Fomaríamos um Maravilhoso Nós
13 Desafios e segundas chances
— Alguém sabe onde está o Maxon? — Celeste o procura com o olhar antes de se sentar.
Estamos no intervalo, na mesa de sempre comendo e jogando conversa fora. O único que está faltando para fechar o grupo é o Maxon. Logo penso que ele está com sua amiguinha, se não fosse ela vindo de forma imponente, desfilando na minha direção.
— Então quer dizer que vai tentar ser capitã? — Kriss pergunta com desdém enquanto se aproxima.
Eu ia tentar ser “amigável”, mas ela se dirigiu a mim primeiro e sem simpatia nenhuma. Muito bem então… ela vai receber na mesma moeda.
— Então quer dizer que é contra você que vou competir? — A olho de cima a baixo com deboche, quero que ela veja que a considero pouca coisa.
Porém, devo dizer que ela não é pouca coisa, é uma adversária e tanto. Muito bonita e tem um olhar determinado, ela não é de abaixar a cabeça e nem desistir. Mas eu também sou assim, e a realidade é que ter uma adversária à sua altura, apenas me incentiva a ser melhor, e eu serei. Não me levanto do banco, é para ela ver que não faço questão nenhuma da presença dela.
— A verdade é que competição não é a palavra correta para nomear o que vai rolar, e sim, show de humilhação — me lança um sorriso de lado carregado de ironia — porque é isso que você vai ser, humilhada depois de eu dar um show em você.
Quem ela pensa que é? Me levanto num pulo e fico frente a frente com ela. Ela não abaixa a cabeça e muito menos eu. Nossas encaradas se tornaram o entretenimento do refeitório. Eu não estava nem um pouco preocupada, colocaria aquela cretina no lugar dela custasse o que custar.
— Isso é o que nós vamos ver. — Retruco da forma mais ameaçadora possível. Não deixo de olha-la de cima a baixo com um sorriso de lado demonstrando todo meu desprezo por ela.
— Cai fora Kriss, você já perdeu essa. — Celeste grita com enorme satisfação na voz. Marlee ao seu lado tinha o maxilar trincado, sei que ela está se corroendo de ódio por dentro.
— Se eu fosse você não cantaria vitória tão cedo. Vai ser humilhada junto com a ruiva. — Ela solta seu veneno já se afastando.
— Isso já virou mais que pessoal — digo me sentando novamente — eu tenho que ganhar essa merda de qualquer jeito. Como funciona aqui a escolha da capitã?
— Quem decide é a professora de dança. — Começa Marlee a me explicar. — Primeiro você vai ter uma apresentação solo. Mas essa será particular, apenas você e ela, depois, ela te dará um grupo de três garotas, junto com uma coreografia, você terá que treinar as meninas e mostrar que sabe liderá-las, terá uma hora para fazer isso e essa é apresentada no ginásio e todos os interessados podem assistir. E então ela dá a palavra final.
— Por isso é bom você já ir se preparando — Celeste aponta seu dedo para mim me alertando.
— Certo, vamos ensaiar amanhã — elas assentem — parece tranquilo. O que vocês acham meninos? — questiono Carter e Aspen. — Vocês não abriram o bico até agora.
— Essa é uma discussão entre vocês. — Aspen já quer fugir do assunto.
— Você também acha que a Kriss tem chance, não é Aspen? — Marlee bate as duas mãos na mesa o ameaçando indiretamente.
— Eu só acho ela gostosa e mais nada. — Aspen dá de ombros. Eu sinceramente não tinha nada a dizer, apenas queria dar um tapa na nuca dele.
— É sério que o critério de avaliação de vocês é esse? — Celeste o fuzilava com os olhos — America é muito mais do que ela.
— Do que estão falando? — Maxon chega. E se senta ao, meu, lado — Que caras tensas são essas?
— Maxon? — Marlee se pronuncia — Não acha America muito mais gostosa que a Kriss?
Ela não perguntou isso! Ela. Não. Perguntou. Isso!!! Marlee eu vou te matar!! Uma encarada minha bastou para que ela entendesse que eu odiei sua pergunta, mas quem disse que se importou? Apenas deu de ombros e continuou encarando Maxon.
— Com certeza — ele responde sussurrando no meu ouvido para que apenas eu ouvisse, o que isso me causa chega a ser assustador. — Como chegaram nesse assunto?
— Não importa! — Celeste parece estar se contendo para não acertar a cabeça de alguém — seus amiguinhos tem a mesma opinião ridícula que você.
— Eu não disse nada — Carter se defende.
— Nem precisa — Marlee diz ríspida, algo me diz que ela não está de bem com ele.
— O que quer dizer com isso? — Carter é lerdo ou só se faz?
Uma discussão se iniciou na nossa mesa. Eu apenas observava em silêncio. As meninas não querem mesmo que a Kriss seja a nova capitã. Os meninos apenas se defendem das acusações delas. A verdade é que está sendo ridícula essa briga sobre quem é a melhor, Kriss ou eu. Celeste e Marlee estão tão convictas que eu vou vencer, mas que critérios elas têm para dizer isso? Elas ao menos me viram dançar alguma vez. E se eu decepcioná-las? Eu sei que sou boa, mas e se Kriss for melhor?
Não! Eu sou melhor e vou provar.
— Você não me respondeu. — Uma voz rouca e masculina sussurra novamente no meu ouvido, causando a mesma sensação.
— Não respondi o que? — Pergunto a ele meio receosa enquanto a discussão segue à minha frente.
— Onde vamos fazer o trabalho de química. — Ele parece bem interessado nesse trabalho.
— Não sabia que você era tão dedicado e preocupado com os deveres. Pra que a pressa?
— Não temos muito tempo, não sei se você sabe. — Responde ele sarrando seu rosto no meu cabelo. Sinto sua respiração quente e me contenho ao máximo para não expor o que estou sentindo.
A verdade é que eu desejaria não fazer esse trabalho. Se pudesse sumir e reaparecer para a apresentação assim eu faria. Não parei muito para pensar onde iríamos fazer essa atividade. Eu ainda não contei aos meus pais de Maxon, e não quero contar agora, isso vai gerar perguntas, perguntas vai gerar explicações, explicações que não estou nem um pouco afim de dar. Então não me ocorre outra alternativa.
— Na sua casa. — Ele me olha muito surpreso.
— Não pode ser na sua? — Ele rebate.
— Qual o problema de ser na sua? — Nesse momento o encaro. E pra que? Engulo em seco.
Maxon está muito perto, mais perto do que meu auto controle aguenta. Me esquivo antes de fazer qualquer besteira.
— E porque na sua não? — Meu estoque de paciência tem sido curto ultimamente.
— Não contei à minha família que te reencontrei e não quero contar, por hora. — Ele pareceu entender.
É difícil falar baixo, olhando para frente e tentando fazer com que fique claro minhas palavras sem ninguém perceber. Seria tudo mais fácil se ele estivesse um pouquinho mais longe.
— Meu pai está por casa ultimamente e não gosta que eu leve garotas para lá. — Arqueio as sobrancelhas. Até imagino o porque o pai dele não gosta.
— O que faremos então? — Dou o último gole no meu suco.
— Tem uma opção. — Ele tenta esconder o risinho, mas apenas presto atenção. — Podemos ir para o meu apartamento.
— Você tem um apartamento? — Não sei porque fiquei surpresa.
— Meus pais tem, mas só eu o uso. Então é meu. Tudo bem para você ser lá?
Definitivamente não. Mas que escolha temos? E aí está a chance de provar meu auto controle e que consigo superar ele. E pensando em superar… agora que percebi que ele está falando comigo. Será que não está mais chateado?
— Não tinha notado antes… voltou a falar comigo é? — Ele fechou a cara. Acho que não foi uma boa ideia relembrar.
— Se você quiser podemos falar com a professora para nos trocar de dupla. — Arregalei os olhos, não acredito que ele está sugerindo isso.
— Você acha necessário?
— Você acha necessário? — Qual o problema dele? Por que fica rebatendo minhas perguntas?
— Não acho que a professora permitiria, ela foi bem clara quanto a trocas. — Tenho que admitir, no fundo fiquei me sentindo mal por ele cogitar a ideia. — Tudo bem. Pode ser no seu apartamento. — Acabo aceitando sem muita empolgação, afinal, me apavora pensar em ficar a sós com ele.
Ele apenas confirma com a cabeça e volta a prestar atenção na discussão de nossos colegas. Percebo que eles mudaram de assunto, a discussão é porque o esporte principal do colégio é futebol americano e não basquete. Os meninos defendem o futebol como se aquilo fosse a vida deles, as meninas o basquete, apenas pelas roupas serem mais bonitas. O sinal para retornarmos a aula toca, como sempre reclamamos pelo intervalo passar tão rápido.
— Podemos começar amanhã? — Maxon me pergunta andando ao meu lado.
— Amanhã pretendia ensaiar com as meninas. — Preciso treinar antes de me apresentar à professora, mas também não queria ficar adiando isso, quanto antes terminarmos melhor. — Tudo bem ser depois?
— Sem problemas. — Ele responde em um tom normal. É estranho falar com Maxon nesse tom. As outras vezes que trocamos mais de dez palavras ele estava tentando me conquistar. — Quer que eu busque você?
— Não precisa. Só me passa o endereço.
— Ok. — E ele simplesmente sai na frente me deixando sozinha.
— O que tanto falavam em!? — Marlee aparece saltando ao meu lado ansiosa.
— Viemos andando atrás de vocês, percebemos que formam o casal mais show desse colégio. — Celeste gesticulava com os braços para demonstrar a imensidão de suas palavras.
— Me poupem! — Digo — Só estávamos combinando o trabalho de química. Nada demais.
— Grr! Nem me lembre dessa desgraça. — Qualquer vestígio de animação no rosto de Celeste se esvai — Eu caí com a Bariel! Com a Bariel! Me matem antes que eu mate ela.
— Boa sorte — Diz Marlee entendendo a repulsa da amiga.
As duas últimas aulas pareceram levar uma eternidade, não aguentava mais ficar naquela sala. E o pior, ver Kriss se engraçando com Maxon o tempo todo, ela é uma descarada. Eu percebia o desconforto dele por ela o ficar chamando atenção toda hora. Maxon suspirou de alívio quando o professor a repreendeu e mandou que ficasse calada, eu tive que abaixar a cabeça para conter a risada.
Assim que a aula terminou, fui buscar meus irmãos na escola. Como sempre eles já estão à minha espera impacientes, pois eu sempre chego uns minutos atrasada.
— Algum dia você vai chegar no horário? — May entra no carro logo após de Gerad bufando — Todos vão embora e fica apenas nós dois te esperando.
— O que quer que eu faça se minha aula acaba no horário que acaba? — Dou partida sem me importar muito com o comentário dela.
— Tenho certeza que você fica se assanhando com alguem ao invés de nos buscar assim que o sinal toca. — A olho incrédula.
— O que é assanhando? — Gerad que até o momento estava em silêncio por milagre, se pronuncia.
— Outro dia te explico Gerad, e May… eu não fico me assanhando, assim que dá eu venho direto buscar vocês. — Ela dá de ombros. Porque estava me explicando não sei, eles simplesmente deviam aceitar e ficar calados.
— Ames hoje eu vou na casa do meu amigo, vamos caçar minhocas, não é demais! — Pelo retrovisor pude avistar Gerad dando um yes com os punhos. Eu e May apenas fizemos careta de nojo. Eu realmente não entendo essa atração por animais nojentos.
Ao chegarmos em casa, almoçamos e Betina me informou que eu teria que levar Gerad até a casa do colega. Não era muito longe dali, aproveitei e pedi para May nos acompanhar, queria contar a ela sobre Maxon.
Assim que deixamos Gerad na casa do amigo, fomos em uma sorveteria. Apesar de estar apreensiva de contar a ela, eu sentia que May era a única que poderia me ajudar. Foi apenas ela que presenciou momentos entre mim e Maxon, então só ela conhece um pouco de nós dois. E por ela ser muito avançada para a idade dela, acho que é a pessoa, talvez, mais certa para me ajudar a raciocinar. Ao chegarmos, peguei um milkshake e May uma casquinha, em seguida fomos em direção de uma mesa.
— Vai. Desembucha. Sem enrolação. — Mal sentamos na mesa e ela já se tocou que não era apenas um passeio.
— Me encontrei com Maxon. — Ela não queria enrolação, então fui direta, o que a fez engasgar com sua primeira colherada do sorvete.
— Mentira! — Nesse momento ela não sabia se ficava surpresa ou se devia se recompor da engasgada.
— Ele estuda no mesmo colégio que eu e na mesma turma. — Eu realmente queria contar tudo de uma vez, queria encerrar logo esse assunto. May estava boquiaberta, já a minha cara sem dúvidas não era das melhores.
— E porque você está com essa cara? Não devia estar mais feliz do que nunca? — Logo seu entusiasmo foi tomado pela dúvida, ela já entendeu que as coisas não estão tão boas assim e que não há muitos motivos para estar feliz.
— Se você soubesse… — digo olhando para baixo tomando um gole do meu milkshake, ela arqueia as sobrancelhas.
— Ele tem namorada, não tem? — E começa ela com seu costume de tirar suas próprias conclusões — Claro que já tem, como um gato daquele seria solteiro. Mas que filho da puta. — Eu poderia repreendê-la pelo vocabulário mas não o fiz, não estava discordando muito dela no momento.
— Não é bem isso — me olha confusa — podemos dizer que ele tem mais de uma. Ele não passa de um sem vergonha mulherengo.
— Ah! Menos mal — como é? Ela fez pouco caso, é isso mesmo?
— Você me ouviu direito? — Procuro no olhar dela qualquer indício de distração, mas não, ela está bem atenta. — Ele estava brincando comigo, não percebe?
— Eu já imaginava que ele não era tão perfeitinho assim, ninguém é. — O que ela está querendo dizer? — E não acredito que ele estava brincando com você. E se esse é o jeito dele… cafageste… você só precisa dar uma lapidada nele que fica tudo bem. — Ela fala como se não fosse nada se dedicando ao seu sorvete.
— Olha o que você está dizendo May. Até parece que vou dar uma lapidada e ficar com ele. — Aquela menina me olhou com indignação.
— Como assim não vai ficar? America não seja idiota, aquele garoto gosta de você e você gosta dele, isso se nota a quilometros de distancia, você nunca ficou tão mal por conta de um menino. Agora que tem a chance vai desperdiçar por conta do passado dele? Ele pode mudar, sabia?
— É que você não viu o que eu vi. — As lágrimas brotaram — Quando o encontrei caminhando pelo corredor eu fiquei tão feliz, depois que decidi falar com ele, ele estava beijando outra. E ainda descobri que ele já teve momentos mais íntimos não só com ela mas com a metade do colégio. Quem garante que eu não sou só mais uma para ele curtir?
— Eu garanto! — A confiança na voz de May me fez recuar, sentindo o impacto de suas palavras. — Eu fui testemunha do vínculo de vocês. Era impossível não notar o quanto Maxon gostava de você. Ele me roubou você por um dia inteiro, levando você para viver experiências únicas, algo que ninguém faria sem um interesse verdadeiro. Sempre que eu os via juntos, você irradiava felicidade, e os olhos dele brilhavam intensamente quando te olhava. Até o Gerad comentou quando vocês saíram depois do café, que Maxon parecia estar louquinho por você.
Eu não conseguia dizer nada, nem encarar May. Ela me fez voltar para aquelas lindas lembranças, realmente não podiam ser apenas momentos vagos, sem sentimentos, muito pelo contrário, eram carregados de belas emoções. Agora sinto as palavras de Maxon pesarem como nunca na minha consciência, quando ele disse que não dei valor para o que vivemos, ele tinha razão. A raiva, ciúmes, tristeza, frustração, seja o que for me cegaram. Mas porque essa incerteza ainda me ronda?
— Como está a situação de vocês atualmente? — May corta o silêncio que se instalou por alguns minutos.
— Brigados. Eu fiquei puta com o que descobri e ele ficou puto quando joguei tudo na cara dele. — Eu não tinha mais tanta energia na voz.
— Que droga em! — A lamentação estava escancarada na cara de May enquanto ela cutucava sem motivo algum o final de sua casquinha com a colher.
— Pois é, e agora para ajudar tenho um trabalho em dupla para fazer com ele. E o pior, vamos ter que se encontrar fora do colégio. — Empurrei meu milkshake para o centro da mesa desistindo dele e abrindo espaço para apoiar meus cotovelos na mesa e enterrar meu rosto nas mãos.
— Isso é ótimo! — Levanto meu olhar surpresa — Ames, essa é sua chance de consertar as coisas. De vocês se darem uma segunda chance. — disse com entusiasmo.
— E quem disse que eu quero uma segunda chance? — retruco sem certeza nenhuma do que estou falando. Olhar para May nessa hora foi meu maior arrependimento, ela tinha um sorriso convencido na cara, eu apenas reviro os olhos, catando meu milkshake novamente.
— Olhe bem nos meus olhos e diga que não gosta dele, que não sente vontade de agarrá-lo e fazer muito mais com aquele gato.
— May! Olha o que está dizendo. — A repreendo constrangida, pois o que ela diz é a mais pura verdade, só não quero admitir.
— Ok, não precisa me responder, sua cara entrega tudo — a salafrária ri da minha cara — Acho que vocês deveriam conversar seriamente, jogar as cartas na mesa. Tenta isso quando vocês se encontrarem. Se deem a chance de tentar. Vocês são lindos juntos. — Ela come a ponta que sobrou de sua casquinha e limpa uma mão na outra.
Não sei bem o que pensar. Assim como Marlee e Celeste, May me aconselha a dar uma segunda chance, e admito que é o que mais quero, não posso mentir. Eu gosto tanto dele, e não vem me fazendo bem essa desavença entre nós dois. Quero resolver isso, mas pego meu inconsciente temendo essa aproximação. E se ele não for sincero, e se realmente as intenções dele não forem boas? E ele também está chateado, apesar de ter falado comigo hoje, quando toquei no assunto ele não gostou muito. E se ele não quiser me perdoar pelo o que disse?
Bom, acho que só tentando para descobrir, não é?
Fale com o autor