Folie à Deux
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Depois de ficar sabendo da morte de Abigail, Bedelia correu atrás de Hannibal pelo campus. Não o encontrou na aula que os dois tinham juntos durante a semana, então resolveu ir até o dormitório de Lecter.
Assim que ele fechou a porta, ela jogou a bolsa em cima da cama dele, e o olhou em desaprovação.
— Aqui na faculdade, Hannibal? Sério?
Ele abriu a mini geladeira, e se voltou para ela, segurando uma garrafa de vinho. – Aceita uma taça?
— Depois de tais acontecimentos, eu preciso mesmo beber.
Hannibal a serviu, e sentou-se ao lado dela, esperando que a garota começasse a falar o quanto tinha sido imprudente a sua ação. Mas ela permaneceu em silêncio.
— Talvez eu tenha sido impulsivo demais. – ele admitiu.
— Talvez?
Ele a olhou, incrivelmente calmo. – De qualquer modo, abasteci a minha geladeira com carne para um longo tempo. – ele disse, sorrindo.
— Isso tudo foi só porque essa garota estava se aproximando do Wil?
Ele não respondeu.
— Maravilhoso. – ela balançou a cabeça. – Você passou a se importar tanto com esse garoto, ao ponto de ter ciúmes e tirar uma pessoa da vida dele por isso?
— Will é meu amigo. Eu só quero o que é melhor para ele.
— Eu devo lhe lembrar de que o que você acha que é melhor, e o que realmente é melhor para ele, são coisas diferentes.
Hannibal suspirou. – Eu sei o que é melhor para o Will. E ele verá isso também. Pode demorar um tempo, mas ele verá.
— Pelo o bem da amizade que você está construindo com ele. – disse Bedelia. – Eu espero que ele não perceba tudo. Abigail era importante, Hannibal.
...
As imagens de Abigail exposta no pátio, com as “asas” penduradas, não saiam da cabeça de Will. Tinha alguma coisa no jeito que ela morreu que o fazia ter certeza que não tinha sido o mesmo assassino que fez os outros “anjos”.
Quando ele disse para Jack que quem matou as outras pessoas não tinha feito aquilo, tudo que o outro fez, foi dizer que ele estava se confundindo, era novo demais e não tinha experiência.
— Você está abalado pela menina ser sua amiga.
— Aquela cena de crime foi praticamente embrulhada para presente. – disse Will. – A pessoa que matou os outros não ia expor o corpo daquele jeito. Ele estava zombando da Abigail, zombando de nós.
Jack concordou. – Certo, eu vou considerar que pode ser um copiador, outro assassino. Mas vou esperar a opinião de outra pessoa, a análise dos legistas, etc.
— É outro assassino.
— Se for... – disse Jack. – Como vamos pegá-lo?
— Não sei. – ele passou a mão no rosto. – Um psicopata inteligente assim vai ser muito difícil de pegar. Não vai ter padrões nenhum. Talvez ele nunca mate desse jeito de novo.
— Ainda acho que nós precisamos dar uma palestra, deixar todos atentos a ambos os assassinos. Se for confirmado mesmo que são dois.
Will o olhou confuso. – Nós precisamos?
— Você, na verdade. – Jack o corrigiu. – Will, você é meu melhor aluno. E se já começou a participar dos casos, acho que posso usá-lo na sala de aula também.
— Não sei se me sinto confortável com essa interação social.
— Você vai falar com eles, não vai ouvi-los. – Jack o encorajou. – Não é sociável. Por favor, Will, eu preciso da sua ajuda... Claro, se não for demais para você estar nesse caso, por você conhecer e ser próximo da vítima.
— Não, eu quero estar aqui. – ele disse imediatamente. – Quero pegar o desgraçado que fez isso. E rápido.
— Eu também, eu também.
...
Alguns dias depois da morte de Abigail, os pesadelos começaram. Will não sabia dizer se eram resultados do seu trabalho no FBI, olhando cenas de crime e aquelas coisas horríveis que fariam o estômago de muitas pessoas revirarem, ou se tinha sido mais por causa da imagem de Abigail morta. Provavelmente os dois.
Até Brian tinha comentado que ele, ás vezes, acordava durante a madrugada, e ficava sentado na cama, sonâmbulo. Segundo o garoto, era meio esquisito. Will se perguntou se esse seria o primeiro passo para afastar as pessoas dele, todos os sinais de que ele era meio anormal e instável aparecendo.
Tirando que ele estava com uma falta de concentração enorme, e com a certeza de que tinha ido mal em todas as provas por conta disso. Will estava considerando ir a algum médico, um neurologista, porque ele não aceitava isso. Ele sabia o tipo de louco que ele era, e esse não era o seu tipo de louco.
Pelo ao menos algo bom aconteceu naquela semana. Alana tinha aparecido, como prometerá, para visitá-lo.
— Eu não acredito. – ela o abraçou. – Você está um lixo, Will. Lindo, como sempre, mas um lixo. O que aconteceu?
— Eu não estou dormindo direito.
Ela o olhou, preocupada. – Não... É sério?
— Não, é só por causa da minha amiga que... – ele parou no meio da frase, embora fosse mentira. Ele sabia que algo não estava certo.
— Você vai ficar bem. As coisas vão ficar bem.
Will sempre achou estranho quando as pessoas diziam isso. Prometer com tanta certeza que tudo ficaria bem, ainda mais por elas não saberem realmente, e no caso de Alana, não poder fazer nada para que as coisas melhorassem. Apesar de ela estar tentando, tentando bastante, e ele a amava por isso.
— Não trouxe a Margot? – ele perguntou, tentando mudar de assunto.
— Ela teve que ficar por causa da faculdade. – ela suspirou. – Não se preocupe. Você terá oportunidade de conhecê-la. Agora, vamos... Quero conhecer o campus, ser apresentada aos seus amigos. – ela o segurou pelo braço. – Tenho a missão de distrair você, tirar esse peso da sua cabeça.
...
Os dois foram andando juntos pelo campus, enquanto Alana contava mais sobre Margot. Como elas se conheceram ao ficarem juntas, na detenção de uma aula, e como o pai de Will sente falta dele, mesmo não admitindo, ou dizendo em voz alta.
— Ele sempre fala de você, quando eu vou lá. – disse Alana. – Ele te ama, Will.
— Eu sei, ele só tem um jeito-
— Diferente de demostrar. – ela completou. – Aah, como eu queria que a Margot tivesse livre para ter vindo comigo. Ela tem conhecer meu melhor amigo.
Ela o segura pelo braço, e então Will a encara muito sério. – Sobre a Margot, tem uma coisa que eu preciso saber. Algo muito importante, caso contrário... Eu duvido que eu possa me dar bem com ela.
— Pergunte.
— Ela gosta de cachorros?
Alana começa a gargalhar, abraçando Will. – Ela ama cachorros. E eu senti saudades.
— Eu também senti. – ele a abraça de volta, sorrindo.
Nesse momento, Brian e Jimmy passam pelos dois. Will pode ver os dois comentando, provavelmente supondo que Alana é a namorada dele, ou algo assim.
— Pessoal! – ele solta Alana para acenas para os dois, que se aproximam sorrindo. – Essa é minha amiga, Alana.
— Melhor amiga. – ela corrige.
— Melhor amiga. – Will repete. – Esses são Brian e Jimmy. Brian é meu colega de quarto.
Os dois sorriem para a garota. – Muito prazer.
— Will não me contou que tinha uma amiga tão bonita. – Brian piscou para ela, e se virou para Will.
— Ah, não tinha me mencionado ainda? – ela deu um empurrãozinho em Will, e acrescentou para Brian. – Você é um fofo, mas eu sou comprometida.
Ele ergueu as mãos na defensiva. – Não falei mais nada!
— Desculpa gente, mas nós realmente estamos atrasados para a aula. – disse Jimmy puxando Brian. – Até mais, Will. Foi um prazer, Alana.
— Foi um prazer também! – ela gritou, enquanto os dois se afastavam. – Eles parecem legais.
— Eles são. — Will concordou. – Vamos, preciso comer alguma coisa. Estou morrendo de fome.
— Eu sou a visita, então você paga.
Ele riu. – Pode deixar.
...
Quando entraram na lanchonete, Will viu Hannibal sentado sozinho em uma mesa, estudando enquanto comia algumas uvas. Ele acenou para o amigo, que retribuiu sorrindo.
— Outro amigo?
— Sim. – ele segurou Alana pelo braço. – Vem, vamos dizer um “oi”.
Hannibal deixou o caderno de lado. – Will, que prazer vê-lo por aqui.
— Minha amiga. – ele olhou para a Alana, e acrescentou. – Melhor amiga, Alana. Alana, Hannibal Lecter.
— É um prazer. – ele a cumprimentou e fez um gesto para os lugares vazios em sua mesa. – Por favor, me façam companhia. Bedelia teve que me abandonar por causa de uma aula.
— Por que não? – Alana sorri. – Eu vou pedir o meu lanche. O mesmo de sempre, Will?
— Pizza de queijo, exato.
— Se comportem. – ela brincou, e foi andando para longe.
Hannibal sorriu para Alana, ela era muito simpática e bonita. Depois se voltou para Will, olhando-o preocupado.
— Fico feliz por sua amiga ter conseguido te tirar do quarto. – Will franziu a testa, e ele explicou. – Você desapareceu completamente esses dias.
— Eu não estava me sentindo bem.
— Eu entendo. – disse Hannibal. – Mas ainda me preocupo com você, Will.
— Não precisa, de verdade.
— Voltei! Demorou só dois segundos, não tem ninguém por aqui essa hora? – Alana perguntou, sentando-se à mesa e colocando a bandeja com os lanches em cima da mesma. – O que eu perdi?
— Hannibal se preocupando, sem motivos.
Alana balançou a cabeça. – Não, acho que ele tem motivos sim.
— Bobagem. – Will colocou ketchup na pizza, e comeu um pedaço. – Eu vou ficar bem.
Eles ficaram conversando, e Alana estava surpresa com o quanto que Will estava falando. Geralmente, ele só abria mais a boca se a conversa fosse entre ele e apenas mais uma pessoa. Quando aparecia uma terceira, Will costumava ficar concordando e ouvindo, na maior parte do tempo. Mas não dessa vez.
— E depois disso, eu consegui a vaga no FBI... – Will contava sobre o episódio com o Walter. – Mas ainda me sinto mal por ter sido rude.
— Eu perdoaria. – disse Hannibal, e então esticou a mão até o queixo de Will. – Ketchup. – ele disse, limpando.
Ambos sorriram um para o outro, enquanto Alana os observava. O celular de Lecter vibrou, ele lançou um olhar triste aos dois.
— Minha aula começa em cinco minutos. Preciso ir. – ele beijou a mão de Alana. – Foi um prazer imenso. – sorriu, e depois se voltou para Will, colocando a mão no ombro do amigo. – Cuide-se, Will.
— Eu disse, sem preocupações. – ele se virou para Alana. – Vocês dois.
Depois que Hannibal saiu, Alana ficou encarando Will, com um sorrisinho no rosto.
— O que foi?
— Ele é muito charmoso.
— Sim, ele é. – Will concordou, e o sorriso dela aumentou.
— O que você está tentando me dizer?
Ele sorri. – Não venha com insinuações, Alana. Hannibal é meu amigo.
— Eu acho que vocês olham um para outro por tempo demais para serem só amigos. – ela disse. – E ele se preocupa com você, é bonitinho.
— Alana... – ele começou. – Você descobriu que tem atração por garotas, mas isso não quer dizer que eu também vou começar a gostar de pessoas do mesmo sexo.
— Não falo mais nada, nem uma palavra.
— Obrigado. – disse Will, comendo mais um pedaço da pizza.
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