“Chega de ser tão infantil! É hora de crescer!” Ela estava cansada de ouvir frases desse tipo de seus pais. Não que fosse criança, muito pelo contrário. Tinha 19 anos, mas aparentava 16; saia com suas colegas (apesar de que preferia ficar em casa), e era bastante estudiosa. Talvez por ela ser um pouco distraída, seus pais ficaram um pouco receosos quando ficaram sabendo que ela queria cursar uma faculdade na capital, distante mais de duzentos quilômetros da cidade em que moravam. Mas ela também estava receosa, mas por saber que iria passar meses longe de seus poucos amigos... de pessoas como ela...

Ela era uma otaku, e já estava acostumada com certa discriminação. Ao se mudar, levava duas grandes malas, onde se escondia uma grande coleção de mangás. E, de fato, foi o que salvou o seu primeiro mês na capital de ser uma completa tragédia. Seus novos colegas da faculdade não lhe davam muita bola, e quando chegava no local onde estava morando era pior. Até enquanto dormia passava por maus bocados.

Ela levou quase um mês para descobrir o que estava acontecendo, e, quando descobriu, a primeira coisa que fez foi arrumar as malas, e procurar outro lugar pra morar. Com sorte, ela encontraria uma república com vagas. O problema era que já era Abril, então qualquer coisa servia. Quando finalmente encontrou um lugar, após dois dias de busca, ela se mudou imediatamente, esperando não ter que dividir uma casa com um bando de estudantes alcoólatras.

Sendo assim, não sabia o quanto estava com sorte (?).

Ela chegou ao local, bastante abatida, não só pelos últimos acontecimentos, mas também pelo cansaço, já que não podia se dar ao luxo de dormir em paz. Era uma casa razoavelmente grande, sua fachada em vermelho e branco, muito bem conservada, contrastava com a idéia que tinha de uma república, apesar de que era mais difícil avaliar com aquela penumbra de fim de tarde. Um tanto quanto nervosa, tocou a campainha.

Uma jovem abriu a porta. Parecia ser bastante jovem, seus longos cabelos castanhos, juntamente com um olhar azulado bastante sonhador, tornaram aqueles primeiros instantes naquela casa ainda mais nauseantes (esse rosto não lhe era familiar?)

—Ah, você deve ser a nova moradora, pode entrar!

O lado de dentro da casa era bastante diferente. Consideravelmente desarrumada, havia restos de comida e apostilas jogadas em diversos cantos, dividindo espaço com a poeira. A única surpresa era a ausência de qualquer evidência de bebidas no meio dessa bagunça, o que a deixou levemente otimista. Enquanto isso, a garota que a recepcionava perguntou:

—Já ia me esquecendo de perguntar, qual o seu nome?

—Fabíola

Sentia-se levemente desconfortável ao dizer seu verdadeiro nome; somente seus pais e professores a chamavam assim. Seus cabelos curtos, loiro-acinzentados, além do corpo magro, logo lhe renderam um apelido entre seus amigos otakus, que ela gostava de usar como se fosse seu nome: Ayanami, por semelhança com a personagem homônima de Evangelion. Lembrar-se disso, olhando para sua futura colega, machucava um pouco mais, pois agora ela sabia porque havia achado seu rosto tão familiar...

—Prazer, sou Daniele, pode me chamar de Dani... você está bem?

Era óbvio que não estava, o rosto de Ayanami já denunciava. Mas o cansaço superava qualquer tristeza ou saudade que estava sentindo

—Só um pouco cansada... acho que preciso dormir um pouco...

—Está bem, deixe só eu lhe mostrar a casa e você pode dormir

—Me mostre somente aonde tem uma cama, amanhã você me mostra o resto...

—Está bem, então...

Talvez se não estivesse tão cansada, teria tentado prestar atenção no quarto onde iria dormir, mas o sono acumulado a derrotara.

Ayanami acordara somente no dia seguinte. Depois de finalmente descansar, ela estava bastante lúcida, apesar de achar que ainda estava sonhando. Era um quarto simples, com uma decoração inusitada que abafava o excesso de cor-de-rosa na pintura. Cada canto do quarto estava atulhado de coisas relacionadas a animes. Desde os pôsteres de Chobits na parede, passando por uma pilha considerável de mangás, seus olhos acabaram pairando sobre um báculo sobre a cama. Era idêntico ao usado por Sakura no anime CardCaptor Sakura. De fato, apenas uma máquina de costura, situada entre as duas camas do quarto, parecia não combinar com a decoração. Ayanami beliscou-se, a dor que sentiu era bastante real para que aquilo fosse um sonho. Ela levantou-se, ia procurar saber quem era sua companheira de quarto, porém ouviu algumas vozes antes de abrir a porta do quarto, e decidiu escutar a conversa.

—Por isso, tentem se controlar, pelo menos nos primeiros dias — Era, sem dúvida, a voz de Dani

—Como se fosse fazer diferença, agora que ela está dormindo no seu quarto... — uma voz masculina respondeu — um quarto completamente normal!

—Isso não quer dizer nada — outro rapaz comentou — Ela pode pensar que aquele quarto era de uma criança pequena...

—É isso que vocês pensam? — Dani tomou a palavra — Que ser assim é anormal? Infantil? Só o que quero é evitar que ela vá embora como a Mônica...

—Ah, claro — o primeiro rapaz respondeu — Se ela não tivesse um comportamento tão anti-otaku conosco...

Ayanami recuou uns dois metros da porta. “Então era isso”, pensou. “eles estão com medo que eu não aceite eles por serem otakus...”. Na verdade, era o mesmo receio que Ayanami tinha deles... Em vez de se apresentar, porém, resolveu brincar um pouco com eles.

Ela saiu do quarto, e reparou que havia quatro pessoas conversando, próximas a porta. Eram dois rapazes e duas meninas — uma delas era Dani., que logo falou

—Bom dia! Dormiu bem? Descansou?

—O suficiente pra tomar a decisão certa. Vou embora daqui.

—O que houve? — Dani não se surpreendeu com a atitude, mas sim com o pouco tempo que ela havia agüentado

—Não vou fingir que não ouvi a conversa de vocês. Se é pra morar com um bando de anormais, melhor procurar outro lugar... — Ayanami fazia cara de séria, mas rolava de rir por dentro

—Não precisa ofender — um dos rapazes retrucou — e desde quando gostar de algo diferente é anormal?

—Posso lhe mostrar? — não esperou a permissão, entrou no quarto, pegou o báculo de cima da cama, além de uma de suas raridades na mala, o volume 1 de Love Hina, em japonês, e voltou para o corredor, jogando ambos para Dani — Isso deve bastar, não?

—Acho que... — Dani fitava Ayanami, mas só compreendeu quando reparou qual era o mangá que estava em sua mão — Ei, isso aqui uma raridade, estou a dois meses procurando um desses e não acho em lugar nenhum!

—Só mais uma pergunta: — Ayanami tomou a palavra uma última vez, finalmente abrindo um sorriso — Vocês não levaram a sério esse meu teatrinho, levaram?

Não fora a reação que esperava. As duas meninas foram até ela, e começaram a conversar, mas os rapazes simplesmente viraram as costas, sentindo-se ofendidos.

Se fosse possível definir em uma única palavra os seus colegas da casa, seria “diferente”. Cada um tinha gostos pessoais diversos, apesar de todos eles serem otakus em maior ou menor grau. A primeira pessoa com quem Ayanami se enturmou, antes até mesmo de Dani, foi Lara, que em geral fazia a casa estremecer, não por ouvir música alta, mas por pular no ritmo dela. Ela era fã de simuladores de dança, como Pump it Up! e Dance Dance Revolution, e a casa tremia enquanto ela treinava

Mais difícil, porém, foi se enturmar com os rapazes. Ayanami decidiu esperar um pouco antes que Dani a apresentasse a eles, mas mesmo isso não foi o suficiente para tirar o azedume da cara deles

—Esse aqui é o Thiago, mas ninguém o chama pelo nome — Dani apresentava a ela um dos rapazes

—Pode me chamar de Sasuke — ele completou

A primeira impressão que Ayanami teve era que o apelido não encaixava. Ao contrário do personagem homônimo de Naruto, ele era bastante alto, tinha cabelos castanho-claros, não muito curtos, e um corpo bastante magro.

—Muito prazer, pode me chamar de Ayanami — ela respondeu

—Bastante sugestivo... — Sasuke comentou, antes de virar as costas e entrar em seu quarto.

—Por que o chamam de Sasuke? — Ayanami ficara curiosa

—Não faço idéia, ele veio pra cá com apelido feito. — Dani respondeu — Mas acredito que esteja meio óbvio, já que ele é sempre desse jeito...

—Tem razão, foi uma pergunta idiota...

Enquanto desciam as escadas (a casa era de dois andares), Ayanami teve um momento mais tenso. Quase trombou com Lara ao pé da escada. Quase um palmo mais baixa que as duas, seus cabelos ruivos davam um ar ainda mais irritado a sua expressão, que não era muito feliz naquele momento

—Venha, deixa eu lhe apresentar o Leon — Dani comentou, tentando ignorar a passagem de Lara

—Não é por causa dele que ela está com raiva, é?

—Provavelmente... Os dois vivem brigando por causa do videogame, que é dele, mas ele tem a desvantagem de morar no quarto abaixo do dela, por causa...

—... dos ensaios de dança. — Ayanami completou, enquanto imaginava como seria tentar dormir com o teto de seu quarto retumbando — Como que ele agüenta tudo isso?

—Não é tão ruim quanto pode parecer, pelo menos pra ele. Eu acho que ele gosta dela, e só tenta chamar a atenção dela. Claro que não tem dado resultado, como você deve ter visto...

As duas se aproximaram da televisão. Em frente a ela, estava um rapaz sentado, com o controle de seu Playstation na mão. Como era de se esperar, ele não deu a mínima atenção a elas enquanto não foi interrompido por Dani, que o cutucou

—Dá pra você largar desse vício por alguns segundos?

—O que foi? — ele respondeu, pausando o jogo, porém sem olhar para elas

—Ayanami, esse é o Leon. Leon, essa é Ayanami, a nova moradora...

—Como se eu não já soubesse... — Leon rebateu, voltando a jogar

Ayanami prestava atenção na tela da televisão. Era um jogo razoavelmente antigo, Final Fantasy VII. A semelhança com o personagem principal, Leon Squall, era evidente. Alto, não muito corpulento, seus cabelos castanhos e expressão séria o faziam mais parecido ainda, o que deixou Ayanami com uma curiosidade

—Só uma pergunta: Leon é o seu nome ou é só um apelido?

Leon pausou o jogo, e, pela primeira vez, olhou para ela. Sua expressão era de quem adoraria dar uma resposta mal-educada, mas a presença de Dani talvez o tenha feito se contentar com outra pergunta.

—Faz alguma diferença pra você?

E quando todos pensavam que Leon iria voltar a jogar, ele simplesmente desligou o video-game e foi para seu quarto.

—Ele é sempre assim? — Ayanami perguntou

—Ele costuma ser mais simpático — Dani respondeu — Deve estar de mau-humor por causa de você e da Lara...

—Então... Somos só nós cinco aqui?

—Somos seis. Ainda tem o Bakura, mas ele não está em casa

—Está estudando?

—Considerando o perfil do pessoal daqui de casa, o que você acha? Ele deve ter ido jogar seus card games, com sempre faz. Por isso o chamamos de Bakura, ele é obcecado por Yu-gi-oh e afins...

—Entendo...

—Só mais uma pergunta: Por que você veio pra cá só agora? Você morava com quem antes?

O rosto de Ayanami voltou a demonstrar a mesma tristeza do dia anterior, quando ela havia acabado de chegar. Dani percebeu, e completou

—Não precisa responder se não quiser...

—Outro dia, eu acho... — Ayanami encerrava o assunto — Quando eu estiver preparada pra contar, eu te conto.

Uma semana havia se passado desde a chegada de Ayanami. Ela percebeu que, durante a semana, aquela casa parecia uma república estudantil como qualquer outra: Trabalhos, provas, bastante estudo. Um pouco de descontração nas horas vagas, mas não era via de regra. Porém, nos finais de semana (às vezes iniciados na sexta-feira à tarde e terminados na madrugada de segunda-feira), aquela casa era uma bagunça otaku, quase como se fosse um evento de anime que acontecesse lá todo fim de semana.

Mas o primeiro fim-de-semana após a sua chegada não seria esquecido tão cedo por ela. Passara o sábado no quarto de Lara, aproveitando que ela estava disposta a ensiná-la a dançar nos simuladores. Infelizmente para Leon, Ayanami não teve dificuldades; Lara elogiou várias vezes o desempenho dela, dizendo que ela tinha jeito para a coisa, e que poderia ser uma excelente jogadora com um pouco mais de treinamento — apesar de que, na verdade, não dava pra saber, já que jogavam por uma versão de imitação que Lara conseguira, e só iriam ver se era verdade quando fossem jogar pra valer em algum fliperama (lógico que Lara não mencionou isso). Quando cansou, Ayanami voltou para seu quarto, onde encontrou Dani sentada à máquina de costura. Perguntou algumas vezes o que ela estava preparando, sem obter uma resposta direta.

Ela só foi descobrir o que era no dia seguinte, quando levou um dos maiores sustos de sua vida: a primeira coisa que viu quando acordou foi a personagem Sakura, de CardCaptor Sakura. Em outras palavras: era Dani, que usava um cosplay tão perfeito que parecia que a personagem havia saído das páginas do mangá. Só que Ayanami nunca havia ido a nenhum evento de anime, e, portanto, não sabia o que era um cosplay. Foram alguns minutos de confusão, mas acabou que Ayanami ficou com vontade de fazer um cosplay para ela também, e passou a manhã inteira conversando com Dani e fazendo planos, já que haveria um evento grande na cidade em cerca de um mês.

Durante a tarde, resolveu sair pra conhecer melhor a vizinhança. Chegando a uma praça a menos de cinco minutos da casa, encontrou alguém que nunca imaginava encontrar naquelas condições: Bakura. Seus cabelos curtos e negros contrastavam com os do personagem de Yu-Gi-Oh; além disso, era bastante baixo, e não muito magro. Seu olhar era triste, parecia fraco segurando a maleta em que carregava suas cartas, ainda mais sozinho naquele banco de praça.

—Oi, Bakura, o que está fazendo aqui? — Ayanami perguntou, sentando-se ao seu lado

—Cancelaram a mesa de RPG de hoje, o organizador está doente...

—E porquê você não volta pra casa?

—Pra ficar escutando as brigas entre Leon e Lara? Pra ver a Dani se gabar agora que ela terminou outro cosplay? Não, obrigado, prefiro ficar sozinho...

Ayanami resolveu pensar um pouco antes de continuar a falar. “Será que é exagero dele?”, pensou

—Você não se dá muito bem com eles, pelo visto... — ela perguntou

—Não é isso... Pra você acredito que seja tudo uma novidade, mas eu já estou de saco cheio... Eles acabam sendo tão infantis que me chateiam!

—Pensei que você também fosse otaku...

—Não me chame assim! Talvez você não saiba, mas ser fã de animes é completamente diferente de ser otaku; só esses últimos que são infantis, acham que a vida deles é um anime...

—Não sabia disso

—A palavra otaku, em japonês, significa fanático, obsessivo, mas aqui no Brasil se usa pra rotular o fã de animes em geral. Muita gente não sabe desse significado ofensivo, e usam a palavra pra se auto-rotular.

—Acho que entendi...

—Por isso que não gosto que me chamem de otaku, seria como me comparar a Dani, que não consegue ter vida social com pessoas que não tenham os mesmos gostos que ela. Queria que você tivesse visto o que aconteceu com a última moradora antes de você, as duas viviam brigando por causa dos gostos de cada uma, até que um dia as duas brigaram pra valer.

—Então foi isso? E os outros acabaram defendendo a Dani em vez da outra menina?

—Exato, e é por isso que os acho tão infantis. Babaquice, em minha opinião, então eu prefiro me isolar...

Ayanami baixou a cabeça. Tinha apenas uma semana de convivência com eles, mas já concordava com muita coisa que Bakura lhe falou. Ela adoraria continuar a conversa, mas devido a discussão, acabou se lembrando de seus pais, que sempre a criticavam. Achou melhor arrumar uma desculpa e ir embora.

—Acho que já vou pra casa, quero ver se adianto um trabalho da faculdade...

—Está bem, eu vou ficar, mas antes queria te pedir um favor

—Pode pedir, se for algo que eu possa fazer...

—Só quero que você não comente com ninguém que a gente se encontrou, nem que conversamos sobre isso

Ayanami achou melhor não perguntar os motivos, apenas concordou. Após levantar-se e começar a andar de volta para casa, ela pensava no quanto aquele dia estava sendo estranho. Só que ela não sabia que ainda iria piorar

No momento em que chegou em casa, encontrou os outros quatro na sala. Sasuke havia encontrado um anime novo na Internet, um tal Zero no Tsukaima, e gravou em DVD para mostrar aos colegas. Ayanami sentou-se com eles para assistir, mas não notou a estranheza de encontrar todos em casa naquele domingo a tarde

Bakura só voltou uns quarenta minutos depois, mas não se juntou aos companheiros, foi direto para o seu quarto. Assim que abriu a porta, porém, deu meia volta e puxou a tomada da televisão, desligando-a

—Quero explicações. Venham comigo! — Bakura estava sério, aparentemente com raiva

O rosto dos cinco mostrava a surpresa que tiveram. Só entenderam o motivo da raiva de Bakura quando eles viram o que havia no quarto dele.

—Só vou perguntar uma vez: Quem foi que fez isso?

Aquele quarto estava uma baderna completa. Roupas e calçados estavam jogados pelo chão, livros de estudo e de RPG estavam arreganhados, alguns com páginas rasgadas. Mas o que realmente chamava a atenção era uma caixa de acrílico que estava sobre a escrivaninha. Dentro dela, estava o que havia sobrado das cartas que ele havia deixado em casa. A caixa estava com chamas até a boca, onde algumas cartas que ainda não haviam sido completamente destruídas ainda queimavam. Sobre a cama, havia um envelope pardo, com a figura de Bakura, o personagem de Yu-Gi-Oh. Dentro deste, havia uma única carta de card game, em que havia um texto que fora destacado com caneta vermelha: “O fogo encontra sua forma no calor da forja”

Todos ficaram em silêncio. Não havia nada que pudesse ser feito ou dito.

Ayanami recordava os fatos daquele fim de tarde. Fora no final de semana anterior, mas as lembranças daquela chama ainda estavam vivas... Ela não se lembrava de como não passaram a noite inteira discutindo quem era culpado. Bakura não se importou tanto quanto havia parecido, já que a perda que teve iria demorar pra ser recuperada; ele acabou preferindo arrumar a bagunça que ficou em seu quarto do que comprar uma briga com o resto da casa. De qualquer forma, o crime fora bem planejado, já que não havia provas que incriminassem alguém. Até o ar-condicionado do quarto dele foi ligado, para evitar que percebessem a fumaça que o “incêndio” causava.

Talvez por esse assunto acabar não sendo debatido, aquela semana fora horrível para Ayanami. Por ser a única moradora nova, ela era a principal suspeita, e acabou sendo evitada durante toda a semana que passou (exceto por Lara, mas mesmo ela agora falava bem menos com Ayanami). Enquanto ninguém falava com ela direito, percebia que Bakura era quem mais suspeitava dela, por conta da discussão no parque. Apesar disso, ele nunca iria mencionar o encontro que tiveram, de modo que, para os outros, aquela suposição era bastante vaga.

Pessoalmente, porém, não era difícil perceber que o comportamento de alguns na casa mudaram ligeiramente. Dani, por exemplo, parecia mais empolgada que de costume. Dois dias antes do incidente, mencionara a Ayanami que “não suportava os olhares de reprovação que Bakura lhe dava”. Talvez estivesse até contente, como se fosse uma vingança anônima pelo que ele pensava dela. Já Leon, que gostava de estudar durante a noite, agora ficava na sala, jogando videogame por horas a fio. Lara passava a pular mais do que de costume, e Sasuke compensava, colocando o som no último volume para abafar os ruídos. Devido a isso, discussões irrompiam a cada momento, uns culpando os outros pelo ocorrido...

Ayanami voltara bruscamente ao presente quando Sasuke cutucou seu ombro. Eram cinco horas da tarde, e ela ainda não havia comido nada. Com tantas preocupações, até a fome lhe havia abandonado.

—Vem, come alguma coisa antes que você tenha que ir pro hospital por inanição...

Não havia como recusar, Ayanami levantou-se da mesa de estudos (onde passou o dia sentada e sendo evitada) e o acompanhou até a cozinha. Talvez, em condições normais, ela não teria estranhado tal preocupação.

Sobre a mesa da cozinha, dois pratos com sanduíches. Ayanami imediatamente percebeu que Sasuke queria dizer algo para ela. Passaram uns cinco minutos em silêncio, comendo, ela esperando ele começar a falar, ele sem coragem de começar. Mas ela não chegaria a saber o que ele tinha a dizer, pois quando ele abria a boca pra começar a falar, ouviu-se um grito vindo da sala. Ambos correram ver o que acontecera, e encontraram Lara olhando horrorizada para o exato local onde Ayanami estava sentada minutos antes.

Havia duas jarras de vidro sobre a mesa. A da esquerda continha um líquido amarelado de cheiro forte (seria querosene?), e em seu fundo estava preso um pequeno cartão preto, reconhecido quase que imediatamente como sendo pertencente a Leon. Esse cartão tinha como utilidade gravar o avanço nos jogos de videogame; porém esse em questão havia sido destruído, pois havia sido recortada em sua superfície uma forma vazada de uma chama. A segunda jarra continha um líquido transparente, provavelmente água, e em seu fundo estava um mp4 player, de Lara, que devido a água não funcionaria mais. Sob cada jarra, um envelope pardo. O da esquerda continha uma figura de Leon Squall, o personagem do jogo Final Fantasy VII, e o da direita uma menina que Ayanami não conhecia, mas que era bastante parecida com Lara

—O que houve aqui? — Dani perguntou de seu quarto, abrindo a porta e colocando o rosto para fora

—Venha para cá — Lara berrou, enquanto Leon e Bakura se juntavam a eles

Todos olhavam uns para os outros; Lara pegou o envelope direcionado a ela, mas não teve coragem de abri-lo

—Que confusão é... — Leon, ao ver as jarras sobre a mesa, nem precisou terminar a pergunta, apenas berrou uns palavrões e pegou o envelope dele, abrindo-o. Dentro dele, uma folha de papel, com a frase: “The Fire Emblem is now in the right place” (tradução: O Emblema do Fogo está agora em seu devido lugar)

—Mais um ataque, não foi? — Dani acabara de descer as escadas, enquanto via a confusão

—Um não, dessa vez foram dois! — Sasuke respondeu

—Ei, Lara, o que escreveram no seu envelope? — Leon perguntou

—Ainda não abri... mas acho que tenho que fazer isso... — Com um olhar de tristeza, ela abriu seu envelope. Dentro, uma folha de papel, com um trecho de uma música em inglês
“Just hold me once again in your arms
I’m here with vain hope, with no proof that you heard me
Once again, we sit in silence
Could take us back where we used to be?”

(tradução: Segure-me em seus braços só mais uma vez / Estou aqui com esperanças vãs, sem ter provas de que você me ouviu / Mais uma vez, nos sentamos em silêncio / Poderia nos levar de volta aonde costumávamos estar?)

—Só pode ser brincadeira! — Lara comentou após ler a mensagem

—O que foi? — Bakura indagou

—Essas mensagens não são aleatórias! Você gosta de card games, e sua mensagem veio através de uma das cartas. Já esse trecho aqui é de uma música das máquinas de dança... — Lara explicava, mas foi interrompida por Leon, que completou o raciocínio

—E Fire Emblem é o nome de um jogo de videogame!

—Plenária! Agora! — Dani indicava as cadeiras, sabendo que aquele assunto iria longe...

Anoitecera. Estavam todos sentados havia algumas horas, olhando entre si, discutindo, porém longe de chegar a alguma conclusão. Pontuada por acusações levianas, a discussão estava sendo completamente improdutiva, já que todos tinham álibis...

—Vamos pensar em uma hipótese diferente, dá pra supor que isso seja obra de mais de uma pessoa? — Lara lançou

—Corta essa! Já não está difícil de achar um culpado, e você quer encontrar dois? — Dani respondeu com um leve sarcasmo — E antes que você suspeite de mim de novo, eu estava justamente com você, Lara, pedindo pra parar de fazer tanto barulho...

—Mas isso foi quase uma hora antes, a hora que eu encontrei a sucata do mp4 você já tinha sumido faz um tempo...

—Chega de ficarem se acusando! — Leon tomou a palavra — Vamos tentar fazer algo útil, como discutir o prejuízo...

—Eu dispenso a minha parte! — Bakura comentou — Se eu fosse querer cobrar aquelas cartas e dividir pelos seis, seria quase que mendigar

—Já esse mp4 player nem existe mais pra vender. — disse Lara — O problema é que perdi todos os dados que tinha nele

—Tinha algo importante nele? — Ayanami perguntou

—Eu ia usá-lo na máquina de dança, descobri como hackear ela pra liberar mais músicas, não é o tipo de coisa que dá pra deixar uma cópia guardada no computador...

—Se é assim, não existe prejuízo financeiro, —completou Leon — já que eu tenho outro memory card. Só perdi os dados que tinha nele, ou seja, vou ter que começar os jogos novamente

—Será que a intenção era essa mesmo? — Bakura perguntou — Causar danos morais e não materiais?

—Eu acredito mais em que isso tenha sido um engano de quem fez isso... — Ayanami sugeriu

—Não me venha com entropia. — Bakura devolveu — Isso foi muito bem planejado!

—E tudo leva a crer que o responsável está sentado nessa mesa! — Leon completou, antes de ouvir um ronco. Sasuke havia dormido sentado e ninguém percebeu

—Ele não é o único cansado aqui. — Dani encerrava o assunto, enquanto segurava um bocejo — Melhor irmos dormir, e amanhã a gente termina de discutir esse assunto.

Ayanami acordou bastante tarde no dia seguinte, e encontrou uma casa quase deserta ao sair do quarto. Talvez para evitar a continuação da plenária, todos os outros moradores haviam saído, à exceção de Lara, que tomava banho. As jarras de vidro haviam sido guardadas, mas os envelopes foram presos às paredes, para que ninguém se esquecesse da confusão. Não era nenhuma surpresa que portas e gavetas tivessem sido trancadas por seus donos, com receio de se tornarem novas vítimas.

Ela tentava raciocinar a respeito do que acontecera no dia anterior. Teria Sasuke algum envolvimento com os ataques? O que ele tanto queria falar com ela? Talvez por estar perdida em seus devaneios, Lara teve que gritar para conseguir chamar sua atenção.

—Ayanami!

—Ah, desculpe, não estava prestando atenção...

—Que seja! Estou saindo agora, vou comer alguma coisa, e depois estou planejando dançar um pouco. Quer vir também?

—Ah, tá bem.

Lara era a única que ainda conversava um pouco com Ayanami, mesmo depois dos atentados. Havia uma semana ou mais que Dani só criava intrigas — Para ela, não havia outros suspeitos. Já dos rapazes, não esperava mais do que a indiferença, exceto talvez por Sasuke e seu comportamento incomum na véspera.

As duas saíram, conversaram sobre várias futilidades, almoçaram. Nem parecia que o dia anterior fora tão turbulento. De fato, Lara fingia que aquele dia era um como qualquer outro, e Ayanami tentava fazer o mesmo, como se fosse um pacto silencioso entre as duas. Tanto que o que mais afligia Ayanami naquele momento era o receio de jogar pela primeira vez em público.

E, infelizmente para ela, o local estava bastante movimentado. Havia pelo menos meia dúzia de jogadores, sem contar os curiosos. Pesou ainda o fato de serem as únicas meninas ali. Não que Lara se importasse com isso, pelo contrário, ela conhecia todos eles, e fez as devidas apresentações. Os rapazes pareciam ser legais, ao menos foram educados; mas Ayanami não se importou muito com isso naquele momento, devido ao nervosismo.

Na hora em que subiu na máquina de dança, porém, a sensação foi bastante diferente. Ayanami havia perdido o medo, mesmo sem saber jogar. Jogou junto com sua amiga, que escolhia as músicas, e teve um desempenho razoável. Porém, teve uma leve tontura ao final, quando olhou a imensa quantidade se setas que vinham do lado de Lara — ela jogava no nível mais difícil. Ayanami não conseguiu entender como ela acertava todas as setas vindo tão rápidas.

As duas saíram cansadas; Lara pingava de suor, apesar de haver um ar-condicionado no local. Enquanto procuravam um local para descansar, Lara comentou:

—Você jogou bem demais para sua primeira vez...

—Só se for por causa das suas aulas, provavelmente eu teria passado vergonha se não fosse por elas...

—Verdade. Mas ninguém acredita que é a sua primeira vez na máquina...

—Escuta, como você consegue jogar essas músicas tão difíceis? Você é que joga bem!

—Eu, jogar bem? Que nada! Espera só o César chegar...

—Quem?

—Um colega meu que sempre vem esse horário... Em 15 minutos, ele estará aqui. Pelo menos foi o que ele combinou...

A essa altura, encontraram uma mesa vaga, então se sentaram e continuaram conversando. Vários minutos se passaram, e elas aos poucos foram mudando de assunto, até que já discutiam outras coisas...

—Sabe, eu tenho que concordar com você quando chamou os outros de infantis...

—E eu chamei alguém de infantil?

—Chamou sim, no dia depois que você chegou, ainda que fosse fingimento. Mas pense bem: o Bakura tem 17 anos e ainda nem sequer beijou alguém...

—Meio difícil de acreditar

—Se já o fez, esconde. Ele é da minha turma na escola, e pelo menos lá ele não se interessa por isso. Nos eventos é a mesma coisa. Só não sei naquelas mesas de RPG que ele vai, mas eu duvido que alguma menina freqüente aquela porcaria.

—Está bem. E o Leon?

—Aquele que não sai da frente do videogame dele?

—Sim, já me falaram que ele está querendo te conhecer melhor, e você não dá espaço pra ele falar com você!

—Ele está longe de fazer o meu tipo; se não fosse tão chato eu o deixava dormir em paz...

—Você não está querendo demais? Eu, no seu lugar, não deixava uma chance dessa passar...

—É que o meu gosto é, bem... diferente... — Lara começou a corar ao dizer isso

—Diferente como?

—Bem, não sei se você... sabe... se já pensou em... hã... experimentar... — A cor do rosto de Lara já era quase a mesma de seus cabelos

A expressão de Ayanami dizia que ela não havia entendido o que Lara quis dizer com isso, mas não era verdade. Não estava esperando um comentário desses, mas entendeu do que se tratava. Não sabia o que dizer, mas acabou sendo salva por Sasuke, que passou ao lado delas, e, quando as viu, sentou-se com elas, fazendo com que o rosto de Lara mudasse de vermelho para verde mais rápido que um sinal de trânsito.

—O que estão fazendo aqui? — ele perguntou — Pensei que estivessem lá pulando na máquina...

—A gente estava, até uns minutos atrás, — Ayanami pensava em uma justificativa — mas daí a Lara não estava se sentindo bem, e a gente resolveu sentar-se um pouco.

—Devia ter dado um tempo antes de comer, aquele frango não me caiu bem... — completou Lara, sem estar de fato mentindo.

—Passei por lá agora, e perguntaram por você lá — Sasuke comentou — pediram pra eu te dar um recado caso te visse, já que eles não te acharam

—Chegou mais alguém que eu não vi? — Lara perguntou

—Quem me deu o recado foi um tal de Guilherme, ele disse que o César ligou pra ele avisando que não vinha hoje

—Melhor eu falar direto com ele, o César deve ter deixado algum recado a mais. Vamos lá, Ayanami

—Ah, sim, tudo bem

Os três seguiram de volta ao fliperama, mas não iria fazer diferença, já que Lara os abandonou para conversar com seu colega, apenas falou um “depois a gente conversa” no ouvido de Ayanami. Enquanto isso, pra não ficar pensando no que ela havia dito na mesa, resolveu prestar atenção na animação que passava no fundo da tela na máquina de dança; havia uma menina correndo com um vaso de flores na mão. Ayanami se lembrava exatamente onde vira aquela menina, era dela a imagem no envelope de Lara. Perdida em pensamentos, nem percebeu que alguém se aproximava

—Você ainda vai jogar? — Sasuke perguntou, quase lhe dando outro susto como na véspera

—Acho que não, estou meio cansada... Estou querendo ir pra casa, isso sim! — Ayanami queria mesmo era evitar que Lara lhe perguntasse aquilo novamente

—Então vamos juntos, estou indo embora também!

Nesse momento, Ayanami relaxou por alguns instantes, e nesses instantes descobriu o que Sasuke tanto queria com ela, quando ele segurou sua mão. Talvez fosse o excesso de preocupações, mas ela não era distraída a ponto de não ter percebido isso mais cedo...

Ela resolveu deixar acontecer, e após saírem do shopping, se entregou a um ardente beijo. Só que para Sasuke, aquilo não era o suficiente para frear uma curiosidade que ele tinha.

—Aquela hora que vocês duas estavam conversando naquela mesa, — Sasuke perguntava — ela estava propondo pra você, não era?

—Como você sabe disso? — Ayanami estava surpresa com a pergunta

— Eu não tinha certeza, foi só uma suposição pela cara dela quando cheguei...

—Então você sabia que ela...

—Vai me dizer que você não sabia? — Agora, era Sasuke que estava surpreso — Pelo menos em casa todos sabem, pensei até que vocês duas estavam juntas...

—Até hoje, só tínhamos laços de amizade...

—Eu estava com medo de você dizer que estava junto com ela. Por isso não falei nada ontem...

—Você deve ter percebido que eu sou um pouco distraída... Estava tão óbvio assim?

—Na verdade, nem tanto... Eu só fui descobrir por causa do Bakura, ele conversa bastante comigo e me disse isso quando levou um fora dela...

—Pois ela me falou que ele era bastante inocente quanto a isso...

—Inocente? O Bakura? Só pode estar de brincadeira... Metade das vezes que ele diz que vai pro RPG ele sai é atrás de garotas...

Os dois passaram pela casa onde moravam, mas decidiram não entrar para aproveitarem juntos o resto do dia...

Três semanas haviam se passado, sem que houvesse novidades visíveis. Era final de semestre, então todo mundo começou a se dedicar aos estudos mais do que de costume. Sasuke e Ayanami continuaram juntos, mas escondiam o relacionamento dos outros. Lara, felizmente para Ayanami, não tocou mais naquele assunto (será que havia percebido?), mas parecia um pouco decepcionada com o que (não) acontecera. Ao mesmo tempo, um grande evento de animes se aproximava, o que aumentava ainda mais a ansiedade de todos.

Mesmo considerando tudo isso, o comportamento de todos não havia mudado muito. Leon ainda passava horas em seu videogame, tentando recuperar os dados perdidos. Bakura continuava a ser bastante ausente. Dani continuava discutindo por qualquer coisa, mas nesses últimos dias ela começou a reclamar mais por causa de barulho (além de estudar, ela ensaiava uma apresentação que faria no evento, e precisava de silêncio).

Talvez por conta dessa ansiedade, o tempo passava depressa; quando viram, já era a última quinta-feira do semestre. Lara, que escapou das provas de recuperação, estava de folga havia alguns dias, e não parava em casa. Ayanami, que saiu de sua última prova mais cedo, esperava encontrá-la em casa, talvez até dormindo durante a tarde, e quando chegou entrou no quarto dela, sem imaginar que estivesse vazio

Mas o quarto não estava somente vazio. Estava bastante bagunçado, uma baderna quase comparável a do quarto de Bakura no dia em que suas cartas foram queimadas. Várias roupas jogadas no chão, o computador havia sido desmontado, as apostilas de estudo formavam uma pilha de papel amassado a um canto do quarto. Atrás da cama desarrumada estava o provável motivo de tanta bagunça: duas malas, abertas, contendo algumas roupas e pertences de Lara. “Deve estar indo passar as férias em casa...”, pensou Ayanami, enquanto saia do quarto.

Quando abriu a porta, porém, deu de cara com Dani, que se escondeu quando viu Ayanami chegar e entrar no quarto de Lara. “Saco, esqueci que ela também estava de férias”, pensou Ayanami, enquanto Dani analisava o estado do quarto antes de dar um grito:

—PEGUEI NO FLAGRA!!! Aprontando outra cilada, não?

—O quê?!?!?

—Sempre soube que era você que estava destruindo as coisas dos outros, só faltava a prova...

—Seria mais impressionante se você não estivesse acusando todo mundo...

—Curioso, não? Vai me dizer agora que não sabia que Bakura esquecera a janela destrancada aquele dia, quando você foi a única que saiu de casa a tarde, ou que não faz idéia de como as duas jarras foram parar no lugar em que você passou o dia sentada...

—Eu estava na cozinha àquela hora, e você sabe disso! — Ayanami começava a berrar, para igualar o seu tom de voz ao de Dani

—Alguma testemunha além de seu namoradinho?

—Eu nem estava ficando... Ei, como você sabe disso?

—Sei muito mais do que você imagina... Só o que eu não sei é o lugar de onde você foi expulsa antes de vir pra cá...

—Você pode ser a pessoa mais chata que já conheci, mas não desejo pra você o que eu passei!

—O que foi, te bateram porque foi pega destruindo coisas dos outros?

—Se quer mesmo saber, eu morava com um tarado que por acaso é meu tio, e levei quase um mês pra descobrir que ele colocava calmante no meu suco pra poder abusar de mim enquanto eu dormia! — Ninguém sabe de onde ela tirou forças pra contar sobre o seu trauma, mas assim que terminou de falar, Ayanami caiu em um choro desesperado.

Dani ficou completamente sem palavras. Lembrou-se da expressão no rosto de Ayanami no dia em que ela se mudara para lá, e naquele instante compreendeu que ela não estava mentindo

—E se estão falando da bagunça no meu quarto — Lara falou, entrando pela porta da sala após escutar uma parte da briga — é coisa minha, eu estou me mudando daqui porque não agüento mais ouvir tanta briga. E, Ayanami, a parir de segunda pode passar pro meu quarto, porque eu duvido que essa outra aí tenha coragem de olhar pra sua cara de novo depois dessa...

Ayanami olhou para ela; seu rosto estava bastante inchado e vermelho por conta das lágrimas. Tentou, mas não conseguiu sorrir.

O dia seguinte a discussão começara bem melhor do que terminara a véspera. Dani, que tinha uma pequena dose de bom-senso, foi dormir na casa de uma amiga. Nenhum dos rapazes (nem mesmo Sasuke) ficou sabendo da briga, e no que dependesse de Ayanami não iriam saber. Era o último dia de aula dos três (Ayanami teria apenas entrega de notas, e resolveu dormir até mais tarde), e por isso os rapazes estavam bastante animados. Sasuke, que havia prometido não procurar Ayanami enquanto tivessem companhia, não resistiu a deixar um bilhete para ela, por baixo da porta, que havia escrito dias antes, e que não teve oportunidade de entregar sem que outras pessoas vissem. O bilhete era quase uma carta de amor, o que deixou Ayanami feliz pelo resto da manhã.

Porém, não demorou muito a voltar a realidade; tinha um assunto sério a tratar com Lara. Ela foi até o quarto dela, onde a encontrou encaixotando algumas coisas. Ao ver isso, Ayanami comentou:

—Não sabia que você ia embora de vez...

—Até ontem, nem eu sabia, mas já planejava ir embora há algum tempo...

—Algum motivo em especial?

—Vários, mas a gota d’água foi a briga de ontem

Ayanami permaneceu em silêncio, então Lara continuou

—Mas o principal mesmo é essa pessoa que tem destruído as coisas dos outros...

—Acho que agora já está todo mundo de olho, quem quer eu seja vai ser pego antes de atingir mais alguém

—Não creio nisso, devem estar esperando a hora que todo mundo baixar a guarda pra mostrar serviço...

—Se fosse esse o motivo, quem estava indo embora era eu

—Acontece que você se dá mais ou menos bem com todo mundo, tirando a Dani, já eu sou meio excluída nessa casa...

Lara tinha resposta pra todos os argumentos que Ayanami pudesse pensar. Estava decidida a ir embora, e comentou

—Já tenho até uma vaga em outra casa a partir de agosto. Amanhã mesmo vão vir pegar a mudança e levar pra lá...

—Quer dizer que você não vai pro evento amanhã

—Só se der tempo, devem vir só a tarde...

—Se for assim eu fico aqui com você...

—Não faça isso, aproveite o evento, eu me viro aqui sozinha...

—Não quer que eu venha pelo menos te buscar aqui?

—Nem precisa, estou prevendo que eles vão se atrasar e chegar aqui só no final da tarde...

—Tá bom, já que você está falando isso, não vou insistir...

As duas passaram a tarde conversando, enquanto Lara terminava de arrumar suas coisas. No momento em que Lara finalmente terminou, já era noite, e ela deu um grande bocejo. Ayanami percebeu que ela estava cansada, e decidiu se retirar

—Acho melhor irmos dormir, estou bastante cansada, e creio que você também esteja...

—Tem razão, acho que não consigo ficar mais cinco minutos de olho aberto...

—Boa noite, então... — Ayanami abriu a porta, e estava saindo, quando ouviu uma resposta inesperada

—Boa noite, e desejo sorte pra você e o Sasuke — Lara disse, dando uma piscada de olho

Ayanami saiu do quarto pensativa. Será que ela sabia faz tempo? Ou só descobrira ouvindo sua briga com Dani? O fato é que Ayanami planejava passar suas férias com seus pais, e manter um namoro a distância, ainda mais escondido, não estava em seus planos. Acabou decidindo por pedir um tempo para ele, e em vez de entrar em seu quarto, passou direto e foi até a porta do quarto dele, mas hesitou na hora de bater. Sasuke estava ouvindo música naquele momento, mais precisamente Blurry Eyes, da banda L’arc~en~ciel. Considerando que ele preferia músicas agitadas, ela considerou até a trilha sonora apropriada. Percebendo que tudo estava a seu favor, finalmente bateu na porta.

Sasuke fez questão de abrir, e a convidou a entrar

—Que surpresa! Algo em específico tem trouxe aqui? — perguntou ele

—Na verdade, não é uma notícia tão alegre assim... É melhor nos sentarmos...

—Você recebeu o meu bilhete?

—É por causa disso que eu estou aqui...

Sasuke se aproximou dela para dar um beijo, porém ela o deteve

—Não foi isso que eu quis dizer... — disse ela, um pouco nervosa

—Não me diga que você quer...

—Calma... eu só quero te pedir um tempo...

—Foi alguma coisa que eu fiz?

—É por um problema meu, não seu...

—Mas...

—Terça-feira eu estou indo para casa, passar as férias com meus pais. Quero tentar esquecer tudo de ruim que aconteceu esse semestre, e se continuarmos juntos eu não vou conseguir...

—Tem certeza que é só isso?

—É, só isso mesmo

—Então, eu tenho uma saída. Esqueça o Sasuke. Pode matá-lo se quiser. Lembre-se de mim apenas como Thiago, assim como eu me lembrarei de você como Fabíola...

—Não creio que isso dê certo...

—Mas podemos tentar, não?

—É difícil dar uma resposta assim... Eu fico pensando se você vai conseguir passar um mês me esperando, aguardando eu voltar, sem contato...

—Eu posso te ligar lá

—Nenhum celular pega naquela cidade, e não posso falar com você de casa...

—Entendo...

—Por isso que estou te pedindo um tempo. Seria uma preocupação a mais para nós dois. Mas no dia em que eu voltar pra essa casa, podemos fingir que esse tempo nunca existiu

—Isso me deixa um pouco triste, mas se você prefere assim, o que eu posso fazer?

—É o preço que eu tenho que pagar, o preço por alguns dias de tranqüilidade...

Sasuke, ou melhor, Thiago, ficou calado. Ela se levantou, e lhe desejou boa-noite doce e umidamente, antes de ir ao seu quarto dormir.

A manhã daquele sábado amanhecera cinzenta. Ayanami esperava que a rotina de dias que amanheceram bons para terminar tristes acabasse; enquanto percebeu que os outros, exceto talvez por Lara, que se dava ao luxo de dormir até mais tarde, estavam bastante animados. Até mesmo Dani parecia alegre, agora que sabia que a apresentação que passou dias ensaiando já estava decorada. Mas ela teria que esperar mais um dia, já que as apresentações seriam somente no domingo. Leon se considerava preparado para os torneios de jogos que iria participar, Sasuke e Bakura estavam ansiosos por encontrar seus amigos (principalmente amigas, no caso de Bakura). Mas Ayanami ainda estava um pouco abatida por conta do dia anterior.

Os cinco acabaram saindo juntos, totalmente despreocupados, enquanto discutiam quem e o o quê encontrariam no evento. Ayanami, que estava indo pela primeira vez a eventos de anime, tentava imaginar como seria; parecia ser algo que pudesse animá-la um pouco.

Chegando no local, porém, não achou tão interessante quanto imaginava. Havia diversas coisas que podiam ser feitas, todas elas cheias de gente. As salas de exibição passavam animes e clipes que, em sua maioria, Ayanami já conhecia, por conta de Sasuke, que baixava e ficava assistindo com seus companheiros nas horas vagas. Não era difícil encontrar cosplayers por lá, mas a maioria estava bastante inferior ao nível do de Dani (que não usava o seu com medo de manchar, ela preferiu deixar trancado em casa com um cadeado). Além do mais, ela não conhecia quase ninguém, o que fez com que ela ficasse alguns instantes com Leon na sala de jogos, torcendo por ele — como se ele precisasse, já que humilhava a maioria dos adversários.

Desse modo, acabou voltando para casa, sozinha, antes de o evento acabar, sem saber o quanto isso lhe seria útil

Ela chegou a casa quando estava anoitecendo. Quando abriu a porta, encontrou uma casa deserta, com uma trilha feita de DVD’s quebrados, que levava até a lavanderia da casa. Chegando lá, com cuidado para não pisar em nenhum dos discos, percebeu que essa trilha acabava sob o tanque de lavar roupas, o qual estava cheio de um líquido negro e viscoso, que parecia ser tinta. Ayanami logo notou que havia algumas roupas dentro do tanque, mas que não podiam ser discernidas somente com o olhar. Sobre o tanque, pendurado ao teto por um fio, estava um dos mangás de Ayanami, justamente aquele volume 1 de Love Hina que ela atirara em Dani no dia seguinte ao que se mudou. Curiosamente, o mangá estava intacto. Ao lado do tanque, sobre uma pequena mesa, haviam três envelopes, cada um com a imagem de um personagem de animes diferente; eram, respectivamente: Sasuke Uchiha, do anime Naruto, Sakura Kinomoto, do anime Cardcaptor Sakura, e Rei Ayanami, do anime Evangelion.

Ela resolveu abrir todos os envelopes, já que não estavam lacrados. O de Sasuke continha um pequeno pedaço de papel, onde se lia um trecho digitado: “Ontem você levou embora meus sonhos. Agora, eu levo os seus”. O envelope destinado a Dani era semelhante, só que com outro texto: “Assim como você faz com os outros, suas esperanças construídas por meses foram destruídas em um instante.”. Ayanami teve quase certeza de quem era o responsável por isso, e teve sua hipótese confirmada ao ler o que estava em seu envelope. Diferente dos outros, nesse havia uma folha inteira de papel, e escrita a mão. Ayanami logo reconheceu que aquela era a letra de Lara, e por isso fez uma força maior para ler com calma.

“Antes de qualquer coisa, lhe peço para ler essa carta sozinha. Não quero que os outros vejam isso, pelo menos não por cima de seus ombros.

Sinto muito não ter lhe dito antes a respeito disso, mas não sei até que ponto você confiava em mim, e eu não iria correr um risco desnecessário. Tudo isso foi um plano para poder destilar o ódio que senti quando destruíram meus sentimentos. Bakura foi o primeiro, por não ter ficado calado quando eu o dispensei. Ao invés de guardar para si, ele saiu espalhando um de meus segredos, e isso não poderia sair tão barato. Esperei aparecer o momento certo, mas ele não chegou, pois você entrou no lugar da pessoa que eu queria que levasse a culpa. Descobri que ele nunca trancava as janelas de seu quarto, então só precisei de um pouco de tempo para fazer tudo sem ser notada. Bastou um pouco de querosene, que o resto já estava a mão no próprio quarto.

Logo depois veio Leon, que nunca aceitou o que eu realmente sentia, e tenho certeza que ele sabia de tudo por causa do Bakura. Aproveitei o que sobrou do querosene, e mandei mais uma mensagem de fogo. Mas dessa vez eu senti que não escaparia impune de novo, então tive que fazer algo diferente. Peguei um de meus pertences, que já estava quebrado, e forjei um ataque a mim mesma. Só não contei que você fosse ficar sentada naquela mesa o dia inteiro, enquanto fiquei no meu quarto matando o tempo. Até que, no fundo, foi bom, pois consegui destruir permanentemente o cartão de memória dele (dias depois eu descobri que se eu tivesse apenas colocado ele dentro da jarra com querosene como eu queria, ele continuaria funcionando). Quando eu estava quase desistindo, Sasuke lhe chamou para a cozinha, e foi a minha chance. Precisei agir rápido, aquele foi o único momento em que realmente tive medo de me pegarem.

Agora, expresso minha opinião pelos outros. Dani, que sempre brigou com todos, drenando qualquer alegria que os outros estivessem sentindo, merecia algo que realmente a chocasse, então acredito que destruir o cosplay dela seja o suficiente. Não creio que ela consiga recuperar, pelo menos não a tempo da apresentação dela (dou logo a dica, essa tinta não sai fácil). Creio que Sasuke também merecia algo, por ter te roubado de mim justamente quando eu tive coragem de dizer o que sentia. Fiquei sabendo somente no dia seguinte que vocês estavam juntos, e continuaram assim. Creio que não tenha sido tão pesado com ele, imagino que deve ter guardado metade daqueles DVD’s no próprio computador. Eu havia preparado algo para você também, por ter me abandonado, não me deu sequer uma resposta, nem teve coragem de me dizer que não queria, mesmo que isso estivesse estampado em sua cara. Porém, no seu caso, faltou-me a coragem. Tive compaixão de você, só quando você teve aquela última briga com a Dani eu percebi que o meu sofrimento não era nada comparado ao seu. Por isso, não acho que mereça mais a sua amizade. Não me procure, duvido que me ache, já que não estou mais nessa cidade, mas considere que os crimes cometidos pelas pessoas da casa tenham sido pagos.

E por qualquer coisa que eu tenha feito a você, peço desculpas. Sei que não é o suficiente, mas é o que posso fazer, agora que já estou longe...

Lara

P.S> Agora, se você quiser, pode passar essa carta para os outros. Já não me importo, agora que você foi a primeira que soube de quem foi a culpa...”

Ayanami ficou um pouco chocada ao finalmente saber que Lara era a responsável por toda aquela confusão. Sabia que ela não voltaria mais, e agora que o mistério fora resolvido, não via mais motivo para ficar sendo alvo de falsos pedidos de desculpas. Ela foi até o seu quarto, encontrou suas duas malas quase arrumadas, já que se preparava para ir embora na terça-feira. Notou no chão um cadeado quebrado, o que trancava a gaveta aonde Dani escondia seu cosplay. Não levou mais do que dez minutos para guardar todos os seus pertences. Saiu do quarto ainda tremendo por conta do choque, mas ainda assim teve a coragem de dar uma última olhada no que era o quarto de Lara. Estava vazio, como era de se esperar, apenas a cama e o guarda-roupa permaneciam, mas ainda assim Ayanami não ficaria satisfeita enquanto não desse uma última olhada.

Ela levou a mão à porta de saída da casa, mas resolveu tomar mais uma atitude. Foi até a lavanderia novamente, com uma caneta. Desamarrou o fio que segurava seu mangá, e o mergulhou na tinta. Lavou as mãos, pegou a caneta e a carta de confissão de Lara, e acrescentou um último comentário, antes de deixar aquela casa para sempre: “Se você acha que eu merecia um castigo, é porque eu realmente mereço”.

Ayanami acordou no outro dia, deitada em um quarto de hotel. Na última hora, desistira de voltar para a casa de seus pais; decidiu que aquele momento de solidão era necessário. Não sabia, e nem queria saber o que acontecera quando os outros quatro chegaram a casa. Ela estava disposta a esquecer esse passado, viver mais a vida dela, procurar conhecer as pessoas pelo que elas são, e não pelo que elas gostam. E se quisesse ser assim, iria começar a abrir mão de coisas que ela sempre gostou

Abriu novamente as malas. Percebeu que havia deixado todos os seus mangás na casa, e se sentiu feliz por isso. Mais difícil, seria abrir mão de outras coisas. Mas ela já havia tomado um passo decisivo. Ayanami havia morrido. Tudo o que restava era Fabíola.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!