For All Time
2 Conhecendo o príncipe-sapo.
Só pude saber que tinha amanhecido assim que senti o mesmo entrar tímido pela janela aberta. Resmunguei, tendo dificuldade pra abrir os olhos. Esquecera a janela aberta ontem. Me levantei sem vontade, indo fechar a mesma. No mesmo momento, me veio uma vertigem, por levantar rápido demais. Me segurei na parede, brigando mentalmente comigo por levantar correndo assim. Respirei fundo, e esperei a tontura ir embora e a visão voltar, e fechei as cortinas finas.
Fazia calor, mas não iria enxergar nada até que meus olhos se acostumassem á claridade.
Fui ao armário, pegando um vestido vermelho, com rendas douradas. Ele contornava a cintura, os seios e a barra do vestido de leve.
Caminhei ao pequeno banheiro do quarto pra tomar um banho. Ia diretamente daqui para o jardim, depois de comer uma fruta na cozinha.
Tirei minhas roupas, entrando num banho gelado que me fez estremecer. Me ajudaria a despertar.Resolvi de última hora, molhar meus cabelos. Os cachos loiros escuro precisariam disso pro sol de hoje. Mais 5 minutos, e já estava pronta.
Voltei ao meu quarto, coloquei a pequena camisola que ficaria debaixo da roupa, seguido do vestido vermelho. Ele é um vestido normal, sem anáguas.
Estava tudo pronto. Partida em direção á cozinha e jardim, vamos lá.
Sorri do meu pensamento infantil e sai do quarto.
Como sempre, os corredores estavam vazios.
Andei lentamente, como se quisesse brincar com meus pés em contato com o chão. Distraída, levanto meu olhar. A porta do quarto do príncipe Michael estava encostada.
Estranho... Isso significa que ele está aqui? Ou simplesmente arrumaram o quarto do príncipe pra uma chegada precipitada?
Cheguei, mais próximo a porta, com o semblante surpreso e desconfiado. Hesitei, abaixando a mão que havia estendido.
Não, não. Daniele não faça isso. Você não pode invadir o quarto de um príncipe, está louca?
Suspirei, e continuei o meu caminho, ainda olhando pra trás desconfiada. E se ele tivesse no quarto? Eu estaria totalmente ferrada. Totalmente! Da onde vem essa idéia de tentar entrar naquele quarto, meu Deus?
Suspirei novamente, incrédula por mim mesma, enquanto descia as escadas. Não era a escada principal,digamos que pra empregados e pessoas que não são da realeza, ou que pelo menos não trabalhe com algo importante no castelo. Andaria mais um pouquinho, e chegaria numa entrada dos fundos da cozinha. De lá mesmo, partiria pro jardim. Aliás, uma parte do jardim.
Puxei a calda do vestido. Estava me atrapalhando a andar nos degraus. Essas roupas são tão diferentes assim? Pensei, de uma forma crítica á mim mesma. Essas roupas eram novas. Ganhara assim que me designaram o emprego. Afinal, eu andaria com príncipe herdeiro, não é mesmo ? Não poderia usar os meus trapinhos limpos.
Tsc, tsc, apesar de chatas pra andar, as roupas são lindas. Eu não posso negar. Eu nunca fui de invejar as roupas da realeza, mas, sim, queria uma pra mim. Nada exagerado.
A cozinha estava se aproximando. Cruzei meus braços, largando a calda do vestido e entrei na cozinha. Minha mãe preparava um prato, que ainda iria ao forno. Ela não se desconcentrou até terminar de ajeitar a massa no tabuleiro, e eu a esperei pacientemente em pé, perto da porta, longe dos cozinheiros. Assim que ela terminou, ainda com o corpo inclinado para a forma, me olhou. Ela parecia não saber quem era, e não mostrou interesse. Logo, confirmei mentalmente que ela não sabia, mesmo que era eu.
– Dona Louise? – Soltei um sorriso pequeno, olhando-a.
Ela endireitou a coluna, me olhando com os olhos arregalados.
– Meu Deus do céu!
–O que foi mãe?! – Minha voz saiu desafinada. Alguma coisa errada comigo?!
– Você está linda! –Ela sorriu abertamente, correndo pra perto de mim.
– Oh mãe, que susto! – Suspirei, apertando ainda mais meu braço em minha barriga.
Ela se aproximou, e levantou um pouco a calda do meu vestido. Os olhos brilhavam.
– Você parece uma princesa! – Ela disse ainda olhando para o vestido.
– Não exagere mamãe.
– Parece sim! – Ela voltou a me olhar. – Só faltava um penteado, não? Por que está de cabelo solto ?
– Mãe! Eu não pareço, e nem sou uma princesa... Eu sou uma serva. – Eu dizia enquanto ela ia mexendo no meu cabelo.
– Seu trabalho é ótimo.
– Não exagere. – Eu repeti.
– Sim, é sim. Você pode andar pelo castelo muito mais do que antes. Você estará com o príncipe, então poderá ser vista normalmente...
– E a minha fruta? Pegue uma maçã pra mim? – Eu a cortei delicadamente. Não queria falar desses assuntos de realeza... Não é o meu forte. Sou nobre, e não quero ter lucros por uma coisa simples.
Ela me olhou mais um pouquinho, pensativa.
– Sim, pegue ali em cima da mesa. Você vai mesmo no jardim, não é? – Ela disse. Senti uma pequena ordem de “não vá !” Que soava como “Você vai mesmo”?
– Vou sim. – Disse, indo em direção a mesa, onde estavam as frutas.
Peguei-a, arqueei as sobrancelhas e me virei pra ela. A calda do meu vestido esvoaçou.
– Você mesmo não disse que eu posso andar por ai... – Sorri. Que feio! Estava aproveitando do que menos queria?
Idiota, idiota, você é uma completa idiota!
– É mesmo. Cuidado. Mesmo assim cuidado. – Ela ainda estava parada do mesmo modo que á vi antes, onde eu estava.
– Sim. – Disse, me aproximando dela, e a beijei no rosto. – Até daqui a pouco, mamãe.
Sai da cozinha, com os passos apressados. É claro que não iria passar pela entrada principal, só porque pudera agora. Segui meu caminho de costume, a porta dos fundos. Logo chegaria ao jardim do mesmo jeito.
Mordi a maçã, estalando os dedos da outra mão livre. Corredores decorados e mais corredores decorados com ouro, alguns com guardas, outros não, estavam passando. Apressei os passos, assim que avistando a saída para o jardim.
Parei bruscamente, assim que botei meus pés pra fora do castelo. Ar puro! Vento! Pássaros cantando! A melhor coisa que existe. A natureza. Abri meus olhos, formando um sorriso enorme e sincero no meu rosto. Á essa hora da manhã, ninguém estaria aqui. Estava livre pra andar – ou até correr – pelo jardim sem ser vista. Pelo menos por alguém importante. Alguns guardas legais já me conheciam por aqui. E sabiam que eu era assim mesmo. Como costumavam me chamar, joaninha. Um bichinho pequeno e frágil, que vivia colada nas plantas, “ voando” – lê-se correndo, quase voando com isso – por todo o jardim.
Olhei para a calda do meu vestido, e sem pensar duas vezes me abaixei, pra tirar meus sapatos. Iria sim correr, e queria sim sentir a grama mais fofa do mundo em contato com meus pés. Ria sozinha, enquanto me equilibrava pra não cair no chão. Finalmente, tirei meus sapatos e ainda sorridente, os escondi em um canteiro perto da porta. Pegaria assim que entrasse. Ninguém veria! Esses vestidos longos esconderiam meus pés. A grama não denunciaria, pois não teria barulho de salto. Me levantei, e puxei a calda do vestido novamente, preparando-me pra correr.
Sorri novamente, e dei partida dentre o jardim.
O vento acariciava meu rosto, e brincava com os meus cabelos e minha roupa. Sensaçãoúnica e incrível ! O sorriso não pode faltar no rosto. Por um lado, tinha um lado bom, eu tinha essa natureza tão bem cuidada aqui, o que poucos tem a oportunidade de ter.
Eu não sei como em todos esses anos que vivi aqui, pouco vira a realeza passear pelo jardim. Acho que eles vêem aqui uma vez em 3 meses. Como pode? Ter essa maravilha em “casa” e ao menos vir 3 vezes ao dia aqui ? É o mínimo que poderiam vir! Será que estão esnobando, só porque são pessoas importantes, ou realmente não tem tempo? Acho que mesmo assim, se eu fosse eles, arrumaria um tempo sim. É tão lindo. Tão perfeito, tão grande! Aposto que se eles viessem mais aqui, seriam menos estressados. Eu sei que são, porque toda essa coisa de comandar dá dor de cabeça. E eu tenho certeza sim, que eles não vêem muito aqui pois venho aqui praticamente todos os dias. E mesmo se viessem, eu não deixaria de vir. Sinto-me livre. E faria isso, nem que fosse de madrugada. Pensei, enquanto corria.
Os meus pensamentos foram interrompidos assim que vi uma pessoa ao lado da fonte de água do lago, entre algumas árvores e arbustos. Parei bruscamente, sentindo meu coração disparar.
Eu não conhecia. Mas, tinha quase certeza de que era o príncipe. Então...Ele está mesmo aqui ? Uma das coisas que pensei, entre milhares de pensamentos. Ele estava de costas, mas pelos trajes, era sim um príncipe. Roupa detalhada em um desenho laranja e vermelho. Ele segurava sua mão, atrás dele mesmo. Nem ao mesmo se mexia. Estava concentrado, olhando a fonte e pude perceber mesmo vendo-o de costas.
Fiquei parada por mais um tempo, pensando se atravessava o lago e falava com ele. Teria que me apresentar mesmo. Ele me veria do mesmo jeito, se o ignorasse e voltasse a correr. Droga, ele estragou meu passeio... Que raios esse príncipe gosta de jardins á essa hora? Critiquei-me, por puro egoísmo. Estava com raiva por ele estar aqui, e não por gostar aparentemente de jardins. Suspirei, começando a andar.
Dei a volta no lago, tendo cuidado de me aproximar. Pude o ver de lado, ele estava mesmo pensativo. E parecia muito triste. Assim que cheguei a um metro de distancia, parei.
Fiquei observando, pra ver se ele me via, pra que não tomasse um susto. Ele não tirou os olhos da fonte. Então, eu teria que falar. Larguei a calda do vestido que puxara e respirei longo e baixo antes de começar.
– Príncipe Michael? – Disse intimidada. Baixo.
Ele me ignorou, e depois de 5 segundos me olhou. Parecia fazer força pra parecer... Normal?
– Daniele. – Ele afirmou. A voz serena, calma.
Agora sim, tive a certeza de que era ele. Fiz a reverencia, e ele me olhou com o semblante diferente. Logo, fez o mesmo.
– Voc... O príncipe sabe que sou sua serva, certo? – Desviei meu olhar. Lembrando-me de que não poderia encarar-lo. Idiotice, ele é igual a mim!
– Não precisa usar essas regras comigo. Pelo menos longe de todos os outros. Dirija-me como “você”. – A voz dele era normal, mas um pouco fria. Tinha quase certeza de que ele estava mesmo irritado, ou triste.
Levantei minha sobrancelha esquerda, achando aquilo um pouco ousado para um príncipe herdeiro. Moderno, não?
– Não sabia que você estava aqui. Pra mim, chegaria daqui a dois dias. –Eu cruzei meus braços. A mania que tinha de me confortar.
Ele me olhou como se dissesse “ Aprendeu rápido... “. Até parece. Eu sou acostumada á falar assim, querido.
– Ninguém foi avisado mesmo, cheguei á noite. Não precisa se preocupar.
– Você precisa de alguma coisa? – Disse, incrédula comigo mesma por estar dizendo uma coisa dessas. Calma , é um trabalho!
– Sim. – Ele pausou, e respirou. – Que me deixe sozinho. – Seu olhos se fixaram em mim friamente.
O sangue me subiu. Sabia que tinha que me acostumar com essas ordens idiotas, mas isso de começo está ajudando muito! Eu só tinha mesmo que sair de perto desse tolo, antes que falasse as besteiras que queria!
– Mal educado! – Eu disparei, sem ao menos pensar, caminhando pra longe dele.
Antes de me virar, pude ver o semblante surpreso dele. Por um momento, pensei vê-lo sorrir. Mas claro que era uma impressão. Em 2 minutos de conversa, ele foi um grosso, nunca sorriria! Idiota. Marchei pra longe dele, com a cara emburrada. Quem ele pensa que é pra falar assim comigo? Oh não, ele é só o príncipe herdeiro que vai comandar o reino... Ahm, mas eu sou uma humana do mesmo jeito que ele! Custava ser mais educado? Idiota!
Andei mais alguns metros, me arrependendo amargamente de um dia minha mãe ter pensado em aparecer por aqui. Agora estava sendo obrigada a trabalhar, e ainda mais com um idiota como esses! Eu aposto que ele é um garoto frio. Aposto!
Andei mais alguns metros, tentando esquecer que estaria totalmente ferrada daqui em diante, com um príncipe idiota no meu pé. Mas isso, não daria certo. Não conseguia forçar uma caminhada linda, pois isso tinha estragado a minha manhã. Decidi, voltar para o meu quarto. Ficaria lá pensando, até passar a raiva. Parei, e virei, voltando o meu caminho. Comecei a correr de volta para o castelo, pensando em um modo de não passar perto de onde estava o príncipe. Entre algumas árvores, avistei a fonte. Parei de correr, e decidi espirar o príncipe-sapo dali. Surpresa. Ele não estava mais lá.
Suspirei, e andei até lá, pra passar pela passagem que viera. Assim que cheguei a porta, peguei meus calçados e adentrei no castelo. Corri o máximo que podia pra não ser vista. Assim que cheguei ao corredor do meu quarto, suspirei. Ele não estaria aqui, não é?
Teria que passar do mesmo jeito. Meu quarto é perto do dele, e antes do meu. Passei andando de vagar. A porta estava fechada. Menos mal. Corri um pouco e entrei no meu quarto, fechando a porta atrás de mim. Suspirei aliviada.
Me joguei na cama, deixando os sapatos no chão. Não estava acreditando que isso estava acontecendo. Um príncipe... Sapo! Tudo que menos queria era um príncipe metido, que me esnobasse. E acho que ele é essa pessoa.
Passei a tarde toda ali naquela cama, e se quer, tivera ânimo pra me levantar e me distrair vendo o tempo pela janela. Meu pensamento era fixo no que iria fazer. E se poderia fazer. Vieram-me trazer comida, e eu comi pouco, estava enjoada esses dias, longe de minha mãe. Na verdade, me sentia sozinha sempre. Não que minha mãe não desse conta disso, mas eu sentia falta de um amigo, que pudesse compartilhar interesses e sonhos... Ou até uma amiga que me falasse de suas paixões platônicas... Á um ano, depois do colegial, uma amiga minha se mudo daqui, e desde então não tive outra. Sinto falta dela, nós falávamos de amor o tempo inteiro. De quando viria o meu príncipe, e me daria um beijo, me levando com ele. E o príncipe que eu consigo, é um birrento idiota! Ótimo trauma de príncipes. Aposto que só está assim por causa da namoradinha que perdera. Pelo menos essa é a fofoca do palácio. Eu não sei se é verdade, mas dizem que ele perdeu a namorada para o mundo. Não, não é o que parece. Ela só não quis se casar com ele. O motivo? Eu não sei. Se ele não fosse tão birrento, eu poderia perguntar se era por isso que estava triste, e até saber o motivo de que ela não quis casar-se com ele. Enfim, isso não importa.
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