Fora de Protocolo - concluída
2 2. Beneficência Performática
Se existia um círculo específico do inferno reservado para mim, ele provavelmente se parecia muito com o salão principal do Copacana Palace naquela noite.
Luz âmbar estrategicamente posicionada para favorecer selfies de milionários em crise de consciência.
Taças de cristal tilintando numa sinfonia irritante. O cheiro de orquídeas importadas e o perfume excessivamente doce de herdeiras desesperadas sempre me causavam uma leve enxaqueca.
Eu odiava eventos beneficentes. Não pela causa, obviamente, a pesquisa e o tratamento do câncer infantil eram motivos nobres, mas pela performance. Para a fauna que habitava os salões do Copacabana Palace naquela noite, a caridade era apenas um acessório de grife. Uma camada sutil de verniz moral para justificar joias que poderiam financiar uma ala hospitalar inteira e taças de Cristal que nunca paravam vazias.
Girei o líquido dourado no meu copo de uísque, observando o salão através de uma lente puramente analítica. Ciência Comportamental de Oxford serve para muitas coisas, mas a melhor delas é estragar qualquer chance de você se divertir em um teatro social.
À minha esquerda, um diretor de fundos de investimento tentava manter a postura ereta enquanto sua linguagem corporal, o peso do corpo jogado para trás, a pupila dilatada, o toque constante na gravata, gritava que ele estava financeiramente sufocado. À direita, um casal de mecenas sorria para os fotógrafos da Vogue enquanto mantinham uma distância micro-métrica exata entre os ombros, o clássico sinal de um casamento de fachada mantido por um acordo de pré-nupcial agressivo.
— Se você continuar encarando o teto com essa cara de quem está calculando o preço do metro quadrado do inferno, as ações da Montserrat Air vão cair dois pontos amanhã — uma voz grave e divertida quebrou o meu transe.
Arthur Harrington se aproximou, perfeitamente alinhado em um smoking sob medida que faria qualquer alfaiate da Savile Row chorar de orgulho. Ele segurava uma taça de champanhe e exalava a calma irritante de quem tinha o controle absoluto de um evento de quinhentas pessoas.
— Estou apenas fazendo um estudo de campo, Harrington — respondi, sem sorrir, dando um gole curto no uísque. O gosto turfado e maduro era a única coisa genuína naquele raio de dez metros. — É fascinante como o altruísmo da elite carioca aumenta proporcionalmente ao tamanho das lentes das câmeras de fofoca.
— Você é um cínico, Gustavo — Arthur riu, ajeitando os punhos da camisa. — É um evento de gala. Sorria para as fotos, assine um cheque de seis dígitos no leilão silencioso e finja que você tem um coração. Ajuda na imagem pública da sua divisão de cargas.
— Meu coração está ótimo, obrigado. Os exames de esforço estão em dia. E a divisão de cargas vai muito bem sem que eu precise posar ao lado de uma socialite segurando um canapé de salmão.
— Falando em canapés... — Uma terceira voz se juntou a nós, arrastada, elegante e carregada de uma intimidade antiga.
Beatriz surgiu do nada, usando um vestido preto minimalista que custava o preço de uma asa de jatinho, mas que nela parecia apenas uma roupa confortável de ficar em casa. Ela pegou o copo de uísque da minha mão sem pedir licença e tomou um gole.
— Se eu tiver que ouvir a mãe do Gustavo explicar mais uma vez como a Fundação Montserrat mudou a vida daquelas crianças tão necessitadas, eu vou me atirar daquela varanda. Olá, querido. Você está com a sua pior cara hoje.
— Beatriz — cumprimentei, oferecendo um beijo protocolar no rosto dela. — Pensei que você estivesse em Paris.
— Eu estava. Mas o Arthur me prometeu que o leilão de hoje teria um relógio vintage da Patek Philippe que pertenceu a um barão de café falido. Vim competir com os idosos — ela piscou, cruzando os braços e se apoiando no balcão do bar ao meu lado. — E você? Veio procurar uma esposa aceitável para o clã Montserrat ou apenas cumprir a cota de herdeiro presente?
— Vim garantir que o Arthur não use o meu nome para inflacionar os lances do leilão — retruquei, sustentando o olhar dela.
Beatriz era uma das poucas pessoas naquele círculo que não me irritava por completo. Tínhamos um acordo silencioso de superficialidade inteligente: éramos ótimos acompanhantes para jantares enfadonhos, sabíamos manter conversas afiadas e nenhum dos dois tinha o menor interesse em complicar as coisas com sentimentos ou expectativas românticas. Uma ficante premium, como meus amigos idiotas da diretoria gostavam de chamar.
— Falando em convidados... — Arthur checou o relógio de pulso, um brilho visivelmente mais suave cruzando seus olhos pragmáticos de CEO. — A Helena deve estar chegando do lounge VIP. Ela mencionou que conseguiu arrastar uma amiga para cá hoje. Uma veterinária, eu acho.
Dei de ombros, terminando meu uísque.
— Uma veterinária em um baile da Harrington. Espero que ela tenha trazido paciência. Este lugar está cheio de cobras e tubarões.
— Você é o pior deles, Gustavo — Beatriz cantarolou, rindo. — Vou ao toalete retocar o batom antes que o leilão comece. Me pague uma bebida quando eu voltar.
Arthur assentiu com a cabeça para um dos assessores que acenava de longe e se afastou também, me deixando sozinho no balcão do bar principal. O barman, reconhecendo o padrão do meu silêncio, imediatamente reabasteceu meu copo com mais duas doses do single malt.
Fiquei ali, encostado contra a madeira escura, deixando o charme automático funcionar.
Três ou quatro mulheres de famílias influentes passaram por mim, lançando olhares deliberados, sorrisos ensaiados e inclinações de cabeça que eu conhecia de cor. Eu sabia exatamente o que dizer, o tom exato de voz a usar e a quantidade exata de dentes a mostrar em um sorriso para mantê-las interessadas, mas perfeitamente à distância. Era mecânico. Um algoritmo social que eu operava no piloto automático.
Até que a porta principal do salão lateral se abriu.
Eu não mudei de posição. Meu corpo não se mexeu. Mas meus olhos, treinados para escanear anomalias no ambiente, travaram no segundo em que ela cruzou o portal de entrada.
Ela estava sozinha.
Não havia ninguém ao lado dela, nenhuma amiga, nenhum acompanhante servindo de escudo. E, caramba, ela não precisava de um.
Ela vestia um azul-marinho denso, de uma seda pesada que parecia absorver a luz dourada e caótica dos lustres de cristal do salão. O decote nas costas era profundo, revelando uma extensão de pele oliva que brilhava com um contraste quase magnético contra o tecido escuro. O cabelo estava semi-preso, algumas mechas escuras caindo com uma sutilidade pelo pescoço, e a maquiagem destacava olhos que, mesmo de longe, pareciam intensos demais para aquele salão de plástico.
Mas não foi o vestido. Não foi o rosto de deusa. Foi a postura.
Diferente das outras mulheres ali, ela não estava desfilando. Ela não estava procurando fotógrafos. Seus ombros estavam alinhados, a cabeça erguida com uma altivez quase defensiva, e os dedos apertavam uma pequena bolsa de mão com uma força que denunciava que ela não pertencia àquele lugar e, mais importante, que ela sabia disso e não dava a mínima.
Ela deu três passos para dentro do salão, parou por um segundo e correu os olhos pelo ambiente. Havia um pragmatismo quase feroz no olhar dela. Nenhuma timidez. Apenas uma leitura fria, como um soldado inspecionando o território inimigo antes de decidir a melhor rota de fuga.
Meu copo de uísque parou a meio caminho da boca.
Tentei aplicar os filtros aprendidos em Oxford. Tentei ler a linguagem corporal dela para categorizá-la em uma das minhas gavetas mentais previsíveis. Insegurança mascarada? Orgulho ferido? alpinismo social?
Nada encaixava. Ela era uma variável completamente fora da minha equação. Uma força bruta vestida de seda fina que fazia todo o resto do salão parecer... borrado. Desfocado.
— Quem é ela? — murmurei para mim mesmo, os nós dos meus dedos pressionando o vidro do copo.
Eu não fui até ela. O protocolo e o meu próprio orgulho não permitiam que eu atravessasse um salão como um adolescente impressionado por um par de olhos bonitos. Mas eu não consegui desviar o olhar. Monitorei cada passo dela enquanto ela caminhava em direção à lateral do salão, completamente alheia ao fato de que, sob a luz daqueles lustres cafonas, ela tinha acabado de se tornar a única coisa real que eu tinha visto em toda a minha vida.
A orquestra contratada pela Harrington decolou para uma bossa nova estilizada com batidas de jazz eletrônico, o tipo de música que a elite carioca considerava "culta" o suficiente para embalar o início da noite. O salão principal começou a se mover, uma coreografia previsível de tecidos importados e sorrisos de dentes excessivamente brancos.
— Você ainda está na mesma posição, Montserrat. Se eu te empurrar, você cai feito uma estátua? — Beatriz reapareceu ao meu lado, o batom vermelho retocado com uma precisão cirúrgica. Ela olhou para o meu copo e depois para o meu rosto, erguendo uma sobrancelha. — Onde está a bebida que você me prometeu?
— O barman sabe o seu ponto, Beatriz. É só pedir — respondi, forçando meus olhos a se desviarem da lateral esquerda do salão, onde a silhueta azul-marinho tinha acabado de sumir atrás de uma das colunas de mármore. Uma pontada incômoda de frustração cutucou a base do meu cérebro. Eu não gostava de perder o rastro de uma anomalia.
— Você está insuportável hoje — ela bufou, com uma risada leve, e segurou o meu pulso livre. — Vem. Vamos dançar antes que a sua mãe me veja sozinha e tente me empurrar o seu primo que acabou de voltar de uma temporada de "auto-descoberta" em Bali. Eu prefiro o seu cinismo de Oxford à cafonice espiritual dele.
Deixei o copo de uísque quase intocado no balcão de madeira. Segurei a mão de Beatriz e a conduzi até a borda da pista de dança, onde o fluxo de pessoas era menos denso.
Eu me movia no automático. Ciência Comportamental ensina que a dança social nada mais é do que uma extensão da demarcação de território e validação de status. Beatriz encaixou a mão no meu ombro com a familiaridade de quem dividia lençóis e conversas ácidas de forma esporádica nos últimos dois anos. Ela tinha um ritmo impecável, o perfume caro exalando a cada giro, mas a minha mente operava em uma frequência totalmente diferente.
— O que aconteceu com o seu foco, querido? — Beatriz perguntou, os olhos semicerrados enquanto me acompanhava em um passo lento. — Você está me olhando, mas não está me vendo. Quem é ela?
— Ela quem? — Devolvi, mantendo o tom de voz perfeitamente modulado, desprovido de qualquer pista.
— Ah, por favor. Eu conheço essa sua expressão de "calculadora humana". Você faz essa cara quando está prestes a comprar uma empresa falida ou quando encontra um quebra-cabeça que não consegue resolver com as suas teorias comportamentais. Cadê a novidade do salão?
— Você está imaginando coisas, Beatriz. É só o cansaço da malha aérea da Montserrat. Tivemos uma semana difícil na diretoria.
— Mentiroso — ela riu, encostando a cabeça de leve no meu peito por um segundo antes de se afastar para um giro. — Mas tudo bem. Eu guardo os meus segredos, você guarda os seus. É por isso que a gente funciona.
Eu sorri de lado, mas o sorriso não chegou aos meus olhos. Olhei por cima do ombro dela, escaneando os casais, as mesas VIPs, o lounge ao fundo. Nada. A mulher do vestido azul-marinho parecia ter evaporado. Uma parte de mim — a parte analítica, fria e arrogante — tentou me convencer de que era melhor assim. Eu não precisava de distrações fora do roteiro. Minha vida era milimetricamente planejada entre a holding, os voos e a manutenção de uma fachada aristocrática aceitável para o meu pai.
A música terminou com um acorde suave de piano. Beatriz se afastou com um aceno elegante de cabeça, limpando uma mecha invisível do meu terno.
— Obrigada pela dança, Montserrat. Agora vou ali falar com a Clara antes que ela arremate aquele colar de esmeraldas horroroso no leilão. Nos vemos mais tarde? Na sua cobertura ou na minha?
— Deixe o canal aberto. Eu te ligo — respondi, usando o meu charme protocolar de sempre.
Ela piscou, sabendo exatamente o que aquilo significava: talvez sim, talvez não, e nenhum dos dois se importaria com a resposta. Beatriz se misturou à multidão, deixando-me exatamente onde eu queria estar.
Sozinho.
Apertei o passo de volta para o bar principal, escapando de uma abordagem iminente de um secretário de estado que claramente queria discutir subsídios de combustível para a Montserrat Air. Sentei-me na banqueta alta do canto, a mais isolada, onde a luz do lustre não batia diretamente.
Apoiei os cotovelos no balcão e esperei o barman trazer um copo limpo com gelo translúcido e uma nova dose do single malt. O salão ao meu redor continuava com o seu ruído de fundo irritante — risadas ensaiadas, o tilintar de talheres de prata, o farfalhar de sedas caras.
Eu estava de volta à minha fortaleza de tédio. Mas, pela primeira vez em muito tempo, a fortaleza parecia desconfortável. Meus olhos teimavam em voltar para a entrada do salão, esperando, contra toda a minha lógica e ceticismo, que a tempestade azul-marinho cruzasse aquela porta outra vez.
O barman depositou o copo limpo na minha frente com um aceno silencioso. O gelo translúcido, esculpido em uma esfera perfeita, flutuava no líquido âmbar, derretendo milímetro por milímetro. Peguei o copo, mas não bebi. Fiquei apenas sentindo o frio do vidro contra a palma da minha mão, usando o estímulo físico para ancorar meus pensamentos enquanto a elite carioca continuava seu desfile performático ao meu redor.
Olhei para o relógio de pulso. Quase meia-noite.
A ideia de ir embora começou a ganhar força na minha mente, pesada e convidativa. Minha cobertura na Avenida Atlântica, com o silêncio quebrado apenas pelo som das ondas do mar e a ausência completa de hipocrisia social, parecia um refúgio infinitamente mais atraente do que aquele salão. Eu já havia cumprido minha cota de herdeiro. Minha mãe já tinha me visto circular, os fotógrafos já tinham os registros necessários para as colunas de negócios do dia seguinte, e os acionistas da Montserrat Air podiam dormir tranquilos sabendo que o CEO interino não tinha causado nenhum escândalo diplomático.
Eu estava prestes a virar o uísque e sinalizar para o motorista trazer o carro até a portaria quando meus olhos cortaram a pista de dança e travaram em uma cena que me fez pausar.
Arthur e Helena estavam dançando.
Afastei o corpo do balcão, observando-os com uma atenção que eu raramente dedicava aos casais daquele salão. Eles se moviam em um ritmo próprio, completamente alheios à formalidade rígida do evento da Harrington Enterprise. Arthur, que normalmente operava com a coluna tão ereta que parecia carregar o peso de toda a holding nas costas, estava com os ombros relaxados. A cabeça dele estava inclinada na direção de Helena, um sorriso genuíno — largo, aberto, sem a blindagem diplomática de CEO — iluminando seu rosto.
Helena dizia algo em seu ouvido, gesticulando com aquela vivacidade natural que parecia oxigenar qualquer ambiente por onde passava, e Arthur soltou uma gargalhada limpa, o som se perdendo no ruído da orquestra. Ele a girou na pista, e a forma como a segurava pela cintura, com uma proteção firme, mas absolutamente confortável, dizia mais sobre o estado mental dele do que qualquer análise comportamental minha seria capaz de decifrar.
Um canto discreto da minha boca se ergueu em um sorriso quase imperceptível.
Fiquei genuinamente feliz pelo meu amigo. Arthur e eu compartilhávamos o mesmo tipo de fardo: herdeiros de impérios construídos por pais implacáveis, criados em salas de reunião antes mesmo de entendermos o que era infância, treinados para ler balanços financeiros como se fossem poesia. Eu sabia exatamente qual era o peso da armadura que Arthur carregava todos os dias. Sabia o preço de manter o sobrenome estável no mercado internacional.
Mas ali, com os braços ao redor de Helena, Arthur parecia... leve. Sem o peso morto da obrigação. Sem o fantasma do patriarca julgando cada movimento. Helena o tinha colonizado por completo, e a verdade é que isso tinha sido a melhor coisa que poderia ter acontecido com o maior pragmático da Zona Sul. Ela tinha arrancado a armadura dele sem que ele sequer percebesse a perda do metal.
Pelo menos um de nós conseguiu quebrar o script, pensei, dando o primeiro gole real no uísque, sentindo o calor queimar minha garganta.
Voltei a me isolar na banqueta do bar, a melancolia cínica reassumindo o controle. Eu duvidava que o mesmo algoritmo de leveza funcionasse para mim. Minhas equações eram exatas demais, minhas defesas, altas demais. Eu não tinha espaço para o imprevisto.
Bati o fundo do copo contra o balcão de madeira escura, a decisão tomada. Chega de teatro por hoje. Eu ia embora.
Foi exatamente nesse milésimo de segundo que o perfume dela chegou primeiro. Um aroma sutil de jasmim e algo cítrico, cortando o cheiro pesado do salão.
Antes que eu pudesse me virar, uma silhueta azul-marinho deslizou para a banqueta vazia exatamente ao meu lado.
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