For Jules
1 Não desista!
Notas iniciais
Volte, Jules. Precisamos de você, da sua presença, sua alegria contagiante... eu preciso de você. Abra seus olhos, sorria mais uma vez, fale algo, reclame, grite... mas reaja, por favor.
Era a quarta semana seguida que eu a visitava no hospital. Final da tarde. Consegui uma brecha no trabalho para ir até lá. Comprei um buquê de flores já que o antigo havia murchado. “Por que dar flores a alguém que não as pode ver?” Me perguntavam. Minha resposta? Esperança. Sei que uma hora ela vai acordar e saber que tinha alguém olhando por ela.
Fiz questão de tirar as flores murchas e trocar a água do vaso. Não queria que ela acordasse e visse aquela cena; com certeza ia jogar uma piada dizendo que eu me importava mais em cuidar de cogumelos que flores. Eu queria que ela soubesse que eu sempre estava lá por ela, não por egoísmo, mas porque... eu... tinha alguém que... se importava com ela... que a amava.
O tempo passou. Um mês e meio de coma. Começavam os comentários pessimistas. “E se ela nunca mais acordar?” “Já parou pra pensar que está fazendo tudo isso à toa?” Ignorei-os, mesmo que uma pequena parte de mim chorasse profundamente ao pensar nisso.
Era um sábado à noite. Chovia pouco e estava frio. Nada disso me impediu de visitá-la. Entrei no quarto e a primeira coisa que meus olhos procuraram foi ela. Deitada em seu leito, de olhos fechados, ‘dormindo’, como se o som que saía da máquina de suporte de vida não atrapalhasse. Agradeci aos céus por ainda ouvi aqueles repetidos bipes.
Peguei uma cadeira e deixei-a perto de sua cama para que eu sentasse.
— Ei, Jules... — disse após segurar sua mão direta — estamos indo bem. Um pouco puxado no laboratório sem uma ajudinha sua... mas estamos no caminho. — dei uma breve risada.
Fiquei quieto por alguns minutos enquanto olhava para seu rosto. Era possível ver ainda algumas cicatrizes das feridas que aquele desgraçado deixou nela. Para o bem dele, estava bem longe de mim, porque eu seria capaz de por um fim em sua vida assim como ele fez com aquelas mulheres.
Deixei-me levar por estes pensamentos obscuros novamente. Respirei fundo e pressionei minha mão sobre a dela:
— Ele nunca mais vai machucar alguém, Finn... nunca mais.
O silêncio tomou conta de minha voz novamente. Encarei-a calado por mais um minuto. Meu tom mudou de justiceiro para preocupado.
— Estão querendo desistir de você. Eles acham que... talvez você pudesse ajudar as pessoas de outra forma. Tem muita gente que precisa de transplante. Mas... como poderiam fazer isso?! Seu corpo está se curando... você está prestes a melhorar por completo. Eu não posso deixá-la ir! Não dá, eu não consigo... eu sei que você vai acordar e levantar dessa cama.
Toda vez que eu falo meu coração espera que ela responda no mesmo instante.
— Você não desistiria de mim, não é, Jules?
Deslizei meus dedos sobre sua mão enquanto segurava-a fortemente. Beijei-lhe a testa e levantei-me.
Antes de sair do quarto voltei meu olhar a ela uma última vez:
— Eu vou esperar por você.
Não importa o tempo que for.
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