For The First Time
4 The book
No dia seguinte...
Era uma noite fria de quinta e eu só conseguia pensar na prova de Física do dia seguinte. O relógio marcava quase 22hs e eu sabia que precisava terminar os cinco capítulos que faltavam da apostila antes de pensar em dormir.
– William? Filho...tem um amigo seu na sala. – a voz da minha mãe me disse do outro lado da porta, me trazendo para a realidade.
– Amigo? Que amigo? – respondi após concluir em segundos que não tinha nenhum.
– John? Desça logo! E aproveite para jantar...sua sopa está na mesa. Estou com seu irmão na garagem, estamos tentando consertar o carro! Deu problema hoje de novo, acredita?
– Tá mãe. Tanto faz. – respondi sentindo uma inquietação crescente.
Só podia ser uma brincadeira de mau gosto. Talvez um daqueles brutamontes tivesse me visto falando com o John e agora estavam tentando me atacar na minha própria casa, usando isso como uma maneira de me fazer sair do quarto.
Após descartar essa possibilidade, coloquei um casaco e desci.
Chegando na sala, o vi de costas. Sim era ele. Sua nuca, seu casaco cor verde musgo.
Ele segurava uma xícara de chá e parecia encarar a sua parede à frente.
Não conseguia dizer nada, pois tal cena me parecia absurda. Impossível. Então tossi alto.
– Oh. Ei você. – ele se levantou sorrindo.
– Boa noite. – disse me arrependendo instantaneamente.
– Boa! Espero não estar incomodando...- respondeu apoiando a xícara na mesa e ajeitando sua calça jeans preta justa.
– Não. C-como você está?
– Bem! E você? Melhor? Parece meio pálido...
– Eu sou desse jeito mesmo. – respondi da maneira mais natural possível, mas isso o fez rir, o que me deixou bem sem graça, já que era verdade.
– Você é uma figura. Sua mãe também! Ela aparentemente não se lembrava que o filho dela se chama Sherlock. – ele riu e eu tive que rir sem graça.
– Não se ofenda, mas como soube onde eu moro? – perguntei.
– Ah, claro! Já ia me esquecendo o por quê eu vim...bem, primeiramente, você me disse. – ele respondeu enquanto me mostrava um lugar ao seu lado no sofá.
– Eu disse? – perguntei retoricamente. De fato eu havia falado, assim que ele me ofereceu sua carona, no dia que nos conhecemos.
– Sim! E...por que você não se senta? Eu não mordo! – brincou e eu me vi obrigado a obedecer mesmo que com muito custo.
– E então...- continuei ao perceber que ele tinha consigo uma sacola de cor parda.
– E então que da última vez que nos encontramos, você me falou sobre o livro que perdeu no dia que nos conhecemos.
– “O Corvo”. Sim.
– Bem, eu devo confessar que fui nas salas, mas o livro não estava lá.
– Não, não estava. – repeti.
– Mas daí eu me lembrei que tinha ele em casa e resolvi trazê-lo para você. Aqui está. – me respondeu entregando a sacola rapidamente, praticamente jogando-a em meu colo.
Abrindo-a eu vi. Sim. Era o livro. O mesmo livro, igual, mas a edição devia ser pelo menos umas três anteriores.
Pegando-o, eu reparei que ele tinha orelhas, mas além disso estava em perfeito estado.
– Era da minha irmã, antes dela se mudar. Agora é meu. Na verdade seu. — ele completou encarando o tapete da minha sala.
– É igual ao o que eu tinha.
– Sério? Ótimo. Legal...- ele me encarou, parecendo o John de antes de novo.
– Sim. Mas...por quê? – perguntei automaticamente enquanto folheava-o cuidadosamente.
– Por que o quê?
– Por que você está fazendo isso...- perguntei quando nossos olhares se encontraram sem querer.
– Porque eu percebi o quanto você ficou chateado de perder o seu. Porque eu sei o quanto é chato perder um livro que se está lendo. E porque eu tinha ele em casa! Não me custou nada.
Olhei o livro de novo, e o encarei mais uma vez. Foi quando eu conclui que nunca alguém tinha sido tão generoso comigo.
– Espero não ter sido evasivo. – ele concluiu fazendo-me retornar à realidade.
– Oh. Não...não, claro que não. Pelo contrário. Eu agradeço. Muito. É que não nos conhecemos. Quero dizer, eu não sou seu amigo ou nada parecido. Quero dizer, você...me viu só duas vezes na vida. Não precisava ter se preocupado.
– Bem, mas eu preocupei. E tenho que discordar. Sim, nos vimos só duas vezes...mas o fato de não sermos amigos é só um detalhe. Não somos amigos ainda. Se você quiser, claro. A verdade Sherlock é que você me parece o tipo de pessoa que precisa ter um amigo.
Mais uma vez nos encaramos e mais uma vez aquilo me incomodou. Muito.
Eu não saberia explicar se era a proximidade que tinhamos naquele momento, se era o seu tom de voz comigo sempre gentil, ou se era o fato dele ter se lembrado do livro. Dele ter se lembrado de mim. Tudo aquilo era completamente novo.
Como eu poderia supor que John Hamish Watson seria sempre exatamente daquele jeito comigo?
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