Fomaríamos um Maravilhoso Nós
19 Drama pós drama
O que fazer quando você sabe que está tendo um pesadelo horrível e sua salvação é acordar, mas você não consegue acordar e o pânico te consome?
Estou correndo, mas não rápido o suficiente. É como se a gravidade me puxasse, tornando minhas pernas pesadas demais para levantar, impedindo-me de ir mais rápido. As lágrimas se misturam com meu suor enquanto luto com todas as forças para avançar, tentando desesperadamente fugir do mal que me persegue sem esforço. Ele estava me alcançando e o pânico me domina, uma sombra indistinta e terrível. Não consigo decifrar a forma do meu perseguidor; era apenas uma presença assustadora, uma ameaça amorfa que gelava meu sangue. Tudo piorou quando tentei gritar e descobri que estava sem voz. Apenas soluços angustiados e lágrimas salgadas escapavam de mim, amplificando meu desespero e terror.
— Ames! — Sento assustada na cama. — Meu Deus Ames, está tudo bem? — May estava sentada na beirada da minha cama. Me olhava preocupada.
— Eu tive um pesadelo. — Estava com dificuldade para controlar minha respiração.
— Percebi, quando vim te acordar você gemia e se contorcia na cama. Achei até que estava sendo exorcizada. — May se abraça ao se arrepiar pelo que disse.
— Que horror May. — A repreendo angustiada por sua descrição do meu estado. — Que nojo, estou toda suada, vou tomar um banho.
— Então se apresse… você está atrasada.
— Que horas são?
— Digamos que você tem apenas trinta minutos antes da sua aula começar.
Arregalo os olhos. Leve quinze só para chegar lá. Me levanto e vou direto para o banheiro, tomo o banho mais rápido da minha vida e vou me vestir. Pego um vestido azul claro, um tênis e minha bolsa. Nem tomo café, apenas vou para meu carro e dirijo até o colégio. O trânsito definitivamente não colaborou, já estava dez minutos atrasada.
— Senhorita Singer, da próxima você não entra. — Já vi que não era apenas eu que acordei com o pé esquerdo. Geralmente a professora de geografia é bem humorada.
— Desculpe Sr. Williams, não vai se repetir. — Entro correndo e para meu desagrado, Marlee não seguiu nossa troca de lugares. Teria que ficar na frente do Maxon.
Evitei olhar para sua cara. Mas para minha surpresa, ele evitou a minha também. Meu celular começa a vibrar escandalosamente na minha bolsa.
Mensagem on
Lee: Oi
Lee: Oi
Cel: Oi
Cel: Oi
Lee: Tudo bem Meri? Chegou atrasada e sua cara está péssima.
Cel: Verdade… sua cara está achatada. O que houve?
Meri: Não se preocupem, dormi demais e acordei atrasada. O que deu com a prof?
Cel: Fiquei sabendo que ela terminou com o boy. Então se prepara, a mal comida vai infernizar nossas sextas.
Sem querer solto uma risada baixa, me arrependendo amargamente.
Mensagem off
— Por acaso o pipipi no celular está mais interessante que a aula, senhoritas? — Quando levanto a cabeça a professora estava na nossa frente, encarando uma a uma.
— Perdão… — começo a dizer, mas ela me para levantando a mão.
— Se isso continuar… — uma ameaça direcionada a nós três se inicia — é detenção para as três. Ouviram!? — Apenas concordamos com a cabeça. Eu guardo meu celular na bolsa e pretendo deixá-lo lá.
Troco um olhar com Celeste e ela pisca para mim confirmando o que disse. Segurei o sorriso. O que eu menos preciso é uma professora sofrendo abstinencia de sexo no meu pé.
Foi uma aula exaustiva, minha mão está doendo de tanto escrever. As duas próximas antes do intervalo passaram rápido por sorte. Não estava com cabeça para prestar atenção. Acordar de um pesadelo e sair correndo fazendo tudo rápido me deixou desorientada. Mas preciso estar atenta para a escolha das novas meninas na equipe.
Agora no intervalo eu e as garotas estamos discutindo nosso novo uniforme. Logo os treinos começam e precisa estar tudo pronto.
— Como pode ser tão difícil escolher uma cor? — Carter leva as mãos à cabeça quase surtando pela discussão de Marlee e Celeste.
— Você acha que essa é uma decisão fácil? —Marlee pergunta a ele em tom desafiador.
— É só a cor de um uniforme… e vocês só tem três opções, como isso pode ser difícil? — Acho que ele não devia desafiar a paciência da minha amiga.
— Eu acho que poderíamos manter a cor do ano passado. Eu achei lindo. — Falei evitando mais uma possível discussão desnecessária.
— Claro que não! — Celeste esbraveja — Já fazem três anos que o azul predomina. Eu acho que dessa vez tem que ser vermelho.
— Mas e o branco? O branco é tão bonito! — A realidade é que Marlee não sabia o que queria. Ela que disse para ser vermelho. Celeste amou a ideia, mas depois ela lembrou do branco e está na dúvida.
— Quer saber, não quero mais discutir com sua bipolaridade Marlee. — Celeste começa a perder sua curta paciência — Vocês vão a festa né?
Todos dizem sim e começam a falar dos detalhes sobre ela. Por alguns segundos olho para Maxon que estava na outra extremidade da mesa. Ele não parecia nada bem. Suas olheiras estavam escuras e as poucas palavras que ele soltou saíram num tom cansado. Me pergunto qual o motivo dele estar assim. Seria eu? Seria Kriss? Seria seu pai? Não deixo de me preocupar, nunca o vi tão pra baixo como está hoje.
— Cel — chamo Celeste baixinho pelo seu ouvido.
— O que é? — Ela responde no mesmo tom, notando que se trata de algo apenas entre nós.
— O que o Maxon tem? — Digo o mais baixo possível. Sei que o barulho do refeitório não permitiria que todos na mesa escutassem, mas não queria arriscar que ele me visse preocupada com ele.
— O que!? — Ela não tinha entendido, falei baixo demais. Repito a pergunta um pouco de nada mais alto — Ah! — Enfim Celeste entende e olha para ele. Acho que ela nem tinha notado seu estado. — Não faço ideia — dá de ombros.
— Pergunta se está tudo bem… — peço discretamente. Claro que não faltaria sorrisinhos insinuadores da parte dela.
— Maxon! — Ela praticamente grita, fazendo-o até se assustar ao ser chamado — America está preocupada com você e pediu para que eu perguntasse se está tudo bem… — ela solta sem se importar.
Eu quero esganá-la, pegar seu pescoço fino e apertar entre meus dedos até ficar roxo e não passar mais ar. Belisco o braço dela sem pena. Ela protesta de dor mas não me importo. Ela sabia que não era para ter feito isso.
— Não é problema dela. — Ele diz de forma rude, se levanta bruscamente e sai do refeitório.
Fico boquiaberta, não esperava por essa. E pelo visto nenhum dos meus amigos também não. Pois a cara de todos era um misto de surpresa e espanto.
— Que bicho mordeu ele? — Marlee se pronuncia depois que ele some de nossas vistas.
Ninguém soube responder. Eu não sabia nem o que pensar. Isso foi ridículo da parte dele. Depois de tudo o que ele me fez, ainda tem coragem de falar daquela forma comigo, mesmo que indiretamente? Me sinto ainda mais magoada e angustiada. Seguro as lágrimas que ameaçaram cair. Não iria chorar pela arrogância dele.
O sinal tocou, nossas duas últimas aulas eram educação física. O que é um alívio para todos. Terminar a sexta se “divertindo” é bom demais. O colégio por sorte nos disponibiliza roupas “apropriadas”. Digo entre aspas pois short curto é ousado demais para uma aula. Decido por a calça legging e a regata que estavam no armário. Poderia dizer que era a única de calça se não fosse por Marlee e Celeste me acompanharem. Ao chegar na quadra não vejo Maxon por lá e nem a maioria dos meninos. Sigo procurando com o olhar mas não os vejo.
— Eles estão fazendo o teste para os novos integrantes do time. — Marlee ao notar meu olhar observador tira minha dúvida.
— Para quem não quer saber nada dele, até que está muito preocupada não acha? — Queria poder negar o comentário de Celeste. Não sei porque fico me incomodando e me interessando tanto por ele.
— Viram como eu sou uma idiota? — Bufo para elas enquanto nos alongamos. — Apesar de tudo, me importo com aquele imbecil.
— Meri, você não sabe como está equivocada em relação a esse assunto. — Olho para Marlee incrédula.
— Como assim estou equivocada? — Pergunto indignada enquanto puxo minha mão para alongar meu pulso. — Vocês acham pouco ele me encher de palavras bonitas para logo fazer o mesmo com outra?
— Você nem deixou ele se explicar… — Diz Celeste puxando sua perna para trás e tentando manter o equilíbrio.
— Se explicar pra que? — Não deixo ela terminar de falar. — E por um acaso aquilo tem explicação?
— America o Maxon…
— Vamos! Vamos — o professor aparece na nossa frente batendo palmas — Montar um time, vocês duas. — Aponta para mim e Marlee.
No fim jogamos uma partida de vôlei. Meu time contra o de Marlee. Acabou sendo um jogo mega sem graça. Eu estava pensativa sobre o assunto, não me concentrando em nada e errando a maioria das minhas investidas na bola. Meu time não ficou muito feliz, mas que se dane. Logo o sinal toca, em um dia normal a aula continuaria, mas temos o teste para as novas meninas ao grupo de líderes.
— Vamos? — Chamo Celeste e Marlee. Elas vão me ajudar a avaliar as meninas.
Fomos correndo para o vestiário colocar nosso uniforme. Lá estava cheio de meninas se vestindo para o teste, tentei passar despercebida e deu certo. Logo estava no ginásio que já tinha tudo organizado. Pego a lista interminável de meninas na minha frente. Noto que as que estavam realçadas em verde eram as que já compunham o grupo, meus olhos pairam sobre o nome de Kriss. Todas as meninas que participaram no ano passado tem o direito de permanecer. Só espero não ter problemas.
As garotas começaram a entrar no ginásio e a se sentar nas arquibancadas. Notei que metade das que fizeram a inscrição não apareceram, isso deixou eu e as meninas aliviadas. Só tinha apenas sete vagas, e assistir mais de trinta meninas dançando e escolher apenas sete entre todas seria exaustivo.
Muitas foram descartadas logo de início, dava para notar que a intenção era apenas conseguir mais chances em uma universidade. Acabou não sendo difícil selecionar as melhores.
— Meninas — começo a dizer — parabéns a todas pelo desempenho. Como já sabem, temos apenas sete vagas e apenas sete entre vocês vai entrar para o grupo. Deixaremos segunda-feira uma lista impressa no mural com o nome das novas integrantes. Estão dispensadas. Obrigada. — Eu estou exausta. Só quero ir para casa e dormir.
— Estão todas convidadas para a festa na minha casa hoje a partir das oito. — Celeste anuncia seu convite jogando uma piscadela. As meninas agradecem super felizes pelo convite e garantem aparecer.
— O que acham de darmos uma olhada nos meninos? Eles ainda estão no campo. — Marlee sugere e como não tínhamos nada melhor, fomos.
Antes trocamos nossas roupas e entregamos a uma garota os papeis com as meninas que decidimos aceitar no grupo. Ela ficaria responsável de passar a limpo, imprimir e colar no mural. Feito isso nos direcionamos para o campo. Ao chegarmos lá, eu quase tive a certeza de ter errado o caminho do campo e ter ido parar direto no paraíso.
— Ai papaizinho! — Celeste exclama com os olhos brilhando.
— Posso considerar hoje um dia de sorte? — Marlee fala mordendo o lábio.
— Acho que preciso torcer minha calcinha. — Elas me olham e começamos a rir.
Quando chegamos no campo nos deparamos com os garotos jogando futebol americano sem camisa. Nunca tinha reparado como tem tantos meninos bonitos e atléticos no colégio. Aos meus olhos, o que mais chama a atenção é o Maxon. Ele sem dúvidas é o mais gostoso de todos, mas claramente não era apenas eu que achava isso, pois não éramos as únicas que haviam decido assistir ao teste. A arquibancada estava cheia de meninas babando assim como nós.
Ao nos sentarmos escutei várias lambisgoias dizendo como o Maxon é um gato e gostoso. Aquilo me enfurece de uma forma que não tenho controle. Principalmente quando uma delas grita torcendo por ele.
— Essa idiota não percebe que é apenas um teste? Maxon nem está jogando pra valer… porque ficar gritando o nome dele? — Digo enraivecida.
— Parece que alguém está com ciúmes… — Celeste cantarola no meu ouvido.
— Não estou com ciúmes! — Rebato prontamente. — Porque ela não torce por um dos garotos que está tentando a chance? Maxon é o capitão, é o que menos precisa de torcida no momento.
— Seu ciúme late que nem cachorro abandonado. — Olho indignada para Marlee. Ela e Celeste dão risada como se não houvesse amanhã.
— Vocês são péssimas amigas. — Elas riem mais, acabo me entregando a graça também.
— Vai Maxoon! Lindoo! — A sem noção grita me fazendo parar de rir. Mas a graça some de vez quando pego Maxon sorrindo para a garota e dando uma piscadela para ela. Escuto a iludida atrás de mim suspirar e ficar de risinho com as amigas.
— Eu vou embora! — Me levanto, não iria aguentar essa palhaçada. Ele não passa de um infeliz.
— America, qual é? — Celeste tenta me convencer. Mas aquilo não é para mim, não vou ficar vendo ele flertar com qualquer uma na minha cara, só mostrando o quão babaca ele é.
— Eu tenho que ir de qualquer forma. — Me despeço delas e dou uma última olhada para ele, ao mesmo tempo que ele para mim. Sinto um frio na barriga com nossa troca de olhares, que mesmo distante é muito profunda.
— Oi! — Nicholas aparece na minha frente cortando nosso momento.
— Você gosta de aparecer do nada, né? — Brinco com ele, todas as vezes que Nicholas vem falar comigo eu não estou esperando a vinda dele.
— Gosto de fazer surpresas. — Ele tem uma expressão divertida, estava meio ofegante, acho que correu. — Vai estar na festa hoje?
— Se eu não for, a Celeste contrata uma equipe para me sequestrar onde eu estiver para me levar a essa festa. — Falo sentindo um pouco de preocupação em pensar que minha amiga realmente seria capaz disso.
— Não duvido que ela seria capaz. Celeste é meio doida. — Damos risada.
— Realmente ela não bate muito bem de vez em quando. — Celeste é muito impulsiva e faz o que for preciso para conseguir o que quer. Admiro isso nela.
— Bom eu tenho que voltar para o jogo. — Ele aponta para o campo, sem querer eu acabo olhando e vejo um Maxon carrancudo conversando com um garoto e olhando na minha direção sempre que podia. — America?
— Ãn? Ah, oi… — Nem percebi que estava a tempo demais encarando Maxon e adorando ver ele puto por eu estar conversando com Nicholas.
— Tenho que ir — ele ri, não sei porque — estou ansioso para te ver na festa. — Agora seu riso tem um leve toque de malícia, e eu me aproveitaria disso.
— Eu também estou ansiosa para te ver. — Tento aparentar a garota tímida que recebeu um elogio de um gato, lhe dou um beijo no rosto seguido de um abraço. Ele logo envolve minha cintura e dá um beijo no meu pescoço. Eita.
Se eu gostei? A resposta é sim, Nicholas me agrada. Ele é lindo, charmoso, forte e Maxon o odeia. Isso são motivos suficientes para me sentir minimamente atraída por ele. Ninguém mandou Maxon me pedir distância dele, agora essa é minha principal arma contra ele e não terei medo de usar se for para fazê-lo se arrepender de ter feito o que fez.
— Interrompo? — Me assusto ao abrir os olhos e o ver ali, na minha frente, enquanto estou abraçada a tempo demais com Nicholas. — Posso falar com você? — Maxon está tão sério que até me dá medo.
— Tchau Nicholas. — Ele não olha para o Maxon, simplesmente o ignora e vai embora depois de me dar um beijo no rosto.
— O que pensa que está fazendo? — Ele segura meu braço me puxando para trás de uma moita.
— Como assim o que penso que estou fazendo? — Rebato meio assustada mas o deboche presente.
— Eu falei pra ficar longe dele, e na primeira oportunidade já está agarrando aquele imbecil! — Uma raiva sem tamanho cresce dentro de mim.
— Quem você pensa que é!? — Falo alterada — Você não é ninguém para dizer a quem posso me aproximar ou não — aponto o dedo na cara dele, eu estou furiosa e vejo que pela sua expressão também está — E quer saber mais? — O olho de cima a baixo —Você é um hipócrita! — Grito.
— Não precisa gritar, eu estou ouvindo muito bem. — Eu não conhecia esse lado dele, onde ele fala e se expressa com raiva.
— Você é um hipócrita! — Minha voz falha e meus olhos lacrimejam — Tivemos uma noite mágica e você simplesmente não se importou, nunca me senti tão humilhada e pouca coisa na vida. — Seu semblante muda de enfurecido para tenso. Sinto lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Como as odeio. — Eu quero que você vá a merda, junto com aquela filha da puta.
— America… — ele segura meu rosto entre suas mãos. Seu olhar triste assim como o meu tentam me dizer algo mas me nego a cair nessa de novo. — Meu Deus, você tem que confiar em mim, eu já disse…
— Cala, cala a boca! — Me solto dele e levo as mãos a cabeça a chacoalhando por estar atordoada com isso tudo. Ele fica com as mãos estendidas me olhando triste, parecia perdido. Sem saber o que fazer — Só fica longe de mim, tá legal. — Digo já sem forças. Estou cansada desse assunto.
Me viro para ir mas não dou nem dois passos, ele agarra meu braço com uma mão e a outra leva a minha nuca me puxando para um beijo desesperado. Sinto minha pele se derreter com a pegada forte dele. Um alívio imediato percorrer dentro de mim por estar matando a saudade que nem sabia que sentia daquela boca. Mas não, isso não é certo.
Me afasto mesmo relutante e dou um tapa na cara dele. Maxon fica com o rosto virado por alguns segundos, parecendo processar o que tinha acontecido.
— Eu disse para ficar longe. — Eu queria que minha voz saísse firme, mas fracassei, saiu toda embargada.
Ele não olhou nos meus olhos, continuou com o rosto virado e eu saí dali correndo. Fui direto para o meu carro. Me sentei no banco e me agarrei ao volante. Meu choro saía com soluços. Soluços desesperados. Nunca imaginei que seria possível gostar tanto assim de alguém, e muito menos que seria possível sofrer dessa forma.
Já eram um pouco mais que três da tarde quando cheguei destruída, e sinceramente não fiz questão de parecer normal, agradeci mentalmente por ninguém cruzar meu caminho. Fui direto para o único lugar que poderia me trazer paz naquela casa. A biblioteca.
Me sento na banqueta e meus dedos automaticamente começam a tocar uma melodia triste no belo piano. A música expressava tudo o que eu sentia. Derrota, desilusão, tristeza e o que mais fosse relacionado. Eu precisava colocar tudo isso para fora de alguma forma. Ao teclar a última nota, respiro fundo me sentindo aliviada.
— Isso foi muito expressivo e… triste. — Meu pai estava encostado no batente da porta. Ao olhar para ele, seu sorriso leve se desfez e a preocupação tomou conta da sua expressão.
Eu devia estar horrível. Olhos inchados, cara avermelhada e manchas de lágrimas pelo meu rosto e minha roupa.
— O que houve gatinha? — Ele vem me abraçar e logo me levanto para ir ao encontro dele. Apenas consigo chorar e agradecer por estar nos braços do meu pai. — Me conta meu amor.
— Ah pai… — o aperto mais e ele faz o mesmo. Será que eu conseguiria dizer? Eu posso confiar no meu pai. Sei que posso, mas eu conseguiria?
— Pode desabafar com seu velho, você sabe disso. — Um sorriso fraco escapa pela sua tentativa de piada.
— É o Maxon… — meu pai afaga meu cabelo.
— Querida, eu sei que deve estar sentindo falta dele…
— Ele já apareceu pai. — Digo como se não fosse nada. Ele me segura pelos ombros e olha nos meus olhos confuso. — Ele estuda comigo. — Dou um sorriso amarelo como um pedindo desculpa por não ter falado antes.
— Não vou perguntar porque não me disse antes, pois você deve ter suas razões. — Eu amo o meu pai. — Mas agora me diga o que ele fez para deixar minha princesa assim. — Como não ser uma garota mimada desse jeito?
Admito que só de sentir a preocupação do meu pai e seu carinho, já me sinto melhor, me sinto protegida. Não quero contar todos os detalhes para ele, é humilhante e fico preocupada dele querer tomar atitudes severas.
— Digamos que ele não é bem quem eu pensava… — dou um sorriso de lado dando aquela resumida em todo o assunto.
— Entendo… — sei que ele entendeu que o Maxon me magoou e que não quero contar detalhes. — Eu gostei muito dele quando o conheci. Tem certeza de que ele é um babaca?
Era só o que me faltava meu pai também estar apaixonado por ele.
— Está duvidando de mim? — Cruzo os braços fingindo estar indignada.
— Não! Claro que não gatinha. É só que não costumo me enganar com as pessoas. — E isso era verdade. Papai sempre foi muito bom em enxergar além do que se vê.
— Acho que tudo tem uma primeira vez. — Dou de ombros.
— Não sei… — ele sorri. — Já conversou com ele?
— Eu não quero falar com ele. — Isso é algo que meu pai não concorda. Ele é uma pessoa muito pacífica, e sempre nos diz que devemos dialogar para resolver nossos problemas.
— Às vezes você é cabeça dura como sua mãe. — Ele dá leves batidinhas na minha testa. — Não sei o que ele fez, e se você não quiser contar eu não irei insistir, mas não deixe que pensamentos equivocados te guiem, pois por experiência própria — ele me olha profundamente — você pode ser levada para um mal caminho. Sempre deixe tudo claro.
Apenas assenti. Não sei bem o que pensar. Eu estou tão convicta do que sei, mas todos dizem que estou errada. Será mesmo?
— Não precisa pensar nisso agora filha — papai me abraça e beija minha cabeça — tudo com o seu tempo. — Dei um sorriso fraco — Tenho que ir pro trabalho. Curta a festa hoje a noite e seja responsável.
— Pode deixar pai… — aceno e ele sai pela porta.
Não acho que ele vá, mas estou torcendo para ele não contar para minha mãe. Se ele contar já posso dizer adeus ao meu sossego. Ela vai me metralhar com perguntas e conselhos descabidos.
[...]
— Ulalá… — reviro os olhos. Eu amo a May mas ela adora testar minha paciência. — Aonde a senhorita vai toda gatona? — ela se joga na minha cama ficando com os pés no ar e o rosto apoiado nas mãos.
Eu estou me arrumando para a festa na casa de Celeste. Decidi que quero causar, então escolhi uma mini saia preta com um tecido maravilhoso que tem uns brilhos discretos. Um body de renda preto com um generoso decote, valorizando horrores meus seios. E uma sandália com salto.
Como a May disse, estou gatona.
— Uma festa. — Respondo como quem não quer nada.
— Que festa? Porque não fui convidada? — Olho para ela pelo espelho.
— Talvez porque você tem catorze anos e é uma festa de adolescentes. — Falo como se fosse a coisa mais óbvia.
— Isso é preconceito, sou mais orientada e juizada que você. — Eu gostaria tanto de poder negar isso. — Falando de juízo… preciso te falar uma coisa. — Paro de passar meu rímel e foco minha atenção nela.
— Agora eu fiquei curiosa.
— Então… — ela entrelaça os dedos ainda deitada de barriga pra baixo na minha cama. — eu estou meio que namorando… — arqueio as sobrancelhas.
— Até que demorou… — começo a rir da cara que May fez.
— Falou a que tem dezessete e não desencalha nem com guindaste. — Mostro a língua e continuo a aplicar o rímel.
— Quem é a vítima da vez?
— O Henrique… lembra dele? — O garoto que May estava paquerando na sessão infantil da papelaria, como esquecer.
— Lembro sim! Ele é um gatinho — digo enquanto me sento para por o salto.
— É mesmo… — seus olhos brilham, ela parece mesmo apaixonada — preciso te perguntar uma coisa — May parecia nervosa e isso tornou o assunto mais serio para mim. — Como é? — Arregalo os olhos entendendo o que ela quer dizer, mas não querendo acreditar que essa era a pergunta.
— Como é o que? — Ela não está me perguntando o que acho que está perguntando. Né?
— Você sabe… — May fica vermelha, o que é uma raridade.
— Não sei não! — Me recuso a falar sobre isso com uma criança.
— Minha nossa America Singer! — Ela esbraveja já irritada — Transar! Como é fazer isso?
Agora quem fica vermelha sou eu. É serio que minha irmã está me perguntando sobre sexo?
— May! Olha o que está me perguntando… por Deus! Se mamãe escuta… — nós duas arrepiamos na hora que pensamos nela.
— Eu preciso saber para quando eu for ter minha primeira vez America — ela se senta na cama com as pernas cruzadas — E você é a única que pode me ajudar nesse assunto, a não ser que… — ela pensa um pouco — você nunca tenha feito sexo antes.
— Meu Deus eu não acredito que você tá falando disso comigo! — Ando mancando pra lá e pra cá pois só tinha calçado um par dos saltos.
— Você nunca fez isso!? — Ela me pergunta indignada como se eu já devesse ter dado para o país inteiro — Minha nossa America, você tem dezessete anos e ainda é virgem? Não é possível. E todos esses garotos que você saí? E quando você dormiu na casa do Maxon?
— Shiiiu! Cala essa boca! — Ela passou dos limites — E daí se eu não fiz isso ainda? É super normal tá legal?
— Ta se guardando pro casamento senhora puritana? — A infelizinha começa a rir. A vida de May se baseia em garotos e tirar sarro da minha cara.
Como eu consigo amar tanto ela? Não sei!
— Esperando o garoto certo. — Respondo com orgulho.
— Se Maxon não é o garoto certo eu não sei quem é. — Ela volta a se deitar, mas de barriga para cima mirando o teto. — Eu quero esperar você se pegar com um para me contar como é, então acho bom você transar logo, eu to com pressa.
— Não é possível! — Massageio minha têmpora — Eu não estou ouvindo isso meu Deus. Eu não to!
— Não é o fim do mundo Ames, é algo normal do ser humano… — ela fala toda despreocupada.
— É normal para humanos com mais de dezesseis anos, no mínimo! — Quase grito. Eu sei que a May é avançada demais para a idade dela. Mas isso é demais.
— Você é uma ultrapassada então. Eu é que vou acabar explicando para você como funciona o negócio… — eu não poderia estar mais constrangida.
— Você perdeu qualquer pingo de vergonha na cara, não é?
— Eu achei que podia contar com você… — ela fala triste.
Então percebo que isso é algo realmente importante para ela. E penso em mim… eu gostaria de ter alguém para conversar sobre essas coisas. Eu super entendo a May mas eu acho que ela está se precipitando.
— May… — me sento de frente para ela e seguro suas mãos — você pode contar comigo sempre — dou ênfase na palavra — eu só fiquei chocada que você está se interessando por essas coisas sendo tão nova. Apesar de você se sentir madura não significa que é. Eu fico muito feliz pela pessoa que você tem se tornado mas não acelere as coisas. No entanto, se for sua vontade — penso muito antes de dizer o que vou dizer, mas se ela não me ouvir e decidir seguir com o que quer, pelo menos que faça de forma consciente — seja responsável, faça com alguém que valha a pena e que você ame, alguém que te respeite acima de tudo e não te force a nada. Acima de tudo, respeite a você mesma e aos seus limites. Ok?
Ela agradeceu sorrindo e me abraçando. Sei que vou ficar preocupada pelo meu pai sempre que ver os dois trancados no quarto, mas May é muito inteligente. Sei que não fará besteiras.
— E use camisinha, pelo amor de Deus! — acrescento brincando, mas nem tanto. — Agora me ajude com o cabelo. Quero minhas ondas de sempre.
— Certo! — Ela diz sorridente ficando logo de prontidão para me ajudar. — Sabe… só estou esperando você me contar o que tá rolando entre você e o bonitão…
Como ela soube?
Após uma longa conversa com minha irmã mais nova sobre o “bonitão”. Maxon. Onde contei o que aconteceu e ela me chamou de burra tapada por estar repetindo o mesmo “erro” de antes, eu percebo que estou uma hora atrasada para a festa. Celeste já me ligou trocentas vezes para saber onde estou, e que se eu demorasse mais um minuto mandaria alguém me buscar. Temo quem seria.
Assim que encontrei uma vaga na rua, o que foi quase impossível pois estava lotada, eu chego na frente da casa dela. Que estava bombando. Fiquei surpresa por em apenas uma hora de festa já ter jovens bêbados e chapados dormindo no quintal da frente.
É… a noite será longa…
Fale com o autor