For Amelie - 1a Temporada
9 IX - Problemas de Química
Entramos para a aula e eles se sentaram próximos a mim. Não tinha escapatória. E foi o mesmo durante o resto da semana. Eu encontrei com o Aquiles novamente na quinta-feira no ponto de tróleibus, e resolvi mudar meu horário. Pra piorar meu dia, tinha aula de química. Ele me fazia várias perguntas enquanto o professor escrevia estruturas na lousa.
_ Você alguma vez já assistiu aula de química na vida?! – perguntei já irritada com as perguntas mais simples.
_ Sim, mas esqueci pô! Vai, diz aí o que é tetravalente que eu paro!
_ Capaz de fazer 4 ligações! E não esqueça! Não responderei 2 vezes à mesma pergunta!
_ Fala baixo Mel, o professor tá olhando pra você...
Empalideci e me virei para frente. O professor continuava a passar estruturas na lousa tranquilamente. Lancei um olhar colérico para o Aquiles, mas ele já estava resolvendo os exercícios com um sorriso divertido nos lábios. Felizmente era a última aula do dia e não tive companhia indesejável para o tróleibus.
O único momento que eu conseguia me livrar deles era durante o intervalo. O Aquiles tinha a fome de 12 cabruncos e sempre tinha que comprar algo para comer, e de quebra a Bia recebia exclusividade.
Durante o fim de semana eu fui obrigada a ouvir minha mãe insinuando que meu humor estava ótimo depois de fazer novos amigos. E eu insistia em discordar. Meu humor não estava alterado, e eu não tinha “novos amigos”. Eram apenas colegas de classe. Dois. E uma não ia com a minha cara. E parecia que quanto menos ela me curtia, mais o Aquiles se aproveitava disso. Ele estava me usando para não ficar a sós com ela, para evitá-la. Como ele era covarde... Eu estava quase me oferecendo para dar o fora nela por ele.
As aulas de química continuavam a ser como torturas tanto para o Aquiles quanto para mim. Ele parecia não entender nada e eu tinha que explicar tudo novamente. No começo de março o professor resolveu passar uma atividade para ser entregue em dupla. Eu olhei remoída para o meu parceiro.
_ Sorte minha, azar o seu. – ele disse simplesmente.
O professor entregou as folhas e disse:
_ Façam com atenção pessoal. Algumas questões da prova eu tirei daí.
Ele deixou uma folha na nossa mesa. O Aquiles aproximou a cadeira para poder enxergar também. Não vi necessidade nisso. Ele não sabia nada, logo, não conseguiria fazer nenhuma mesmo...
_ Bom, e aí? Vai arriscar me deixar fazer alguma?
_ Você tem que fazer. Você tem que aprender isso pra prova.
_ Deixa eu tentar a primeira então.
Eu tirei uma folha do meu caderno e coloquei nossos nomes e números e entreguei a ele. Ele pegou a lista de perguntas e leu a primeira. Pensou um pouco e começou a desenhar a estrutura de um hidrocarboneto.
_ Ligação dupla. – corrigi.
Ele colocou mais um risco numa das ligações.
_ Na do meio Aquiles. – corrigi novamente sem paciência.
Ele apagou a errada e fez o correto.
_ Buteno? – me perguntou.
_ Sim. – confirmei.
_ Que nome sugestivo.
Tomei a folha da mão dele enquanto dizia:
_ Farei a próxima.
_ Tá, então eu faço a 3.
Em apenas alguns segundos devolvi a folha pra ele.
_ Mas já?!
_ Vai logo.
_ Quanta sutileza.
Ele pegou a folha e leu a terceira pergunta. Pensou por mais tempo do que na primeira. Desenhou 5 C’s na sequência e iniciou as ligações.
_ Esse tem ligação tripla.
_ Onde?
_ Leia o enunciado com atenção e descubra.
_ É mais rápido você me dizer onde é...
_ Na prova eu não poderei dizer onde é.
Ele bufou e tornou a se concentrar no enunciado. Pousou o lápis no C certo, mas não riscou. Foi para outro C e riscou.
_ Você ia fazer certo, mas errou.
_ Ah, Mel, não dá! Eu simplesmente não entendo!
_ Como não entende Aquiles?! Tá esrito no enunciado o número!
_ Mas tem essas vírgulas... Ah, sei lá.
_ Não seja frouxo! Vai, continua.
Ele me olhou meio insatisfeito. Fazer o quê? Eu também estava! Mas se eu me propus a ajudá-lo com química, ele iria aprender química, nem que custasse a vida dele!
Saímos meio irritados da sala. Eu ainda não o havia visto irritado, mas foi ótimo. Ele era sempre tão desleixado e despreocupado.
Mesmo com tanto desgaste emocional, fomos umas das primeiras duplas a deixar a sala.
_ Vamos esperar a Bia. – ele pediu mal-humorado.
Será que estava fazendo isso para me punir pelas indelicadezas?
Arqueei as sobrancelhas num estranhamento mudo.
_ Foi ela que me pediu.
_ Então vou indo pra sala.
Virei-me e comecei a me retirar.
_ Ei, espera! Então eu vou com você.
_ Então eu vou ao banheiro, assim você não vai.
_ Ow!! Tá estressada?
_ Eu? É você que está todo arisco.
Ele deu uma risada debochada e começou:
_ Eu, arisco? Mel, você tá sempre me repelindo! Nos repelindo! Você não tem o mínimo de paciência, o mínimo de humor...
_ Está reclamando Aquiles? É fácil resolver, pára de me seguir.
Ele ficou boquiaberto sem saber o que argumentar. Ele sabia que foi ele quem veio mendigar amizade.
_ Aff Mel...
Ele começou a andar e eu achei que ele ia descer e me deixar como eu havia pedido. Senti um vazio estranho ao pensar nessa situação.
Mas diferente do que eu pensei, ele veio até mim e passou um braço pelo meu ombro.
_ Vamos logo pra aula de história antes que a gente brigue de verdade.
Ele sorriu sincero e despreocupado como sempre. E eu corei. Ultimamente eu não corava tanto com os sorrisos dele, mas agora a proximidade era um agravante. Dava pra sentir o cheiro dele com distinção. Era um cheiro ótimo.
_ Não é? – ele perguntou.
O tom de verde dos olhos dele estava claro, diferente de quando estávamos na sala. Podia ser impressão minha, mas parecia que ele ficava mais sombrio quando estava irritado.
_ Sim.
Encarei o chão como sempre fazia para me proteger de minha fraqueza. Descemos as escadas e fomos para o bloco 3 e lá ele me soltou. Pouco tempo depois chegou a Bia com a parceira dela, a Bruna. Ela tinha a mesma cara de nojo da Bia e o mesmo cabelo vermelho beterraba. Era um pouquinho mais alta que a Bia e mais cheinha. Tá bom, a Bruna era quase obesa.
_ E aí Aquiles, foram bem?
_ Certamente. Graças à Mel.
_ Olha só, parece que não é só na Biologia que você manda bem né Cris?
_ Na real a Mel manda bem em todas elas. Ela passou em terceiro lugar na Jorge Street, vocês sabiam?
_ É mesmo Cris? – perguntou a Bruna tentando se inserir na conversa.
_ É, mas não foi tudo isso que vocês estão pensando... Eu fiquei estudando por muito tempo...
_ Ah, ela também é modesta. – disse o Aquiles me cortando.
_ Quem estava reclamando de mim há apenas alguns minutos?
_ Eu disse que você é modesta, não delicada.
A Bia sentou-se entre nós dois enquanto dizia:
_ Amigos meus não brigam na minha frente!
Então ela engatou uma conversa com ele e eu fui obrigada a contemplar a cara de nada da Bruna. Na aula de história sentamos com a Bia entre nós, mas eu achei melhor, era a vez dela aturá-lo. Embora essa tarefa não parecesse muito difícil pra ela.
A semana de provas se aproximava cada vez mais rápido. E o Aquiles parecia entender cada vez menos de Química. A gente sempre acabava discutindo nas aulas, pois me irritava o fato de ele não estar preparado para a prova. Mas no fim ambos relevavam. Na semana da prova ele parecia mais tenso. Na segunda feira tentou resolver os exercícios sozinho e conseguiu mais da metade. A outra parte não teve jeito, eu acabei tendo de ajudar. Na terça eu notei que ele andava com os rascunhos dos exercícios na mão. Deixou de ir à lanchonete comer para revisá-los. Enquanto eu lia meu livro, ele decorava a nomenclatura dos hidrocarbonetos.
_ Sabe o que mais me preocupa?
_ O quê?
Estávamos subindo a passarela em direção ao tróleibus.
_ É que semana que vem é a prova da DP. Mel, você tem noção? Eu posso acabar não me formando por causa dessa maldita matéria... Eu ainda tenho que rever a matéria do ano passado!
_ Um de cada vez. Esquece a DP por enquanto, ok?
_ Tô tentando. O pior é que hoje é aniversário da minha irmã... Acho que a Daphne vai lá em casa, e aí acabou com a tarde de estudo...
_ Oras, converse com ela. Ela não pode te ajudar a estudar também?
_ Nada... Se duvidar ela é pior que eu...
_ Então vocês tem que entrar num acordo. Se ela é sua namorada, vai querer seu bem.
_ É verdade.
Ele me olhou e sorriu, mas seus olhos verdes estavam preocupados. Ficou quieto enquanto esperávamos o tróleibus e eu achei melhor deixá-lo com seus pensamentos. Fui embora antes dele e notei que a apreensão dele estava começando a me atingir.
Continua
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