Notas iniciais
Esse é um capítulo de apresentação das personagens, então não acontece muita coisa. Mesmo assim, vale a pena dar uma conferida.

POV: Arthur

Marianne pegou no sono durante a primeira hora de viagem, enquanto Richard permanecia em silêncio absoluto, observando a paisagem. Eu estava entediado. Meu celular já apitava, indicando que a bateria estava fraca. Duas horas já haviam passado desde que o ônibus saíra, deixando para trás minha antiga vida, quando percebi que o veículo saía da pista, indo em direção a uma lanchonete à beira da estrada.

O grupo que eu juntara era bastante heterogênico. O que mais eu poderia esperar? Coloquei um anúncio na internet, chamando aventureiros que quisessem fugir da rotina e aceitei as três primeiras pessoas que se dispuseram a ir. Infelizmente, todas eram meninas, então Richard e eu não estávamos confortáveis para pegar roupas emprestadas. Naquele momento, eu lamentava que tivéssemos deixado as malas no banheiro do terminal.

Momona, a mais nova do grupo, foi a primeira a se levantar e correr para a porta, esperando-a abrir. Sua atitude e energia chamavam a atenção dos outros passageiros, que, sonolentos, se espreguiçavam e esperavam o ônibus parar. A menina ajeitava seu cabelo rosa, aparentemente procurando alguma coisa para se distrair enquanto o ônibus não estacionava.

Steph, outra menina do grupo, parecia entretida em seu livro, de forma que não notou que fazíamos a primeira parada. Richard a encarava diretamente. Seguindo seu olhar, cheguei ao rosto delicado da menina, seus lábios vermelhos e bem definidos, seu cabelo vermelho e... Dei um tapa na cabeça de meu amigo.

— Essa aí é areia demais para o seu caminhãozinho. Nessa viagem você não vai pegar ninguém.

O garoto corou violentamente e encarou os próprios joelhos.

O ônibus finalmente estacionou.

— Marianne!– chamei, um tanto desconfortável por ter que acordá-la. A menina bocejou, esfregou os olhos e virou-se para mim.

— Foi só para te acordar– falei, aliviado por não ter precisado sacudi-la. -Acho que vamos fazer uma parada.

— Hum...–ela olhou em volta. –Ah! Perdi meu ponto!

— Isso não é um parador...

Assim que a porta do ônibus foi aberta, Marianne saiu correndo, esbarrando nos outros e passageiros ao passar pelo corredor. Curioso, fui atrás da garota.

— Pera aí!– falei, ofegante. A menina corria, literalmente, no meio da pista que, por sorte, estava vazia.

— Êpa, para que tanta pressa?– perguntou Fernanda, a segunda mais nova do grupo. Era uma menina de cabelo castanho e olhos verdes, muito bonita também.

— Tô seguindo aquela menina! Venham também!– respondi.

O vento sacudia minhas roupas largas, trazendo uma sensação agradável. Richard passou por mim, arfando violentamente, quando Marianne parou. Aproveitei a oportunidade para alcançá-la.

— Por que você...– respirei fundo para recuperar o fôlego. – Por que veio para cá?

— Caramba, vocês são sedentários– ela falou. Seus olhos analisavam, atentos, nossos corpos, deixando-me desconfortável. Pouco depois, as outras meninas chegaram.

— Por que veio para cá?–repeti.

— Vou para casa– Marianne respondeu. Sua voz era doce e suave, apesar de firme.

— Você vive aqui?– questionou Fernanda, arqueando as sobrancelhas.

— Claro que não– ela tirou uma pedra azul do bolso e usou-a para desenhar um círculo no chão.

— Para que isso?- perguntou Momona.

— Vocês querem conhecer um lugar novo? Entrem no círculo.– disse Marianne, colocando as mãos na cintura.

— Não estou entendendo...– falei.

— Entre no círculo e você entenderá.

Olhei para Richard. Ele também parecia desconfiado.

— O que vai acontecer quando entrarmos?– perguntei.

— Você vai ver. Não custa tentar, custa?

— Vamos- falei para o restante do grupo. – É só um círculo desenhado no chão, não vai acontecer nada.

— Por que você quer entrar então?– falou Steph, com um sorriso sarcástico no rosto. Richard riu.

Apesar de saber que fazia papel de idiota, entrei no círculo. De repente, o ar pareceu escapar dos meus pulmões, enquanto tudo a minha volta girava rapidamente. Confuso, tentei sair dali, mas Marianne segurou meu braço.

— Eu não sairia agora se fosse você, vai acabar parando em alguma outra dimensão paralela, e não vou poder te buscar.– explicou.

— Quê?

Derrubado pela tontura, caí no chão. Permaneci de olhos fechados por alguns segundos, até ter a certeza de que não vomitaria. Quando voltei a abri-los, tudo o que via era escuridão.

— Seus amigos devem vir daqui a pouco- ouvi Marianne dizer. – Não se preocupe.

Levantei-me e, devagar, andei na direção da voz da menina.

— Ah... achei!– ela falou.

Ouvi um estalo quando uma forte luz azulada invadiu o lugar. Instintivamente, cobri meus olhos com as mãos.

— Olha, olha!– disse Marianne, apontando. Sua pedra azul emitia a luz que iluminava o ambiente.

Olhei para onde ela apontava. Algo surgia no círculo desenhado no chão. Reconheci a forma de Richard, um tanto embaçada e estranhamente fluídica. O mesmo aconteceu, depois, com Fernanda, Steph e Momona, mas em outros cantos da sala.

— É interessante, não? Ver as pessoas chegando aqui...– comentou Marianne.

— Onde estamos?–perguntei.

A forma de Richard tornava-se mais clara e próxima, até parecer totalmente sólida dentro do círculo. Ele caiu de joelhos. Seu rosto ganhara uma coloração esverdeada. As garotas já se levantavam e tiravam a poeira de suas roupas, enquanto meu amigo permanecia estático, lutando para não vomitar.
A sala em que estávamos era pequena e abafada. Tijolos vermelhos formavam as paredes, o chão e o teto; várias almofadas encontravam-se espalhadas pela sala e, no centro, uma pequena mesa retangular completava aquele cenário simples.

— Onde estamos, afinal?– perguntou Momona, já impaciente, sentando em uma almofada.

Marianne pigarreou e, gesticulando exageradamente como uma apresentadora de circo, respondeu:

— Bem-vindos a Mauerstadt, a maior cidade do Mundo Real.

— Mundo Real?– Fernanda perguntou, confusa como todos nós.

— Sim, esse é o nome dado a esse mundo. Minha mãe me disse que é porque o governo daqui considera esse mundo superior aos outros. O seu, para ele, é só uma cópia incompleta desse aqui.

— Como no Mundo das Ideias, de Platão...– comentou Steph, pensativa.

— Acho que já ouvi falar sobre isso, mas o que é mesmo?– perguntei. Richard bufou, como se minha falta de conhecimento o irritasse.

— Deixa para lá...– Steph respondeu, com um "quê" de irritação na voz. Era tão ruim que eu tivesse dormido nas aulas de Filosofia?

— O que quer dizer com "esse mundo"?– Fernanda questionou à Marianne.

— Eu tenho que explicar tudo para vocês? Não é óbvio? O que acham que quero dizer?

— Que esse seria tipo um outro planeta, mas isso não faz sentido.– falei.

— É claro que faz! Ou você achava que o seu era o único com vida?

— Bem, eu...– comecei.

— Ou esperava alienígenas verdes com antenas, ou talvez algum com uma língua dentro da outra? Conheço um pouco da cultura de ficção científica humana. Vocês são bizarros!– ela completou.

Aquela conversa estava formando um nó em minha cabeça. Perguntei:

— Então é possível viajar entre mundos usando círculos mágicos?

— Exato! Infelizmente, essa é uma prática proibida, então não conte a ninguém que faço isso.– Marianne respondeu, com um sorriso que emanava esperteza.

Richard apertava com força o próprio braço. Deduzi que tentava se certificar de que não estava sonhando

Pela pequena porta no canto da sala, entrou uma moça. Era alta e bonita, com olhos verdes e orelhas pontudas como Marianne. Seu cabelo, preso em um rabo de cavalo, era azul e escuro como o céu em uma noite sem estrelas. Ela vestia uma túnica verde água e carregava uma aljava e um arco nas costas.

A moça disse algo para Marianne em uma língua que eu não entendia, num tom de repreensão e, voltando-se ao meu grupo, falou:

— Sou Baelathvereth, líder da Tropa Revolucionária. Vejo que já conhecem Nyeth, minha filha- ela indicou Marianne com um gesto. – Quem são vocês?
Estranhei a forma como ela chamara Marianne, mas optei por não questionar.

— Sou Arthur e ele é o Richard. As meninas são Steph, Fernanda e Momona.

— Receio que terão de voltar ao seu mundo, visto que a entrada de humanos aqui não é permitida.

— Vocês são o que então?– perguntou Fernanda.

— Elfas- disse a moça, como se fosse uma resposta óbvia. — Toda a população de Mauerstadt acredita que humanos são apenas lendas. Por isso, o governo proibiu a entrada de qualquer indivíduo da espécie aqui.

— Por que não acreditam que existimos?– perguntei.

— Vocês também não acreditavam em elfos, certo?– assentimos – Parece difícil para povos arrogantes e egocêntricos como os nossos cogitar a existência de outras espécies inteligentes. Muitas outras existem, é claro, além das nossas.

— Então o governo sabe de nossa existência, mas mantém em segredo. Isso significa que há outros humanos nessa dimensão?– falei.

— Sim.

Sorri. Talvez eu pudesse viver aqui. Talvez esse mundo me aceitasse.

— No que está pensando?– perguntou Marianne.

— Hã? Eu? Bem... Acho que, já que estamos aqui, podíamos ao menos conhecer a cidade. E eu também queria saber o que é essa Tropa Revolucionária.– respondi, envergonhado.

— É uma ótima ideia, mãe! Se eles colocarem roupas normais, ninguém vai perceber que são humanos. Por favor, por favor...– Marianne praticamente suplicava.

A moça suspirou.

— Tudo bem, desde que não causem problemas.

— Não causaremos.– prometi.

Notas finais
É uma fic interativa, então preciso da participação de vocês! Comentem, deixem sugestões, críticas, etc. Obrigado!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.