Fomaríamos um Maravilhoso Nós
1 É isso aí
Notas iniciais
Mudanças… seguir por um caminho novo e incerto, com expectativas de melhoras. Feliz aquele que encara com confiança e sem medo, sem apego ao que tem e que se permite guiar pelas oportunidades sem se importar com as consequências. Meus ideias costumavam seguir essa linha de pensamento, até o dia em que me vi arrumando minhas malas para, simplesmente, mudar para o outro lado do país.
Semanas atrás estava empolgada e confiante com meu novo ciclo no último ano do meu ensino médio, no colégio que sempre frequentei, com os colegas que sempre acompanhei e outros que sempre odiei, e atenta às oportunidades que a vida me traria, disposta a aproveitá-las da maneira mais astuta e estilo America Singer.
Estava empolgada para iniciar meu último ano no colegial. Rever minhas amigas assim que finalizasse as férias que aproveitei maravilhosamente no Canadá com toda a minha família e mais um alguém, que devo admitir, não consigo tirar da cabeça. Mas ao retornar para Carolina, sou golpeada com a notícia que todos os meus planos e expectativas não se concretizarão, pelo menos não em Carolina.
É aí que está o “que” da questão. Sempre me considerei astuta, determinada, corajosa, mas por um motivo que não sei bem definir, estou apavorada com essa mudança. E isso me faz questionar todos os ideais que tenho sobre mim mesma, pois, nesse exato momento, estou em prantos. Deixando marcas de lágrimas em cada peça de roupa que disponho na mala. E por quê estou em prantos? Não sei! Simplesmente penso em meus amigos, na minha rotina, na minha casa, até na droga dos imbecís que estava disposta a infernizar esse ano no colégio. E então eu percebo. Nunca fui preparada para mudanças e encarar novas oportunidades. A verdade é que sempre fui uma acomodada, sempre estive na minha zona de conforto, no meu território, e sem disposição para deixar o que tenho.
Mas agora, estou realmente a caminho de mudar de vida, pela primeira vez, drasticamente. Não é um novo namorado, ou uma viagem aleatória com minhas amigas. Agora percebo o quão fútil e ignorante era meu conceito de mudança. Agora vou para Angeles, atravessar o país e ficar a quilômetros de distância de onde nasci e deixar absolutamente tudo para trás. Não deveria ser ruim, mas está sendo. E não estou conseguindo evitar me sentir mal por isso.
Meus pais decidiram alavancar ainda mais os negócios. Já havia um tempo, meu pai passou a investir seus negócios imobiliários em Angeles, esperando dar certo. E adivinha… deu certo. Então esse é o motivo de nos mudarmos para lá. Meu pai é um renomado empresário do setor imobiliário, conhecido por sua visão empreendedora e habilidade em transformar áreas urbanas. Parece que os negócios alavancaram por lá e amanhã bem cedo partimos para nossa nova vida em um local desconhecido.
— AAMES! — Um ser muito delicado grita e bate à minha porta nesse exato momento.
— O que é May! Estou ocupada!
— Sei que você pegou minha camisa branca. QUERO ELA AGORA! — exigiu ela com o maior ar de autoridade que conseguia — costuminho seu pegar minhas roupas que nem sequer servem em você. ABRE LOGO ESSA PORTA. — Vou até a porta e abro para que entre.
— Olha, a verdade é que não faço a mínima ideia de onde está, olha a bagunça do meu quarto, boa sorte para encontrar — digo a ela no tom mais divertido que consigo sem olhar diretamente em seu rosto para tentar disfarçar meu choro.
— Sinceramente Ames, os meninos que você tenta seduzir com minhas roupas que ficam pequenas e apertadas em você não te acham ridícula? — May me questiona com ar de indignação enquanto praticamente desmonta meu closet em busca de sua t-shirt.
— Na verdade eles adoram — essa não é a real intenção quando pego algo de May para vestir, gosto de me sentir bonita, e digamos, sensualizar um pouco, e May tem umas peças que às vezes julgo não ser para ela.
— ACHEI! — gritou ela empolgada — Ah não acredito — o grito de empolgação passou a ter um ar de lamentação — America Singer sua baleia assassina! Você estuprou minha camisa, OLHA ISSO! Está toda folgada, ela não era assim.
May pegou a camisa e quase esfregou na minha cara, mas parou imediatamente ao notar minha feição. Droga! Não queria que ninguém me visse assim.
— O que houve? Ames, por que está chorando? — ela pergunta com total preocupação na voz.
Eu e ela somos muito próximas. May tem 14 anos e eu 17. Somos as maiores confidentes uma da outra, assim como conselheiras. Apesar de May sempre ter ideias loucas metidas na cabeça. Minha irmã mais velha, Kenna, vive dizendo que May será a dor de cabeça de meus pais. Eu sinceramente acho que a maior dor de cabeça na realidade é o Kota. Apesar de ser o segundo mais velho entre nós, Kota é muito infantil e vive fazendo merda. O único que ainda se safa entre nós é o Gerad que tem apenas 10 anos e só pensa em futebol e insetos.
May segue me encarando aguardando uma explicação. A verdade é que não sinto vontade de explicar. Por que exibir assim minha insegurança? Para demonstrar o quanto sou idiota e fraca? Sei que ela não vai aceitar uma resposta vaga. Ela me conhece.
— Podemos conversar outra hora? Agora realmente não estou afim.
— Você não quer ir para Angeles, não é? Vi sua cara quando mamãe e papai contaram a novidade. — é, ela me conhece.
— Ah May! — Nesse momento sento na cama e suspiro, as lágrimas já deixaram de cair a um tempo, mas a angústia permanece — não sei dizer o que se passa na minha cabeça. Eu fiquei feliz pelo nosso pai, claro! Mas nunca pensei que sairíamos daqui, que deixaríamos tudo isso para trás. Sempre achei que estava preparada para tudo, mas vejo que não é bem assim, não esperava por isso.
— Eu entendo, também me senti assim — ela se sentou ao meu lado e passou seu braço sobre meu pescoço juntando nossas cabeças — mas não devemos encarar isso como algo ruim, pode ser difícil no começo mas também pode trazer coisas boas. Oportunidades, amigos — parou um segundo para pensar abrindo um sorriso malicioso — gatiiinhos.
Dei uma cotovelada nela e rimos do seu comentário. É verdade. Não sei porque estou vendo apenas pelo lado negativo, pode acontecer muitas coisas boas no tempo que estiver lá. E o que tenho aqui, não vou perder totalmente, posso manter contato com todas as pessoas queridas por mim, e visitar sempre que possível. Posso tentar ver por outra perspectiva toda essa situação.
— É, você tem razão May — disse para minha irmã enquanto segurava o ar o soltava lentamente, expulsando qualquer sensação ruim — nós somos maravilhosas e vamos botar o pau para torar em Angeles. — rimos e passei a me sentir melhor.
— Meninas, vamos descer para o jantar? — minha mãe chega em meu quarto — Ah America, não acredito que ainda não terminou de fazer as malas. Saímos amanhã cedo, esqueceu? — dona Magda questiona com a sobrancelha franzida.
— Estou quase acabando mãe. Depois do jantar termino de ajeitar as coisas em trinta minutos.
— Acho bom mesmo — respondeu rapidamente — a viagem vai ser longa e vocês precisam dormir cedo para estarem descansadas. Andem, vamos jantar.
Após o jantar subi para meu quarto e terminei de ajeitar as malas. Decidi ligar para minhas amigas, Jasmine e Audrey para me despedir. Elas ainda não voltaram de viagem e ficaram muito tristes por saber que eu partiria assim tão em cima da hora, mas também ficaram felizes. Segundo elas, Angeles é incrível. Me senti bem por elas terem ficado contentes e empolgadas por mim. Sinto que posso partir um pouco mais em paz.
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