O salto agulha do sapato que Malu me emprestara já estava cobrando seu preço em formato de uma queimação latente na sola dos meus pés. Eu me mantinha estrategicamente encostada em uma pilastra de mármore Carrara, um pouco afastada do epicentro da pista de dança, segurando uma taça de champanhe cujo nome eu não sabia pronunciar, mas que descia limpando a aspereza da minha garganta com uma facilidade perigosa.

— Se você apertar essa taça com mais força, o cristal vai estourar na sua mão, Lívia — Malu cantarolou ao meu lado, dando um gole elegante no seu próprio drinque.

Ela usava um vestido vermelho-fechado que combinava perfeitamente com a sua postura de quem parecia ter nascido circulando por salões aristocráticos, embora eu soubesse que, assim como eu, ela também calculava o preço do supermercado no início do mês.

— Eu só estou tentando processar o excesso de informação — murmurei, correndo os olhos pelo teto emoldurado em ouro. — Aquela mulher ali na mesa três está usando um colar que pagaria a reforma da ala de grandes animais da faculdade inteira. E o sujeito ao lado dela acabou de gastar cinquenta mil reais em um lote de vinho num leilão silencioso como se estivesse comprando um engradado de cerveja na esquina. É bizarro.

— É o mundo do Arthur, gata. Acostume-se — Malu riu, ajeitando a alça do meu vestido azul-marinho. — Mas olhe pelo lado positivo: você está absolutamente deslumbrante. Metade dos engravatados daquela mesa de derivativos financeiros ali atrás já tentou descobrir se você tem aliança na mão esquerda nos últimos vinte minutos.

— Eles estão perdendo tempo. Minha única prioridade que usa fraldas está em casa, provavelmente tentando morder o rabo do gato da minha mãe — brinquei, embora o pensamento no Téo fizesse meu estômago dar aquele nó familiar de saudade. Peguei o celular discretamente na bolsa, checando a tela. Nenhuma chamada perdida. Um suspiro de alívio escapou dos meus lábios.

— Deixem o glamour dos ricaços de lado por um segundo e olhem para mi—! — A voz de Helena surgiu como um sopro de ar fresco antes mesmo que seu casaco fúcsia — que ela já havia deixado na chapelaria — anunciasse sua chegada.

Ela deslizou até nós com o rosto corado, os olhos brilhando com uma vivacidade que eu raramente via quando ela estava imersa nas planilhas de custos do bistrô. O cabelo levemente desalinhado e o sorriso largo entregavam tudo. Ela parecia flutuar.

— Alguém chame o corpo de bombeiros, porque eu acabei de derreter na pista de dança — Helena declarou, abanando-se com as mãos enquanto olhava na direção onde Arthur Harrington conversava com um grupo de investidores. — O Arthur dançando bossa nova deveria ser considerado um crime contra a saúde cardiovascular de qualquer mulher. Ele tem aquele rebolado corporativo que me deixa sem defesas.

— Nós vimos, Lê. Vocês pareciam um comercial de perfume importado — Malu provocou, rindo da intensidade da amiga. — O CEO da Harrington parecia ter esquecido completamente que tem bilhões de ações para gerenciar. O homem estava focado em uma única meta: não soltar a sua cintura.

— E he não soltou — Helena suspirou, pegando a taça de champanhe da mão de Malu e tomando um gole generoso. Ela então se virou para mi—, estreitando os olhos castanhos ao notar a minha postura defensiva contra a pilastra. — E você, Lívia? O que está fazendo aqui isolada nesse canto feito uma estátua de alta costura? Eu te trouxe para circular, beber do melhor e, quem sabe, lembrar que o mundo não se resume a termômetros clínicos e coleiras de pulgas.

— Eu estou circulando, Lê. Com os olhos — retruquei, erguendo a taça em um brinde silencioso. — E o champanhe está excelente. Só não me peçam para fingir que sei conversar sobre a flutuação do dólar ou sobre o tamanho do iate de ninguém. Minha cota de sociabilidade para pessoas que usam terno de três peças está quase no limite.

Helena devolveu a taça para Malu, cruzando os braços com aquela expressão de quem estava prestes a presidir uma reunião de diretoria focada no meu bem-estar emocional. O brilho radiante que ela trazia da pista de dança se transformou em um foco cirúrgico direcionado exatamente para mim.

— É sério, você precisa beijar alguém — Malu disparou, apoiando o queixo na mão com uma dramaticidade digna de novela das nove, como se estivesse propondo uma intervenção médica de urgência. — Eu estou olhando para você há duas horas. Você está uma deusa absoluta nesse vestido, a maquiagem resistiu à umidade do Rio de Janeiro, o seu cabelo está um escândalo, e a única coisa que você beijou a noite toda foi a borda dessa taça de cristal. Isso é um desperdício de fundos públicos, Lívia.

— Eu beijo pessoas — protestei, sentindo minhas bochechas esquentarem sutilmente sob a camada de base que Malu havia aplicado. Dei mais um gole no champanhe para disfarçar o impacto do comentário. — Eu tenho uma vida social. Quer dizer, eu tinha.

Helena arqueou uma sobrancelha, os braços ainda cruzados, o sorriso de lado denunciando seu ceticismo completo.

— Seu ex da faculdade não conta, gata. Isso foi o quê? Três anos atrás?

— Quatro — corrigi em um sussurro, olhando para o teto como se tentasse fazer as contas de cabeça, embora soubesse exatamente cada maldito dia daquela seca no deserto. — E eu escolho muito mal. Vocês sabem disso. Minhas escolhas românticas têm o mesmo nível de precisão de um cego jogando dardos no escuro.

— Exatamente por isso que você tem amigas — Malu abriu um sorriso afiado, os olhos castanhos brilhando com uma malícia divertida que me deu um frio instantâneo no estômago. — O seu critério de seleção está temporariamente interditado pela junta médica da amizade. Então não seja por isso. A gente escolhe para você.

— Nem pensem nisso — tentei dar um passo para trás, mas minhas costas bateram na pilastra de mármore. Eu estava encurralada pela força da natureza que eram aquelas duas juntas. — Eu não vou sair por aí abordando engravatados aleatórios. Eu sou uma profissional respeitável, mãe de família, e...

Antes que eu pudesse terminar de listar minhas desculpas perfeitamente racionais, Malu esticou o indicador, apontando discretamente por cima do meu ombro, na direção do bar principal que ficava no canto oposto do salão.

— Aquele ali.

Segui a direção do dedo dela, virando a cabeça de leve. O bar estava consideravelmente mais vazio agora que a maioria dos convidados tinha se concentrado perto do palco do leilão e da pista de dança principal. Sentado na banqueta do canto, quase camuflado pela penumbra projetada por uma das colunas, estava o alvo.

Encontrei apenas as costas largas de um homem sentado sozinho no balcão. Ele usava um terno de corte impecável, mas a camisa escura por baixo e a postura relaxada — com um dos cotovelos ao—ado na madeira escura e os dedos longos envolvendo um copo baixo de uísque — davam a ele uma aura de isolamento arrogante que cortava toda a cafonice do salão. Havia uma distância calculada entre ele e o resto do mundo.

— Aquele? — franzi a testa, espremendo os olhos para tentar captar qualquer detalhe útil. — Malu, nem dá para ver a cara dele. O sujeito está de costas. Ele pode ter noventa anos ou ser um bicheiro foragido da polícia.

— As costas dele não têm noventa anos nem aqui, nem na Itália — Helena interveio, esticando o pescoço para olhar também. Como o homem estava de espinhas para nós, a silhueta dele bloqueava a visão do rosto, impedindo que ela reconhecesse o próprio melhor amigo do namorado. — Aqueles ombros são estruturados, a postura é de quem manda em pelo menos três hemisférios e o corte de cabelo na nuca é impecável. Eu apoio a Malu. Ele tem cara de ser um gato por cima da média desse salão.

— Vocês estão delirando. O champanhe subiu para a cabeça de vocês duas — balancei a cabeça, rindo do absurdo da situação. — Eu não vou cruzar o Copacabana Palace para falar com as costas de um desconhecido.

Malu abriu a pequena bolsa de mão dourada com um estalo seco. Com uma lentidão teatral, ela enfiou os dedos bem cuidados lá dentro e puxou uma nota de cem reais, perfeitamente dobrada. Ela colocou a nota entre o indicador e o médio, estendendo-a na minha direção com um olhar de puro desafio.

— Cem reais que você não vai.

Olhei para la nota de cem reais brilhando sob a luz do lustre.

Cem reais.

Na minha mente pragmática de veterinária autônoma, aquela nota se transformou instantaneamente em duas latas da ração especial que o Thor precisava para a recuperação da cirurgia, ou em metade do pacote de fraldas premium do Téo que estava acabando. O luxo daquele salão podia pertencer ao Arthur e aos seus convidados bilionários, mas a minha realidade ainda funcionava na base do suor e do orçamento apertado.

Olhei para a Malu. Ela mantinha o queixo erguido, sabendo exatamente onde estava pisando. Olhei para a Helena, que cobria a boca com a mão, segurando o riso, claramente incentivando o caos.

Olhei de novo para o homem de costas no bar. Ele deu um gole lento no uísque. Os ombros dele se moveram minimamente sob o tecido escuro do terno caro. Ele parecia tão inalcançável, tão imerso no seu próprio universo cínico, que uma faísca de pura teimosia — misturada com o efeito acumulado das três taças de champanhe que eu tinha tomado rápido demais — acendeu no fundo do meu peito.

A deusa do espelho, aquela que Helena e Malu tinham esculpido duas horas atrás, resolveu assumir o controle dos meus movimentos.

— Pix agora ou depois? — perguntei, arquivando a timidez no fundo da gaveta e esticando a mão para pegar a nota de cem reais.

Malu puxou a nota de volta no último segundo, rindo alto.

— Depois que você voltar com uma prova material de que ele pelo menos te deu um fora educado. Vai, covarde.

Respirei fundo, sentindo o ar expandir o espartilho invisível do vestido azul-marinho. Ajeitei a postura, joguei os ombros para trás deixando o decote profundo das costas bem evidente, e dei o primeiro passo para longe da pilastra protetora.

Atravessei o salão com a confiança completamente falsa de quem já sabia que aquilo terminaria em um desastre homérico, mas com o queixo erguido de quem não tinha absolutamente nada a perder.

Cruzar a distância entre a minha pilastra de mármore e o balcão do bar principal pareceu uma maratona em câmera lenta. A cada passo que eu dava, o estalo do meu salto agulha contra o porcelanato reluzente soava, na minha cabeça, como um sinalizador de emergência. Algumas pessoas se moviam ao meu redor, fragmentos de conversas sobre a Bolsa de Valores e viagens para a Sardenha se misturando ao som abafado do jazz, mas meus olhos não se desviavam daquele terno escuro.

Quanto mais perto eu chegava, mais eu percebia o erro estatístico que estava cometendo. Aquelas costas não pertenciam a um homem comum. A postura dele, com os dedos longos tamborilhando de leve na base do copo de uísque, exalava o tipo de autoridade silenciosa que não precisa gritar para ser notada. Era o topo da cadeia alimentar daquele salão.

Quando finalmente parei a um passo da banqueta vizinha, a descarga de adrenalina limpou o último vestígio de névoa do champanhe. Percebi imediatamente que ele tinha cara de poucos amigos.

O maxilar era marcado, a linha da mandíbula tensa sob uma barba perfeitamente aparada, e os cabelos escuros estavam desalinhados na medida exata entre o desleixo e o estilo.

Bonito. Muito bonito.

O tipo de beleza que parecia intocável, quase cruel. E ele tinha, definitivamente, a expressão de quem poderia me mandar embora com uma única palavra fria, sem sequer piscar aqueles olhos verdes absurdamente intensos.

Minha garganta secou. O instinto de mãe solo, que me mandava recuar e evitar problemas desnecessários, gritou um alerta vermelho. Mas a nota de cem reais invisível na mão da Malu pesou no meu orgulho.

Apoiei uma das mãos na madeira escura e polida do balcão, inclinando o corpo de leve.

— Você está acompanhado?

Ele não se sobressaltou. Não mudou um milímetro da sua postura relaxada. Apenas ergueu os olhos devagar.

O tipo de olhar que parecia avaliar, catalogar e desmontar alguém em frações de segundos. Um olhar analítico, gélido, que percorreu o decote do meu vestido azul-marinho, subiu pela minha clavícula exposta e travou nos meus olhos castanhos com uma intensidade que me fez esquecer como se respirava.

— Não.

A voz grave, profunda e ressonante quase me fez esquecer o resto do plano. Ela vibrou direto na base da minha espinha, trazendo um arrepio que eu não sentia há anos.

Puxei o ar com força e sentei-me no banco de couro ao lado do dele, tentando manter a pose de deusa que a Helena tinha me jurado que eu tinha.

— Certo. Isso vai soar esquisito — avisei, cruzando as pernas e deixando a fenda do vestido fazer o seu trabalho, embora minhas mãos estivessem secretamente geladas.

Ele arqueou uma sobrancelha escura, ainda perfeitamente sério, mas o brilho daqueles olhos verdes mudou para algo parecido com uma curiosidade contida. Ele girou o corpo na minha direção, apoiando o queixo na mão.

— Promissor.

Inclinei o corpo na direção dele, reduzindo a distância entre nós para que o som da música não me obrigasse a gritar. O perfume dele me atingiu em cheio: notas amadeiradas, sândalo e couro. Um cheiro másculo, limpo e absurdamente caro.

— Fiz uma aposta — confessei, falando rápido para o caso de ele resolver me enxotar. — Preciso que minhas amigas, que estão bem ali na esteira daquela pilastra, acreditem que vim aqui descobrir se você é comprometido ou se tenho alguma chance.

Pela primeira vez desde que parei ali, o canto da boca dele ameaçou subir em um esboço de sorriso. Uma covinha quase imperceptível surgiu no canto do seu maxilar marcado. Ele ameaçou virar o rosto na direção da coluna onde Helena e Malu assistiam a tudo com as cabeças coladas.

— Não. Não olha — as palavras saíram espremidas por entre meus dentes, junto com um sorriso forçado que eu exibia para a plateia do outro lado do salão.

Isso o fez rir. Uma risada curta, rouca e de verdade, que fez meu estômago dar uma cambalhota ridícula e perigosa. O cinismo dele pareceu trincar por um segundo, revelando um charme avassalador.

— Levanta sua mão esquerda — pedi baixinho, mantendo os olhos fixos nos dele. — Mostra uma aliança. Qualquer coisa. Inventa um casamento.

Ele ergueu a mão esquerda devagar, os dedos longos e firmes totalmente expostos.

— Não uso nenhuma.

— Elas não conseguem ver os detalhes daqui, a luz está péssima. Me ajuda — implorei, sentindo que estava me enterrando cada vez mais naquele desastre.

Agora ele estava claramente se divertindo às minhas custas. O olhar dele brilhava com uma superioridade provocativa, como se estivesse prevendo cada um dos meus movimentos.

— E se eu não quiser ajudar? — ele perguntou, a voz descendo um tom, tornando-se perigosamente íntima.

— Então vou perder cem reais. E o meu orgulho. O que é consideravelmente pior.

Ele inclinou a cabeça para o lado, analisando meu rosto com uma lentidão que fez meu sangue pulsar mais rápido nas minhas artérias.

— Quanto disso é meu?

Soltei uma risada nervosa, ajeitando uma mecha de cabelo que tinha caído sobre o meu ombro.

— Vinte por cento.

— Negócio ruim — ele decretou, deixando o copo de uísque de lado.

Antes que eu pudesse formular uma tréplica inteligente ou recalcular a minha rota de fuga de volta para as meninas, ele se aproximou.

Muito.

Perto o suficiente para o tecido escuro do seu terno roçar na seda azul-marinho do meu vestido. Perto o suficiente para eu contar as nuances escuras nas suas pupilas verdes. O calor que emanava dele parecia uma força gravitacional.

— Tenho uma ideia melhor — ele murmurou, a voz sendo apenas um sopro quente contra os meus lábios.

E então ele me beijou.

Sem aviso. Sem hesitação. Sem pedir licença ou esperar que meu cérebro pragmático processasse a quebra abrupta do espaço que nos separava.

A mão dele, a mesma mão de dedos longos que segundos antes segurava o copo de uísque. subiu pela lateral do meu pescoço. O toque da palma da sua mão, morna e ligeiramente firme, espalmou-se contra a minha nuca, os dedos se enroscando nos fios soltos do meu cabelo semi-preso. O gesto não foi bruto, mas carregava uma posse tão natural e assertiva que arrancou um suspiro mudo da minha garganta no exato milésimo de segundo em que seus lábios tocaram os meus.

Foi um choque térmico na minha espinha.

O gosto do uísque turfado misturou-se ao calor da boca dele. Era um beijo rápido, firme e coreografado o bastante para convencer qualquer plateia à distância de que éramos dois amantes consumidos pela saudade no meio de um salão de gala. Mas, ao mesmo tempo, foi longo e profundo o suficiente para fazer cada uma das minhas sinapses cerebrais entrar em curto-circuito.

Esqueci a aposta. Esqueci a nota de cem reais na bolsa da Malu. Esqueci o Copacabana Palace, o leilão beneficente e os bilhões de dólares da Harrington Enterprise. Por aqueles segundos eternos, a veterinária exausta e a mãe solo cheia de culpas simplesmente evaporaram sob a pressão daqueles lábios que sabiam exatamente o que estavam fazendo. Havia uma eletricidade crua ali, uma urgência que fez minhas mãos agirem por puro instinto, espalmando-se contra o tecido caro do paletó dele, sentindo os músculos rígidos do seu peito sob o algodão da camisa escura.

Quando ele se afastou, o recuo foi lento. A pressão diminuiu milímetro por milímetro, mas a mão dele continuou espalmada na minha nuca por um segundo a mais, os dedos acariciando a minha pele arrepiada.

Meus olhos ainda estavam fechados. Minha respiração estava curta, errática, e o meu coração batia contra as minhas costelas com uma violência que eu não experimentava há anos.

— Acho que suas amigas acreditaram — a voz dele ressoou, carregada de uma diversão rouca e perigosamente baixa, bem perto do meu ouvido.

Abri os olhos devagar, piscando contra la luz dourada do bar que de repente parecia brilhante diante do contraste dos meus olhos castanhos. Minhas pupilas demoraram a focar no rosto dele. O maldito não tinha um fio de cabelo fora do lugar. O maxilar dele continuava marcado, mas os olhos verdes agora exibiam um brilho satisfeito e absurdamente charmoso. Ele sabia o estrago que tinha acabado de causar.

— Certo — consegui articular, a palavra saindo em um sopro. Puxei o ar com força, tentando recuperar o controle dos meus próprios membros antes que eu derretesse em cima daquela banqueta de couro. Soltei o ar devagar. — Certo.

Ajeitei a alça do vestido azul-marinho com as mãos trêmulas, tentando desesperadamente reerguer a armadura de mulher decidida que tinha desmoronado com um único toque.

— Então... por que eu continuo aqui? — perguntei, forçando uma ironia que eu claramente não tinha mais em estoque, enquanto indicava com o queixo o espaço entre nós.

O sorriso dele se alargou. Não era mais um esboço; era um sorriso real, aberto, que desenhou linhas finas ao redor dos seus olhos e fez meu estâmago dar mais uma daquelas cambalhotas ridículas. Ele inclinou o corpo ligeiramente para trás, apoiando o cotovelo no balcão outra vez, mas sem desviar o olhar do meu por um único segundo.

— Porque agora a próxima aposta é minha.

Prendi a respiração. A dinâmica daquela noite tinha virado completamente em menos de cinco minutos. Eu tinha entrado ali para ganhar cem reais e provar para mim mesma que ainda conseguia ser audaciosa, mas o homem de terno escuro tinha acabado de ditar um rumo completamente novo para nós dois.

Eu deveria ter levantado e corrido de volta para a segurança da pilastra de mármore onde Helena e Malu provavelmente estavam tendo um síncope coletivo. Eu deveria ter lembrado do bom senso, ou de qualquer que fosse a bolha de onde aquele cara cínico e solar tinha saído, e cortado o flerte ali mesmo. Mas o magnetismo dele era um labirinto perigoso, e o vestido azul-marinho parecia me dar uma coragem que não me pertencia.

— E qual seria a sua aposta? — desafiei, arqueando uma sobrancelha, deixando o perigo da noite nos conduzir para o que viria a seguir.