For Amelie - 1a Temporada

7 VII - Mesquinharia Vs. Altruísmo


Notas iniciais
Capítulo betado pela angel da Keli-chan pq a Kikinha viajou! Brigadinha amigaaa!!

_ Ah, que amor de menino, Mel! — exclamou minha mãe enquanto dirigia de volta pra casa.

Eu já até imaginava as intenções dela... Afinal, foi o único garoto que ela conheceu que foi gentil comigo. Ela chegou a conhecer o Thiago também, mas foi um fiasco. Ele não se preocupou em ser amável, e ela nunca confiou nele. Tentou me alertar inúmeras vezes, mas ele era a única pessoa que eu tinha perto de mim, e acabei fazendo besteira...

_ Você achou mesmo? – eu realmente não sabia onde ela via tanto amor, ele era só irritante.

_ Claro! E lindo também! – deu uma risadinha insinuante – Começou bem na escola, hein Mel!

_ Mãe, por favor, estávamos escolhendo um presente para a namorada dele. Ele tem namorada há mais de um ano.

_ Oh...

Ela se calou e o sorriso se desfez. Mas eu parecia enxergar nitidamente as engrenagens trabalhando por baixo daquela cabeleira acobreada, procurando uma forma de nos manter ligados.

_ Mesmo assim, ele parece ser um bom amigo. – ela continuava a insistir.

_ É mãe. Ele é legal. Todo mundo lá é legal.

_ Que bom que está gostando Mel! Afinal, esse ano temos formatura, não?

_ Não, não temos mãe. Eu prefiro não me envolver nessa papagaiada.

_ Ai, ai, ai... – ela suspirou desolada com a filha careta que tinha – Como quiser. Mas tenho certeza que você ainda vai mudar de ideia.

_ Vou nada...

A gente continuou conversando até ela me deixar em casa e voltar correndo para o serviço por já estar atrasada.

***

Quando eu desci do tróleibus, consultei meu relógio. Eram exatamente 6:45, como no dia anterior. Uma vez a sorte no Orkut disse que a pontualidade era a virtude dos entediados. Bom, eu não escondia de ninguém que a minha vida era um tédio. Mas pelo jeito, eu não era a única entediada.

_ É, parece que é você quem está me perseguindo... Mel.

Putz, ele de novo... E ainda insistia no apelido.

_ Que tal assim: você para de me chamar de Mel, e eu paro de te perseguir?

_ Você não vai parar de me perseguir.

_ Ah vou.

_ Vai, vamos subir logo e parar com esse papo sem noção.

Seguimos para a passarela, enquanto um contingente de alunos se arriscava pela avenida.

_ Gente boa a sua mãe... – ele começou na tentativa de engatar um diálogo. Como sempre, aliás.

_ Aham.

_ Ahh, não comece com os seus monossílabos...

_ O que mais eu poderia dizer além de concordar que minha mãe é gente boa?

_ Assim está melhor. Você é filha única?

_ Sim.

_ Eu tenho uma irmã um ano mais nova. Aquela menina é um porre...

_ Então é de família?

_ Agora vai me tirar? Bom, melhor que nada. Tá ligada que hoje o Walter começa geometria analítica, né?

_ Sim.

_ Aff, geometria analítica, ninguém merece... Você tem cara de quem curte matemática.

_ Curto.

_ E português também. E química, biologia, e todas as outras...

_ Tem razão.

_ Tirei a sorte grande trocando de parceira de química... Não quero te assustar, mas como seu parceiro, é minha obrigação te alertar que eu tenho PP de química...

_ Você o quê?!

Essa foi a única hora que ele despertou minha atenção verdadeiramente. Meu parceiro de química estava fazendo Progressão Parcial em química... Ele havia reprovado em química no ano anterior!

Belo parceiro...

_ Ahh Mel, você devia entender... No primeiro ano eu passei por pouco, mas ano passado não deu. Eu simplesmente não consigo acompanhar! Eu devo ter algum bloqueio para química...

Pra mim aquilo tinha outro nome: relaxo.

_ Bloqueio? Acho que estudar resolve.

_ Você tá achando que é desleixo né? Mas não é Mel, eu faço o possível! E o impossível também!

Soltei um muxoxo de desaprovação.

_ Não precisa ficar tão irritada... As principais notas são individuais.

Essa afirmação desceu como um balde de água fria na minha consciência. Eu estava unicamente preocupada com o meu desempenho escolar, enquanto tinha a oportunidade de ser útil a alguém que precisava de reforço. Ser mesquinha era pior que ser relaxada.

_ Não estou irritada... Acontece que meu trabalho vai ser dobrado, não é? Vou ter que estudar por mim, e ajudá-lo a aprender química, afinal, você precisa se formar.

Acho que falei demais sem pensar... Isso já era altruísmo demais. Estava pouco a pouco deixando minha concha protetora. Podia ser muito bom, mas o que aconteceu nas outras escolas poderia se repetir.

_ Aahh Mel!!! Valeu! Pode deixar, serei um ótimo aprendiz.

_ É o mínimo que você pode fazer. Minha paciência é mínima.

_ Isso eu sei. Mas eu já aprendi a lidar com isso.

Ele sorriu para mim de forma tão linda que eu corei. Eu não soube o porquê. Talvez pela humilhação que sentia com a beleza dele.

Mirei o chão imediatamente antes que ele percebesse meu desconforto, e iniciamos a subida para o bloco 3. Ele continuou falando durante o caminho sobre as matérias e os problemas com os professores, enquanto eu concordava ou reprovava vagamente, tomando o cuidado de não encará-lo por muito tempo.

A primeira aula foi de SIC. E eu só descobri que era a sigla de “Sistemas de Informação e Comunicação” quando a professora escreveu na lousa. Pelo jeito a surpresa não era só minha.

De início eu fiquei empolgada, afinal, era uma matéria praticamente extracurricular, e tinha um nome bem interessante, lembrava publicidade.

Mas a medida que a professora explicava sobre os fundamentos da matéria e os trabalhos a serem desenvolvidos ao longo do semestre, meu entusiasmo foi se dissipando como fumaça.

Ela disse que estudaríamos sobre os meios de comunicação, e desenvolveríamos um trabalho sobre cada um deles. Um grupo falaria da TV, outro dos jornais, outro das revistas, etc...

Em resumo, era uma aula sem sentido.

_ E aí Mel, curtindo SIC? – Aquiles cochichou pra mim enquanto a professora se ocupava de procurar o slide com o conteúdo programático do curso.

_ Pra mim, é uma aula de nada. Praticamente uma aula vaga.

_ Também achei. Deve ser uma aula pra descansar das outras...

A conversa foi interrompida porque a professora encontrou o slide. Resisti ao impulso de xingar a professora e a matéria inútil dela pelos próximos 40 minutos. Ao final, o pessoal começou a se retirar lentamente para a próxima sessão de tortura.

_ Vamos lá Mel? – tentar uma amizade com Aquiles implicava em fazer companhia, então...

_ “Mel”? Que apelido mais fofo!!! Posso usar também?

A Bia já estava pendurada no pescoço dele. Eu nunca via de onde ela surgia...

_ Por favor, não Bia... Eu detesto esse apelido...

_ Ahh, mas o Aquiles pode...

_ Ele não pode, mas ele não me ouve.

_ Bem, não faz mal. Cris também é bonitinho.

A cara que ela fez ao dizer “bonitinho” me lembrou da expressão “bonitinho é o feio arrumado”. Tá certo que estávamos tratando apenas do meu apelido, mas eu sabia que as intenções dela iam bem além. Eu não era bonitinha, muito menos estava arrumada.

_ Bom, vão indo na frente, eu ainda quero falar com a professora.

_ Nós te esperamos. – sugeriu o Aquiles.

_ Não, vai demorar. Daqui a pouco alcanço vocês.

Lancei um olhar determinado para o Aquiles, na esperança que ele entendesse e acatasse meu pedido.

_ Beleza, até daqui a pouco.

Eles deixaram a sala e eu dei mais um tempo pra sair. Eu não tinha, nem teria assunto nenhum para tratar com a professora, só queria me livrar da Bia. A presença daquela garota me incomodava profundamente. O olhar, o tom debochado, os lindos cabelos ruivos... E eu tinha a nítida impressão que ela buscava uma sociedade com a tal Daphne...

Como eles chegaram tarde à sala de matemática, e eu mais tarde ainda, não pudemos nos sentar muito próximos. Dessa vez eles saíram na desvantagem, pois após uma breve explicação sobre coordenadas cartesianas na reta e no plano, o professor passou um exercício.

Não precisava de muito esforço, então assim que ele terminou de escrever na lousa, eu coloquei o resultado e aguardei a correção.

_ E aí, quanto deu?

O cara de pau teve a coragem de se deslocar do outro extremo da sala para copiar a minha resposta.

_ Você devia treinar um pouco seu raciocínio.

_ Ah Mel, dá um desconto...

_ Não dou. Esta é uma prova de amizade.

_ Vai, quanto deu?

_ Quanto vale a abcissa Aquiles?

Ele primeiro me olhou incrédulo, depois pensou em me persuadir, e em seguida suspirou derrotado. Olhou para o caderno que trouxe consigo.

_ 2m-8.

_ E qual foi a informação que o professor passou sobre ela?

_ Ela é nula.

_ Logo...?

_ 2m-8 = 0?

_ E quanto isso dá?

_ 4.

_ E o que o número 4 é Aquiles?

_ Um quadrado perfeito.

Então eu mostrei meu caderno.

_ Olha, e não é que é isso mesmo?

_ Ah, com você não parece tão difícil...

_ Você está com o seu cérebro atrofiado Aquiles. Trate de exercitá-lo se quiser minha parceria em química.

_ Valeu Mel!

Ele voltou para o lugar dele e repassou a informação. Aposto que exigindo menos esforço dos colegas do que eu exigi dele.

Depois disso o professor dispensou. Como eu fui uma das primeiras a sair por ter terminado o exercício, dei uma passada no banheiro do bloco 2, onde seria a aula de biologia. Observei-me no espelho como havia feito na segunda-feira.

Meus cabelos volumosos tinham o mesmo penteado senil. Eu o soltei e fiz um rabo de cavalo. Ele estava bem comprido, quase no meio das costas. E eu não havia reparado nisso... Eu estava mesmo me largando...

Recobrei minha consciência e fui para a sala de biologia. Muita gente já tinha entrado. A sala era um laboratório com 10 bancadas para 4 pessoas cada. As bancadas estavam dispostas em 2 fileiras de 5, e os alunos sentavam-se em duplas, uma de frente a outra.

O Aquiles já estava na sala, e sentou na última bancada do lado esquerdo, perto da professora. A bancada dele estava bem populosa, tinha 7 pessoas. Ele, Bia, as misses da sala, os dois garotos do futebol e um dos que eu assustei na aula de história. Conversavam alegremente, e a risada da Bia era a única que se sobressaía.

Eu me sentei na primeira bancada da direita, no extremo oposto, e era a única na mesa. Como o Aquiles tava de costas, não me viu entrar. Fiquei satisfeita, não queria por nada do mundo me aproximar daquela mesa.

Aos poucos a sala foi ficando cheia, e a forma como se desviavam da minha mesa era bela, quase poética... Por mim, ótimo. Desenvolver trabalhos individuais para mim com certeza tinha mais sucesso que fazê-lo em grupo. Não precisar contestar com ninguém, não precisar depender de ninguém, esperar nada de ninguém, cobrar ninguém. Era perfeito.

A professora saiu da salinha anexa que tinha perto da lousa e se apresentou, sem necessidade, ela havia ministrado as aulas de biologia para a turma no ano anterior.

_ Bom, então podemos começar, não é mesmo? Epa, mas o que é isso? Ahh, Aquiles, Beatriz, Thaís e companhia. Não tão achando essa mesa meio cheia?

_ Ah professora... Se duas cabeças pensam melhor que uma, imagine sete... – argumentou o magricela do futebol.

_ Nada disso. Meninos façam o favor! Vai, três de vocês vão ter que sair daí. Ali tem uma mesa com uma pessoa só.

Um a um eles se viraram para mim. Instintivamente eu olhei para os lados, esperando encontrar outro grupo de um único componente. Devo ter parecido uma retardada fazendo isso. Que beleza, eu estava em evidência novamente... E mais uma vez para desfazer grupos...

Continua