Following the Heartbeat
33 Capítulo 33 — Pearl Eyes
Notas iniciais

Capítulo 33 — Pearl Eyes
Dreamcast de Following the Heartbeat
Ao entrar na gravadora, Hinata sentia-se caindo em um precipício. Seus olhos não enxergavam nada de fato. Estava com falta de ar e as pernas bambas. Ouvia a voz de Deidara muito longe, mas não identificava o que ele dizia.
O loiro, por outro lado, conseguia ver todo o desespero que se abatia sobre a moça. Hinata ofegava, ainda que estivesse parada. Os olhos focados em um só ponto estavam arregalados e cheios de lágrimas que escorriam por seu rosto. As mãos tremiam, assim como todo o corpo. Ela estava tendo um ataque de pânico bem a sua frente e nem ao menos conseguia lhe responder.
— Hinata. Hinata, querida, olhe para mim. — ele implorava, mas nada surtia efeito. — Venha, querida. Sente-se aqui. — Como se estivesse carregando uma boneca, conduziu a Hyuuga até uma poltrona e a sentou ali.
Assustada, a recepcionista se aproximou, carregando um copo de água e perguntando se poderia fazer alguma coisa. Deidara a dispensou rapidamente, virando-se para a morena logo em seguida. Pegou-se a mão e apertou com gentileza, continuando a lhe chamar diversas vezes seguidas.
— Deidara? — O loiro não sabia quanto tempo tinham ficado ali até que ela lhe respondesse, mas quando aconteceu, a voz dela saiu tão baixa que quase não a ouviu.
— Querida, o que houve? Você começou a tremer e chorar. Estava em um estado catatônico.
— Não recebi uma boa notícia. Eu queria... — Antes que pudesse terminar a fala, o celular apitou novamente. Tremendo, desbloqueou a tela para ler a mensagem. — Preciso sair. É urgente.
— Não! Você vai tomar esta água e eu vou pedir que venham medir sua pressão. Você estava quase desmaiando aqui. Não deve demorar nada, mas não posso deixar que saia assim e desmaie no meio da rua, por favor.
— Tudo bem. Vou responder a mensagem avisando que não demorarei. Obrigada, Deidara.
Ela apenas esperou que ele saísse para responder Ino, mas estava impaciente. Se a pessoa que estava atrás de si sabia de tudo, Naruto corria perigo e o quanto antes falassem com Sakura, melhor. Por isso disse a Ino que eles falassem com a moça mesmo sem que ela estivesse presente.
Mesmo tendo de ficar um pouco mais na gravadora, não demorou até que lhe atendessem ali mesmo e logo lhe liberassem, indicando repouso. A última coisa que teria naquele dia seria um repouso. Mas estava se preparando para o que a vida lhe programara. Esperava ainda mais que tudo se resolvesse o quanto antes.
Pegou um táxi na porta da gravadora, logo após agradecer a Deidara pela atenção e cuidado, e pediu que o motorista fosse o mais rápido o possível para o endereço do dormitório da universidade. Naruto e Ino já deveriam estar junto a Sakura naquele momento.
Ao descer do carro, só conseguia sentir seu coração pulsando no peito, prestes a explodir. Era como a vez que andara em uma montanha russa pela primeira vez. Parecia que iria morrer, mas estava ansiosa pela experiência. Naquele momento, estava com medo, mas ansiosa para tudo se resolver.
Não viu, ao passar pela porta, o rapaz que caminhava em sua direção com pressa e determinação, assim, os dois se esbarraram e Hinata cambaleou para trás pelo encontro.
— Hina, me desculpe!
— Ah, tudo bem. — Ela reconheceu a voz antes mesmo de olhar para as mãos e o rosto de Toneri. — Eu estava tão afobada para falar com Ino que acabei não prestando atenção no caminho. Me desculpe, Toneri.
— Há algum problema? Ino parecia nervosa o dia todo, pelo menos todas as vezes que cruzei com ela e agora a pouco vi Naruto subindo. Vocês estão preparando uma surpresa?
— Mais ou menos isso... — Hinata murmurou. Não sabia como dispensar Toneri. Eles tinham se aproximado bastante desde que terminara com Naruto, mas não era uma situação que estava disposta a compartilhar com mais alguém. — Sabe, Toneri, eu preciso mesmo subir. Depois a gente conversa mais, pode ser? Se eu puder, até te conto o que é a surpresa.
Ela não esperou que ele dissesse alguma coisa, acenou e começou a andar antes mesmo de terminar a fala. Mas não deu nem dois passos e sentiu a mão dele lhe segurando o pulso.
— E se eu disser que já sei? — A expressão de Toneri mudou completamente. Antes ele parecia alegre e curioso, agora ele estava sem qualquer expressão, frio.
— O quê? Toneri... — Antes, porém, que pudesse continuar a frase, um sorriso tão frio quanto os olhos do rapaz apareceu em sua face e Hinata se calou.
— Eu avisei. Avisei que era para se afastar dele, mas você não me ouviu. Você não me deu outra escolha, Hinata.
— Você... — A voz não passou de um sussurro ao mesmo tempo que os olhos se arregalavam pela revelação.
— Vamos sair daqui, Hina. — Havia um tom extremamente doce no apelido, algo que fez com que Hinata se arrepiasse e temesse.
A Hyuuga puxou o braço do dele, e no mesmo instante que houve a resistência, Toneri ergueu a mão e socou a cabeça da menina. Havia uma bola de ferro em sua mão, uma que ele vivia brincando na entrada do dormitório. No mesmo instante Hinata caiu, desmaiada nos braços dele.
Tão rápido quanto podia, carregando-a, Toneri saiu do local antes que alguém aparecesse. Cruzou com uma menina na porta, mas ela mal olhou para eles. Seu carro estava a pouca distância, pronto para uma fuga. Uma fuga que ele sabia que seria bem sucedida.
♪
Quando os olhos perolados se abriram, a visão turva impediu que identificasse onde estava. Hinata piscou algumas vezes antes de conseguir focar a visão no teto branco. Puxou as mãos para coçar os olhos, mas sentiu um peso ali e barulho de correntes. Assustada, tentou se sentar, mas assim como suas mãos, seus pés pareciam presos por algo pesado e apertado.
Como quem acorda de um pesadelo, as lembranças do que aconteceu voltaram todas de uma vez, e com tristeza ela se lembrou que não era um pesadelo. O medo sufocante lhe tomou e no mesmo instante ela percorreu os olhos pelo local.
Estava em um quarto espaçoso. No canto esquerdo tinha um piano preto e bem lustrado, assim como um apoio para câmera e uma desta profissional ali. Ao lado da cama que se encontrava, de casal, havia criados mudos e um guarda-roupa grande estava apoiado próximo a porta, ao pé da cama. Muitos quadros estavam pendurados na parede, todos de notas musicais. Ela não tinha ideia de onde estava.
Como se soubesse que a moça havia acordado, Toneri entrou no cômodo, carregando uma bandeja com um prato bem feito de comida e um copo de suco. Tinha um sorriso no rosto. Hinata já sabia que aquele sorriso calmo e tranquilo não era sincero. Não era mais possível confiar nele.
Toneri caminhou até Hinata e sem dizer nada afrouxou o aperto das correntes, permitindo que a morena se sentasse na cama e o encarasse de frente.
— Você deve estar com fome. Pelo o que sei, não comeu nada o dia todo.
— O que estou fazendo aqui, Toneri? O que quer comigo?
— Primeiro, coma. Depois podemos conversar.
— Eu não vou comer nad... — Antes que pudesse terminar de falar, ele puxou a corrente e o aperto nos pulsos de Hinata se intensificou. O corpo da Hyuuga caiu para trás na cama e ela soltou um arquejo de dor.
— Não estou pedindo. Eu já lhe dei a chance de escolher o certo e você, como sempre, fez a pior escolha. Então pare de ser uma menina mimada e me obedeça.
Por mais que quisesse soltar grandes verdades, naquele momento não se via em vantagem. Toneri estava louco, cego ou doente. Hinata não sabia o que se passava com o rapaz que considerara tímido e seu amigo, mas sabia que nunca o conhecera de verdade se aquele era o seu verdadeiro eu.
— Hinata, eu só lhe trouxe até aqui para ver que devemos ficar juntos. Eu soube disso desde a primeira vez que a ouvi cantar. Sempre soube que você seria uma artista e merece o melhor ao seu lado. Naruto iria lhe ofuscar, lhe fazer perder o foco. Ele nunca foi merecedor de seu amor. — Toneri a servia enquanto falava, soltando os braços de Hinata para que ela pudesse comer.
— Isso está envenenado?
— Não está ouvindo o que estou falando? — Desta vez ele parecia magoado. — Quero que fique bem e não lhe matar.
— Me atingir com um peso de papel de ferro e me amarrar com correntes não é o que chamo de “bem estar”.
— Você precisava me ouvir e esse era o único jeito. Quando se trata do artista você fica como uma adolescente apaixonada pelo ídolo. Sei bem que esse é exatamente o caso, mas está na hora de crescer e se a única forma é lhe ajudando com isso, é o que decidi fazer.
— O que ganha com isso?
— Coma. — Ele acenou para o prato ainda intocado. Hinata suspirou. Não tinha fome, mas se isso faria ele falar, então estava disposta a fazer um esforço. — Ganho você e o seu amor.
Ele era convincente, como se não tivesse mais nenhum interesse por trás daquilo, mas algo dizia a Hinata que não era apenas por isso. Toneri era doente, isso ficara claro, mas a que ponto?
— Imagine — ele continuou como se não tivesse sido interrompido —, eu e você chegando em sua casa juntos, seu pai me dando sua mão e eu poderia cuidar de você, seu bem estar, te ajudar a ser uma grande cantora.
— Meu pai não daria minha mão sem lhe conhecer e conhecer toda a sua vida.
— Mas isso seria resolvido com algumas visitas. Hinata, sei que sua vida seria completamente diferente comigo.
— Você é doente.
Ao contrário do que imaginou, Toneri não encostou a mão em si, mas soltou uma gargalhada.
— Você acha que me conhece por conta das mensagens? Tenho muito tempo para lhe provar que sou o melhor para você. Até o final de duas semanas você não irá mais amar Naruto Uzumaki.
Um frio percorreu o corpo de Hinata quando, ao terminar a fala, Toneri se aproximou. As mãos dele estavam geladas, talvez por estar frio fora daquele cômodo, e ele lhe pegou pelo queixo e lhe apertou ali. Ela virou o rosto, mas o aperto se apertou ainda mais, impedindo que fugisse do toque.
— Caso isso não aconteça, terei de tomar atitudes mais graves. — Soltando o rosto da morena, ele se afastou novamente e sorriu daquela forma tranquila e gentil que ela tanto conhecia, mas que agora lhe causava arrepios. — Coma. Voltarei daqui a pouco para conversarmos mais. Espero que esteja com um humor melhor até lá.
Antes de sair, porém, ele se inclinou e lhe tocou os lábios com os próprios, deixando Hinata enjoada imediatamente. A porta se fechou e tudo o que Hinata tinha acabado de ingerir saiu em um jato ao lado da cama.
Descobrir quem era Toneri e ainda ser beijada por ele era demais para um único dia. Empurrou a bandeja para o lado e mirou os pulsos. O aperto tinha deixado marcas profundas e avermelhadas. Lembrou-se do golpe recebido e levou a mão até a lateral do rosto. Deveria estar com uma marca horrível no rosto, pois doía no leve roçar de seus dedos.
Se Toneri a amava, como ele dizia, aquela era a forma mais doente de amor que ela poderia conhecer, e, infelizmente, não tinha como fugir, percebeu ao tocar as correntes presas em seus pés e no chão do quarto. Estava presa e algo lhe dizia que era com alguém muito perigoso.
O rapaz não demorou a voltar. Vendo que Hinata comera pouco, olhou furioso para ela, que agora dormia, após passar longos minutos chorando. Seu rosto ainda estava vermelho e inchado, o que significava que ela tinha caído no sono há pouco tempo. Quando os olhos do rapaz encararam o chão ao lado da cama, a fúria se intensificou.
Em um rompante, Hinata foi erguida pelo braço, posta sentada na cama com um solavanco. Os olhos perolados se abriram, assustados, encarando Toneri com medo.
— Que merda é essa? — Antes que ela pudesse terminar, ele lhe puxou a cabeça até o lado da cama, mostrando a poça de vômito.
— Eu não tive como limpar isso... — A voz baixa de Hinata saiu falhada. Não sabia o quão furioso ele estaria, o quão perigoso poderia ser por algo assim.
— O que você tem? Está doente? — Ele não parecia preocupado, e sim curioso.
— Acho que não. Deve ser emocional... — Não queria dizer que ele lhe causava ânsias.
— Pois então tente fazer menos nojeira. É aqui que mora agora. Vou pegar as coisas e você vai limpar. — Sem esperar uma resposta, julgando não ter uma, Toneri saiu.
Nos poucos minutos que ficou sozinha, Hinata se perguntava o que aquele rapaz queria consigo. Não era o seu amor, como ele afirmara antes, muito menos um carinho. Seria uma empregada? Não fazia sentido, de qualquer forma. O jeito era tentar fazer ele falar.
Quando Toneri voltou, ela foi solta da cama para limpar o lugar. O rapaz se sentou sob os lençóis, a encarando como um predador encara sua presa. Faminto, curioso, sem ao menos piscar.
— Desculpe pelo meu ataque, princesa. — Agora o tom de Toneri era mais gentil. — Não gosto de pensar que bastou vir para meus braços e ficou doente. Estou aqui para lhe proteger.
— Proteger?
— É claro, Hinata. Acha que sairia como de um relacionamento com Naruto? Eu tentei evitar com que se machucasse e conseguirei. Ele iria usá-la ao máximo, fazer com que você o ajudasse com canções, como eu sei que fez, iria sugar o seu talento dizendo ser dele e quando você não pudesse oferecer mais nada, iria lhe deixar sozinha. Além de destruir a sua carreira, ele iria destruir o seu coração que sempre o amou. Eu não.
— Você está me mantendo presa, Toneri.
— Apenas enquanto não enxerga o quão bons somos juntos. Imagine, Hinata, podemos ser parceiros de palco, como já fomos antes, ou mesmo posso ser o seu agente. Farei você ser conhecida em todo o mundo, atingir o seu sonho. E, além disso, faremos uma bela dupla na cama.
— Toneri!
— Não aumente o tom de voz! — Ele ergueu o dedo, apontando para ela. No mesmo instante um tremor percorreu o corpo feminino. — Muito menos use esse tom, como se sentisse nojo da ideia.
— Eu o amo, Toneri. Amo Naruto, não você. Não é me prendendo aqui que fará isso mudar. Teve semanas, meses, e não conseguiu mudar isso...
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, um tapa lhe atingiu o rosto, bem em cima de onde recebera o peso de papel de metal. Um gemido de dor lhe escapou pelos lábios enquanto seu corpo foi jogado no chão. As lágrimas escorreram por seu rosto sem que percebesse.
— Vamos mudar a abordagem. — Toneri sorriu, como se dissesse a coisa mais simples e maravilhosa do mundo, como se estivesse genuinamente feliz. — Todos os dias vamos matar esse amor um pouco mais. Amar Naruto será a sua tortura, Hinata. Você vai esquecer esse sentimento por bem ou por mal... E ultimamente eu não tenho estado com paciência para jogar mais.
Durante toda a semana que se passou, Hinata recebia doses diárias de torturas. Se Toneri achasse que ela pensava em Naruto, seus braços eram apertados; se ela olhasse quando o nome dele era chamado, então suas pernas eram apertadas. Seus pulsos e tornozelos estavam machucados e seu carcereiro parecia se sentir bem ao olhar aquilo. O machucado em sua cabeça não melhorara, apesar de ele não mais lhe tocar ali, porém de roxo o local ficou escuro, quase preto e esverdeado ao redor.
Hinata só dormia quando ficava exausta. Não conseguia fazer Toneri falar sobre nada, mas isso não impedia que ele dissesse o que queria. Foi assim que ela soube que ele queria fama. Queria usar de sua imagem para ser famoso e, em sua mente perturbada, estar com ela romanticamente o ajudaria naquilo.
Foi no meio de um desses discursos que Toneri atendeu o celular. Ele nunca fazia aquilo na frente da Hyuuga, mas aquele dia foi a exceção.
— Oh, é mesmo? Então terei de lembrar quem manda? Fique na sua! Vou dar um jeito nisso imediatamente. — Aquelas palavras foram ditas a outra pessoa, mas quando desligou, Toneri não guardou o aparelho, ao invés disso, apontou o celular para Hinata. — O que acha de mandarmos um recado para Naruto?
— Não! Por favor! — Ela choramingou, as lágrimas começando a descer novamente.
Tinha conseguido se ver livre das correntes nos pés, que foram substituídas por cordas, mas os braços ainda estavam presos e firmes por elas. Não conseguia se mover por conta daquilo. Toneri sorriu e negou com a cabeça.
— Fique quietinha, Hinata, ele vai querer apreciar a vista de seu corpo sem o seu choro de fundo. Quem sabe ele se toque? Oh, sim, ele deve fazer isso...
Encerrando o assunto, Toneri iniciou a gravação, mostrando os machucados de Hinata com cuidado, sem deixar passar nada. A câmera seguia pelo corpo da Hyuuga devagar, criando uma tortura por si só pela lentidão. Quando, porém, chegou ao rosto dela, a chamou.
— Olhe para ele, Hinata. — Chamou em um tom doce, mas frio. Frustrado, viu ela não obedecer e agarrou-lhe o queixo, puxando para frente e a obrigando a encarar a lente do celular. — Agora! — Ele só desligou a câmera quando viu aquela única lágrima escorrer pelos olhos perolados.
— Por que fez isso? — Por fim Hinata conseguiu falar ao ver Toneri se sentar em uma poltrona ao lado da cama.
— Para ele perder as esperanças. — Enquanto falava, digitava rapidamente no telefone. — Entenda, Hinata, as pessoas sempre vêm com um preço, eu conheço todos. Logo irei descobrir o seu também, apesar de achar que é a segurança do lindo Naruto e de sua família, não é mesmo?
— O que você quer?
— Sinceramente? Tudo o que sempre mereci. Quero dinheiro. Quero voltar a ter o que eu tinha...
— Que tinha...?
— Uma história para um outro momento. Vamos falar de sua amiga, agora? Fiquei sabendo que ela foi detida. — Ele viu a confusão nos olhos de Hinata, mas não sorriu. — Sakura. Ela me ajudava, você sabe. Acho que você chegou a saber também que ela perdeu o bebê. É uma história engraçada. Ela escondeu um namorado de vocês, acho que é porque ele era casado, e aí quando se viu prenha, foi lá e tirou. Se acho que ela está errada? Não, o problema é dela, não vejo mal nenhum nisso. Mas a garota era tão frouxa que ficou mal depois do que fez. Foi procurar drogas e foi aí que vi a minha oportunidade. Eu sabia que logo ela ia querer mais e não ia ter. Quanto mais amigo eu ficava dela, mais conseguia fazer ela te odiar. No início ela não se importou em se afastar, mas depois parece que a luz voltou àquela cabecinha de vento...
— O que você fez?
— Vai mesmo ficar me interrompendo? Continuando... Tive que ameaçá-la para ela continuar. E ela não foi uma boa atriz? Conseguiu fazer você terminar com Naruto bem perto da final do concurso. Oh, sim, fui eu já naquela época. Mas vocês voltaram e eu tive que fazer algo mais pra frente. Só a Sakura não ia dar certo...
— Só? Quem mais...
— Você ia precisar de um agente depois da sua explosão do festival de primavera. Entrei em contato com um agente falido e ganancioso. E você o adorou!
— Deidara!
— Sim! Você nem desconfiou dele. Pelo visto, nem Naruto. Dois idiotas. Ele que conseguiu soltar algumas peças do palco para que seu amado caísse, ele que ficou de olho em você para mim todo o tempo e foi ele que acabou de me ligar e contar que o seu amado criou mais uma música para você. Nem mesmo sofrendo ele para de usar o seu nome para ser conhecido.
— Naruto... Sakura... Deidara... Por quê?
— Porque eu sou inteligente. Sabe, Hinata, dizem que o mundo é dos espertos. E agora é a nossa hora de sermos espertos, tudo bem? Ou melhor, a minha. Você vai compor, eu irei tocar e juntos vamos conseguir o que eu sempre mereci.
— Me conte por quê.
— Você acha que merece? Vamos por partes. Eu te solto hoje à noite. Se você não tentar fugir, podemos pensar na sua recompensa. Que tal falar com seu papai? É assim que se faz, não é? Da algo em troca de um bom comportamento...
— Toneri...
— Shhh... — Ele se levantou e caminhou até ela, selando os lábios dos dois rapidamente. — Sem vômitos dessa vez. Estou cansado de tantos vômitos. — Sem dizer mais nada, saiu.
À noite, Toneri cumpriu o que tinha dito. Hinata se viu livre das correntes e cordas. Infelizmente, seu espaço ainda se limitava ao quarto que ocupava. Seu jantar consistia em um sanduíche com cheiro estranho. Ela se perguntava se o recheio de atum estava na validade. Não comeu. Em seu lugar, bebeu o suco de laranja que tinha junto e jogou tudo no lixo do banheiro.
Naquela última semana, tudo o que tinha conseguido ingerir era líquido. Tinha medo de Toneri a estar drogando, mas tinha igual receio de ficar desidratada. Percebeu que drogas não era o problema, e sim, apenas, as agressões do homem insano que lhe matinha encarcerada. Quando conseguia comer, porém, era comum Toneri lhe beijar e assim, despertar o seu nojo e o pouco ingerido saía.
Como sempre, ele não passara a noite com ela. Foi assim que Hinata percebeu, nos primeiros dias, que apesar de dizer que gostaria de ser seu companheiro, Toneri não a desejava. Assim achava melhor, pois presa como estava, não poderia tentar impedi-lo de fazer algo consigo.
Deitou na cama assim que Toneri veio lhe visitar e recolher a bandeja. Fingiu que dormia, mesmo ouvindo um farfalhar de folhas ao lado. Só se ergueu quando a porta se fechou. Toneri havia deixado folhas e caneta. Ele queria que ela começasse a compor no mesmo instante. Definitivamente, não ia acontecer.
Hinata caminhou até a porta e se surpreendeu ao ver que estava destrancada. Lembrou-se do que ele disse sobre tentar fugir e mesmo que a razão dissesse que era melhor ficar quieta no quarto, não conseguia conter seu instinto de se manter longe dele e daquele lugar.
Abriu lentamente a porta e espiou o lado de fora. Toneri, surpreendentemente, não estava ali para lhe pegar no flagra. Como uma criança, com medo de ser pega pelos pais fazendo algo errado, a cada passo que dava para fora do quarto, Hinata olhava a sua volta. Fechou a porta atrás de si, apenas para manter a aparência de que podia estar ali e continuou o seu caminho lento para a casa desconhecida.
O local poderia ter sido charmoso se não fosse o seu cárcere. Hinata não prestava atenção nos móveis ou mesmo no cômodo em si, mas sim nas portas e se Toneri não estaria por perto. Antes de abrir cada porta, ouvia o barulho em seu interior. Mesmo curiosa, evitava abrir qualquer porta. Sabia que deveria encontrar a cozinha ou a sala para conseguir encontrar a porta que lhe daria liberdade.
A casa, porém, era muito maior do que imaginara. O corredor onde se encontrava era grande e naquele momento de angústia parecia não ter fim. Foi apenas quando viu uma curva nele, julgando dar para um dos cômodos principais da casa que ouviu um gemido baixinho através de uma das portas. Sobressaltou-se no mesmo instante, ficando alarmada. Mas o gemido que ouvia era um lamento.
— Vovó... Por favor, eu quero minha avó... Por favor...
Hinata parou no mesmo instante, congelada. A voz era de uma criança. Uma criança chamava pela avó. Toneri mantinha uma criança presa no mesmo lugar que ela.
Caminhou, sem pensar, até a porta e encostou o ouvido ali. Como um mantra, a criança repetia uma vez após a outra o pedido.
— Olá? — chamou em voz baixa. — Quem é?
— Moça? Moça, você veio me ajudar? Você conhece a minha avó.
— Shh... fale baixo. — pediu ao ouvir a voz alta da criança. Tentou abrir a porta, mas ao contrário da sua, esta se encontrava trancada. — Quem é você? O que faz aqui?
— Meu nome é Akiro. Toneri me pegou para obrigar minha avó a ajudar ele.
— Sua avó? O que Toneri quer com sua avó?
Antes, porém, que Akiro pudesse responder, Hinata ouviu o som de aplausos pausados, fortes e altos. Em um pulo, olhou na direção do som e viu Toneri ali. Não havia expressão alguma em seu rosto, mas ele batia palmas de forma calculada.
— Quem diria, Hinata? Eu achei que você ia obedecer. Como me enganei com você, não é mesmo?
— O que está fazendo com essa criança aqui?
— Acha mesmo que está em posição de pedir respostas? — Enquanto falava, Toneri caminhava devagar. Hinata começou a recuar, olhando do homem para a porta. — Você sabe que não tem como entrar. Só eu possuo as chaves dessa casa.
— O que vai fazer com a gente?
— Oh, eu não vou fazer nada. Akiro está aqui há muitos meses e continua gordinho e saudável, assim como entrou. Você que está fraca porque cisma em não comer ou então em vomitar. — Toneri já estava perto o suficiente de Hinata para que ela pudesse sentir sua respiração. — Eu lhe causo nojo, Hinata?
Sem esperar uma resposta, ele a agarrou pelo punho esquerdo e começou a andar na direção do quarto outra vez.
— Não! Não, por favor! Deixe-me ficar com ele. Posso cuidar dele enquanto estamos aqui.
— Não vai ser babá nem mãe de ninguém. Você tem uma música para compor. Além do mais, você fugiu, ou ao menos tentou. Não há recompensa quando faz o oposto do que falei.
O que Hinata levou longos minutos caminhando, foi feito em poucos naquele momento com Toneri. Assim que entraram no quarto, ele a jogou na cama. Puxou uma perna da morena, pronto para amarrá-la. Mas desta vez Hinata estava disposta a reagir. Ela sacudia as pernas, ao mesmo tempo que as lágrimas silenciosas caíam por seu rosto.
— Não me obrigue a lhe sedar para que fique quieta. Eu já disse, Hinata, cansei do jogo. Lhe machucar não me causa prazer. Eu só quero o inferno da música!
— Por que está fazendo isso? Por que me machucou esse tempo todo então? Por que continua a me amarrar e machucar?
— É o que se espera, não é mesmo? Se eu não for um doente que a ama demais e faz coisas sem pensar para que você me ame, o que eu serei para eles? Eles querem um maluco, capaz de sequestrar a menina para que o outro não a tenham. Eles querem um culpado por você ficar traumatizada, eles querem isso, esperam isso!
— O que você sente? — Assim como Toneri, Hinata usou o tom de voz baixo para fazer a pergunta.
— Nada. — Como que para provar aquilo, Toneri a olhou. Seus olhos eram frios e inexpressivos, mesmo que tivesse um sorriso alegre nos lábios. — Tudo o que mostro sentir é o que esperam que eu mostre. Passei anos aprendendo como as pessoas são, o que esperam, o que gostam.
— O que é você?
— Você quer saber a minha história, Hinata? Vou lhe contar. — Mesmo sem a prender, Toneri a deixou sentada na cama e caminhou até a porta, a trancando. Em seguida, ainda em silêncio, caminhou até a poltrona e encarou Hinata como se encarasse uma parede, sem a ver de verdade. — Quando eu era pequeno, meus pais me chamavam de estranho. Eles tinham medo de mim, porque desde novo conseguia ver o que ninguém mais via: o quão falso o ser humano é. Eles me levaram em diversos médicos e especialistas. Psiquiatras famosos. Todos me deram o mesmo diagnóstico com variações: psicopata ou sociopata. Eu era criança, mas conseguia fazer com que todos eles gostassem de mim. Esse diagnóstico vinha quando surgia a bateria de exames. Algo sempre indicava que a parte do meu cérebro responsável pelos sentimentos nunca funcionavam. Quem diria que é assim que descobrem isso hoje em dia, não é mesmo? Se meus pais não tivessem dinheiro, nunca saberiam daquilo.
Hinata tinha os olhos arregalados. Sabia que psicopatas não tinham sentimentos. Sabia que sociopatas eram praticamente impossíveis de serem identificados, pois eles conseguiam fingir as emoções muito bem.
— Fui criado em um quarto fechado, como este aqui. Recebia comida, recebia educação, mas ninguém além das pessoas responsáveis por mim sabiam da minha existência. Era como se eu não existisse. Definitivamente, não era o que eu queria. — Ele queria ser conhecido. Sempre quis a riqueza dos pais, o reconhecimento de que ele estava ali. Um egocêntrico, como Hinata sabia ser normal em tais perfis. — Então, quando completei dezesseis anos, matei a minha professora de música. Ela era muito talentosa, mas era a única que garantiria a minha liberdade. Quando meus pais foram lhe levar embora, a encontraram no chão e eu aproveitei para me certificar que receberia toda a herança antes de mata-los também.
Hinata levou as mãos à boca, horrorizada com a forma como ele contava algo tão horrível. Mas Toneri não sorria, nem mesmo se mostrava com rancor. Narrava a história como se estivesse lendo um livro.
— Fugi para alguns países, sabia que iriam me culpar pelos assassinatos. Em cada um tentei me relacionar com alguma jovem talentosa e bonita, como você, Hinata. Mas nunca tinha muita paciência. Foi então que descobri que me encaixo melhor na categoria psicopata e não sociopata. Você sabia que os sociopatas são mais difíceis de se encontrar? Eles têm paciência de encobrir rastros de fazer as pessoas se apaixonarem por eles. Eu não. Sou um pouco mais impulsivo. Não é atoa que matei as meninas sem pensar no que isso poderia causar.
— Oh, meu Deus!
— É. Por isso estou tentando me programar mais, mas veja, é chato. As pessoas ficam me procurando, mas nunca me encontram e no fim, o que eu vou fazer não importa muito, sabe? Usei o meu dinheiro para mudar o meu rosto, de modo que consegui despistar algumas pessoas que me perseguiam país após país. E foi então que lhe encontrei. Vi em você, uma moça linda, doce, gentil e extremamente talentosa, a minha oportunidade de ter a vida certa e, melhor, sem ninguém para dizer que eu deveria estar preso. Mas que surpresa quando vi que você era apaixonada pelo famoso.
“Foi assim que consegui corromper sua amiga. Ela sempre teve uma inveja de você, sabia? Você tinha a sua família rica, um talento de dar inveja e ainda tinha um namorado famoso e que estava disposto a te assumir. Ela não. Foi fácil convencer Sakura a ficar contra você. Mas não foi o suficiente. Você era família e eu não tinha nenhuma para que conseguisse atrair sua atenção. É assim que entra a linda vovó de Akiro. Ela não só foi a minha avó, você se lembra dela? Como também foi o local para onde mandei os idiotas que estão atrás de você. Mesmo que eles rastreiem os meus e-mails, todos vão dar direto na casa da senhora Misu. Eu disse que estava tentando pensar menos impulsivamente, não disse?”
Toneri narrava tudo como se fosse um grande feito, como se com isso o se ego estivesse inflado, mas não como se precisasse de elogios. Enquanto narrava, ele se elogiava em cada tom de sua voz. Hinata, por outro lado, estava abismada com o fato de ter se aproximado tanto de alguém assim e nunca ter percebido. Por mais que soubesse que assim como nenhuma pessoa, ela seria capaz de identificar o distúrbio que tomava Toneri, ela se negava a acreditar que confiara tanto nele.
— Agora que você sabe de toda a história, assim como deve imaginar o motivo de eu não poder soltar Akiro, imagino que vai começar a colaborar, não é mesmo? Veja, Hinata, eu lhe machuquei porque precisava dar forças a Naruto. Queria que ele visse o que estava perdendo, que o seu nome surgisse na mídia com maior força através dele. E acredito que agora, depois do que mandei para ele, isso vai acontecer. Não tenho prazer em lhe machucar, mas se for o único jeito de você reagir da forma como eu quero, também não vejo motivos para não fazer isso. Então descanse e amanhã vamos começar a compor esta música, combinado?
Como sempre, sem esperar uma resposta, ele se levantou e saiu. Desta vez não houve um beijo roubado. Ele tinha desistido de brincar, como o próprio dissera. Agora as cartas estavam na mesa e tudo o que Hinata poderia fazer era jogar conforme as regras.
Mas ela faria isso no próprio modo. Ela diria a Naruto o que aquele homem era. Ela diria a ele com quem estavam mexendo, mesmo que isso significasse correr riscos. Porque não era só Naruto que corria risco de vida ali. Era também a sua família.
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