Fora das Câmeras
1 1º ATO – Ruptura
Ainda estava escuro lá fora quando despertei de um sono mal dormido que me fez rolar na cama a noite toda. Subitamente, me vi apreensiva com a mesma sensação de déjà-vu que tem me acompanhado há alguns dias. Até cheguei a vasculhar em minhas lembranças qualquer sinal que pudesse aquietar meus nervos, mas sem sucesso. Atraída pela chuva torrencial que caía, olhei para a janela, um pouco desconfiada, e automaticamente acabei sendo transportada para aquela noite também tempestuosa de outono.
O ano era 1997 e me recordo de muitos detalhes vividamente. Você, como de costume, discutia exaltado ao telefone enquanto andava impaciente de um lado para o outro do quarto. Tentei lhe acalmar, mas sua reação foi me encarar com desdém e encerrar a ligação sem nem ao menos se despedir. Em seguida, ouvi seus insultos de sempre e ignorei aquelas palavras que cortavam como navalha. Não foi fácil, obviamente, mas é curioso como acostumamos a suportar certos fardos com o passar dos anos.
Assim como feito em tantas outras oportunidades, primeiro você fez questão de enfatizar que eu jamais sobreviveria sem o seu dinheiro e o seu poder. Depois, tentando se redimir, justificou-se culpando um investidor pelo descumprimento de uma cláusula contratual que eu jamais tive conhecimento. As consequências de ser casada com o seu empresário. E a cena se repetia pela milésima vez!
Como trovejava sem parar e se aproximava da meia-noite, as chances de os vizinhos ouvirem qualquer barulho vindo daqui eram as mais remotas possíveis. É bem provável que já tenham ouvido algo em outras ocasiões, mas a verdade é que seus monólogos egocêntricos normalmente não duravam muito. Afinal, eu já estava habituada a escutar tudo de boca fechada.
Só que infelizmente (ou não), desta vez tentei argumentar, e hoje penso como as coisas teriam se desenrolado se tivesse permanecido calada. Sem hesitar, você desferiu um tapa em meu rosto e de imediato eu caí em câmera lenta, sem saber, ao certo, o que havia me atingido. Naquela noite eu não imaginei, mas levaria anos para eu deixar de sentir seus dedos queimando minha pele.
Encarei seus olhos controladores e notei, pela primeira vez, como você parecia se satisfazer com cada segundo do horror que me fazia vivenciar dia após dia. Não se tratava apenas de estar no poder, mas de demonstrar o quão alto você era capaz de subir e o quão baixo eu seria de cair.
Desviei o olhar para sua mão e vi em seus dedos alguns fios de cabelo que antes estiveram em minha cabeça. Imponente como um deus em seu pedestal, você sorriu de uma maneira que me deixou aterrorizada. Ali, naquele instante, eu finalmente compreendi que não poderia passar o resto de meus dias vivendo (e sobrevivendo) ao pior dos meus pesadelos.
Inspirada por um momento de coragem súbita, reuni uma força desconhecida, levantei de uma só vez e te empurrei o mais longe que pude, mal enxergando por conta das lágrimas que cobriam meu rosto. Totalmente vulnerável, você tropeçou em uma poltrona e foi ao chão, onde permaneceu, perplexo, sem dizer nada.
Desesperada para chegar ao hall de entrada, deixei o quarto na mesma hora e corri para a escada que levava ao andar de baixo, saltando diversos degraus pelo caminho. Justo naquela maldita noite digna de um filme de terror estávamos sozinhos em casa, e ninguém chegaria a tempo para evitar o que estava por vir. Eu precisava agir, sem novos adiamentos.
Já no hall de entrada, corri para a mesinha do telefone e, com as mãos trêmulas, abri a gaveta, procurando pela chave reserva que costumava ficar ali esquecida. Após localizá-la, destranquei a porta principal e a escancarei com mais força do que pretendia.
Antes que me desse conta já estava desviando dos arbustos do jardim que se enroscavam em minha camisola relutantemente, tais como as garras de um predador. Era como se, de alguma forma bizarra e fantasiosa, todo aquele lugar lutasse para me manter enclausurada. Eu não fazia ideia de para onde deveria correr e apenas me convenci de que qualquer lugar seria mais seguro.
O vento cortava a noite e balançava as folhas das árvores, assobiando de uma maneira sobrenatural, dizendo-me para voltar para seus braços. Mas eu não voltei, e até mesmo me faltou coragem para olhar para trás e ver se você estava em meu encalço. O portão que dava para a rua, sabe-se lá por que, não estava trancado, e com um suspiro de alívio passei por ele te deixando para sempre.
Depois de correr pelo que me pareceu uma eternidade, parei em um ponto de ônibus para me esconder da chuva e recobrar o fôlego. Sem saber exatamente onde me encontrava, calculei que não deveria estar longe, pois havia certa familiaridade nos casarões dispostos tão simetricamente de cada lado da rua. Meus pés doíam sem parar e meus pulmões queimavam como brasa.
Sentada naquele banco, congelei de frio e me mantive alerta, convencida de que você apareceria a qualquer momento, pronto para me levar de volta para casa. O medo só aumentava ao passo que a tempestade piorava. Após chegar ao limite de meu esgotamento físico e mental, me vi prestes a bater de porta em porta para pedir ajuda. Foi quando um táxi apontou na esquina e, milagrosamente, estacionou bem à minha frente.
Adentrei no carro e descarreguei todo meu peso no banco traseiro, onde me afundei. Agora que a chuva não mais caía em meus braços, percebi que eles estavam arranhados e ardiam um pouco – provavelmente por causa dos arbustos que você tanto insistiu para plantar em nosso jardim. Oscilando entre delírio e realidade, recordo-me vagamente de ouvir um “está tudo bem?” e “você precisa chamar a polícia!”, mas nada fazia muito sentido.
Eu senti que rodamos por horas, mas poderiam ser apenas minutos. Sequer me lembro de dizer para onde gostaria de ir, apesar de o motorista de meia-idade ter concordado com meu pedido. Minha cabeça rodopiava e vez ou outra me vi a ponto de desmaiar, mas tentei me manter o mais firme que consegui, esperando que tudo não passasse de um sonho.
Como se despertasse de um transe profundo, notei que, algum tempo depois, paramos em uma rua bem iluminada localizada no centro da cidade. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, contudo, o taxista, com a voz estranhamente rouca, apressou-me a sair do carro e aconselhou-me a telefonar para alguém de confiança. Pude notar, pela forma como ele se comportava, que não era a única apavorada com o que estava acontecendo.
Ao fechar a porta do táxi e dar meia volta, porém, me senti novamente segura ao reconhecer um lugar que despertou lembranças de um passado tão distante. Afinal, tinha sido naquele mesmo hotel, agora muito mais suntuoso, em que eu me hospedei pela primeira vez na cidade assim que deixei o interior.
Sem perder tempo, corri para a porta de entrada e fui recebida por uma moça de aparência cansada que me ajudou a descer os poucos degraus que levavam ao lobby. Fiquei agradecida por não ouvir perguntas, mas pude notar, pelo nervosismo, que a recepcionista sagazmente presumiu toda a situação e preferiu agir com discrição.
O lado positivo de ser uma atriz consagrada a nível nacional é que as pessoas, na maioria das vezes, conhecem suas necessidades sem que você precise pontuá-las. Após uma conversa rápida com o gerente, a funcionária foi orientada a me levar até a suíte na cobertura sem levantar quaisquer questionamentos. Assim, e a fim de não chamar a atenção de hóspedes que pudessem perambular pelos corredores durante a madrugada, nos dirigimos para um elevador de serviços situado discretamente na ala leste do hotel.
Entramos no elevador e, como se minha sanidade me desafiasse a sucumbir, fui surpreendida por uma série de lembranças que invadiu minha cabeça em forma de flashbacks. Rindo para mim mesma e tentando relembrar o significado daqueles momentos que passei ao seu lado, suspirei de uma maneira que deixou transparecer todo meu desconforto.
Enquanto o elevador subia, parei para pensar com meus próprios botões e tentei entender como conseguimos mudar tanto e tão abruptamente. Não que eu esperasse o mesmo romantismo de quando nos conhecemos, mas não compreendi como fomos capazes de atingir o ápice de nossas vidas em meio a tanta violência. Perguntei-me, mais de uma vez, por que permaneci submissa durante tanto tempo sem ter feito nada para mudar isso. A verdade é que, no fim das contas, não encontrei resposta alguma.
Com um pequeno solavanco o elevador chegou finalmente à cobertura e, sem perder tempo, cruzamos o corredor em direção ao quarto de nº 601, onde entramos. A recepcionista, dando o melhor de si para me deixar à vontade, sorriu e se mostrou disposta a me servir com o que eu precisasse. Agradeci sua presteza e, me esforçando para ser amável, lhe disse que, por ora, apenas gostaria de ficar sozinha. Ela entendeu rapidamente que esta era sua deixa para partir e se despediu com um aceno de cabeça, fechando a porta sem fazer qualquer barulho.
Olhei ao redor e logo percebi que, apesar de espaçoso, o quarto emanava um aconchego que não se encontrava em qualquer hotel, muito menos no de uma metrópole. Um aconchego que já não era sentido em casa há muitos anos.
Arrastei meus pés para o banheiro e, sem nem ao menos perceber, tranquei a porta antes de me despir com cuidado. A camisola, agora jogada ao chão, mais parecia uma pilha de trapos encharcada. Meus braços ainda ardiam por causa dos ferimentos, então imaginei que um pouco de água morna pudesse amenizar a dor. Assim, abri a torneira e esperei a banheira encher, ansiosa por um momento de paz.
Virei-me para o espelho em cima da pia e não fui capaz de reconhecer a pessoa que me encarava de volta. Mesmo com a visão turva depois de tanto chorar, percebi que meu rosto estava inchado onde sua mão, horas antes, pousou tão disciplinadamente. Meu cabelo, uma vez imaculado, estava emaranhado, faltando fios aqui e ali.
Inesperadamente, um por um dos acontecimentos da noite voltaram à memória como se uma lâmpada fosse acesa dentro da minha cabeça. Com cuidado, entrei na banheira e tentei digerir tudo com calma. Fechei os olhos e, pensando longe, levei certo tempo até conseguir desacelerar a montanha-russa de questionamentos que subia e descia na minha mente.
Apesar de precisar me convencer de que não era culpada por aquele infortúnio, me vi obrigada a reconhecer alguns privilégios. Sei que, se não fosse por minha fama e influência, eu certamente ainda estaria debaixo de chuva correndo tantos outros perigos que não era capaz de imaginar. Afinal, o que teria acontecido se eu não fosse uma pessoa pública, se não fosse uma celebridade?
Ao voltar para a dura realidade daquelas quatro paredes, o inevitável veio à tona quando me dei conta de que jamais havia deixado de ser uma celebridade. Sentindo-me amaldiçoada, visualizei o sensacionalismo incansável que me perseguiria pelos próximos anos. Involuntariamente, desejei estar na pele de qualquer outra pessoa que poderia levar sua vida adiante no anonimato. Cogitar que os eventos da noite reviveriam dentro de mim a cada vez que ligasse a TV ou folheasse as páginas de uma revista era inconcebível.
Dando um basta e prometendo-me que não choraria mais, sacudi estes pensamentos para longe e esvaziei a banheira, permitindo que todo e qualquer vestígio de insegurança descesse ralo abaixo. Atenta para não escorregar, saí dali e caminhei até um armário, de onde tirei uma toalha para me secar e um roupão que parecia confortável. Senti como se não apenas meu corpo, mas também minha alma, estivessem lavados.
De volta ao quarto, parei em frente à cama e me joguei no colchão de molas, completamente esgotada. Cada detalhe ao redor, seja pela decoração minimalista ou pelos lençóis de cetim, me induzia a esvaziar a mente e esquecer, pelo menos por ora, tudo que havia acontecido. Uma longa e boa noite de descanso era tudo que eu precisava, sem novos contratempos.
Olhei para o céu agora estrelado através da claraboia e relembrei cada passo dado desde que deixei a pessoa que aprendi a chamar de lar pela última década. Apesar de, àquela época, o futuro ser incerto, me conformei com a única certeza que tive naquela noite. Depois de tanto desejar uma saída, eu finalmente havia me soltado das algemas que fizeram de mim a prisioneira que eu jamais acreditei que um dia seria. Eu estava livre, e pela primeira vez em muito tempo, adormeci sem a preocupação de te encontrar, no dia seguinte, dormindo ao meu lado.
Fale com o autor