Força e Vida - Tomione
36 Capítulo 36 - Nunca mais
Notas iniciais
Sair havia sido mais fácil do que eu pensei que seria. As meninas ainda estavam acordadas quando eu cheguei, apesar do salão comunal já estar conveniente vazio, e acreditaram rapidamente quando eu disse que precisava sair de Hogwarts, já que a minha mãe havia me enviado uma carta e eu precisava ver se tudo estava bem. Também depois de eu prometer várias vezes que iria me cuidar, foi fácil convencê-las de não contar aos rapazes que eu iria sair, já que eu disse a elas que se eles soubessem, Draco iria querer ir junto, e eu queria garantir que ele estaria bem.
Me sentia mal por mentir para elas, mas essa havia sido a única maneira que encontrei para poder embarcar no trem sem nenhum problema. Havia escolhido uma cabine só para mim, buscando ficar sozinha. Não notei o momento em que dormi, acordando quando já estávamos perto de chegar. O trem havia saído mais cedo naquela manhã, então era talvez três horas da tarde quando chegamos a Londres. A tarde estava bonita, e o orfanato parecia pacífico como sempre.
Depois de ser recebida com abraços e sorrisos da Sra. Cole e do Leonard, fui até o quarto guardar a mala e tomar um banho. Tudo ali estava do jeitinho que havíamos deixado, me lembrando dos bons dias que havíamos passado ali, e também me deixando um pouco chateada, ao ver a escrivaninha do Tom com seus livros organizados, mesmo depois de tudo, eu gostava dele.
Com um banho quente e relaxante tomado, roupas limpas, e uma cobra que eu sentia muita falta, decidi sair para o jardim dos fundos, me escondendo, sentada na grama embaixo da mesma árvore de sempre. Conversar com uma cobra havia sido bem estranho no começo, depois se tornou natural, e agora, depois de alguns meses, era muito reconfortante.
A língua das cobras era algo que apenas fluía, com uma facilidade muito maior do que qualquer outro idioma, eu tinha certeza. E como Esme havia passado por muita coisa comigo, e guardava os meus segredos, era ainda melhor ter ela por perto nesse momento.
— Eu não sei o que pensar, Esme. – Eu disse depois de um longo silêncio, quando já havia contado tudo que havia acontecido em Hogwarts.
— Você gosta dele, Hermione. E não é um simples gostar, não acredito que você já o ame, mas também não acho que seja um sentimento leve, o que está dentro do seu coração. – Pela primeira vez, Esme estava no meu colo, deixando que eu lhe fizesse carinho.
— Mas eu não sei se ele é verdadeiro. – Suspirei. – Queria poder dizer que só saí da escola porque o acho um monstro, mas nem nisso eu acredito totalmente, o que faz com que eu me sinta ainda pior, já que ele atacou pessoas inocentes, e meu coração só diz que não quer ele por perto por medo de que ele não goste de mim. É tão estúpido isso. – Eu me sentia frustrada.
— Você jamais vai conseguir achá-lo um monstro, sinto muito, mas essa é a verdade. Pelo que eu vi do convívio de vocês aqui no orfanato, ele gosta de você, e esse sentimento também deve ter aumentado com o tempo. Tenho certeza de que ele não foi falso nisso, se isso acalma o seu coração. – A verdade é que isso acalmava o aperto que havia se implantado no meu coração.
— Eu não posso perdoa-lo, e duvido que consiga olhar normalmente para ele por um tempo. – Eu sabia que ao olhar em seus olhos por muito tempo, deixaria óbvio que sabia de tudo.
— Você vai perdoa-lo. Talvez não agora, e nem daqui a uma semana, mas vai. – Uma parte minha queria poder discutir com aquilo, mas outra já se sentia confortável, sabendo que voltaria para os braços dele um dia.
Teria continuado ali para sempre, se não tivesse notado que a tarde havia passado rapidamente, e que o céu já estava totalmente escuro. Eu não havia almoçado, nem comido algo na parte da tarde, então decidi que era hora de entrar, e não perder também o jantar.
Ao me levantar, de costas para o jardim, não notei que haviam pessoas ali perto até que tivesse sido agarrada, abraçada e girada por um loiro que parecia desesperado, aliviado e bravo ao mesmo tempo.
— Nunca mais. Nunca mais saia de perto de mim sem que eu saiba disso, estamos entendidos? – Draco falava pausadamente e sério, me fazendo apenas assentir com a cabeça, e só por fim sorrir para ele, que me abraçou de novo.
Já era uma grande surpresa saber que o Draco havia vindo atrás de mim voando, mas a surpresa era ainda maior, quando descobri que o Tom e o Abraxas haviam vindo com ele. Esquecendo por um momento de tudo que havia acontecido, me permiti ser abraçada fortemente pelo Tom e depois pelo Abraxas.
— Da próxima vez, pelo menos me avise, porque assim eu tento controlar os dois desesperados. – Disse Abraxas apontando para o Draco e para o Tom, fazendo os dois apenas darem de ombros, admitindo que haviam se desesperado, e nos fazendo rir.
— Desculpe, mas eu precisava vir, recebi uma carta da minha mãe, e eu queria ter certeza de que está tudo bem. Como o trem saiu mais cedo hoje, não deu tempo de eu avisar pessoalmente. Eu até iria atrás dela hoje, mas estou com um pouco de medo de que seja uma cilada. – Apesar de me sentir péssima, essa era uma mentira altamente necessária.
— Você só sairá desse orfanato para Hogwarts, o que vai ser daqui a alguns minutos, depois que eu pegar suas coisas, e comer algo. – Draco estava sério, então não me permiti discutir, sabendo que seria em vão, e que de qualquer forma eu não ficaria sozinha, já que duvidava muito de que eles fossem embora sem mim.
No fim, fui eu quem entrou para pegar as minhas coisas, já que ninguém sabia que o Tom ou o Draco estavam aqui. Encolhi minha mala, a pendurei junto com o ovo, como se fosse um pingente, e peguei bastante comida no refeitório, sabendo que não só o Draco, mas todos nós estávamos com fome.
Após comer tudo, e rapidamente já que todos estavam famintos, nos preparamos para a viagem de volta. Eu me sentia nervosa, odiava voar, era minha mais alta fraqueza como bruxa. Iria junto com o Draco na vassoura, tinha certeza de que ele sabia bem o que estava fazendo quando voava, mas ainda sim, sentia medo.
— Se eu cair, o que não vai acontecer, o Tom e o Abraxas nos pegarão. – Disse Draco tentando me acalmar, enquanto me colocava na frente dele na vassoura.
Eu estava em um pequeno casulo, presa dentro dos braços do loiro, já que ele precisava estar com as mãos na minha frente para controlar a vassoura, e eu morria de medo de ir atrás dele e cair.
Não prestei atenção quando ele nos enfeitiçou para que não fôssemos vistos, e agradeci mentalmente a ele, por ter ganhado altitude devagar. Sentia o vento passando muito rapidamente por nós, mas me recusava a abrir os olhos, que estavam muito bem fechados.
— Olhe a vista, Hermione. Sei que tem medo, mas é magnífica. – Draco sussurrou no meu ouvido, para que eu pudesse ouvi-lo.
Tomando coragem, não sei de onde, abri os meus olhos devagar, vendo lá embaixo Londres quase que por completo. Ele tinha razão, a vista era perfeita, mas eu ainda tinha medo. Olhei para os rapazes, que iam um de cada lado do Draco, para caso algo acontecesse. Abraxas, que ia ao lado esquerdo, estava de olhos fechados com um sorriso feliz nos lábios, para ele, assim como para o Draco, voar era a melhor sensação do mundo. Tom olhava para frente, mas não parecia concentrado em nada, parecia pensativo, perdido no seu próprio mundo. Ali, com os cabelos voando e a roupa grudada ao corpo, Tom parecia ainda mais belo, e constatar isso, me fez corar e desviar os olhos, finalmente os fechando novamente.
Apesar de todo o meu medo, eu deixei que a sensação de segurança dos braços do meu irmão me invadisse, e com o som do seu coração ao fundo, acabei adormecendo.
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