Fora da Caverna- Interativa
1 Prólogo
Notas iniciais
POV: Richard
Eu estava com sono... Fiquei de joelhos na cadeira para que o desconforto mantivesse-me acordado. Bocejei, olhei para os lados e mudei de posição mais uma vez, colocando minhas pernas, agora dormentes, para baixo. A voz do professor de Filosofia era calma e monótona. Meus olhos pesavam... Ouvi um estrondo. Bocejei. O professor, após bater com o livro na carteira do meu amigo, bradou:
— Não quero você dormindo em minha aula, Amanda! E depois vai dizer que não passei matéria...
A raiva era evidente no olhar de Arthur, que odiava ser chamado por seu nome de batismo. Um dia ele explicara que era "um garoto trans, não uma garota", e desde então passei a tratá-lo da forma que ele queria: ele era Arthur, um rapaz.
O sinal indicando o fim da aula bateu. Era o último dia do ano letivo para mim, embora Arthur ainda tivesse uma semana de recuperação pela frente. Guardei meu material e saí de sala.
— Ainda explodo esse lugar...–disse Arthur, acompanhando-me – Onde vai querer almoçar?
Suspirei. Por que ele ainda dirigia-me perguntas, se sabia que eu era incapaz de falar qualquer coisa em um ambiente em que outras pessoas estivessem presentes?
— Eu não aguento esse silêncio, Richard. Que tal lá em casa? Minha mãe já deve estar no trabalho– continuou.
Assenti.
Após uma caminhada silenciosa, chegamos no prédio. Empurrei o pesado portão, correndo então pelo chão de mármore até o elevador, com Arthur logo atrás de mim. Ainda em silêncio, subimos para seu apartamento, de onde ele pediu uma pizza.
O restante do dia foi tenso e cansativo. Eu simplesmente não conseguia relaxar. Por volta das oito horas da noite, a mãe de meu amigo voltou. Cumprimentei-a com um aceno de cabeça. Ela, sorrindo, bagunçou meu cabelo.
— Que xampu você usa? Seus cachos são tão sedosos...– comentou.
Eu nunca soube a causa de tanto apreço por meu cabelo. Eram apenas cachos castanhos até a altura dos ombros. Talvez aquela fosse apenas a forma que ela encontrava de desvalorizar o cabelo do filho que, de acordo com ela, era "um loiro seco, curto demais e sem vida." A mãe de meu amigo também adorava minha "pele morena clara, diferente daquele 'branco Parmalat' do Arthur", e meus "olhos castanho-chocolate, muito mais brilhantes do que os olhos cinzentos do filho". Apesar de Arthur não demonstrar, eu sabia que, de alguma forma, aquilo o incomodava.
— Mãe, o Richard vai dormir aqui, ok?– disse ele, constrangido.
— Os pais dele estão cientes disso?– ela perguntou, botando as mãos na cintura.
— Eles não ligam.– meu amigo respondeu.
— Amanda, não fale assim!
— É Arthur! E ele mesmo diz que os pais não ligam, para que vou fantasiar?
— Que seja – respondeu irritada. – Richard, você também ficou de recuperação final?
Balancei a cabeça.
— Seus pais devem ter orgulho de você.
Dei um sorriso constrangido. Arthur estava furioso.
— Vamos... vamos para o quarto.- disse ele, esforçando-se para manter a voz num tom neutro.
Lá chegando, Arthur trancou a porta.
— Não tenho nada para fazer nessas férias.– falei.
— É mesmo, é? E daí?
— Daí que poderíamos viajar! Sair um pouco dessa cidade, ver gente diferente, esfriar a cabeça...
— Não é má ideia.
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