaliar a informação. — Nunca ouvi falar. Mas tenho um palpite de que você é o tipo de cara que acha que o mundo gira em torno do próprio umbigo. Acertei?

Senti um músculo no meu maxilar travar, mas não de irritação. De puro fascínio. Minha analise tinha falhado miseravelmente. Minhas gavetas mentais estavam vazias. Ela não estava tentando me impressionar e, pelo que eu conseguia ler na sua linguagem corporal, estava genuinamente se divertindo com o fato de eu estar tentando decifrá-la.

— Um a zero para você — admiti, dando o braço a torcer e deixando o sorriso de lado se firmar no meu rosto. — Eu realmente acho. Mas a pergunta continua de pé: você vai fugir com os meus duzentos reais ou vai aceitar o risco?

— Eu não funciono à base de apostas, senhor Montserrat — ela disse, inclinando o corpo para a frente, o que trouxe aquele perfume de jasmim e notas cítricas de volta para o meu raio de oxigênio. — E eu tenho uma regra muito estrita sobre sair de eventos luxuosos com homens que usam o cinismo como escudo de proteção.

— Uma regra sábia — ponderei, fixando meus olhos na boca dela, que ainda mantinha um vestígio sutil do batom. — Mas toda regra precisa de uma exceção para testar os limites.

A primeira fagulha se instalou exatamente ali, entre uma frase afiada e outra. Ela não se impressionava com o cenário, não se importava com o sobrenome e parecia ser apenas uma mulher querendo se divertir um pouco naquela noite. E era exatamente essa leveza descompromissada, desprovida de qualquer roteiro previsível da alta sociedade, que a tornava a criatura mais perigosamente magnética daquele salão. Eu não ia deixá-la sumir na multidão.

Não mesmo.

O silêncio que se instalou entre nós dois não era o tipo de silêncio desconfortável que costuma preceder uma rejeição. Era denso, carregado de uma estática invisível que parecia puxar o meu corpo na direção do dela, ignorando qualquer protocolo de distanciamento que a minha mãe tivesse tentado me ensinar sobre a etiqueta dos salões de gala.

Girei o copo de uísque uma última vez, observando como a luz dourada do bar batia na pele oliva do ombro dela.

Eu tinha quinhentos convidados naquele hotel que precisavam da minha atenção, tinha uma malha aérea inteira para monitorar no final de semana e uma acompanhante premium na pista de dança que esperava uma ligação minha.

Eu não dava a mínima para nada disso. Toda a minha mente tinha sido hackeado por um vestido azul-marinho.

— Vamos sair daqui — falei. A frase saiu direta, limpa, sem os rodeios ou os artifícios de sedução ensaiados que eu costumava usar. Não era um pedido; era uma convocação para o inesperado. — Minha cobertura fica a menos de dez minutos daqui. Tenho um uísque consideravelmente melhor que este e uma vista da praia de Copacabana que faz esse lustre cafona parecer uma piada de mau gosto.

Ela piscou, e por um segundo imperceptível, a armadura de mulher segura e irônica dela estremeceu. As sobrancelhas escuras se juntaram sutilmente e ela soltou o ar pelos lábios em uma hesitação real. Eu vi o cálculo pragmático acontecendo atrás daqueles olhos intensos.

O risco. O absurdo da situação. A quebra da rotina.

Eu sabia ler os sinais do medo e da dúvida no comportamento humano; era a minha especialidade.

Mas logo em seguida, antes que a lógica vencesse, uma fagulha de puro divertimento, uma centelha de audácia quase infantil, acendeu no fundo das suas pupilas dilatadas.

A deusa que ela tinha fingido ser na travessia do salão deu lugar a uma mulher real, viva, que parecia subitamente cansada de seguir as regras do próprio roteiro.

— Você está sugerindo que eu abandone um evento beneficente de gala da Harrington para ir até a cobertura de um estranho arrogante que acabei de conhecer no bar? — ela perguntou, o tom de voz descendo para um sussurro que era pura provocação.

— Exatamente — inclinei-me um centímetro para a frente, sentindo o calor da respiração dela misturar-se à minha. — O Arthur não vai sentir minha falta, e os duzentos reais da aposta já estão garantidos na sua conta. Considero um excelente retorno para a noite de hoje.

Ela soltou uma risada curta, mas dessa vez o som foi mais suave, desarmado. Ela olhou para as próprias mãos espalmadas contra o balcão de madeira e depois voltou a fixar o olhar no meu, com uma firmeza que me fez endireitar a postura na banqueta.

— Tudo bem, senhor Montserrat — ela decretou, com um sorriso enigmático que fez meu pulso acelerar duas batidas na escala cardíaca. — Mas nós vamos fazer isso do meu jeito. Você vai levantar dessa banqueta agora, vai andar até a portaria do hotel e vai me esperar lá fora. Na calçada.

Arqueei uma sobrancelha, surpreso com a inversão de comando. Eu não estava acostumado a receber ordens, muito menos de mulheres que eu tinha acabado de beijar em um bar.

— E por que eu faria isso em vez de sairmos juntos pelo salão principal? — perguntou, o tom divertido indicando que eu estava gostando daquela quebra de protocolo.

— Porque eu preciso me despedir das minhas amigas, recolher o meu prêmio de cem reais e avisar que vou aproveitar o resto da noite — ela explicou, deslizando para fora da banqueta alta com uma fluidez que fez a seda azul-marinho ondular perigosamente ao redor das suas pernas. Ela parou a um palmo de distância de mim, olhando-me de cima com uma altivez avassaladora. — E também porque eu preciso de cinco minutos para garantir que não estou cometendo a maior loucura do meu ano.

Sorri de verdade, fechando os dedos ao redor do meu copo vazio. O ritmo daquela noite estava ficando cada vez melhor.

— Cinco minutos, tempestade — avisei, sustentando o olhar desafiador dela. — Se você demorar seis, eu entro aqui de novo e te levo pela mão na frente delas.

— Justo — ela piscou, ajeitando a pequena bolsa de mão contra o corpo, pronta para iniciar a caminhada de volta.

Ela deu um meio passo para trás, mas parou antes que a distância entre nós se tornasse segura. O sorriso enigmático que ela sustentava ganhou um contorno consideravelmente mais afiado, quase cortante, sob a iluminação indireta do teto.

— Ah, e mais uma coisa, senhor Montserrat — ela inclinou o rosto de leve, o tom de voz descendo para aquela frequência confidencial que me fazia focar em cada movimento dos seus lábios. — Só para o caso de a sua arrogância achar que eu sou um alvo fácil: eu vou de deixar a minha localização em tempo real com as meninas lá na pilastra. E uma foto do seu rosto de poucos amigos já foi enviado para um grupo de transmissão bem barulhento.

Prendi o riso, cruzando os braços e observando a audácia daquela mulher se desdobrar na minha frente feito um plano de contingência militar.

— Uma estratégia prudente — ponderei, genuinamente impressionado. — A Ciência Comportamental chama isso de gerenciamento de risco preventivo. Você sempre calcula suas rotas de fuga com tanta precisão?

— Sempre. Minha vida real exige que eu lide com emergências o tempo todo — ela deu de ombros, e por um segundo imperceptível, uma sombra de cansaço real, um vislumbre da mulher que existia por trás daquela seda azul-marinho, cruzou o seu olhar. Mas ela a espantou rápido demais, recuperando a postura altiva. — O aviso foi dado. Se eu sumir por mais de duas horas, uma delas é bem capaz de acionar a polícia e a outra coloca o próprio anfitrião dessa festa para revirar a Zona Sul inteira atrás de mim..

— O recado foi registrado, tempestade — descruzou os braços e fiz uma leve reverência com a cabeça, aceitando os termos dela com o maior prazer. — Garanto que a integridade física da minha convidada é prioridade absoluta. E o Arthur me conhece bem o suficiente para saber que eu trato cargas valiosas com o máximo de cuidado.

— Ótimo — ela piscou, um brilho de pura eletricidade passando pelos seus olhos castanhos. — Agora vá. Calçada. Cinco minutos.

Ela se virou de costas, e o decote profundo em "V" revelou novamente a extensão de pele oliva reluzindo sob a luz dos lustres. Assisti à sua caminhada de volta pelo salão lateral. Ela não andava mais com aquela postura defensiva de quem inspecionava o território inimigo; agora, ela se movia com a fluidez de quem tinha ditado um rumo completamente novo e assumido o controle da situação. De longe, vi quando ela alcançou a pilastra de mármore. Helena e Malu quase derrubaram suas taças de champanhe, gesticulando freneticamente enquanto ela exibia um sorriso vitorioso e cobrava os cem reais da aposta.

Girei na banqueta, deixando uma nota alta de gorjeta para o barman, e me levantei. Meu corpo operava sob o efeito de uma substância que eu não conseguia catalogar nos meus livros de Oxford. O tédio tinha desaparecido por completo. O cansaço da malha aérea não passava de um detalhe irrelevante.

Caminhei em direção à saída principal do Copacabana Palace, passando pelos fotógrafos e pelos assessores sem dar a mínima para os acenos ou para os sorrisos ensaiados que tentavam me reter no salão. Eu tinha um compromisso na calçada.

Enquanto cruzava as portas de vidro e sentia o ar úmido e quente da noite carioca bater no meu rosto, misturando-se à brisa salgada que vinha do oceano, a primeira fagulha de uma obsessão real e perigosa se instalou de vez no meu peito. Eu não sabia o nome dela. Não sabia de onde ela tinha vindo, o que fazia da vida ou qual era a sua história. Mas, enquanto esperava sob a marquise do hotel, olhando para o fluxo de carros e para o relógio de pulso que marcava os minutos mais lentos da minha semana, eu sabia de uma única coisa: Aquela noite estava planejada para ser apenas um respiro no tédio da minha rotina, mas aquela mulher tinha acabado de dar início à colisão mais violenta, e inevitável, da minha vida.

Os cinco minutos que ela pediu pareceram trinta na escala temporal da minha paciência. Fiquei escorado na pilastra da entrada do Copacabana Palace, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça do terno, observando o movimento dos manobristas. O ar da noite carioca estava abafado, carregado com aquele cheiro característico de maresia misturado com o escapamento dos táxis e o perfume caro dos convidados que começavam a debandar.

Quando a porta de vidro se abriu atrás de mim, o perfume de jasmim cortou a poluição da Avenida Atlântica.

Virei a cabeça devagar. Ela vinha descendo a rampa interna com uma pose que fazia a calçada de pedras portuguesas parecer a passarela de Milão. Na mão direita, ela balançava a nota de cem reais da Malu com um sorriso vitorioso que quase me fez rir alto.

— Pontual — ela comentou, parando a um palmo de mim. O vento que vinha do mar fez as mechas soltas do seu cabelo escuro dançarem pelo pescoço oliva. — Achei que a sua arrogância não saberia esperar na calçada feito um mero mortal.

— Eu sei ser paciente quando o retorno vale a pena, tempestade — respondi, tirando as mãos dos bolsos. — E o seu plano de contingência com as suas amigas? Deu certo?

— Elas queriam me amarrar na pilastra, para ser sincera. Uma quase teve um síncope quando contei o que aconteceu e a outra jurou que, se eu sumir, ela faz o namorado usar os satélites da para me rastrear. Em compensação, os cem reais estão garantidos.

— Perfeito. Porque o meu motorista acabou de trazer o meu passe de fuga — indiquei com o queixo a rampa de acesso do hotel.

O som chegou antes do visual. Um ronco grave, encorpado, que reverberou no teto da marquise do hotel e fez o chão de concreto vibrar de leve. Não era o zunido agudo e plástico desses supercarros modernos cheios de assistências eletrónicas que parecem consoles de videogame. Era metal puro. Uma sinfonia mecânica, cadenciada, de um motor que claramente cuspia combustível com o dobro da pressão necessária.

O manobrista parou o carro logo abaixo da luz principal. Era um Porsche 911 Turbo da geração 993, do final dos anos noventa. Pintura preta sólida que reluzia como um espelho sob os refletores do Copa, as curvas clássicas alargadas na traseira e, o detalhe que denunciava o nível de insanidade do dono: a Placa Preta de colecionador brilhando no para-choque.

Ela parou, olhando para a máquina com as sobrancelhas arqueadas. Depois, virou o rosto na minha direção, o canto da boca subindo em uma linha de puro deboche.

— Um Porsche vintage. Preto. Com um ronco que parece um trovão engarrafado — ela cruzou os braços, a seda azul-marinho se moldando às suas curvas. — Me diz uma coisa, senhor Montserrat... Você está tentando compensar alguma coisa com esse brinquedo de tamanho exagerado ou é só falta de criatividade para gastar dinheiro?

Soltei uma risada rouca, pegando a chave da mão do manobrista e deixando uma generosa gorjeta na mão do rapaz, que agradeceu imediatamente.

— A Ciência Comportamental diria que homens com carros rápidos têm complexo de inferioridade, tempestade. Mas erram nessa parte — aproximei-me dela, abrindo a porta do passageiro. — Esse brinquedo não é para ostentar. É mecânica pura. Um motor Mezger de seis cilindros opostos, refrigerado a ar, biturbo. Sem controle de tração eletrônico, sem babá de computador para salvar a sua pele se você entrar errado na curva. É você e o asfalto.

Ela inclinou a cabeça de leve, os olhos castanhos brilhando com uma pontada de surpresa que ela tentou esconder rápido demais ao ouvir os termos técnicos.

— Um purista de motores, então? — ela provocou, deslizando para dentro do banco de couro nobre que cheirava a carro bem cuidado, acomodando a fenda do vestido com uma elegância absurda. — Achei que caras como você só sabiam assinar o cheque do conserto e deixar o mecânico resolver o resto.

Fechei a porta dela com um estalo sólido e contundente, o som clássico das portas dos Porsches antigos, que parece o fechamento de um cofre e dei a volta, assumindo o banco do motorista. O cockpit era minimalista, focado na pilotagem, com os cinco relógios analógicos clássicos no painel me encarando.

— Você me subestima — falei, girando a chave na esquerda do volante, fazendo o seis-cilindros acordar com aquele tremor característico na minha lombar. — Meu hobby é passar os domingos de manhã com graxa até os cotovelos na garagem da minha casa. Eu desmonto e monto esse bloco de olhos fechados. Gosto de lasanha de verdade, não dessas banheiras modernas de plástico que se conectam ao Wi-Fi. Se o carro não tiver alma mecânica, para mim é só um eletrodoméstico caro.

Ela soltou uma gargalhada limpa, o som preenchendo o interior do cupê e fazendo meu peito esquentar de um jeito perigoso.

— Você acabou de usar o termo "lasanha" para se referir a um carro clássico enquanto veste um smoking que custa um rim? — ela balançou a cabeça, colando as costas no banco de couro enquanto eu engatava a primeira marcha no câmbio manual de seis velocidades. — Certo, Montserrat. Você definitivamente é a caixinha de surpresas mais bizarra que eu já encontrei em um bar. Vamos ver se você pilota essa lasanha tão bem quanto fala sobre ela.

— Aperte o cinto, tempestade — avisei, soltando a embreagem pesada e sentindo o Porsche tracionar com força, arrancando em direção à Avenida Atlântica. — O show está só começando.




Notas finais
Se estiverem gostando, não se esqueça de deixar seu comentario,sobre oq tá achando. Um beijão e até o próximo capítulo 💕