Fomaríamos um Maravilhoso Nós
36 Eu sou uma FDP
Notas iniciais
Eu sou a pior pessoa já existente nessa terra.
Eu sou uma sem vergonha.
Eu sou uma fraca.
Eu sou uma doente.
Eu sou uma traidora.
Eu sou uma filha da puta do caralho.
Aspen se levantou, saindo de cima de mim, seu rosto virado e os olhos fechados. Eu o observei, ainda estática na minha posição com os braços para cima, sentido um tremelique percorrer meu corpo, tentando adivinhar o que passava na mente dele.
Levou alguns segundos para me tocar que uma das razões para ele se censurar, era o fato de eu estar nua em sua cama.
Merda! Merda! Merda!
Aspen andava de um lado para o outro em seu quarto, eu me alonguei para pegar a manta mais próxima esparramada pela cama. Escondi minha nudez, trazendo o alívio necessário para a culpa voltar a me tomar.
Eu ia transar com meu melhor amigo.
Eu ia transar com o melhor amigo do meu namorado.
Eu ia transar com o namorado da minha melhor amiga!!!
Isso não é o pior, mas… eu chamei o nome de Maxon, enquanto me pegava com Aspen!
Eu estava me pegando com o Aspen!!!!
O silêncio naquele quarto era gritante, só não mais que a culpa estampada em nossa cara. Eu vi ela nítida quando eu e Aspen tomamos coragem de nos encarar. Seus olhos estavam arregalados, seu cabelo bagunçado e seus músculos rígidos. Eu não devia estar muito diferente.
— Meri… — Aspen apertou os olhos e fez uma pausa antes de continuar. — Merda! — Ele não conseguia dizer nada, massageou sua têmpora e voltou a andar atordoado.
Engoli em seco, pensando no que acabara de acontecer, buscando as palavras certas, pois nós dois precisamos falar do que aconteceu.
E a explicação era simples: a culpa foi toda minha.
Me deixei levar pela minha mágoa e minha saudade, usando Aspen para me satisfazer e de certa forma, oprimir a dor que eu estava sentindo. Eu fiquei tão envolvida, tão extasiada, ele estava sendo o consolo perfeito, usando as palavras perfeitas, seu cheiro era perfeito, seus toques, sua paciência, sua voz. Merda! Tudo era perfeito e permiti que uma necessidade obscura norteasse o que viria a acontecer.
Eu o usei, o usei para sentir Maxon… Deus! Eu pensei que Aspen era o Maxon!
— Aspen me desculpa — eu não tinha coragem de encará-lo — me desculpa mesmo…
Era só o que conseguia falar. Tenho certeza que exprimi junto toda a vergonha que eu sentia, todo o meu arrependimento. Isso não devia ter acontecido, não devia!
— A culpa foi minha — ergui meu olhar assim que ele falou.
— Não, não — enrijeci minha postura — foi minha Aspen, eu, eu…
— Não Meri, eu procurei isso — bufou ajeitando o cabelo — eu te abracei e, e… me aproveitei da sua fragilidade… nossa… — Aspen estava odiando a si mesmo, dava para notar — eu sou um idiota. Deus! Eu sou muito idiota.
— Claro que não — me levantei, segurando firme a manta sobre meu peito, ambos frente a frente agora — eu também me aproveitei, me senti anestesiada com seu carinho e… merda… nem percebi o que estava fazendo.
Admitir isso é uma droga. Sinto o rubor subindo pelo meu rosto, eu não poderia estar mais envergonhada. Aspen mantinha um olhar pesado sobre mim, mas não me julgava, era reconfortante. E então percebemos… estamos juntos nessa, a parcela de culpa, está dividida igualmente entre nós dois.
Em um primeiro momento, eu me senti péssima por pensar em Maxon quando quem estava comigo não era ele, temi ter chateado Aspen, mas nem de longe esse é o problema mais grave. No entanto, ele não parece chateado por isso, e se estivesse, teria que julga-lo como um idiota, afinal, tem alguem muito importante que nós dois ferimos, e ele sabia muito bem disso.
Mil desculpas foram trocadas entre nós enquanto o silêncio pairava. Posso dizer que o remorso que sentimos pelo que fizemos, e viria a afetar a nós dois, nossa amizade, não existe mais. Estamos bem um com o outro, sem nem mesmo falar nada.
— Talvez agora, você me ache um idiota — Aspen foi até sua cama onde se sentou. Eu fiquei onde estava, mas com os olhos bem atentos nele.
— Porque diz isso? — perguntei, meu cenho franzido, ele iria revelar algo, e eu não entendia o que poderia ser.
— Eu pensava em Celeste — soprou um riso descrente.
Celeste? Ele pensava em Celeste enquanto me beijava? Foi isso que entendi?
— Eu entendi direito? — ri nervosa.
— Eu sou um babaca, me desculpa Meri, mas sim, provavelmente você entendeu direito, afinal de contas, você pensava em Maxon — ele não estava me culpando, longe disso, ele estava apenas explicando que o que aconteceu comigo, aconteceu com ele também.
— Aspen, não entendo — e não entendia, mesmo. Ele tinha Celeste quando ele bem entendesse. Porque se refugiaria em mim para lembrar dela?
— Não estamos bem… — senti o peso em suas palavras, aquilo foi um desabafo, como se estivesse preso em sua garganta a tempos.
— Não estão? — novamente, eu confusa.
— Não — meu coração apertou quando Aspen confessou em seguida abaixando a cabeça, pendendo ela no seu pescoço se sentindo um derrotado. — Estamos brigados desde que rolou toda aquela merda no colégio.
Não consegui abrir minha boca. Eles estavam a tanto tempo assim e eu não percebi nada?
Claro que não, eu estava embolada no meu próprio egoísmo, no meu próprio mundo, deixando de lado tudo e todos ao meu redor, focando apenas em um alguém distante. Meus amigos estavam ali, sempre ali ao meu lado, e eu não fui sensível o suficiente para perceber que eles tinham seus próprios problemas. Eu estava sendo uma miserável.
— O que houve Aspen?
Ele queria falar sobre isso com alguém, estava claro em sua postura e a forma que ele introduziu o assunto, e eu estava ali para escutar, engoliria meus problemas e focaria em alguém que estava precisando realmente de mim.
Que Maxon sinta as indiretas, seja onde ele estiver.
— Talvez você devesse se vestir — com a sobrancelha ele indicou a manta que me cobria.
Ruborizei, eu ainda estava nua diante dele, apenas um tecido felpudo preso pelos meus braços não permitia que eu fosse revelada. Senti um frio mega desconfortável na barriga em pensar que Aspen me viu despida, pior! Que ele me tocou e me beijou!!
— Agora entendo um dos motivos de Maxon adorar você — desgraçado sorriu malicioso quando peguei meu top amassado no chão.
— Agora, você foi um idiota — acusei rindo e corando pelo atrevimento.
Corri para o seu banheiro tropeçando na manta que arrastava no chão. Escutei Aspen gargalhar por me atrapalhar tanto, como se eu já não tivesse passando vexame demais.
— Você tem um belo material — escutei seu grito abafado pela porta.
— Cala a boca!
Ele estava tentando descontrair, esse era o Aspen e eu não tinha porque ficar chateada. Não sabia lidar da mesma forma que ele, fazendo piada, mas eu ia na onda, não tinha escolha melhor.
— Pare de gracinha — ameacei apontando para ele, que sorria fraco para mim quando saí do banheiro e me sentei ao seu lado — agora me conta… porque estão brigados?
Aspen puxou fundo o ar, quando o soltou começou a desabafar.
— Fiquei puto quando vi que ela brigou com Elise — encarei ele, minhas sobrancelhas arqueadas denunciavam que quem estava ficando puta era eu. — Qual é Meri?
É sério que ele esperava que eu ficasse do seu lado?
— Depois que separamos Maxon e Nicholas, vi que Celeste estava quase desmontando a garota, corri para separar e vi que Celeste tinha passado dos limites — fiz um bico em desaprovação para ele.
Não acredito que ele estava defendendo Elise.
— Eu ajudei a garota quando vi que nenhuma das meninas faria isso — e porque será? — Então levei ela para um banheiro e cuidei das feridas em seu rosto. Celeste chegou na mesma hora e… ela não disse e não fez nada — isso foi novidade — mas eu sabia que fui condenado naquele momento. Mas eu não liguei, estava bravo, eu sabia que ela odiava Elise, e que era questão de tempo para ela explodir por qualquer besteira…
Eu queria pegar a cabeça de Aspen e enfiar em uma privada, depois ralar sua cara em um asfalto quente.
Como ele ousa dizer que Celeste fez o que fez por besteira? Ela recebeu o maior tapa na cara naquele dia. Eu me lembro bem. Sem falar que naquela primeira semana, eu tinha um olho no celular por conta do Maxon e outro em Celeste, que chorava e quebrava as coisas de ódio, principalmente depois que ela confrontou sua mãe e descobriu que o que Elise disse, sobre a mãe de Celeste trair o seu pai, com o pai da asiática infeliz, era tudo verdade.
— Você é um idiota Aspen — eu tinha raiva na voz.
— Meri eu não sabia a razão da briga — ele se defendeu. Minha guarda abaixou quando vi que ele dizia a verdade — eu não sabia que Elise tinha dito coisas horríveis dos pais dela, eu não sabia! — Aspen cutucava o próprio peito com os dedos, dando ênfase em sua culpa e em sua idiotice. — Fui descobrir uma semana depois que Marlee me confrontou no colégio. Eu fui me desculpar mas cara… ela não me deu chance.
— O que esperava? — sinceramente… não sentia piedade alguma por ele.
— Eu sei — suspirou decepcionado. — Ela não fala comigo desde então, não olha na minha cara, me bloqueou nas redes sociais, me mandou pro inferno… ela só deixa eu entrar no apartamento quando você está lá… em uma das minhas tentativas de me resolver com ela, fui expulso por um segurança do prédio.
Eu sabia que Aspen e Celeste tinham uma química, mas não fazia ideia que existia tanto sentimento. Celeste não é muito de demonstrar, sempre que ela fala de Aspen é sobre seus atributos físicos e suas habilidades na cama. Contudo, sim… dava para ver que eles se gostavam, mas agora, ver Aspen desesperado por ela, me fez ver que o que eles têm, é muito mais que um status de ficantes.
Aspen sofria, e minha amiga também, e eu não vi isso, e para deixar tudo ainda mais fodido do que já está… eu furei o olho da minha amiga.
Deus! Celeste nunca vai me perdoar, nunca vai perdoar Aspen!
— E agora… — ele sorriu triste — agora fodeu tudo de vez.
Sei que ele se referia ao que ouve entre nós dois, eu também estava pensando nisso. O que aconteceu foi um momento de fraqueza, não pensamos nas consequências, não pensamos em nada na verdade, nada além das pessoas a quem entregamos nosso coração, e por um instante medíocre, nosso subconsciente nos enganou, fazendo-nos ver um no outro quem queríamos.
Idiotas.
— O que faremos? — perguntei depois de um instante quieto.
— America não sei — senti o toque de apavoramento em sua voz.
— Está cogitando em não falar para ela? — perguntei me culpando por estar tendo essa ideia tambem.
— Acha que não devemos contar? — eu sei o que ele estava fazendo.
Ele está querendo que eu concorde em não dizer, para não se sentir tão horrível, ou, não se sentir horrível sozinho em esconder essa traição.
— Não é justo Aspen — falei triste — não é justo com ela…
Não dissemos mais nada depois disso, por mais confortável que fosse não dizer, eu nunca ficaria tranquila, não conseguiria olhar para a minha amiga e saber que escondo algo assim dela. Por mais que não tenha significado nada para mim nem para Aspen o que rolou, significa para Celeste.
Me despedi de Jack, o furão de Aspen sem saber quando o veria novamente. O bichinho pareceu se irritar por eu tocá-lo enquanto ele dormia, então o deixei em paz.
A casa de Aspen era tão grande quanto a minha. Pensei em encontrar sua família aqui, mas ele disse que sua mãe e suas irmãs não estão no país. No caminho recebi três ligações das minhas amigas e uma de May, todos querendo saber onde eu estava e o porquê da demora. Celeste e Marlee vão arrancar minha cabeça, mas imagina o que Celeste fará quando abrirmos o jogo?
— Sabe Aspen… — criei coragem de falar assim que estacionamos na frente do prédio — acho melhor não falarmos hoje.
— Concordo — ele pareceu aliviado.
Eu queria muito poder prever a reação de Celeste, no elevador minhas mãos suavam, eu não tinha me tocado da gravidade da situação como agora. O que ela fará? O que ela dirá? Ela é tão previsível mas ao mesmo tempo tão surpreendente.
Aspen ao meu lado, roía as unhas, mexia no cabelo, coçava a nuca. Ele iria se entregar se continuasse desse jeito, Celeste perceberia na hora que algo errado havia acontecido. Mas não deu tempo de dizer isso a ele, já que a porta do elevador se abriu e minhas adoráveis amigas, já estavam ali, me esperando. Eu via as facas invisíveis em suas mãos. Prontas para me matar.
— Ora, ora — Marlee soprou calma — olha quem chegou Celeste.
— Uma America morta Marlee — elas faziam seu showzinho.
— Uma America quase morta Cel — a loira corrigiu.
— Não comecem — falei firme.
Minha voz deve ter soado como um insulto pela cara que fizeram, e logo me vi sendo arrastada para dentro do apartamento. Eu sabia que elas ficaram preocupadas, entendo a raiva, mas precisava mesmo de tudo isso?
— Onde esteve? Porque demoraram tanto? — foi a primeira coisa que Marlee perguntou quando fui arremessada no sofá.
— Vocês sabem onde eu estava — me senti esperta depois de quase morrer pensando se deveria ou não contar que fui a casa de Aspen.
— Você sabe o que nos fez passar o dia todo? — Marlee estava impassível, apontava o dedo na minha cara, enquanto Celeste estava quieta demais olhando a bronca com os braços cruzados.
— Você está parecendo a minha mãe — bufei enfadada.
— Você ainda se atreve a achar ruim? — Indagou Marlee indignada. — Você não sabe o que é acordar e não te encontrar em casa. Você não tem ideia do que é tomar café da manhã querendo acreditar que não há com o que se preocupar!
Marlee começou a aumentar o tom de voz irritada, e a cada palavra dela, o nó em minha garganta crescia, ficando cada vez mais difícil de aturá-lo. Marlee não percebia o que estava dizendo.
— Você não sabe o que é passar a porra do dia inteiro sem uma única notícia! — Celeste tocou o braço de Marlee para freá-la em suas acusações, mas a loira continuou, sem se tocar o quanto estava me ferindo — Você não sabe o que ligar sem parar e ver a merda do celular desligado na merda do carregador! Você não…
— EU SEI! — Estourei, levantando num pulo. Lágrimas no meu olhar. Celeste fechou os olhos abaixando o rosto. Ela entendeu. — Eu sei dessa merda Marlee! E não venha me dizer que não sei. PORQUE EU SEI. INFERNO!
Marlee arregalou os olhos e se calou assustada, eu não a culpava por se chatear comigo. Sim eu merecia talvez um puxão de orelhas, eu saí sem avisar quando estava claramente em um estado depressivo, mas agora, jogar na minha cara todas aquelas coisas, sendo que foi exatamente isso que eu passei a porra de três semanas fazendo…
Não queria ter gritado, Marlee só estava desabafando sua preocupação, e eu deixei que meus problemas com Maxon reagissem no momento, toda aquela raiva acumulada, todo o ressentimento e tristeza foi despertado outra vez com as acusações dela.
Minha amiga pareceu perceber o que fez, e o arrependimento bateu nela quando comecei a chorar. Eu não estava brava, só o inevitável voltou a me atormentar.
— Eu peço desculpas, de verdade — tentei engolir o choro. — E-eu não queria preocupar vocês, eu só… eu só — olhei para cima, tentando fazer as lágrimas voltarem de onde vieram — eu só precisava de um pouco de ar, pensar sozinha e me perdoem, eu não pensei nas consequências.
Eu via os olhos brilhantes das minhas amigas. Celeste ainda estava com a mão no braço de Marlee, as duas paralisadas me olhando. Acabou que o rumo que eu pensei e que elas pensaram que essa conversa levaria, mudou completamente. Não fiquei calada ouvindo os escândalos que elas pretendiam fazer, apesar desse ser meu plano também, acabei ficando cheia. Cheia de tudo.
— Meri, me desculpa — Marlee suspirou. — Você sabe que eu não tinha a intenção de… — ela fez uma pausa, eu balancei a cabeça, dizendo que sim, eu sabia. — Só ficamos preocupadas, muito preocupadas.
— Não faz mais isso America, por favor — Celeste pediu seria. — Nós não somos seus pais, mas você bem sabe que cuidamos de você todo esse tempo, vimos você no seu pior momento e foi impossível não pensar o pior.
— Eu sei — respirei fundo, apertando os dedos — me desculpem mais uma vez, eu prometo não fazer isso de novo.
— Vem cá — Marlee abriu os braços.
Eu corri para as minhas amigas me juntando a elas em uma abraço em trio, feliz por Marlee e Celeste serem minhas parceiras, minhas confidentes e meu apoio não só agora que as coisas estão difíceis, mas sempre, e para tudo.
— Eu amo vocês — sorri ao declarar isso a elas.
— Eu também — as duas disseram juntas.
Nos aproximamos mais, e ali nós ficaríamos abraçadas por mais um bom tempo, se Celeste não começasse a fungar, acabando com o clima do momento.
— America, você está fedendo carniça.
— Como é? — me soltei das duas, indignada, porém rindo.
— Isso mesmo, está fedendo e precisando de um banho — a morena me mediu com o olhar, Marlee ria sozinha. — Aliás, essas roupas são minhas! — constatou — Terei que incinera-las.
— Como você é exagerada — revirei os olhos rindo.
— A única coisa exagerada aqui é o seu fedor — fechei a cara e Marlee desabou no riso.
— Ha, ha, ha, engraçadinha — zombei.
— Bom, já que o trio das super poderosas fizeram as pazes… — Carter surgiu do nada — vamos Lee?
— Quem é você para separar nossa amiga da gente? — Celeste se fez de protetora.
— Exatamente… — entrei na onda — quem você pensa que é?
— O brinquedinho sexual dela — Carter arqueou as sobrancelhas sorrindo de lado, não sei porque esperei que ele responderia algo sério.
— Só não lhe dou um tapa, porque você não está mentindo — disse Marlee apertando as bochechas de Carter quando foi até ele.
— Eu sei minha fadinha safada — Carter avançou no pescoço de Marlee.
— Tá, tá, tá — Celeste foi para cima dois os empurrando — se sumam da minha casa. E você vá tomar um banho — essa foi para mim.
Discretamente cheirei minha axila para me certificar se estava fedida mesmo, caso estivesse, que vergonha!
Eu suei um pouco de manhã e segui o dia assim ao lado de Amberly!! Uma mulher elegante que só em olhar de longe sente o perfume dela. E Aspen! Lembrei que ele estava aqui também, procurei por ele assim que me certifiquei que não estava tão fedida assim. O vi sentado na ilha da cozinha, rindo da minha cara por estar me cheirando. Idiota. Mas me tranquilizei quando ele fez um gesto negativo com a cabeça.
Não, eu não estava tão fedida.
— Tchau gente! — Marlee gritou da porta e Celeste bateu a madeira na cara dela.
— Esses dois vão transar no elevador, tenho certeza — de onde ela tirou essa conclusão, eu não sei. Celeste tinha um pequeno sorriso, que se fechou quando ela viu Aspen — você ainda está aqui é?
O coice chegou em mim também, Celeste olhava dura para ele, Aspen sustentou seu olhar com o da morena, e lá ele dizia que não sairia dali tão cedo, e então eu entendi.
— Eu vou tomar um banho — me levantei de fininho, mas eu poderia sair tacando bombas que nada quebrava o olhar intenso que os dois trocavam.
No banho, sentindo a água morna escorrer junto com a fragrância deliciosa dos produtos importados da minha amiga, eu fiquei me perguntando sobre o que eles estariam conversando, mas principalmente, a sensação horrível do que eu e Aspen fizemos mais cedo, que havia sido abafada pelo nosso momento entre amigas, agora remexe na minha cabeça, enviando calafrios por tudo.
Eu me peguei bonito com o namorado da minha melhor amiga.
Essa frase nada na minha mente, fodendo com meus nervos que já não estão bons a um bom tempo. Eu sinto minha boca ficando seca, e toda umidade parecia ter ido para as minhas mãos, que suavam frias no meio do banho.
Eu não me aguentaria, eu sei. Eu não sou capaz de esconder isso da dela por muito tempo. Quando menos esperei, as águas dos meus olhos se misturaram com a água do chuveiro. Não parava de pensar que Celeste me odiaria, e não seria para menos.
Eu fui uma estúpida, idiota.
Mas como combinei com Aspen, nós esperaríamos para falar com Celeste, pelo menos até amanhã ou quando a culpa atingir níveis insuportáveis.
No closet dela, eu procurei por um pijama confortável e menos revelador possível, o que era muito difícil. Celeste tem apenas roupas sexys.
Achei um minimamente decente e me sentei em sua penteadeira. Com uma ansiedade crescendo outra vez, peguei meu celular lotado de mensagens e só agora, pensei em Maxon e seu envolvimento nesse assunto do Aspen.
Eu deveria me importar com o que ele pensaria? Ele um dia vai saber? Ele se importa?
Vou dizer que não me sinto culpada em relação a Maxon, e sim, vingada. Ele não tem dado a mínima para a dor que venho sentindo por sua causa. O maldito recebe minhas mensagens, minhas ligações, e não faz a merda do favor de responder.
Não quero prolongar minhas ideias do porque. Eu já me fiz demais essa pergunta. Porque ele se foi, porque não me responde, porque não da sinal, porque, porque, porque!
— Porque? — sussurrei — merda! Merda America! Chega!
Me censurei por novamente, estar me perguntando, e sofrendo. Estaria Maxon com Daphne? Estaria ele me traindo com ela?
Se ele estiver… ao menos tive a chance de fazer o mesmo com ele, mesmo que para isso, eu tenha ferido minha amiga. Pelo menos para isso terá valido a pena.
Abrindo a caixa de mensagens, me odiando por ainda sim sentir aquele frio de esperança, eu vou de cara no chão, essa idiota esperança vai fundo nos confins da decepção, porque como esperado, não tem nada, nada dele. Absolutamente nada.
— Desgraçado!
Mordi meu punho fechado, andando de um lado para o outro do closet, sentindo raiva e ódio porque sim! Eu tive esperança. Eu pensei que teria algo. Eu achei que um dia todo sem infernizar o celular dele com súplicas, ele iria se compadecer em me responder, mas não! Não!
Eu fui uma idiota iludida mais uma vez! Mais uma vez uma imbecil apaixonada por um otário que não dá a mínima para mim.
— Maxon, seu filho de uma puta! — foi o que eu grunhi sentindo ódio, ao mesmo tempo que digitando e enviando essa maldição embaixo de todas as mensagens de amor e desespero que deixei ontem para ele.
Eu estou frustrada, me odiando e odiando ele. Uma nuvem escura de tristeza me envolvendo outra vez, e a maior merda é que eu não consigo evitar. Eu respiro fundo, solto o ar lentamente, querendo controlar isso, mas não dá, porque eu o amo. O amo com todo o meu coração e não consigo não sentir essa merda o tempo todo, porque esse infeliz está sempre na droga dos meus pensamentos.
Sempre! E sempre! E sempre! Inferno!
Sequei minhas lágrimas, prendendo na garganta todo o meu ódio para ir encontrar Celeste na sala. Já era tarde, madrugada para ser mais exata. Eu e Aspen perdemos muito tempo no trânsito, depois na barraquinha suspeita, e claro, em sua casa. Porém, mesmo que a lua estivesse no seu ponto mais alto, o sono estava bem distante da minha realidade.
Prendendo meu cabelo em um coque desajeitado, eu caminho pelo corredor, mas paro no caminho ao escutar vozes discutindo num tom baixo. Era Aspen e Celeste. Achei que ele ja teria ido embora, visto que demorei um pouco, mas não, ele estava ali.
— Você acha que nasci ontem? — a morena indagou.
Eu não me orgulhava de estar ouvindo, mas aquilo apurou meus ouvidos, então permaneci parada.
— Cel, por favor…
— Vai embora! Some daqui Aspen! — Celeste tinha seu sussurro firme e raivoso.
— Tudo bem — Aspen se deu por vencido — mas não vou desistir.
— Mas eu sim.
— Veremos.
Foi a última coisa que ouvi de Aspen assim que a porta fechou e uma Celeste que se fazia de forte, encostou as costas na madeira, recusando-se a derramar uma lágrima sequer por quem acabou de sair.
— Oi — dei as caras, ela me respondeu com sorriso fraco. — Tudo bem?
— Na medida do possível…
— Porque não me contou que estava tendo problemas com o Aspen?
— Como se você estivesse em condições de saber qualquer coisa — engoli em seco — desculpa.
— Não, quem pede desculpa sou eu por ter sido tão egoísta.
— Seu caso é mais sério, não se preocupe comigo, estamos nos resolvendo.
— Cel…
— Não quero falar sobre isso America, por favor — eu ia insistir, mas depois disso deixei para lá.
Celeste não parecia ter tantas energias também, claramente ela estava sofrendo com isso mas seu escudo não permitia que víssemos, no entanto, agora ela não estava fazendo questão de esconder nada, e eu só consegui me sentir pior a vendo tão deprimida.
— O que foi fazer no apartamento dele? — perguntou de cara assim que sentamos no sofá, de frente uma para a outra, dobrando as pernas de um jeito confortável.
— Não fui até lá por querer.
— Difícil acreditar — ela acusou apoiando o cotovelo no encosto e a cabeça na mão.
— Fui correr um pouco, e quando menos esperei, estava na frente do prédio dele — soltei um riso descrente — então me deu vontade de entrar, eu tinha a senha da portaria, não me barraram e acabei encontrando Amberly.
— Ela estava lá?
— Sim, estava — confirmei empurrando minhas cutículas — passei a manhã e a tarde toda com ela — Celeste me ouvia com atenção — ela me contou tudo — dei um riso fraco, engolindo a sensação ruim que lembrar daquela conversa me causa — depois ficamos jogando conversa fora, foi bom.
— Quando você fiz ela contou… você se refere a Daphne? — ouvir o nome dessa garota me embrulha o estômago.
— Dela mesma — me apoiei no encosto também — como foi a relação dela com Maxon, o que Nicholas tem haver com os dois, que no passado ele foi atrás dela para perdoá-la — malditas sejam minhas lágrimas — enfim… como ela foi importante na vida dele.
O clima da nossa conversa era muito confortável, apesar do assunto ser muito incômodo. O apartamento estava sob uma meia luz amarelada, trazendo aconchego, uma brisa fria passava pelas frestas da janela, a cidade silenciosa, com poucos carros vagando nas ruas, e nossas vozes serenas.
Essa saída para correr, com certeza me rendeu muitas coisas, e uma delas, foi a paciência para falar desse assunto, sem surtar tanto, afinal, já surtei demais. Agora, eu estava tratando mais como um desabafo, não como a razão da minha existência, agora está mais como um seja o que Deus quiser.
— Você é mais importante, saiba disso — ri enfada com o que ela disse.
— Sou é? — perguntei sarcástica.
— É sim — disse convicta. — Por mais que seja difícil acreditar, acredite, eu sei…
— Bonita a fé que você tem nele, queria ter também — Maxon a cada dia me decepciona mais — aliás, de onde você a tira? — perguntei irônica.
— Eu conheço aquele idiota com a palma da minha mão — voltei a prestar atenção nas minhas cutículas. É esperançoso ouvir Celeste dizer isso, mas não sei se quero ter esperança, toda hora eu quebro minha cara — ele não está com ela America — voltei minha atenção ao rosto dela.
— Como sabe? — junto da minha pergunta estava a maldita esperança, a desconfiança, a descrença, a felicidade. Estava tudo!
— Sabendo… — suas respostas são sempre assim, ela tem certeza de tudo, sabe tudo, mas não me diz de onde vem sua fonte de certeza.
Estaria ela me escondendo algo?
— Celeste… — eu ia interrogá-la, algo me dizia que ela tinha mais para contar, mas a pergunta que ela fez me cortando, me jogou para fora da órbita.
— Não vai me contar como foi seus pegas com o Aspen?
Eu paralisei, meus olhos se arregalaram, um frio cobriu minha espinha e minha pele perdeu a cor.
— Ele beija bem, não é?
Eu não sabia decifrar se o sorriso de Celeste era de puro sarcasmo, ódio, compaixão ou compreensão. Ela sabia, sabia da verdade e não estava surtando.
— Co-como? — eu estava assustada. Aspen contou será?
— Não foi muito difícil descobrir — ela sorriu de lado — Aspen é péssimo em esconder as coisas, o jeito que ele me olhou e a forma que se comportou desde que vocês chegaram, já deu para entender que alguma coisa tinha acontecido.
Celeste como nunca vi, falava com calma e isso me assustava. Ela sempre foi explosiva, temperamental, ela não podia estar levando isso numa boa. Não é possível.
— Sem falar em você — eu? Eu nos entreguei de alguma forma? — O top do lado avesso, o chupão no pescoço, e o cheiro dele impregnado em você — ela riu sem humor — não deu em outra conclusão.
Deus do céu! Como eu não vi isso?! Eu fui estúpida a esse ponto? Será possível?!
Não sei em que momento eu levei minhas mãos até o pescoço, como se soubesse o local exato que Aspen deixou rastros. Ingênua eu… achei que poderia esconder da minha amiga, mas ela é astuta demais, inteligente demais.
— Cel…
— Não vem com Cel America — comprimi os lábios, meus olhos encharcados outra vez — eu entendo — franzi o cenho — ele é um amor de pessoa, compreensivo, divertido, gostoso, tem um pau mágico…
— Nós não transamos — a interrompi — se é isso que está pensando, não passou de beijos que de verdade, juro de pés juntos, não significou nada para nenhum dos dois.
— Eu sei — ela sorriu. Aquilo me assustou. — Você estava em um momento frágil e ele serviu de consolo, assim como deve ter sido para ele também — estava tudo tão claro na mente dela, e tão bagunçado na minha.
Eu vinha planejando o maior discurso para tentar justificar o meu lado, e ela na maior simplicidade quebra todos os meus argumentos. Eu esperava me ajoelhar por perdão, mas… mas, ela estava… estava bem com isso? Como? Não entra na minha cabeça.
— Não fique tão surpresa — eu tentava encontrar a pegadinha, afinal, Celeste é cheia de surpresas, mas não… não havia — não estou brava com você, claro que me conforta muito saber que vocês não passaram dos beijos.
— Não está brava? — perguntei confusa, como se até quisesse que ela estivesse para parecer normal.
— Não — sorriu outra vez — claro que quando percebi, fiquei um pouco em choque, mas eu confio em você… você é minha amiga e entendo o momento que está passando… como tudo é incerto, com poucas certeza e muita bagunça. Meus pais me fazem passar por isso — meu coração apertou — sem perceber, eu também busco consolo em outras coisas, mas nada é capaz de substituir a raiz do problema.
Eu estava me sentindo pior. Por mais que Celeste me diga que está tudo bem, sei que não está cem por cento, talvez ela realmente não se importe com o que rolou entre mim e Aspen, mas ela se importa com outras coisas, que a machucam mais que um momento frágil de sua amiga fraca e idiota, a qual, ela sendo maravilhosa como só ela sabe ser, compreende.
— Achei que você fosse me odiar — o alívio que senti me fez desabar, meu rosto agora encharcado. — Achei que nunca me perdoaria.
— Não posso te repreender, já fiz o mesmo com Marlee — cessei o choro e a encarei desacreditada — eu estava mal e Carter, mesmo sendo o Carter, é ótimo entre quatro paredes.
— Marlee sabe? — eu estava pasma.
— Sabe, mas isso aconteceu a muito tempo, ela só gostava dele, não tinham nada, mas foi o suficiente para ela ficar brigada comigo por um mês — fez uma pausa — eu não vou fazer o mesmo com você, sendo que eu entendo suas razões, e aquele maldito do Aspen é uma delícia — ri com o jeito fogoso que ela o descreveu.
— Eu já disse que te amo?
Com a revelação, eu fiquei muito mais tranquila, agora eu tinha certeza que ela me entendia de verdade, e que eu ainda teria sua amizade.
— Só não fica mal acostumada — alertou — se fizer isso de novo, eu acabo com você.
— Não irei, eu juro — com a mão no coração eu jurei nunca perder minha amiga por esse motivo. — Mas agora, eu quero saber de você…
Nos aconchegamos melhor no sofá e lá, eu e Celeste passamos a madrugada conversando, desabafando, rindo, chorando e sentindo uma falta imensa de Marlee para completar nosso trio, mas principalmente para me ajudar com as palavras de consolo quando Celeste, me contou em detalhes a situação dos pais dela e o divórsio, que ocorreu justamente pela traição da mãe.
O pior foi sua mãe deixar um recado por email que ela emancipará Celeste, para que a mesma possa ser independente, que não precise de seus pais indo tomar conta de coisas que só dizem respeito a adultos e responsáveis, ou seja, menos contato com ela, deixando-a à deriva nesse mundo para se virar sozinha, com uma conta em seu nome que contém muitos milhões de dólares, capazes de manter cinco gerações no extremo luxo.
Senti tanta pena, ela está um caco por conta disso, mas a tranquilizei. Mesmo que nosso grupo esteja meio disperso com Maxon desaparecido e ela e Aspen brigados, ainda somos sua família e sempre estaremos com ela.
No domingo fui almoçar em casa por ordens de dona Magda furiosa comigo por, segundo ela, me mudar para a casa de Celeste. Eu estava mentalmente estabilizada, então não tive tantos problemas em disfarçar qualquer desconforto. Meu pai andou analisando minhas ações e sei que ele suspeita, no entanto, me dá o espaço que eu preciso, e é por isso que eu o amo tanto.
Só não posso dizer o mesmo de certa praguinha…
— Me responde uma coisa — pediu May.
— O que? — Estamos no meu quarto, assistindo um documentário aleatório e conversando, esperando a hora de dormir, ou do sono chegar.
— Como você faz para tantos garotos bonitos virem te procurar? — Gargalhei quando vi que para ela, era uma pergunta séria.
— Do que está falando? — questionei trocando o canal.
— Estou falando de um moreno, pele clara, olhos verdes, corpo atletico, voz de anjo proibido, gostoso, acho que já deu para entender que ele é divino, vindo até minha casa, perguntar por America Singer — ri ainda mais.
— Essa é minha casa também, normal perguntarem por mim.
— Porque caras como ele não vem perguntar por mim?
— É só conhecer caras como ele…
— Você me apresentaria para ele? — May se apoiou no cotovelo exasperada me encarando.
— Ele é comprometido — cortei suas asas.
— Então porque ele veio atrás de você?
— Porque sou amiga dele, e ele namora minha melhor amiga, e não enche — dei um tapinha em sua testa — o Aspen não é para você.
— Aspen? — perguntou maliciosa. Eu revirei os olhos — Então esse é o nome dele? Gostei…
— Deus do céu! Você não é comprometida também garota? — era só o que me faltava.
— Enquanto Henri não me perdoa…
— Pode parar! — me recusava saber o que sairia da boca dela se não a interrompesse.
— Você já ficou com ele? — perguntou animada agarrando meu braço. Revirei os olhos outra vez. — Me responde!! — exigiu me chacoalhando.
— Não — respondi, num tom não tão confiante que temi que ela perce…
Tarde demais.
— Mentiroosaa — ela me chacoalhava — hmm… ele beija bem?
— Não te interessa! — não lutei em continuar negando, essa salafária descobre tudo mesmo.
— Aah que inveja! Que inveja — ela lamentou alto — no meu colégio só tem tribufu, apenas o Henri se salva.
— Então se concentra no Henri e deixa meus amigos em paz!
Tentei dar por encerrado o assunto, mas a praguinha ruiva gamou no Aspen. Eu de verdade sinto pena de quem decidir namorar com May, ela definitivamente não é garota de uma cara só.
Depois que May foi para o seu quarto, eu me deitei para dormir, mas fui invadida por lembranças, pela saudade mais uma vez.
Maxon.
Era só nele que minha cabeça pensava, ou melhor, meu coração. Meu pobre coração apertado e iludido. As garantias de Celeste eram outra coisa que me martelavam. Ela garante que Maxon não está com a tal Daphne, que ele me ama, que eu sou a coisa mais importante na vida dele. Mas que ótima maneira de demonstrar, não é?
Respirando fundo para retornar a rotina, eu olho uma ultima vez para a tela do celular. Nada. Nenhum sinal.
Na segunda-feira. Nada. Nenhum sinal. Assim como na terça e na quarta. Os dias estavam se arrastando, meus amigos tentando levantar meu ânimo que decresceu em níveis absurdos. Pesadelos com Maxon eram constantes em todas as noites ou cochilos que eu tentava dar durante o dia, que eu necessitava por passar noites em claro, visto que, até as necessidades básicas do ser humano como comer e dormir, eu não venho desempenhando direito.
Os ensaios das líderes é algo que tem me preocupado, já que dei uma largada na liderança, o que encorajou Elise a manipular as garotas a me substituírem. Para minha sorte, Kriss odiava a asiática tanto quanto eu, então a contrariava e a mandava comer sushi frito. Fora isso, eu estava tentando me manter com boas notas e poucas faltas. Tenho furado aulas com frequência por não ter ânimo para participar.
Todavia, minhas amigas não estão querendo me ajudar a cumprir essa meta, já que irritantemente e insistentemente, elas estão tentando me convencer a faltar os dois próximos dias. Não bastando, minha irmã está envolvida nessa manipulação.
— Anda America, não seja chata — chorou Marlee.
— Eu te dou cobertura com a mamãe — disse May.
— Pequena Singer, eu adoro você — Celeste empurrou May com o cotovelo.
— Ela está de olho no seu namorado, cuidado — alertei entregando minha irmã que corou.
— Garota esperta, o Aspen não é de se desperdiçar mesmo — fiquei boquiaberta por Celeste aprovar isso.
— Não é possível — massageei minha têmpora desacreditada. Eu não tenho uma amiga que preste.
Estamos nós quatro no meu quarto, em pleno fim de tarde de uma chata quarta-feira. Achei que era uma tarde das garotas sem interesse, mas não, havia o interesse de me tirar da minha zona de conforto.
— Tá, depois vocês falam do Aspen — Marlee fez pouco caso, decidida a insistir em outra coisa — Meri, por favor…
— Marlee, e os ensaios? As aulas? — Indaguei.
— Você nem se importa com as aulas, e sobre os ensaios, deixa Kriss comandar por enquanto — argumentou Celeste.
— Kriss? Deixar Kriss liderando? Enlouqueceu? — questionei.
— Quer saber? Não me interessa sua opinião, eu mesma farei suas malas — Marlee se levanta da cama — May, onde ficam os biquínis dela?
— Quarta gaveta! — Fuzilei minha irmã por contribuir com isso tudo.
— Qual é America? — Celeste bufou — são só quatro dias na praia, vai ser ótimo para todas nós. Relaxar, tomar um banho de mar, de sol — ela deu ênfase no sol — você está com a pele de uma morta-viva, pálida como um papel, precisa disso mais que todas nós aqui.
— Mas…
— Não tem mais America Singer! — May levantou a voz — você vai e pronto acabou! Olha só para você! Um zumbi do The Walking Dead, uma mulambenta. Não vou permitir que você fique aqui. Se quer ser uma depressiva, seja uma depressiva na praia, debaixo de um sol escaldante, salgando a florzinha na água do mar, e não existe protestos contra isso, está decidido. Você vai!
— Caralho, eu vou adotar você pra miim!! — Celeste apertou as bochechas de May, a deixando vermelha.
— Vocês são impossíveis! — esbravejei irritada por não ter minha opinião levada em conta.
— Uuuh eu adorei isso aqui em… — Marlee aparece segurando a sua frente conjunto de biquíni lilás — será o primeiro que você usará.
Sem protestos então, começamos a fazer minhas malas. Eu não estava com ânimo para uma viagem, mas não tive muito poder de escolha, e ao que parecia, nós iríamos assim que minhas bagagens estivessem prontas.
Concluí que uns dias na praia não me faria mal, com certeza não. O mar é um revitalizador natural e como todas disseram, eu estou precisando disso.
As três pragas mais amadas da minha vida endoidaram no meu closet, pegando tudo o que eu iria necessitar, meio que eu não precisei me mexer para nada. Celeste foi direto nas minhas lingeries, ela pegou todas que julgava mais sexy. Marlee escolheu os biquínis e alguns vestidos mais românticos, que Celeste fez voar longe, colocando no lugar os mais vulgares que May achou no meio das roupas. Minha irmã nunca se divertiu tanto tendo mais ajuda para me irritar.
A missão mais complicada foi convencer dona Magda a me deixar ir, citando tudo de ruim que poderia acontecer comigo nesses dias, mas como eu tenho o pai mais maravilhoso do mundo, não tivemos mais problemas quando ele a amoleceu.
Parecia que todos já estavam planejando isso a dias, pois Aspen e Carter já estavam na frente da minha casa nos esperando.
Foi um martírio conseguir pegar a estrada, já que minha mãe decidiu dar uma aula a Carter sobre direção defensiva. E eu não podia estar mais constrangida com May, a sem vergonha fingiu tropeçar na calçada para cair nos braços de Aspen, e teve coragem de elogiar os braços fortes dele. Detalhe que nossos pais estavam ali, do nosso lado.
O tempo de viagem marcava uma hora e quarenta e seis minutos, chegaríamos lá perto das dez da noite e eu não podia estar mais ansiosa, apenas tive que abafar o fato que serei a única sem um par, ou seja, estou de vela, apesar de Celeste e Aspen não estarem de bem, mas ainda assim, eles são um casal.
Eu e as meninas fomos no banco de trás infernizando os ouvidos dos meninos, cantando músicas dos mais diversos estilos. Pelo menos tínhamos a garantia de que Carter não dormiria no volante. Depois de um tempo cantando, nos rendemos ao sono quando estávamos quase chegando, e mesmo de olhos fechados, eu já podia sentir a brisa diferente.
— De quem é a casa? — perguntei quando paramos em frente a um enorme portão de madeira escura.
— Dos meus pais — Cárter respondeu pegando um controle no porta luvas, que arrastou para o lado aquela imponente madeira, que já nos dava um vislumbre do luxo que tinha atrás dela.
E ual… apesar de ser noite e tudo estar apagado, notava-se o quão incrível era aquele lugar. Estamos nos fundos, visto que a fachada principal da casa ficava de frente para o mar, e eu estava animada para ver.
— Aah que bom que chegamos — Celeste se espreguiçou assim que desceu do carro.
Eu estava agradecendo também, apesar da viagem ter sido rápida, fiquei toda travada. Mas agora, tudo prometia ser ótimo. Eu podia escutar o mar quebrando as ondas, e até vê-lo através dos enormes vidros da casa. Já estava respirando mais leve, me sentindo mais leve.
— Vamos entrar Meri — Marlee chamou animada.
Os meninos fizeram o favor de pegar nossas malas primeiro, para depois entrarmos juntos naquela deslumbrante casa, que foi revelando seu luxuoso interior conforme Carter foi acendendo as luzes na nossa frente. Um estilo praiano moderno e bem projetado.
— Lá em cima ficam os quartos — Carter apontou para a escada — ali para trás a cozinha…
Ele explicava, principalmente para mim, que nunca havia estado ali, mas eu parei de ouvir admirando a vista que a casa tinha do mar. Depois da área da piscina, tem um enorme gramado que chega até o portão da frente dando acesso a praia, cocei meus pés para não correr até lá.
Na verdade, estava quase para tirar os sapatos, pronta para pisar naquela grama e logo depois na areia, mas me encolhi, paralisei com estrondoso arrepio que percorreu em todos os cantos do meu corpo assim que…
Eu o ouvi…
— Oi…
Era ele. Sim! Sim! Sim! Era ele.
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