For All Oasis Girls

2 II - Suck it and see


Sim, contextos históricos são absolutamente necessários.

A lembrança ainda era fresca na memória. Era um péssimo dia para fazer um piquenique, lembrava-se bem.

Teria sido um péssimo dia para fazer o que quer que fosse, na verdade. O sol brilhava no céu azul sem uma nuvem sequer. Os pássaros cantavam e as pessoas estavam sorridentes, alegres e barulhentas. O mundo todo conspirando simultaneamente para que aquele dia se tornasse o mais desagradável possível.

Aquilo era o fim.

Hermione até tentou convencer a mãe a ficar em casa.

Um péssimo dia de sol poderia se tornar suficientemente suportável se estivesse dentro de casa na companhia de seus livros e ar condicionado delicioso.

Mas não. Aparentemente Hermione era “Mais pálida que uma vela, e tão apagada quanto o papel de parede da sala de estar de sua avó. Precisava desesperadamente sentir o sol no rosto", nas palavras de Rose Granger.

Sinceramente, quanto exagero.

A menina não via problema algum em preferir dias nublados aos de sol escaldante. O problema obviamente estava na mãe. Quem em sã consciência se arriscaria saindo de casa com tanta… luminosidade, alegria e calor?

No entanto, não houve escapatória. Hermione foi enfiada em um vestido angustiantemente florido e jogada dentro do carro para “ver o mundo lá fora como um ser humano normal”.

E aqui estava ela. Aproveitando o belo dia de sol em Hyde Park. Sentada debaixo do guarda-sol e melecada de protetor solar no meio de um parque abarrotado de seres não-pensantes e suas famílias, tentando ignorar os gritos ao seu redor para que pudesse focar em Mr. Darcy pedindo Elizabeth em casamento e falhando no processo. Mr.Darcy e ela.

Todos ridiculamente felizes, gritando e sorrindo para as árvores, atrapalhando sua leitura. Ao seu lado, sentada na toalha quadriculada estendida pelo gramado, sua mãe tagarelava com Narcissa Malfoy. As duas eram amigas de longa data, frequentavam as mesmas festas na faculdade e por coincidência viviam se esbarrando por aí. Hermione até gostava dela, a mulher tinha um sorriso bondoso e fazia uma torta de maçã que era absolutamente deliciosa. Bom, Hermione gostava dela, mas poderia rapidamente mudar de opinião se ela não parasse de desconcentra-la dos escândalos em Netherfield com a conversa animada sobre sua empolgação com as tentativas de engravidar novamente.

Mas a conversa animada entre sua mãe e Narcissa Malfoy era o menor dos males naquela tarde horrenda. O grande problema era o outro Malfoy.

Sentiu faíscas assim que seus olhos cruzaram com as orbes assustadoramente cinzentas do menino; definitivamente não do jeito bom.

O menino petulante, em pé ao lado da mãe enquanto brincava com uma bola laranja entre os pés ligeiros, a encarava em desafio. Não houve motivo, sequer tinham trocado uma palavra um com o outro, mas a declaração de aversão mútua parecia escorrer de seus poros. Se escutasse com atenção, poderia ouvir os prelúdios de uma batalha sangrenta que se iniciaria ao menor dos movimentos.

— Hermione? Querida? — chamou Narcissa quando notou a troca de olhares agressiva entre as crianças. Logo seu “poder de mãe" foi acionado e seu cérebro começou as maquinações para tentar uma aproximação amigável entre os dois

— Como você cresceu desde a última vez que te vi! Está tão bonita. Oh! — exclamou levando a mão direita ao peito, como se de repente se lembrasse de algo muito importante- Você fez aniversário recentemente, não foi? Os doze anos são importantes, sabe. O início da sua adolescência! — batia palminhas animada- Lembra-se de Draco? -perguntou chamando a atenção do filho.

Claro que lembrava. Ninguém lhes dava a oportunidade para esquecer. O diabinho loiro vinha testando sua paciência desde que se conheceram em uma festa de natal quando mal podiam engatinhar. Hermione ainda tinha os restos mortais do ursinho de pelúcia que ele tinha destruído naquele fatídico dia.

—... Draco trouxe a bola, por que não vão brincar juntos? — Sugeriu Narcissa com um sorriso que fez Hermione estremecer dos pés à cabeça.

— Acho que ela está ocupada, mamãe, provavelmente não vai querer ir — disse o menino irritado- Eu não quero ir — murmurou encarando a garota nos olhos. Não iria para lugar nenhum com aquela traça de biblioteca metida.

— Calado — crispou Narcissa — Draco pode levá-la para conhecer a clareira onde Lucius pendurou uma cesta de basquete antiga. Deixamos por lá há alguns verões e agora todos usam — disse, desviando sua atenção novamente para Rose e Hermione.

— Está tudo bem, Sra.Malfoy. Não há necessi- Hermione estava quase conseguindo bolar uma desculpa suficientemente convincente para que não precisasse se embrenhar na mata selvagem com o boboca, quando foi brutalmente interrompida pela mãe.

— Oh, Hermione adoraria com certeza. Ela ama basquete. É muito gentil da sua parte levá-la para brincar, Draco — Rose sorri abertamente para o menino carrancudo e já puxava Hermione pelas saias a incentivando a largar o livro e ir em direção a Draco — Vão se divertir. Vamos estar bem aqui.

Então, ambos em silêncio, cientes das armações das genitoras, se arrastaram na direção da trilha no meio das árvores. Draco com a bola laranja debaixo do braço pensava sobre largar a garota no meio do bosque e ir jogar sozinho, mas desistiu ao pensar na bronca que escutaria de sua mãe.

Hermione, a uma distância segura do menino, calculava as possibilidades de sucesso ao tentar matá-lo com a bola e fingir que tudo não passara de um incidente. No entanto, seria difícil esconder as digitais e todo o sangue, então resolveu deixar para lá e fazer um esforço para sobreviver às próximas horas.

Quando chegaram à dita clareira, Hermione virou-se para ele e disse firmemente.

— Olha, francamente, nós dois vimos aquilo. Pode ficar ai jogando e eu vou dar uma volta por aí. Pelo menos a gente evita se matar. Que tal?

Draco arqueou uma sobrancelha e pareceu achar graça, mas somente assentiu com a cabeça.

— Tudo bem, é justo. Só me faz um favor e tenta não morrer, ou sei lá, se perder e cair em um buraco.

Dito isso, virou-se rapidamente e se foi em direção a cesta velha pendurada em uma árvore.

Hermione bufou, resmungando sobre a sua falta de modos.

— Esse réprobo soez de meia pataca — xingou em um murmúrio, deu as costas e saiu caminhando em direção às partes mais fechadas do bosque.

Ela caminhou por muito tempo, e admitia, o bosque era até bem bonito. Flores aqui, passarinhos acolá. Os galhos das grandes árvores cortavam boa parte da luz do sol e ela estava em uma penumbra agradável. Se sentia uma fada voando por aí. Quanto mais avançava por entre as árvores antigas, mais mágico tudo parecia.

Estava tudo bem até que o vento gelado a fez se arrepiar e em um rompante ela percebeu que já não podia mais ouvir as risadas e gritos das pessoas no parque, ou sequer o “baque” incômodo da bola de Draco caindo no chão da clareira.

Lembrava-se de que ficou com medo, muito medo. Era um local desconhecido e ela estava sozinha. Seu cérebro achou por bem trazer à tona todos os casos de sequestro e assassinatos que já haviam acontecido naquela área. Hermione pensou em gritar, mas ficou com medo de atrair atenção de outras pessoas que estavam por ali, falar com desconhecidos no meio do nada não era uma opção. Então pensou que seria mais sensato tentar voltar a pé.

E ela tentou, mas depois de ter andado em círculos por pelo menos vinte minutos desistiu.

Sim, agora sim ela estava apavorada. Sabia que deveria ter lido algum daqueles livros de sobrevivência na selva que seu pai vivia trazendo para casa.

Encolheu-se no chão ao pé de uma faia e tentou se acalmar. Respirou e inspirou mais vezes do que pode contar e seu desespero só aumentava conforme via que escurecia.

Depois do que lhe pareceram horas, Hermione já estava pensando sobre o que seus pais fariam com seus livros depois de encontrarem seu corpo por ali. No entanto, um barulho abafado surgiu mais a frente e chamou sua atenção. Hermione se pôs de pé, pronta para correr caso fosse um urso selvagem ou um lobo das montanhas.

Até porque isso tudo era muito plausível.



Mas não foi necessário correr, aos poucos conseguiu distinguir uma voz conhecida chamando seu nome desesperadamente.

— Draco? — chamou esperançosa.

— Hermione?! — a voz respondeu- Onde você se enfiou? — gritou novamente. Dessa vez mais próximo.

Hermione seguiu a voz e poucos metros a frente surgiu Draco, descabelado e com as bochechas coradas como se tivesse corrido.

Ela poderia ter chorado de felicidade. Nunca na vida esteve tão feliz por ver aquele idiota. Se não tivesse se contido, com certeza teria se enganchado no pescoço dele e não teria soltado tão cedo.

— Onde você se meteu? — perguntou bravo. As sobrancelhas louras se destacavam na pele corada e brilhante de suor — Você sumiu há horas! Eu te avisei pra não se perder!

Hermione estava petrificada e só saiu de seu torpor quando o ouviu suspirar e vir em sua direção. Draco, percebendo que a menina estava assustada demais para dizer e fazer qualquer coisa, estendeu a mão. Uma oferta de paz.

— Vem, vamos voltar. E dessa vez não saia do meu lado — disse com o rosto sério.

A pequena e assustada Hermione encarou o menino e enxergou cuidado e preocupação genuína nas íris azuis-ardósia, então aceitou a mão estendida e se recusou a soltá-la durante todo o caminho.



Como disse Foo Fighters, "Love dies young”.

Pelo menos esse amor morreu.



Hermione era uma seguidora fiel da Teoria dos três amores. Aquela sobre os seres humanos só se apaixonarem de verdade três vezes na vida, e que esses três tipos de amores distintos são necessários para que se aprenda a amar e a ser amado adequadamente.



Aquele Draco de doze anos foi o seu primeiro amor.

Infantil e inquebrável. Que começou com a implicância mútua e que surgiu quando por um acaso Draco tornara-se seu herói favorito. Pode ter sido bobo e fugaz, mas Hermione gostava do fato de que fora Draco e não outra pessoa. Parecia correto que ele fosse dono do título.


*

Rose Granger faleceu quando ela tinha dezesseis anos em uma overdose devido ao consumo excessivo de calmantes e remédios para ansiedade, deixando Hermione sozinha. O divorcio fez mais do que afetar o lado financeiro da vida de sua mãe.

*

Eles cursaram o ensino médio juntos em um dos melhores colégios da cidade graças a uma bolsa de estudos integral.


*

Aos dezesseis, ele já era o cara mais descolado que Hermione conhecia. O cabelo naquele tom de loiro acinzentado que ninguém mais tinha, vivia em um constante estado de “lutei com cinco lobos e briguei com mais três velhinhas na rua” e tudo o que ela queria fazer era passar os dedos para arrumar. Não usava nada que não fosse cinza ou preto e já tinha mais tatuagens do que qualquer outro motociclista barra pesada que Hermione já tivesse visto nos bares de beira de estrada.

Ela não sabia quando foi que elas começaram a aparecer, mas vinham aos montes.

Uma serpente que despontava da gola da camiseta, um crânio no antebraço, a fórmula química do Ácido sulfúrico no punho e uma dezena de outras que se estendiam por todo o torso -pelo menos até onde ela pudesse ver. Talvez houvesse mais espalhadas por aí, mas ela nunca descobriria. Não era dela para descobrir.

O ódio mútuo já não existia, tampouco aquela paixão infantil. Eles se cumprimentavam. “Oi”, “bom dia”, “precisa de carona?” e tudo o mais. Estavam longe de uma amizade. Mas ela o sentia por perto. Como se o sentimento de proteção em relação a ela ainda não tivesse desaparecido depois daquele dia no bosque, muitos e muitos anos atrás.

Ele estava lá. Esperando do outro lado do estacionamento quando ela ficava sozinha até depois da aula fazendo o dever, ou oferecendo o guarda-chuva quando ela tinha esquecido o dela. Segurando as portas para que ela passasse quando por acaso se esbarravam. Aparentemente Narcissa criou um gentleman.



E Hermione o observava. Sempre.

Era difícil não fazê-lo. Draco era bonito, muito bonito. E se quisesse ser sincera, a reputação de badboy também contribuia. Qual é, se aqueles olhos terrivelmente bonitos não o denunciassem, as fofocas com certeza o fariam. Só respirar perto dele já parecia ser o suficiente para arrancar qualquer pureza do seu corpo. E os relatos das meninas com quem ele saia poderiam comprovar o resto.

Junte a cara fechada, as centenas de tatuagens, o rostinho bonito e a inclinação para brigas e voilà, conosco, Draco Malfoy, o terror de qualquer pai que queira manter sua filha pura e imaculada para sempre.

Outro ponto interessante. Draco era correto. Não do tipo moralista, ele só… ele era correto. Fugia a ideia. Não pichava muros, abominava cigarros e qualquer tipo de substância ilícita. Tirava boas notas. Não brigava com quem não merecesse, e, ao contrário do que falam as más línguas, não saia desgraçando menininhas por aí.

E era leal. Assustadoramente leal.

Hermione não tinha ideia de quantas vezes já o vira com os punhos enfaixados e acompanhado pelos sussurros de que tinha se acertado com alguém que se meteu com seus amigos.

Ah, claro, Os amigos.

Eram quatro. Theodore, um rapaz por quem Hermione teve uma quedinha durante o segundo ano. Era excepcionalmente inteligente e se vestia como um vovô. Calça xadrez, gola alta e oxford nos pés. Ele era muito charmoso. E Blaise. Bom, Blaise tinha cara de problema, literalmente, não há muito o que dizer sobre ele porque era quase tão fechado quanto o próprio Draco.

E tinha Pansy que flertava com tudo o que se movesse. Um tanto esquisita, mas era divertida e sempre falava com Hermione quando a encontrava pelos corredores. E então havia Harry e bom… era Harry. O magricela de óculos fundo de garrafa que vivia cantando Snap out of It pelos corredores e parecia ter energia suficiente para abastecer a cidade por uma semana. Na verdade, ninguém tinha ideia de como ele fora parar ali no meio deles. Simplesmente não encaixava. Mas eles não pareciam se importar, então ninguém se importava também.

Nada se importava conosco e não nos importavamos com nada, porque éramos jovens, porque éramos livres porque, como dizem os reis da música que nos move, Dancing in my underpants,I'm gonna run for government. I'm gonna form a covers band and all”

E agora, podemos começar de verdade.



Sarcástico além da conta. Metido e arrogante.

E ela estava caidinha por ele.

Céus, como estava!

Draco ainda era ele. Mesmo depois da escola, mesmo depois de conhecer a vida na universidade. Ainda era antiquado além da conta, ainda usava o mesmo penteado que não era um penteado de fato, ainda tinha os mesmos amigos, ainda se pertencia quando tantos outros se iam pela música alheia. O pensamento a confortava. Porque ela gostava desse Draco, e não queria que ele fosse nenhum outro.

Eles estudavam juntos, em partes. Hermione estava cursando literatura inglesa e pelo que ouviu de Pansy — que, surpreendentemente, junto com Harry, Blaise e Theodore, frequentava a mesma faculdade que ela- Draco estava em Economia. Eles tinham um período de história juntos, mas se falavam pouco. Na verdade, a "relação" que tinham era quase idêntica a do ensino médio.

Não que ela reclamasse, era, sem dúvida, muito melhor do que a costumeira indiferença gelada que Draco direcionava para quase todos no campus.

Ainda assim era pouco. Pouco pra ela.



Hermione teve seu Segundo amor. E foi tão doloroso quanto ela imaginou que seria.

Ronald era… bom, ele era difícil, sem mais.

Se conheceram durante um trabalho em duplas no segundo semestre do terceiro ano e com alguma ajuda por parte de Harry, que aparentemente era amigo de infância do Weasley, combinaram de sair e acabou que se aproximaram demais.

Foi uma experiência interessante. Era seu primeiro relacionamento sério e tudo era novo, e estranho, e um pouco assustador. Mas ela se saiu bem, no geral, e foi forte o suficiente para juntar os caquinhos depois.

E bom, segundo a teoria, acabaria acontecendo de uma forma ou de outra, então ela só seguiu em frente e tentava não pensar muito no coração machucado.



— Hey, aquele não é o Draco e o restante do pessoal? — perguntou Luna ao meu lado enquanto apontava para onde eu estava olhando.

Ela tinha se oferecido para acompanha-la e Hermione aceitou de imediato. Poucas coisas no mundo são tão tristes quanto ir a um show de rock sozinho. E que mal faria? Luna era boa companhia e gostava da banda tanto quanto ela.

— Sim, acho que sim. Blaise e Pansy estão com eles também — disse — Não imaginei que gostassem desse tipo de música — murmurou.

Estavam a poucos metros de onde o grupinho se encontrava. Abarrotados em uma fila próxima à entrada principal, conversavam animadamente, com exceção de Draco que parecia perdido em pensamentos.

— Você disse Blaise? — Luna perguntou subitamente agarrada ao seu braço direito.

Hermione a olhou com cautela. Sabia que havia algo acontecendo entre os dois, mas sabia também que Luna se deixava levar por qualquer sorriso simpático, por isso vivia quebrando a cara. Então, apesar de nunca interferir, sempre alertava a amiga dos perigos de ficar com alguém como Blaise.

O discurso ela sabia de cor. Repetia-o para si mesma sempre que se pegava olhando tempo demais para seu próprio problema.

— Esqueceu os óculos outra vez? — pergunta retórica. Luna estava sempre esquecendo os óculos por aí. Hermione não tinha ideia de como a amiga conseguia perder de vista aquelas monstruosidades laranjas — Ele está ali. Camiseta verde, perto de Pansy.

— Ah, isso é perfeito! Faz tempo que não passamos um tempo juntos.

— Hm. Se você quiser, eu fico aqui enquanto você...

Antes que Hermione pudesse perguntar se a amiga queria ir lá dar um Oi, foi interrompida pelo grito estridente de Luna que chamou a atenção de todos na fila.

— Blaise! Blaise, estamos aqui!

Hermione observou o rapaz se virar assustado e procurar pela dona da voz. Assim que seus olhos escuros pousaram na figura diminuta de Luna agarrada em uma das grades que separavam uma fila da outra, um sorriso despontou de seus lábios.

E ele obviamente não foi o único que notou as duas meninas. O restante das pessoas que se viraram para observar a comoção rapidamente perdeu interesse e desviou o olhar, mas o grupo dos cinco as observava atentamente.

Quando percebeu serem alvos de toda a atenção, seus olhos instintivamente procuraram os dele, e, com alguma surpresa, viu que estava na mira das orbes azuis que a obseravam de cima a baixo. Com mais surpresa ainda, viu Draco,se inclinar para Blaise, que ainda estava apoiado na grade falando — gritando — com Luna, e sussurrar algo em seu ouvido.

O rapaz rapidamente acenou com a cabeça e pulou a grade. Veio saltitante na direção delas carregando um sorriso rasgado.

— E ai, gatinha — Comprimentou Luna quando chegou perto o suficiente- Hermione — Virou-se para mim e deu um aceno de cabeça, que retribui- O que acham de ficar conosco durante o show? Vai ser divertido.

Luna deu um gritinho alegre e antes de responder, trocou um olhar com Hermione. Como se pedisse permissão. Ela tinha dessas.

Hermione, não vendo outra alternativa que não fosse fingir um derrame, se forçou a dar um sorriso.

— Claro, por que não? Vamos lá.

Blaise sorriu ainda mais e puxou Luna pela mão enquanto Hermione seguia atrás.

Atravessaram juntos aquele mar de gente e ambas foram recebidas com sorrisos.

Hermione ainda sentindo o peso do olhar de Draco em si, colocou-se ao lado de Pansy que vestia um escandaloso conjunto amarelo com os dizeres “Morte aos adolescentes fluorescentes”.

Percebendo para onde a atenção de Hermione estava voltada, Pansy deu um sorrisinho e colocou as mãos na cintura fazendo uma pose e sem querer acotovelando um cara barbudo que estava mais na frente.

— E ai? Curtiu? Eu achei moderno, mas Draco insiste em dizer que é ridículo.

— E não é? — antes que pudesse sequer pensar, as palavras pularam para fora sem chance de serem impedidas. Com os olhos arregalados em choque pelo que tinha saído de sua própria boca, voltou seu olhar para Pansy e a viu com os lábios rijos tentando impedir a risada — Um pouco tarde pra pedir desculpas, eu imagino -murmurou sem graça.

Então Pansy desistiu e gargalhou alto acompanhada por Theodore e Harry. Blaise estava ocupado demais focado na conversa com Luna e Draco não se incomodou em esconder o sorriso, ainda que contido.

— Tudo bem, Hermione. Eu definitivamente te adoro. Sempre soube que havia mais ai dentro do que só "a menina dos livros"- disse Pansy com um sorriso, passando um dos braços por cima de meus ombros.

— Você me disse algo parecido semana passada quando me parou na porta do banheiro e disse que adoraria me agarrar qualquer dia desses — Theodore se voltou para ela com um sorriso sacana.

Harry que estava entretido falando sobre a banda com Luna e Blaise, subitamente teve toda sua atenção voltada para a conversa dos três.

— Como é? Pansy! — ralhou — Você disse que iria se controlar!

A menina não parecia nem um pouco constrangida com o rumo da conversa, em contraste com Hermione ao seu lado, que tinha as bochechas tão vermelhas quanto os all stars que usava.

— Qual é, Potter. Não sabia que você e Nott estavam se encontrando. Não estava saindo o Draco durante o verão?

Harry bufou e usou a mão direita para ajustar os óculos que caiam pela ponta do nariz por conta dos gestos enérgicos que fazia com os braços.

— Engraçadinha. Todo mundo sabe que não sou eu quem Draco quer, e não fuja do assunto! — apontou o dedo rente ao rosto de Pansy que mantia o olhar de tédio. Imperturbável- Sabe muito bem que estou me referindo àquela coisa. Achei que tínhamos tudo combinado, caramba.

Não estressa, Potter. Já te disse que está tudo sob controle. Só preciso de mais alguns dias para conseguir o pacote das…

Hermione tentou delicadamente se afastar de Pansy que começava a argumentar contra as acusações de Harry um pouco alto demais. Saiu de debaixo do braço da menina e deu passinhos para trás até que esbarrasse em alguém.

Virou-se rapidamente para pedir desculpas para o desconhecido, mas parou assim que notou a figura familiar que a encarava atentamente.

— Ah, perdão, Draco — murmurou para ele que apenas assentiu. Se afastou um pouco do rapaz e ajeitou a camiseta no corpo enquanto se apoiava na grade ao seu lado.

Diferentemente do que poderia se imaginar a princípio, Hermione se sentia bem ali. Não apenas entre aquelas pessoas em específico, mas com o ambiente em geral. Era fácil, era vivo, era como ela.

Em um dia corriqueiro, observando-a de maneira rápida, dificilmente se conseguiria ver algo além da jovem quieta de saltos oxford e cardigan que vivia perambulando pelas bibliotecas sozinha. Mas, se fosse um pouco mais atento, atento como ele, saberia que a alma que habitava aquele corpo de constituição diminuta ansiava por outros tipos de vivências. Algo mais feroz, mais ardente. Aquela música e aquele tipo de ambiente aquietavam seus anseios pelo menos momentaneamente.

— Isso é bastante inesperado.

Hermione virou a cabeça para encara-lo em descrença. Era isso? Draco estava puxando conversa?

— Eu ficaria contente se pudesse ser um pouco mais específico — respondeu.

Ele ajeitou as mãos inquietas nos bolsos do casaco e deu de ombros, como se fosse meio óbvio.

Ah — ela imaginava já ter entendido onde ele queria chegar- O que estava esperando? Puccini, Bach? Bossa Nova, talvez?

Ele lhe lançou um olhar de desdém.

— Não me tome por idiota, Hermione. Observo o suficiente para saber que o que toca nos fones que você carrega por aí não tem nada a ver com os clássicos. Me referi ao ambiente. Não parece algo que você gostaria.

— Ah, então agora você gosta de observar...-retrucou fugindo da pergunta implícita a respeito do que ela estava fazendo ali — Hobby ou fetiche?

Draco a encarou de esguelha com aquele maldito sorrisinho de canto.

— Que atrevida -murmurou parecendo quase irritado, mas ainda sorria ao responder — Depende de quem.

— E quanto a mim? — questiona ela, piscando os olhinhos inocentes.

— Depende de quando.

Hermione bufou e cruzou os braços sobre os seios.

— Nenhum deles é muito reconfortante.

Ele a olhou daquela maneira analítica e deu de ombros novamente. O movimento deu brecha para que ela visse um desenho diferente que despontava perto do punho esquerdo.

— Não era pra ser.

A conversa não deve ter levado mais do que alguns minutos, mas quando desviaram os olhares Harry já estava gritando algo sobre andarem logo antes que perdessem as entradas.



E então houve aquilo.

Houveram luzes e sons e gritos e vida.

Hermione amava aquela sensação.

Não existia nada que não fosse música, ondas de alegria inesgotáveis e mesmo assim, findáveis, que abriam caminho do seu âmago aos lábios, lábios estes, que estavam constantemente presos em um sorriso.

Não havia nada que não fosse o calor dos corpos se movendo em dissincronia na plateia, nada que não fosse Draco que se prostrara ao seu lado e agarrava firmemente sua cintura para que ela não fosse prensada contra a barreira que dividia o palco pelas centenas de pessoas que estavam ao redor; não havia nada que não fosse Luna gritando feliz, ou Blaise abraçado a Harry enquanto ambos choravam sem motivo aparente. Não havia nada que não fosse a emoção de olhar para cima, para o céu incomumente estrelado, e cantar o refrão da música mais lenta da noite.

E Ele a olhava. Ela sabia que sim. Era impossível não sentir o peso dos olhos de Draco enquanto cantava, ou enquanto ria, ou quando gargalhava, ou quando chorou, ou quando estava pulando enlouquecidamente ao ritmo da última música.

Ele estava feliz, ela notou. Muito.

Ele tinha um sorriso assustadoramente bonito. O tipo de sorriso que te faz sorrir.

Havia algo em Draco Malfoy que a fazia querer chorar, e fugir, e querer ser beijada. Algo diferente do calor brando que queimava no seu peito quando tinha doze anos.

Assustava e parecia velho. Algo antigo, de gerações atrás. Parecia com algo que era dela para ter e carregar e, quem sabe um dia, amar.

E então acabou. Tirou da tomada. Fim.

Assim que pisaram no estacionamento, suados, cansados, roucos, com as bochechas coradas e almas esvaziadas, não tinha mais nada.

Era sempre assim. Hermione chamava de “descarga social”, como se o ambiente animado e alegre tivesse sugado tudo de dentro dela e deixado só aquela casca vazia.

Hermione queria sentar no chão duro do estacionamento vazio e se deixar ir, ir para qualquer lugar que o vento a arrastasse, já que seu corpo parecia papel. Em branco, desprovido de qualquer emoção.

Ela odiava isso.

Via Luna cantando feliz agarrada a Blaise que parecia flutuar em algum outro planeta. Ela parecia cheia de coisas, emoções e pensamentos.

Assistia enquanto Harry dançava pelo estacionamento seguindo as marcações amarelas no chão. E ele parecia se sentir completamente inundado do que quer que fosse.

E Pansy e Theodore que se beijavam contra um poste alguns metros afastados. Eles estavam até a borda um do outro.

Hermione puxou todo o ar possível para dentro dos pulmões e se permitiu escorregar pela mureta até sentir o chão duro sob si.

Va-zi-o

Então Draco se sentou ao seu lado. Perto, perto mesmo. O tipo de perto íntimo, que tocava perna, ombro, mãos. Tocava tudo.

Ele também parecia vazio. Algo como pós-inundação. Vazio como ela.

O cabelo prateado se moveu para fora de seu campo de visão quando ele passou as mãos para colocá-lo no lugar.

— Você também não sente? — perguntou sem olhá-lo nos olhos, mantendo em vista apenas seus joelhos se tocando.

— Não — ele sussurrou, cansado.

Então o coração de Hermione se acalmou e ela pode relaxar. Ali, ao lado dela, no chão frio, vendo seus amigos semi-bêbados da alegria extasiante que o show lhes dera, havia um outro. Um outro estranho e que se parecia com ela.

— Não precisa falar — disse ele enquanto colocava mais de seu peso sobre ela —também sou versado em silêncios.

Hermione não tinha ideia de quanto tempo passaram ali. Os sete, juntos no estacionamento. A noite ainda estava alta, talvez não mais que três da manhã. Mas soube que precisavam ir embora quando Balise se recostou no poste para cochilar.

Esticou a coluna e mexeu os dedos dos pés, então virou-se minimamente para encarar as orbes azuis-ardósia que pareciam quase gentis.

Quase.

— Sem mais silêncios essa noite — Draco parecia exigir.

— Sem mais vazios essa noite — concordou e ele entendeu. Draco lhe sorriu, um sorriso bonito, acanhado, quase cúmplice.

Hermione ainda não tinha forças para um sorriso, era muito e ela ainda sentia muito pouco, assim, limitou-se a se levantar e lhe estender a mão, como ele mesmo fizera anos e anos atrás.

— Vem, vamos voltar.

Dentro do carro, Riot Van fazendo a soundtrack de seus pensamentos, com uma Luna parcialmente acordada no banco de trás, e a lua sumindo no céu que começava a clarear, Hermione dirigia enquanto divagava sobre o dono do cheiro de cedro e pinho que parecia permanentemente grudado ao lado esquerdo de sua camiseta.

E lá estava, em um cantinho esquecido, ou melhor, intocado de seu coração.


Se parecia com amizade, reconhecimento e tinha um quê de pertencimento que fazia seu peito doer. Não parecia ruim, era novo, e ela queria conhecer.