Fomaríamos um Maravilhoso Nós
18 Que vença a melhor
Se me dissessem que a vida é um teste, eu diria que estou passando pela pior fase. Tinha tudo para ser um dia bom, um dia perfeito. A ideia era apenas acordar na cama do garoto mais lindo do universo, tomar um café delicioso com ele, dar uns pega, me arrumar para o colégio, enfrentar e vencer a garota mais desprezível que conheço, me tornar capitã das líderes de torcida, depois me encontrar com o garoto perfeito para comemorar e ter minha primeira vez.
Posso dizer que tudo começou bem, mas desandou.
Desandou feio.
E o pior, está doendo.
Kriss está caminhando ao meu lado, a caminho do ginásio, mostrando que já venceu essa. Que a vitória já é dela. Seu queixo está erguido, seu corpo bem ereto, sorriso audacioso, passos firmes.
Eu estou destruída, meu emocional está uma merda. Meus olhos lacrimejam sempre que essa vaca respira ao meu lado, pois lembro dos dois agarrados naquele armário. Mas não me permito parecer menos confiante que ela. Posso não ter um sorriso audacioso na cara, mas tenho meus olhos firmes no meu objetivo.
Ao chegar no ginásio, já havia um grupo de seis meninas acompanhadas de uma moça muito bonita e magra. Uma caixa de som junto a um computador já estava à disposição. Respiro fundo. Já fiz muitas apresentações antes, não há porque temer. Já tenho minha coreografia bem formada. Qualquer música que vier eu mato.
—Ah! Olá meninas! — nos cumprimenta animadamente a moça — a Kriss eu já conheço — ela olha para a infeliz ao meu lado que assente com a cabeça — já essa ruiva poderosa não — ela direciona seu olhar para mim. Sorrio grandiosamente com o elogio dela. — Muito prazer, sou a professora de dança Gizel.
— O prazer é todo meu — respondo me sentindo mais confiante e tranquila pela simpatia da Srta. Gizel.
— Bom… — ela bate uma palma — acredito que as duas já devem ter lido o formulário e entendido como vai funcionar, certo? — Assentimos. — Muito bem, podem ir até o vestiário colocar a roupa deixada lá para vocês. É das líderes do ano passado, ainda vamos definir o novo uniforme.
Apenas concordamos e nos dirigimos ao vestiário, uma garota já estava lá e nos entregou as peças. Sempre me incomodei pela falta de privacidade de vestiários. Tomar banho e se trocar na frente de estranhas nem sempre é confortável.
— Nervosa Singer? — Ela não podia ficar calada?
— Nem um pouco. — A encaro assim que tiro meu cropped.
— Esses chupões são do Maxon? — ela olha para a marca roxa nos meus seios — imagino que seja, ele adora deixar marcas aí.
Engulo em seco. Tento não imaginar quantas vezes ele já deve ter feito isso nela.
Não chora America. Não chora.
— Agora entendo porque você fica que nem uma cadela atrás dele. — Dou um sorrisinho de lado.
— Ele sabe usar muito bem aquela boca, não é? — Paro de a olhar e continuo a trocar de roupa, a raiva tomando conta dos meus sentidos — Eu estava aproveitando muito bem antes de você chegar e estragar tudo. — Dou um soco no armário.
— Você é uma vagabunda sem dignidade. Ele só te usa pra sexo e você se sente a rainha do pedaço. Se enxerga Kriss, você é uma coitada. — Apesar de estar cheia de raiva, minha voz era de pena.
E isso a incomodou. E como incomodou… nunca me senti tão satisfeita ao ver a cara de ódio daquela ordinária.
— É melhor você calar essa boca.
— Ah Kriss… não me diga que se ofendeu — dou uma risada sarcástica — quem vê até parece que você se importa com o que ele pensa de você. — O olhar dela era indecifrável.
— A única coisa que importa aqui, é a sua derrota. — Ela muda o assunto. Claramente ficou incomodada.
— Você quis dizer minha vitória! — Lhe lanço um sorriso confiante.
Éramos duas iludidas vestidas apenas de roupa íntima, se encarando com os braços cruzados em um vestiário vazio. A cena é ridícula. E para piorar, no final das contas, essa discussão não é pelo título, e sim por um garoto. Um garoto que brinca com nós duas. Isso não poderia ser mais patético.
— Vocês duas vão ficar de briguinha ou vão se apresentar? — A menina destrambelhada que nos deu o uniforme chama nossa atenção. Só agora me lembrei que ela estava lá. E ouviu tudo.
Terminamos de nos vestir e arrumar nosso cabelo. O uniforme do ano passado é lindo. Composto por um top e uma saia mais curta do que gostaria, pelo menos é cós alto e tem um shortinho que cobre metade da bunda. Azul marinho é a cor predominante, acompanhado de detalhes no branco e vermelho. As iniciais do colégio são bordadas na frente do top. Eu gostei. Fiquei linda. E não podia negar. Kriss também.
— Que vença a melhor Singer.
— Que vença a melhor Ambers.
Queria poder dizer que estou com a mesma confiança de antes, mas agora, que a hora chegou, estou um pouco nervosa. Noto que Kriss também está tensa. Acaba sendo inevitável sentir essa ansiedade.
— Quem vai ser a primeira? — Pergunta a professora toda animada.
Eu e Kriss nos olhamos, no final, ninguém queria ser a primeira, ninguém queria estar ali, ninguém queria existir.
— Que tal você Kriss? — a Srta. Gizel sugere — Você sempre gostou de se impor mais.
— Tudo bem… — não senti tanta firmeza na sua voz.
— America, pode se sentar com as outras — ela me indica as seis meninas na arquibancada — vamos lá Kriss. Pronta?
Não vi a reação dela e nem a pose inicial. Uma música animada começa a tocar e eu ando mais rápido para ver a dança dela. Nem cumprimento as meninas direito, apenas me sento e observo.
Realmente ela é boa. Sabe se movimentar, sensualizar e acompanhar o ritmo. Mas uma dose de confiança pairou em mim. Ela é muito pé no chão. O que quero dizer é que ela não é tão ousada com as acrobacias. O máximo que ela sabe fazer é uma bela abertura com as pernas. A coreografia não é ruim. Eu achei bom o desempenho dela.
— Muito bem Kriss, obrigada pelo show. — Kriss faz uma reverência e vem se sentar ao passo que eu vou onde ela estava.
— Boa sorte ruiva. — Ela me amaldiçoa quando nos cruzamos.
Meu coração acelera, minhas mãos suam e uma insegurança bate. America não fode! Respira, você sabe o que faz, cadê sua confiança caralho. Você é boa nisso, venceu campeonatos, já foi muito elogiada, lembra disso!
Digamos que meus segundos de autoajuda me confortaram. Lembrei do meu desempenho como líder no ano passado. As meninas me adoravam e sempre dava tudo muito certo. Não tem o que temer. Eu sou boa.
— Muito bem America, preparada? — Srta. Gizel tem um sorriso muito reconfortante.
— Sim! — Tendo transparecer a coragem que está em falta.
Respiro fundo, a música começa a tocar e inicio a coreografia que já tinha ensaiado com as meninas na casa de Celeste. É ousada, sensual e cheia de movimentos complexos. Acrobacias, aberturas, mortais. Depois de um tempo me senti solta, livre de qualquer negatividade e lembranças ruins. Me dediquei no que tinha que fazer e tenho certeza que fiz bem feito, pois todas as garotas, exceto Kriss claro, me aplaudiram em pé, inclusive a professora.
— Ual! Arrasou America! Parabéns — disse a professora.
Me senti muito satisfeita, mas ainda não acabou. Ainda tem mais uma etapa, que considero a mais complicada. Ensinar uma dança para três meninas em uma hora, sem saber se elas sabem dançar é uma tarefa difícil.
— Linna, Jhessica e Britney com Kriss. — A professora apontou respectivamente para as meninas. — Georgia, Olivia e Ellen com America. — As meninas olharam contentes para mim, retribui o sorriso — Para não ter problemas como da última vez, um grupo vai ensaiar aqui e outro no campo lá fora. Kriss lá fora. America aqui.
Notei Kriss insatisfeita, mas não houve reclamações, ela apenas saiu assim que a professora nos deu as últimas orientações.
— Olá meninas! — Às cumprimento animada.
— Oii… — respondem juntas.
— Bom… eu espero que consigamos trabalhar bem juntas. — Elas assentem — Vocês tem alguma experiência?
Eu sabia que estava perdendo tempo fazendo perguntas, mas preciso conhecer o mínimo sobre elas. Não teria como aproveitar os pontos fortes de cada uma se não os conhecia. Mas todas já sabiam dançar, são alunas da escola de dança da Srta. Gizel. Então isso facilitou tudo.
Falei minha ideia a elas, que acharam muito interessante, mas ficaram com um pé atrás por termos pouco tempo de ensaio e prática da coreografia, que realmente era complexa. Envolve muita sensualidade, já que teríamos plateia, e julgo que terá muitos meninos e é isso que eles gostam de ver. Se eles forem possíveis jurados, temos que agradar. Mas envolve movimentos interessantes também, sei que vai equilibrar para não ficar algo vulgar. Quero finalizar com uma acrobacia no ar. Esse é o ponto chave da dança, e também é o maior medo da minha equipe.
— Vamos meninas, nós vamos conseguir!
Tento animar meu grupo que já estava exausto de tanto tentar me jogar no ar.
— America… não sei se isso vai dar certo. — Diz Georgia com as mãos na cintura ofegante.
— Vai dar sim… vocês são incríveis, aprendem rápido. — as insentivo — só temos que tentar mais uma vez.
Devo dizer, eu estava desesperada e suplicando para aquilo dar certo. Eu já tinha enfrentado uma grande derrota no dia, não queria sofrer mais uma. As meninas aprenderam rapidamente todos os passos, fiquei muito satisfeita com elas. Mas o último passo exigia um grande esforço que apenas nós quatro não estávamos preparadas o suficiente para executar.
— Já está sentindo a derrota Singer? — Quando foi que ela surgiu?
— Esta fazendo o que aqui? Não devia estar lá fora?
— O tempo de ensaio acabou lindinha. Chegou a hora da verdade. — Ela sorria para minha cara de espanto.
Eu não tinha me dado conta que o tempo passou tão rápido. Dei as costas a ela encarando as meninas desesperada.
— America calma, nossa coreografia está incrível, só precisamos bolar rapidinho um final legal e fica tudo bem. — Ellen tenta me tranquilizar.
— Mas… — eu estava desorientada, é como se meu plano todo fosse por água abaixo. Mas tenho que agir, chacoalho minha cabeça para acordar — Certo! Vocês têm alguma ideia?
— O que acha de alguns rodopios e você finaliza com uma abertura na nossa frente, assim como na primeira ideia? — Sugere Olivia.
Nesse momento as portas do ginásio se abrem e vários alunos começam a entrar. Meu corpo congelou. Marlee e Celeste eram as primeiras no grande tumulto de pessoas passando pela porta. Elas acenaram felizes para mim, só consegui corresponder com um sorriso fraco. Elas logo franziram o cenho, não entendo minha cara de espanto.
— America! — Georgia chama minha atenção, pelo tom da voz parece que estava me chamando a um tempo.
— Sim? — Eu preciso reagir, não é hora para incertezas, é hora de ser uma líder.
— A ideia da Olivia… — ela me lembra.
Não era das melhores, mas ia servir.
— Certo. Vai ser isso. Rodopios e abertura. — Afirmo e elas concordam. — É isso ai garotas! Vamos arrasar!
Posicionamos nossas mãos no meio do nosso quarteto, uma acima da outra e jogamos para cima com um grito de coragem. Por mais que eu possivelmente nunca mais vá ver elas, nos demos muito bem e estamos fazendo um bom trabalho juntas. Rolou muita troca de conhecimentos e passos, o que ajudou a enriquecer nossa coreografia. Por mais que o final não fosse espetacular. Nós iríamos bem.
Estávamos rindo do nosso ridículo grito, quando olho por cima do ombro sem querer para a porta e ele entra. Nossos olhares se encontram e logo meu sorriso se esvai. Ele sorri, mas não sou capaz de retribuir. Desvio para frente rapidamente, me proibindo de deixar qualquer emoção surgir dentro de mim.
— Muito bem meninas! — A Srta. Gizel chama nossa atenção para nos reunirmos em um círculo fechado — Kriss seu grupo vai primeiro como da última vez. America vocês vão depois. Sem muito enrolação, certo? — Assentimos.
Eu e as meninas nos direcionamos para o primeiro banco da arquibancada, assobios de garotos era o que mais tinha no momento. Olhei para os assentos mais acima e encontrei minhas amigas mandando tchauzinhos frenéticos. Dei risada com a empolgação delas e retribuí com um aceno mais tímido. Ignorei completamente o olhar do loiro sentado ao lado de Celeste.
Kriss e seu trio começaram sua apresentação. Logo percebi que teríamos que nos superar ainda mais, pois a praga escolheu a mesma música que nós, o clássico da Beyoncé: Crazy in Love.
Teve bastante coordenação, mas faltou sintonia. Em alguns momentos ela dava passos mais rápidos que suas parceiras, ficando elas atrasadas e atrapalhando quando os passos envolviam movimentos unidos entre elas. O que não faltou sem dúvidas foi a vulgaridade. Me senti num show de stripers. Os meninos estavam babando. Tentei olhar para Marlee e Celeste para ver a reação delas, mas acabei olhando para Maxon. Nossos olhos pareciam ter ímãs, sempre nos olhamos ao mesmo tempo. O ignoro sem ver o que minhas amigas estavam achando do showzinho da Kriss.
Não serei mesquinha e dizer que ela foi mal, porque seria mentira, ela mandou bem. Mas ainda tenho chance. E é hora de mostrar. Kriss finaliza e logo nos levantamos e nos posicionamos.
Eu estou ofegante e me tremendo, troco um olhar com meu grupo passando a confiança necessária. Olho a plateia e vejo um cartaz com meu nome. Era Marlee e Celeste.
— Gostosaa!! Arrasaa!! — As duas gritavam enquanto chacoalhavam aquele cartaz com a maior potência permitida pelo corpo delas.
Comecei a rir discretamente. Era isso que eu estava precisando. Apoio. E eu tenho as melhores amigas desse mundo. Sei que elas estarão comigo para o que der e vier.
A professora nos lança um olhar de consentimento para a música que eu cedo imediatamente. A diferença da nossa música com a delas, é que no final tem um remix sem canto, o que nos deu espaço para passos diferentes não ficando repetitivo e maçante. Assim que ela começa a soar eu e as meninas começamos a nos movimentar. Nossa sintonia e coordenação é perfeita. Começo a sorrir ao perceber que estamos indo muito mais que bem.
Nos ensaios nós estávamos tensas, mas aqui estamos soltas, entrando no ritmo, fazendo mais do que deve ser feito, atuando muito bem no nosso papel de dançarinas sedutoras.
Eu me deixei levar tanto pelo momento que nem percebi a merda que ia acontecer e não teria mais como ser evitada.
Esqueci completamente que mudamos nosso último passo. Me posicionei mais a frente e fiz uma acrobacia, que era um mortal de costas usando as mãos no chão. O próximo passo seria meus pés se encaixarem nas mãos das meninas e elas me impulsionarem para cima onde eu dou um giro e caio sentada nos braços delas finalizando com uma cambalhota e uma abertura no chão.
Quando vi que estava realizando a acrobacia eu falei para mim mesma.
— Fodeu.
Não sei como eu apenas senti o impulso nos meus pés e cai no colo delas, perfeitamente. Com muita agilidade fiz a cambalhota que finalizou em uma abertura e ergui os braços finalizando a apresentação junto com a música.
Eu estava sorrindo, sorrindo pra caramba. Nós conseguimos! Olhei para trás e as meninas estavam na sua pose de finalização sorrindo para mim esticada no chão. De repente gritos, aplausos e assobios ecoavam por todo o ginásio. Eu não conseguia acreditar.
Me levantei e muito rápido nós quatro nos abraçamos e começamos a pular gritando que nem idiotas.
— America! Deu certo! — Exclamou Georgia.
— Sim!
Nós estávamos muito felizes. Não era pela vitória, afinal, ela nem foi anunciada ainda. Mas por termos conseguido cumprir com nosso objetivo. Ficamos frustradas por achar que não daria certo e no final deu sem querer querendo.
— Muito bem! — Grita a professora e todos fazem silêncio — Meninas, parabéns pela apresentação. Kriss, America, — ela olha para cada uma — vou conversar rapidamente com o resto da equipe de vocês, elas vão me contar a análise do desempenho das duas e junto com o outro resultado, eu vou definir quem vai ser a nova capitã. — Assentimos e elas se reúnem num canto.
Kriss e eu nos encaramos. Admito que não gosto da richa entre nós. Não que eu queira a amizade dela, longe disso. Eu só queria que ela não existisse na minha vida.
Pensando nessas coisas dou a ela um sorrisinho falso, que a mesma retribui com mais falsidade ainda. Tenho certeza que ela pensou o mesmo que eu. Me virei para não olhar a cara enjoada dela e sou surpreendida por duas loucas me abraçando como se não houvesse amanhã.
— Aaaa! — elas gritavam me rodeando.
— Você arrasou! — Diz Marlee toda enérgica.
— Arrasou é pouco — Celeste corrige o elogio — nada é suficiente para descrever o quanto você mandou bem!
— Obrigada meninas! Não teria conseguido sem vocês… — eu estava emocionada. Trocamos olhares embaçados e nos agarramos mais uma vez.
Logo nosso grupo estava completo, os meninos se juntaram a nós e todos me parabenizaram pela apresentação. Já estava me sentindo vitoriosa.
— Vamos ter a capitã mais gata do século — Aspen diz brincando.
— Eu já disse que qualquer elogio é pouco para ela hoje. — Celeste passa seu braço pelo meu pescoço colando a lateral de nossas cabeças.
Até então, não tinha notado que Maxon também estava ali, mais afastado. Ele não estava com a cara das melhores. Estava tenso, preocupado e inquieto. Mas ainda sim, ele tinha um sorriso reconfortante no rosto. Mudo meu olhar para qualquer outra coisa abruptamente, pois de forma totalmente involuntária, tudo voltou à minha cabeça. Toda a amargura e tristeza voltou. A maldita cena repassa na minha mente e sinto vontade de arrebentar esse rosto lindo que ele tem.
— Oi — a voz de um garoto sussurra no meu ouvido. Me solto do abraço de Celeste e olho para trás. É o Nicholas.
— Oi — respondo meio tímida. Depois do pedido de Maxon, eu estava receosa em falar com ele.
— Você foi muito bem… estava linda. — Respirei fundo. Olhei para trás e preferi não ter olhado.
Maxon estava possesso. Seu olhar de ódio penetrava as mãos de Nicholas que seguravam as minhas. Eu nem percebi quando ele as pegou. Estou me sentindo muito desconfortável pela situação. Mas paro para refletir. Só estou assim porque Maxon me pediu distância dele, porque ele não me queria perto do Nicholas. Mas isso é problema dele, eu não tenho mais nada com Maxon, e não quero ter. Então ele que vá a merda junto com a Kriss.
— Obrigada… — respondo seu elogio tentando parecer que gostei.
— Eu tenho que ir agora, não vou conseguir ver o resultado, mas estou torcendo por você. — Nicholas dá um sorrisinho lindo e depois um beijo na minha bochecha. Corei. Mesmo não querendo, eu me preocupava com o idiota do Maxon. — Tchau America, nos falamos.
— Tchau… — respondo quase sem voz. Me viro para meus amigos e Maxon não estava mais ali. Olho para Marlee e ela me indica com o olhar a porta do ginásio.
Ele estava indo embora.
Se eu dissesse que não me importei, estaria mentindo. E me odeio por isso.
Porque estou me importando quando claramente ele não se importa comigo?
Minha cabeça está completamente dominada por lembranças dele. Pelo tempo que me mantive ocupada ensaiando e apresentando eu consegui esquecer, mas agora, eu vou ter que aprender a lidar com essa dor.
— Atenção, pessoal! — a professora chama todos. — Após muitas deliberações, chegou o momento de anunciar quem será a nova capitã das líderes de torcida de Angeles High. — A expectativa está no ar. Marlee e Celeste seguraram minhas mãos, e fecho os olhos, sentindo a ansiedade crescer. — Kriss…
Abro os olhos chocada assim que Kriss e seu grupo de amigas começam a gritar e pular de alegria.
Mas o que!?
Sem acreditar, olho para as meninas que estavam boquiabertas, tão desacreditadas quanto eu. Não era possível. Não era mesmo! O que eu fiz de errado? O que faltou? Como assim ela venceu!? Sinto meu sangue ferver e minha pele esquentar. A nojenta logo me olha radiante de alegria debochando da minha cara.
— Eiii… ei… — a professora tenta acalmar o alvoroço que virou aquele ginásio.
Eu já queria ir embora desse lugar. Desse colégio. Dessa cidade. Desse país!
— Meninas se acalmem por gentileza. — A professora segue tentando falar — Kriss… parabéns pelo seu excelente desempenho, no entanto… — ela faz uma pausa, parecia se sentir culpada. — A nova capitã será a America.
Gelei. O ginásio inteiro permaneceu em silêncio pela confusão que se instalou ali.
— Você foi muito bem e nos surpreendeu pela sua criatividade, desempenho e liderança — ela dita as qualidades e eu sigo paralisada — parabéns America!
Do nada eu estava rodeada de meninas girando e pulando em volta de mim. Logo a ficha cai. Eu venci. Um sorriso maior que o mundo se instala no meu rosto e eu começo a pular e girar com todas ao meu redor. Celeste e Marlee me atacaram imediatamente.
— Aaaa sua ruiva maravilhosa — Celeste aperta meu rosto com seus dedos — eu sabia que você ia conseguir! Eu sabia! — Ela grita um pouco mais alto, para alguém mais ouvir.
— Meriii sua vadia gostosa — Marlee vem me abraçar parecendo que estava sendo eletrocutada de tanta emoção. — Você foi maravilhosa. Jamais vou perdoar a professora pelo susto que nos deu.
Nesse momento me lembro de Kriss. Procuro ela em meio ao grupinho de pessoas que estavam formados pelo ginásio e não a encontro. Dou uma risada com uma bela dose de sarcasmo. Ela fugiu da humilhação.
— Kriss deve estar tendo vários surtos nesse momento — Celeste gargalha acompanhada de Marlee.
— Eu não acredito que perdi de ver a cara dela — Marlee tenta se conter.
— Ela deve ter ido se consolar com o Maxon. — Digo com desprezo. As duas cessam a risada e me olham sérias.
— Meri, sobre isso, nós temos que conversar — Marlee fala com cautela.
— Conversar!? — Não acredito que as duas estão do lado dele — O que tem para a conversar? Vocês não viram o mesmo que eu por acaso?
— Depois falamos sobre isso — Celeste corta o assunto — agora, vamos falar de coisa boa. Festa. — Ela diz mostrando todos os dentes da boca — temos que comemorar essa vitória.
— Isso! Vamos dar uma puta festa para a escola inteira lembrar que a Kriss foi humilhada. — Marlee dá pulinhos.
— Ela não foi humilhada. — Digo o que penso e as meninas me encaram — Ela dançou bem.
— Parece que você esqueceu que ela achou que ganhou, mas no fim recebeu um tapa na cara. Isso foi mais humilhante que qualquer outra coisa.
Marlee tem razão. Isso foi muito humilhante. Principalmente depois de todas as ameaças e insinuações que ela fez para mim. Eu até me senti mal por um momento, imaginei se fosse eu no lugar dela, mas logo penso que Kriss estaria esfregando na minha cara minha derrota, então vou me permitir rir da cara dela e marcar para sempre na minha memória que eu provei ser melhor.
Celeste e Marlee estão doidas na minha frente comentando os detalhes da festa. Gostei muito da ideia, faz tempo que não vou em uma. Vai ser bom me distrair, dançar, beber, ficar louca, beijar garotos, me divertir. Principalmente depois de tudo o que aconteceu.
— Aí pessoal! — Celeste grita chamando a atenção de todos que ainda estavam no ginásio — festa amanhã na minha casa para comemorar a vitória da nova capitã e das novas líderes de torcida! — ela diz toda empolgada e o pessoal grita um “Ae” bem longo animados pelo convite.
— Falando em novas líderes de torcida — Srta. Gizel se dirige a nós com suas alunas — America, esteja aqui depois da aula para fazer o teste com as outras meninas, eu não estarei aqui, então é com você.
— Pode deixar. — Dou-lhe um sorriso confiante.
— Agora você lidera o grupo, seja responsável e faça seu trabalho direito. — Ela me alerta.
— Fique tranquila, vou cuidar muito bem de todas.
A professora se despede e vai embora. Georgea e as meninas que dançaram comigo vieram me parabenizar e nos mostrar a pérola do dia. Um vídeo do momento que a professora revela quem foi a vencedora, e nele continha uma cena nítida da reação da Kriss ao quebrar a cara. Foi hilária! Não sabia que ela podia ficar tão vermelha e exprimir tantas reações de uma vez. Nós choramos de rir, me senti muito satisfeita e vingada. Com isso ela pagou toda a dor de cabeça que me causou. Só espero que não volte a me incomodar.
Me despedi de todas, me troquei no vestiário e fui até o estacionamento, no caminho levo um susto de um moreno gatíssimo de olhos verdes.
— Caramba Meri, não sabia que você é tão assustada. — Aspen tira sarro da minha cara.
— É isso que acontece quando tudo está em silêncio e um louco vem e te agarra por trás. — Respondo sorrindo. Gosto do Aspen, ele é muito gentil e divertido.
— Não exagera. — Olho para ele e o vejo sorrindo. Se Celeste não gostasse dele, eu com certeza adoraria ficar com ele um dia. Aspen é um dos caras mais lindos que já vi. — Vim te parabenizar pela vitória.
— Você deve estar muito triste pela sua amiguinha, afinal, todos vocês achavam que eu não tinha chance contra ela.
— Isso não é verdade — ele franze o cenho — eu sempre torci por você.
— Mas nunca me disse. — O olho com uma sobrancelha arqueada enquanto caminhamos até o estacionamento. — Quando discutimos sobre o assunto, você disse que ela era gostosa, deu a entender que Kriss é melhor do que eu.
— Você também é gostosa — o olho surpresa. Aspen cora ao perceber o que disse, dou risada — caramba, foi mal Meri… e-eu, eu quis dizer que… — Ele estava sem jeito.
— Me acha gostosa Aspen? — Ele cora mais ainda. Começo a rir da cara dele — Está tudo bem! — Dou uma leve cotovelada no braço dele.
— Mas não é mentira, você é tão linda quanto ela, e ganhou por merecer. Vai animar bastante os jogadores… — ele sorri malicioso.
— Engraçadinho. — Rimos e uma brisa suave bate em meu rosto assim que atravessamos a porta.
— Tchau Meri… até amanhã! — Ele me dá um beijo no rosto. Não sei de onde surgiu um arrepio.
— Tchau Aspen — retribuo o gesto. Sem me dar conta, me pego encarando aquele lindo par de olhos, não deixei de perceber que ele faz o mesmo. Aquilo estava mais intenso do que eu podia imaginar.
Imediatamente dou um jeito de esquivar. O que eu estava fazendo?
Celeste gosta dele, ela é minha melhor amiga. Qualquer atração que eu esteja sentindo por ele tem que acabar. Não só por ela, mas pelo próprio Aspen, pois sei que qualquer aproximação mais íntima entre nós nesse momento, seria muito mais por um desejo de causar a Maxon a mesma dor que ele causou em mim. Isso não pode acontecer. Não com o Aspen.
— Tudo bem Meri? — Me pergunta preocupado. Acho que ele notou minha confusão.
— Está sim… — digo sem muita firmeza. Sei que ele não deve ter acreditado pela cara que fez. Mas o que eu poderia dizer?
— Sabe… — ele coça a cabeça.
A não… eu conheço essa cara. Por favor Aspen, não faça isso.
— O que você acha de sair comigo um dia desses? — Merda! O que eu digo agora?
— Ãn… é… — que droga! Não quero chateá-lo, mas também não posso fazer isso com minha amiga. — Aspen…
Paro de falar assim que levanto meu olhar e noto por cima do ombro de Aspen duas pessoas conversando mais ao longe. Kriss e Maxon. Meu sangue ferve na hora por ver a proximidade dos dois. Maxon estava encostado no seu carro e Kriss estava de frente para ele e de costas para mim. Meu estômago estava embrulhando vendo aquela cena.
— Descarado filho da puta — cochicho bem baixo para apenas eu ouvir. Ele ainda fala com ela mesmo depois de ter me dito que Kriss armou todo aquele teatro. — Hipócrita.
— O que disse? — Aspen me faz despertar. Por um curto momento esqueci que ele estava na minha frente. O encaro.
— Nada! Não é nada! — Digo rapidamente, mas ele olha para trás e ao retornar para mim, ele ficou sério.
— Posso te perguntar uma coisa? — Engulo em seco. Até imagino o que seria e não entendo porque Maxon não disse nada para ele.
— Pode… — disse relutante.
— Você e o Maxon tem alguma coisa, não tem? — Seus olhos pareciam ter esperança que eu dissesse não, mas é melhor ele saber logo, e danem-se as razões do Maxon não ter contado a ele.
— Digamos que… tínhamos… — suspiro, ele não pareceu surpreso. Na verdade, não consegui decifrar o que ele estava pensando.
— Eu imaginei… — Aspen respira fundo. — Bom, tchau Meri. Se vemos.
E ele vai em direção ao seu carro rapidamente. Não sei o que foi isso, mas temo que Aspen tivesse alguma esperança comigo. E por Deus, que a Celeste nunca saiba disso.
Ao voltar a olhar para frente, me deparo com a cena mais deplorável que poderia ver. Kriss o abraçando. Ele não retribuía, mas aquilo me encheu de ódio. Eles se merecem, são dois dissimulados.
Vou até meu carro e, mesmo contra a vontade, meus olhos se voltam para eles. Estavam meio distantes, mas ainda assim, eu conseguia vê-los. Meus olhos se enchem de lágrimas ao perceber que Maxon me observava. Seus olhos suplicavam para que eu o chamasse, para que eu o perdoasse. Como ele conseguia fazer isso? Como tinha coragem de me olhar daquela forma com ela ao lado? Kriss se vira na minha direção, chorando. Logo em seguida, sai correndo para algum lugar que desconheço.
Me volto para Maxon e ele parecia vir na minha direção. Me desesperei, não quero falar com ele. Será que ele não percebe? Será que não se dá conta?
Entro correndo no carro e dou partida. Olho pelo retrovisor e vejo a derrota expressada na sua postura. Comecei a chorar. Chorar tudo o que podia. Ele havia me levado às nuvens ontem a noite e hoje de manhã eu parecia estar no paraíso, mas ele não se demorou a fazer o mesmo com outra. Isso doi. Doi muito.
Cheguei em casa e por sorte não tinha ninguém. Nem mesmo Lucy, Mary e Anne. Vi um aviso por mensagem da minha mãe, que todos foram almoçar fora e que eu poderia me encontrar com eles no restaurante. Mas já estava no meio da tarde, provavelmente já almoçaram e estão curtindo o dia lindo que está hoje. Agradeço profundamente pois não quero sair, só quero tomar um belo banho, me deitar e continuar a chorar.
Hoje eu conquistei um objetivo, mas sofri a maior derrota, a maior desilusão da minha vida. Uma surra me machucaria menos.
Porque Maxon? Porque?
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