Notas iniciais

Quando cheguei da escola, me joguei na cama e fiquei apenas observando a janela. Depois de alguns minutos de imobilidade, cruzei as mãos embaixo da cabeça e fechei os olhos. Ainda estava com o mp3, ouvindo a mesma música, \"Halo\". Coloquei para executá-la repetidamente.

_ Te compreendo Beyoncé... Eu também quebrei algumas regras por causa de alguém...

Levantei e desliguei o aparelho. Fui almoçar e depois tomei banho. Já tinha tomado minha decisão. Não iria mais me proteger do Aquiles.

***

_ Bom dia Mel! — ele logo cumprimentou ao me encontrar perto da passarela.

_ Bom dia Aquiles. — não era tão empolgado quanto o dele, mas já era um cumprimento.

_ Tá de bom humor hoje hein!

_ Não tô não.

Ele riu e começamos a subir a passarela.

_ Hoje depois do intervalo tem aula de nada. — ele se referia à aula de SIC.

_ E outra depois dela. — eu me referia à educação física.

_ Mas educação física é legal...

_ Não gosto de jogar. Nem de levar boladas.

_ Ô louco, você ainda não esqueceu da nossa primeira aula de EF?

_ Meu nariz ficou dolorido a semana inteira... Você é mesmo um desastre jogando futebol.

_ Você sabe muito bem quem foi que chutou aquela bola.

_ Não interessa. Se você estava no time dele, deveria receber. Se estava no time adversário deveria defender. Se ele não fosse tão torto, teria feito gol no devido lugar.

Ele gargalhou sobre o fato do Rafa ter feito gol na minha cara. A dor que senti naquele dia não era motivos para risos...

_ Tá bom, desculpa Mel. Tentaremos nos conter hoje.

_ Por favor, façam isso e poupem algumas vidas.

_ Você está extremamente bem humorada, o que houve?

_ Você chama isso de bom humor, Aquiles? Estou com pena de você.

_ No seu caso é, Mel.

_ Ahn...

Encarei-o tentando decifrar o que ele quis dizer com \"no meu caso\". Resolvi deixar pra lá, eu havia construído exatamente a imagem que queria. Ele se sentou atrás de mim durante a aula de geografia e acho que dormiu porque não me perguntou nada. A Bia também deveria estar dormindo, pois estava atrás dele e em silêncio. Depois fomos os três para a aula de literatura. A professora finalmente exigiu a lista dos grupos. Cinco pessoas. Nesse momento a sala virou uma bagunça, pessoas iam e vinham recrutando integrantes para o grupo.

_ Vou lá chamar o Rafa. — disse o Aquiles quando também deixou seu lugar.

_ Bom, ainda vai faltar uma pessoa, não é? — perguntei insegura para a Bia, uma vez que estávamos sozinhas e precisaríamos trabalhar em equipe.

_ É.

Putz, ela não podia nem ao menos tentar um diálogo comigo?

_ Talvez você pudesse chamar sua amiga Bruna da aula de química.

Ela cruzou os braços e ficou me encarando impassível.

??????????

O que ela estava querendo? Me ignorar? Me provocar? Me irritar? Bem, tinha conseguido as três coisas.

_ Bia, falei com você.

_ Eu ouvi.

_ E não vai me responder?

Não deu tempo de saber o que ela ia responder de verdade, porque o Aquiles já estava de volta, e na frente dele, ela era sempre falsa.

_ Ela já tem grupo. Ela me disse logo de manhã. — e era incrível a cara de pau dela em ainda sorrir.

_ Putz, que droga... Porque o Rafa também já tá no grupo dos meninos. — lamentou-se Aquiles.

Pra mim, juntar as cinco pessoas era mera formalidade. Um trabalho bem feito devia ser feito por uma única pessoa.

_ Ótimo, então eu e a Cami fazemos com vocês!

A Thaís surgiu por trás do Aquiles com aquelas madeixas brilhantes. Eita inveja...

_ Beleza então.

Prontamente o Aquiles tirou uma folha do caderno e escreveu nossos nomes. Enquanto ele foi entregar a folha pra professora, a Thaís voltou para o outro lado da sala onde estava sentada com a amiga dela.

_ Não acredito que você aceitou ela no nosso grupo... – reclamou a Bia quando o Aquiles voltou e se sentou numa mesa ao lado.

_ Aff Bia...

_ Você sabe que elas não fazem nada.

_ Bia, depois a gente vê isso.

_ Fora que a Daphne não vai gostar nada disso.

_ Mas o que a Daphne tem a ver com o nosso trabalho de português?

_ Quer que eu diga?

Parecia que o assunto era sério. Eu olhava de um a outro enquanto trocavam suas farpas. Mas nesse instante ficaram ambos quietos, apenas se encarando irritados.

_ Não precisam se preocupar, posso fazer o trabalho sem a ajuda de ninguém. – estabeleci.

O Aquiles voltou a encará-la com um tom de “Viu?”. Mas aquilo não a deixou satisfeita. Ela continuou emburrada a aula inteira. Oh Deus, que curiosidade. Mas eu não ia me atrever a perguntar o que acontecia. Será que a Bia tinha ciúmes da Thaís também? Bom, se ela tinha ciúmes de mim que parecia um girino, imagine da miss 3ºC...

Na aula de física eles sentaram-se juntos e eu fui para a última bancada. De lá eu percebi que a Bia ainda reclamou mais algumas coisas, mas depois do exercício já estava novamente feliz.

_ E aí, vai tentar um intervalo?

_ Não Aquiles. Vou pra sala.

_ Eita nós hein...

Coloquei minha mochila nas costas e fui para a sala de SIC. Depois de aturar 50 minutos de nada, nos dirigimos para a quadra externa.

Sentei no mesmo gramado que costumava sentar enquanto as meninas revezavam no time de vôlei e os meninos no futebol.

Coloquei meu mp3 e recostei numa árvore. O sol estava quentinho e eu estava morrendo de frio. Fiquei com medo de cair no sono, mas mesmo assim fechei os olhos.

The way of the ocean

O caminho do oceano

Touch my heart like fire

Toca meu coração como fogo

I cannot control you

Eu não posso controlar você

You have deeper layers

Você tem umas camadas mais profundas

_ Olha só o que eu trouxe hoje!

Eu não gritei porque não era do meu feitio, mas o susto que ele me causou provavelmente parou meu coração por alguns segundos.

_ Você é louco Aquiles?

_ Desculpa, te assustei?

Bufei e tirei o mp3 player.

_ Não, é que você tem essa cara de louco e eu só queria confirmar.

_ Dizem que os loucos não sabem que são loucos.

_ Então você não vai saber me responder.

_ Sarcasmo chegou aí e parou não é?

_ Você não tem que jogar futebol não?

_ Hoje eu não vou jogar. – Ele sentou ao meu lado e disse – Você não viu o que eu disse que trouxe?

Ele indicou o livro de química.

_ Ahn. Resolveu tomar juízo?

_ Bom, vamos lá... Balanceamento estequiométrico.

Cruzei os braços e observei o que ele faria em seguida. Tirou um lápis do bolso e começou a resolução de um exercício. Não demorou muito para ele me perguntar:

_ Mel, você está muito ocupada?

_ Apenas observando sua falta de habilidade em química.

_ Que tal praticar um pouco seus dotes químicos?

_ É, já percebi que se eu não intervir, daí não sai nada. Vamos lá, o que você tem que balancear?

_ Pb3O4 para PbO + PbO2.

_ E aí, o que você lembra?

_ Que a prova de DP é segunda feira.

_ Deixa de ser besta. O que você lembra pra fazer com essa equação, hein?

_ Han... Alguma coisa que tem que ter o mesmo número de átomos, não é?

_ Exato, e?

Ele voltou a encarar o livro. Caramba, não parecia ser tão complexo assim...

_ Aquiles, quantos átomos de chumbo tem na primeita?

_ Três.

_ E na segunda?

_ Dois.

_ Logo...?

_ Tá faltando um átomo de chumbo aqui, não tá?

_ Só chumbo?

Ele pensou mais um pouco.

_ Oxigênio também. Só colocar um dois aqui e tá tudo resolvido, certo?

_ Certo.

_ Valeu Mel. O que seria de mim sem você, hein? – ele sorriu agradecido e anotou o resultado.

Ele continuou solucionando algumas questões de balanceamento até que bem. Quando chegava um exercício que exigia um pouco mais de raciocínio não tinha jeito, eu tinha que ajudá-lo... Raciocínio não era o forte dele. De que adiantava ser lindo e charmoso se não tinha um pingo de perspicácia?

Eu não pensei isso. Eu não pensei. Ele não é lindo e charmoso!

_ Você consegue corar sozinha?

_ Hã? – despertei da minha batalha mental.

_ Você corou com seus próprios pensamentos. – ele riu maldosamente – Não quer dividi-los comigo?

Isso fez a cor do meu rosto ficar mais forte.

_ Definitivamente não.

_ Hum, era comprometedor então! Eu daria uma grana para saber o que era.

_ Eu daria o dobro pra você continuar sem saber. Continue com os exercícios Aquiles, faltam 10 minutos para acabar a sua sorte.

_ É aí que você se engana! Vai, me passa seu telefone, celular, MSN, Orkut, RG, CPF, tudo!

_ Pra quê?

_ Por favor Mel, preciso estudar muito esse fim de semana! E preciso de alguém pra me ajudar!

“Droga!”

_ Oras... Não há ninguém que possa te ajudar? A Bia não passou em química?

_ Mel, convenhamos...

_ Por que não?

_ A Daphne teria um filho se eu chamasse a Bia para me ajudar a estudar.

_ Não precisa levá-la para sua casa...

_ Confio mais na sua química. Vai, me passa seu telefone.

O telefone de casa eu não ia passar. O celular nem eu sabia o número...

_ Anota meu MSN e tá de bom tamanho.

Ele deu de ombros e anotou meu e-mail.

_ Mas você vai entrar no fim de semana?

Eu nem tinha uma vida social... Não restava muita coisa para se fazer no fim de semana além de navegar sem direção pela internet...

_ Vou tentar.

_ Anota meu celular e me manda uma mensagem quando você entrar.

Tentei agir naturalmente ao pegar meu celular e gravar o número dele. Na verdade era uma acontecimento natural, mas ultimamente eu andava esquisita. Já estava irritando a mim mesma.

_ Se você pudesse dar um pulo lá em casa, ia ser de grande ajuda.

_ Não.

Respondi muito rápido, então me senti na obrigação de justificar a recusa imediata:

_ Vou visitar minha tia, ficaria muito corrido... Mas eu entro no MSN, prometo.

_ Tá bom Mel. Vou acreditar, hein!

O pessoal começou a deixar a quadra e recolher o material. O Aquiles se levantou e me estendeu a mão para me ajudar a fazer o mesmo.Suspirei e aceitei a ajuda. Segurei na mão dele e sem perceber já estava de pé. Pareceu demorar uma eternidade para que ele soltasse a minha mão. Os toques dele começavam a me incomodar.

_ E então? Vamos descendo? – perguntou a Bia jogando-se sobre o ombro do Aquiles.

_ ‘Bora. Vamos Mel.

_ Sim.

Joguei minha mochila nas costas e os acompanhei. A Bia falava sem parar sobre o vôlei, e notei que o Aquiles não dava muita bola. Volta e meia trocávamos olhares cúmplices sobre nosso interesse pelo assunto. Ele me deu uma piscadela e eu acabei soltando uma risadinha discreta. Por sorte a Bia não percebeu.

_ Então até segunda. Tchau Cris.

A Bia se despediu com um beijo no rosto do Aquiles e apenas acenou para mim. Ela não fazia questão nenhuma de disfarçar...

_ Tá rindo de quê? – ele me perguntou quando começamos a descer para o tróleibus.

_ Assuntos internos.

_ Sei. Você é muito observadora pro meu gosto. Anda vendo demais.

_ Não disse nada sobre ter visto coisa alguma.

_ Nem precisa.

Não me segurei e acabei gargalhando.

_ Ai Aquiles, sabia que isso não se faz com uma garota?

_ Isso o quê Amélia Cristina?! – ele quis parecer ofendido.

_ Você vai ver só. Ela ainda vai te dar muita dor de cabeça.

_ Esse é só o jeito dela.

_ Tá bom. Não disse nada.

Ele me fez uma careta divertida, que ficava linda no rosto dele. Conversamos mais algumas futilidades até meu tróleibus chegar e interromper o assunto. Que chato que foi isso... Mas tudo bem, ele me procuraria no fim de semana. E eu mal via a hora de estudarmos química.

You\'re alive and you\'re wild

Você está vivo e você é selvagem

When you\'re nearer to me

Quando você for mais próximo a mim

I lean forward to touch you

Eu inclino-me para a frente para tocar em você

But you surprised me

Mas você me surpreendeu

Continua

Notas finais
*
N/A: Olá minhas leitoras queridas, bom eu precisava dar esse recado...
Eu descaradamente plagiei a idéia da Keli-chan de colocar trilha sonora na fic.. =P
Mas idéias boas devem se difundir, não é amiga? ^^
Falando nela, quem puder, confere a fic q é ótima, e detalhe importante: eu orgulhosamente a estou betando!!! o/
//apedrejada.
Fic: Sonhos & Promessas

[A artista doou todo o cachê de sua propaganda]