Fomaríamos um Maravilhoso Nós
2 E então, partiu Angeles?
Notas iniciais
Estava em uma balada dançando livremente, me sentindo feliz, cheia de energia, ao som de uma melodia animada que instiga você a movimentar seu corpo no seu ritmo. De repente, uma bela dose de tequila paira em minha mão direita, bebo em um gole sem pensar duas vezes e jogo o copo em sei lá onde. Espero não ter acertado ninguém. Até que sinto alguém atrás de mim, e admito, gosto da sensação. Era alguém forte e isso estava me deixando empolgada, quando me viro para ver quem é me deparo com.
O ursinho Pooh!?
— America acorda! — estava confusa. O que… mais que merda ta acontecendo? — Francamente América, nem com essa droga de despertador no último volume tocando uma música promíscua você acorda! — entendi… estava sonhando e agora minha majestosa mãe está me acordando — Anda logo, saímos em duas horas!
— Mãe… eu estava tendo um sonho interessantíssimo com o ursinho Pooh, como se atreve a interromper? — disse em um tom de indignação ao tempo que sentava na cama com um sorriso brincalhão no rosto. Minha mãe é ótima, mas passa boa parte do tempo irritada pelas coisas não saírem do jeito que ela quer. Ela é meio autoritária.
— É sério que você estava sonhando que estava se pegando com o ursinho Pooh!? — May entra no quarto aos berros gargalhando tirando suas próprias conclusões pelo que contei — Eae, ele beija bem? — pergunta rindo ainda mais. Minha mãe estava sem reação, o que me fez rir junto.
— Não consegui beijar, meio que a forma do rosto dele era complicada. — May soltou a mais genuína gargalhada.
— AMERICA! Que absurdo, por onde anda sua mente tendo sonhos assim com um personagem de animação infantil? — Não aguentei, eu e May disparamos em gargalhadas. Minha mãe estava possessa. Ela geralmente sabe brincar, mas hoje está irritada demais para isso. Logo cedo. Aff socorro.
— É brincadeira mãe, não leve tão a sério — decidi parar por aqui, não precisava de uma Magda mais estressada logo cedo — vou tomar um banho e logo desço para o café.
— Sem café. Tome seu banho logo e vai ajudar a carregar as malas no carro, você também May — reviramos os olhos — e não temos todo o tempo do mundo. Agiliza! — disse minha mãe em um tom acelerado estalando os dedos da mão demonstrando sua pressa.
— Ok, ok! Estamos indo.
Tomei um banho rápido, afinal tinha consciência que duas horas era pouquíssimo tempo para terminar de ajeitar as coisas e chegar a tempo no aeroporto para pegar o avião, ainda mais carregado de centenas de malas.
— Bom dia pai!
— Bom dia gatinha! Ansiosa para a viagem? — meu pai é a representação da calma e simpatia em pessoa. É muito difícil vê-lo irritado. Acho que ele sabe que tudo precisa de um equilíbrio para funcionar. Enquanto minha mãe é uma tempestade meu pai é um arco-íris.
— Mamãe não está me dando tempo de sentir nada. Me acordou dando ordens, no estilo “Magda irritada” que você conhece bem. — disse enquanto colocava a última mala no carro, noto que Gerad já estava lá dormindo tranquilamente no assento de trás. Meu pai solta uma risada se divertindo, ele sabe do que estou falando.
— Dê um desconto a ela, está nervosa com a mudança — meu pai passa seu braço sobre meu ombro enquanto caminhávamos para entrar em casa.
Assenti com a cabeça dando um sorriso de lado. Todos estávamos nervosos e ansiosos, demonstrando a sua maneira. No caso da minha mãe, é gritando e descontando em nós. Meu pai apenas respira fundo. Eu e May não temos muita escolha. Kenna e Kota já moram por lá a mais de um ano. Então eles não precisam lidar com toda essa euforia. O Gerad… é o Gerad. As vezes sinto inveja, sendo o mais novo, ele é o mais mimado, então ele não se preocupa com nada.
— É brincadeira em! — minha mãe aparece na porta de casa com os braços cruzados mega irritada — cheio de coisas para fazer e organizar e as lindezas caminhando tranquilamente pelo jardim. Que beleza.
— Magda querida, já está tudo pronto — meu pai disse à minha mãe com a maior calma que um ser humano é capaz de ter.
— Tudo pronto!? E as malas? Pretendem ficar sem roupas quando chegarmos lá? — questionou minha mãe, mais irritada ainda, como se somente ela soubesse das coisas.
— Já estão no carro amor.
— É mesmo? E os documentos? Querem chegar no aeroporto e ter que voltar para casa chupando o dedo por ter esquecido?
— Querida, já revisei de todos nós e estão dentro da sua bolsa, que está no banco da frente já à sua espera. — e mais uma vez meu pai responde com a maior calma do mundo. Eu já estava perdendo a paciência.
— E o cachorro? Já deram comida e água? Ou pretendem deixá-lo morrer de fome? — arqueei minhas sobrancelhas ao passo que meu pai não consegue esconder a risada.
— Querida, nós nem temos um cachorro — responde meu pai rindo levemente da situação. Eu já estava querendo levar minha mãe para um psicólogo. De onde ela tirou isso!?
Ela cora se sentindo constrangida e voltando à realidade, apenas concorda com a cabeça e entra em casa. Meu pai e eu a seguimos. Era hora de dar adeus aquele lar, que não era apenas onde eu morava, mas também, era onde eu vivi a maioria das minhas mais felizes lembranças. Uma lágrima teimosa caí dos meus olhos, não consegui evitar. Minha mãe não fez questão de tentar evitar as suas, chorava calmamente, mas com uma postura de mulher digna. Meu pai a abraça confortando-a com um beijo. Sorrio com a cena. Então trancamos a casa e vamos para o carro, Gerad seguia ali dormindo pleno. Partiu Angeles.
Assim que entramos no carro meu pai dá a partida e viramos a primeira quadra, até que dei falta de uma coisa… Arregalei os olhos.
— ESPERA! Cadê a May!? — meu pai freia o carro bruscamente. Em seguida ele e minha mãe olham para trás para conferir se ela realmente não estava lá. Mas só encontraram eu com uma face de assustada e um Gerad ainda em seu sono profundo.
— EU NÃO FALEI!? Eu não falei que estávamos esquecendo alguma coisa!? — minha mãe gritava desesperada enquanto meu pai tentava acalmá-la. Eu ia gritar com eles para calarem a boca e voltar logo para casa buscá-la. A coitadinha devia estar desesperada.
— CALEM A BO…
Eu ia mandá-los calar a boca, mas aí uma May muito plena e despreocupada abre a porta do carro, adentrando com uma sacola em mãos que exalava um cheiro delicioso. Todos olhamos chocados para ela com a boca aberta.
— Ai… que bom que vocês vieram me buscar até aqui, estava morrendo de preguiça de voltar andando até em casa — ela tinha ido à padaria! — Toma Ames — ela me entregou uma embalagem — peguei uma torta de morango para você. Eae? Partiu Angeles então!? — pergunta ela empolgada.
Nesse momento todos nós recobramos a sanidade. Meu pai apenas dá um sorriso fechado e se vira segurando novamente o volante. Apenas com o olhar eu e meus pais decidimos deixar para lá o que aconteceu. Não queríamos dizer para a May que havíamos esquecido dela.
— Hm! Comida! — Gerad desperta do seu belíssimo sono só com o cheiro.
— É isso aí — disse meu pai soltando um suspiro de alívio — partiu Angeles!
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