- Garota nova, mesa 22.

Olhei para a mesa para o qual a outra garçonete, Agatha, eu acho, apontava. Havia dois mauricinhos lá, um loiro e um moreno. Ambos vestiam roupas sociais pretas e eram exageradamente bonitos.

Caminhei até a mesma, e percebi que estava sendo observada pelo moreno de olhos azuis. Bonito, mas não.

- Olá — falei com o sorriso mais falso que eu tinha, — meu nome é Elena e irei servi-los essa noite. Já sabem o que vão pedir?

O loiro me olhou também, de cima a baixo. Tentei não revirar os olhos e continuei com meu sorriso falso.

- Ainda não — o moreno disse, — o que nos recomenda? Elena — meu nome pesou em sua lingua, fazendo com que um arrepio subisse pela minha coluna.

Ok, eu não gostava disso.

Desisti da minha posição de garçonete exemplar, me apoiei na mesa e encarei ambos.

- Tudo é uma merda — falei, — escolha a merda que for mais comestível.

O moreno riu.

- Estressadinha – ele brincou, — gosto disso.

- Não me interessa o que você gosta.

- Acho que deveria me tratar um pouco melhor. Afinal somos nós que vamos te dar gorjeta.

Dessa vez não tentei me segurar e revirei os olhos.

- Quer saber um segredo? — perguntei — Vocês são meus últimos clientes hoje, então quanto mais rápido comerem e irem embora, poderei fazer o mesmo e vazar daqui.

O loiro me encarou novamente.

- Qual é seu problema? — ele perguntou.

- Acordei cedo — respondi, — e tenho contas para pagar porque não nasci rica igual a vocês, esse é meu problema.

O moreno sorriu e abaixou o cardápio.

- Me surpreenda — disse.

Ele falava da comida. Claro.

- Ótimo, não são alérgicos a cogumelos, são?

Quando ambos negaram me virei e fui entregar os pedidos ao cozinheiro.

Acabei de tratar mal dois clientes no meu primeiro dia de trabalho, céus, qual era o meu problema? A culpa era daquele sorriso debochado que o de olhos azuis tinha. Mas os olhos dele eram lindos.

Cala a boca, Elena! Riquinho, metido e provavelmente um galinha problemático. Mantenha distância.

Ok, consciência. Vou tentar de ouvir.

Enquanto esperava os pedidos ficarem prontos meu celular, que estava no bolso da minha calça jeans, tocou. Fui até o corredor mais afastado, onde ficavam os banheiros e atendi.

- Srtª. Gilbert? — uma voz conhecida falou do outro lado do telefone.

- Meredith? Algum problema?

Meredith era a médica que cuidava do meu irmão. Ela apenas me ligava quando havia tratamentos novos ou quando a situação de Jeremy piorava. Eu esperava que fosse a primeira opção.

- Temos algumas novidades sobre o estado do Jeremy.

Ok, não havia pesar na voz dela, então me acalmei

- E...

- Tenho uma noticia boa e uma ruim, Elena. Pode escolher qual quer ouvir primeiro.

Respirei fundo.

- Não gosto quando as pessoas me dizem isso, Meredith. Apenas me conte logo.

Ela riu sem humor.

- A situação de seu irmão foi estabilizada, mas ainda é um pouco arriscado mantê-lo assim, ele precisa de um novo tratamento para poder ter uma expectativa de vida maior.

Ok, provavelmente eu não deveria ter me acalmado.

- O que exatamente isso quer dizer? – perguntei, tentando soar calma, mas na verdade querendo gritar.

- Quer dizer que se não podermos começar esse novo tratamento com ele, a chance dele nunca acordar desse coma, ou até de morrer aumenta. Muito.

Tapei minha boca com a mão. Agora eu entedia a voz calma dela, era a sua voz profissional, ela provavelmente a usava para anunciar mortes. Meu Deus, por favor, me ajude.

- Quanto custa esse novo tratamento? – perguntei, tentando normalizar minha voz.

- 200 mil dólares.

– 200 MIL DÓLARES? — Gritei, alto o suficiente para que todos no restaurante ouvissem — 200 mil dólares? — repeti, mais baixo dessa vez — Onde vou conseguir 200 mil dólares? Dinheiro não cai do céu sabia?

A pessoa no outro lado do telefone vacilou um pouco, eu podia imaginar Meredith encolhendo os ombros e fazendo sua famosa cara de "o que posso fazer?"

– É o tratamento mais eficaz que temos. É a melhor forma de salvarmos seu irmão.

Jeremy. Isso foi como um tapa na cara. Era culpa minha, ele não deveria estar em coma.

– Vou conseguir — garanti, — apenas espere algumas semanas.

– Quanto tempo quiser.

Desliguei o telefone, mas quando me virei para voltar a atender as mesas um homem forte e alto bloqueava minha passagem.

– Precisa de dinheiro? — Ele perguntou. E céus, seus olhos eram muito azuis.

Era o cara da mesa 22.

Notas finais
A partir daqui as coisas ficarão interessantes, observem. Quero comentarios, ok?