Folie à deux
1 Capítulo Único
Era uma noite fria e chuvosa em Gotham City, as ruas desertas refletiam as luzes pálidas dos postes, criando uma atmosfera opressiva e nebulosa. Em um armazém abandonado, onde os ecos de risos insanos preenchiam o silêncio, Coringa e Arlequina estavam juntos, presos em um ciclo caótico de amor, loucura e dependência. Onde os ecos de suas mentes perturbadas assombravam aquelas paredes, ambos estavam mais unidos do que nunca.
Desde que Arlequina conhecera o Coringa, sua vida havia se transformado em uma espiral de delírios compartilhados. O “Delírio a Dois”, também conhecido como folie à deux, é uma rara condição mental em que duas pessoas compartilham os mesmos delírios, e eles personificavam isso de maneira perturbadora, pois seu vínculo era mais profundo do que um romance ou obsessão: era uma ligação forjada no caos.
No início, Arlequina, ainda como a brilhante psiquiatra, Dra. Harleen Quinzel, havia tentado ajudar o Coringa no Asilo Arkham. Mas a mente afiada de Coringa foi além de manipular sua psiquiatra. Ele começou a moldar sua percepção da realidade. Ele falava de um mundo onde Gotham era uma piada sombria, e que só eles podiam ver a verdadeira face da cidade. Ela, fascinada, começou a acreditar, pois já havia perdido sua identidade para o magnetismo insano de Coringa. Ele a havia arrastado para sua realidade distorcida, onde não havia limites entre o bem e o mal, a loucura e a sanidade. A cada dia que passava, seus pensamentos se entrelaçavam ainda mais, criando um ciclo vicioso de insanidade mútua. Coringa era o seu rei, e ela, sua rainha leal. Juntos, eles eram os únicos que viam o verdadeiro “jogo” do mundo corrupto em que se encontrava Gotham City.
O ápice da loucura se deu tarde da noite quando os dois se encontraram no coração duma ala psiquiátrica. O cheiro de mofo e escuridão envolvia o local, e o som distante de trovões dava um ar ainda mais macabro à situação. Coringa, com seu sorriso largo e perverso, olhava para a Dra. Harleen Quinzel com olhos cheios de uma estranha mistura de afeto e desprezo.
— Minha querida doutora — ele sussurrou, segurando seu queixo com dedos pintados de branco. — Você consegue ouvir? O riso da cidade? Gotham está nos chamando. Eles precisam de nós.
A Dra. Harleen Quinzel sorriu, mas seu sorriso não era só de amor. Era uma aceitação incondicional da loucura que compartilhavam.
— Eu ouço, Sr. Coringa — respondeu ela, os olhos brilhando com a mesma chama de caos que consumia Coringa. — Eles não entendem, mas vamos fazer eles entenderem. Vamos libertá-los de seu sono. Eu serei a sua “Arlequina”.
A verdade era que nenhum dos dois conseguia mais distinguir suas próprias percepções da realidade. O mundo lá fora não importava; só importava o que eles viam um no outro. Eles acreditavam que estavam destinados a libertar Gotham de suas amarras sociais — uma cidade que, segundo eles, vivia presa numa falsa noção de ordem e sanidade.
A cada crime, a cada plano sinistro, seus delírios alimentavam o do outro. Quando Coringa falava sobre explodir uma ponte, Arlequina enxergava beleza nas explosões, como fogos de artifício celebrando a liberdade que só a destruição poderia trazer. Quando Arlequina sugeria o sequestro de figuras importantes, Coringa gargalhava, não de descrença, mas porque o caos dela era seu caos.
Juntos, acreditavam que Gotham os aplaudiria no final. Não importava quantas vidas fossem destruídas, nem quantos corações fossem partidos. No delírio que compartilhavam, eles eram os heróis, os únicos capazes de enxergar a verdade: que o mundo era um palco para o absurdo, e eles os mestres da cena.
Nesta noite, enquanto estavam sentados em uma sala cheia de bombas prontas para explodir em vários pontos da cidade, Coringa sussurrou:
— Eles acham que são normais, Arlequina. Eles acham que estão no controle. Mas nós sabemos. Nós somos os únicos que entendem. Até o Batman é um verdadeiro louco. Já viu a roupinha dele?
Arlequina riu descontroladamente, seus olhos brilhando de adoração e insanidade.
— É isso mesmo, Pudinzinho! Eles são os verdadeiros loucos. Nós somos os únicos que veem a verdadeira piada!
Depois de tudo, o delírio do Coringa não era mais só dele. Tudo que ele acreditava, Arlequina acreditava também. Eles compartilhavam a visão de um mundo distorcido, onde suas ações eram justificadas e qualquer noção de moralidade era descartada. A cada crime, a cada ato de destruição, suas mentes se entrelaçavam mais profundamente na loucura, incapazes de separar o real do imaginário.
Mas nesta noite, em um confronto com o Batman, no topo de um prédio em chamas, Coringa e Arlequina ficaram lado a lado, rindo descontroladamente enquanto o herói os encarava com desprezo e pena. Eles estavam tão perdidos em seu mundo compartilhado que acreditavam ser invencíveis, que suas ações eram uma forma de arte que apenas eles compreendiam. No topo daquele prédio em chamas, o fogo iluminava o céu de Gotham. Coringa e Arlequina, de mãos dadas, riam descontroladamente enquanto Batman os encarava, sério e firme, à beira do confronto inevitável.
— Acabou, Coringa e Arlequina. Entreguem-se. Isso não é um jogo — Batman retrucou, olhando-os com desprezo.
— Jogo? Jogo? — Coringa retrucou rindo, balançando o corpo como se dançasse em meio às chamas. — Batman, meu querido morcego! Isso tudo sempre foi um jogo! Só que você é a única peça que não entendeu as regras! — terminou de falar e deu uma risada aguda.
— Ele nunca entenderá, Pudinzinho — Arlequina falou, apertando a mão de Coringa, ecoando suas palavras. — Sempre tão sério, tão... previsível! — ela riu junto, olhando para Batman com zombaria.
— Vocês estão destruindo Gotham. Isso não é uma piada. São vidas em jogo — Batman falou mais sombriamente, com os olhos fixos neles.
— Ah, mas é aí que você se engana, Morcego — Coringa disse, fazendo uma pausa antes de continuar, com um sorriso cruel. — Tudo é uma piada! — ele abriu os braços, gesticulando para a cidade abaixo. — Gotham, essas pessoas... eles vivem mentiras! Nós somos os únicos que enxergamos a verdade. Não é, minha Arlequina?
— Isso mesmo! Somos nós contra o mundo, baby! Eles não veem o que nós vemos! — Arlequina concordou, devotada, com os olhos brilhando.
— Arlequina, ele está te usando — Batman falou com uma voz baixa e mais controlada. — Não vê que você está sendo manipulada? Isso é um delírio. A verdade não é o que ele diz.
— Oh, Batman! Meu morceguinho favorito! — Coringa falou rindo alto, como se fosse a melhor piada que já ouviu. — Tentando ser um terapeuta de novo? Que adorável! — ele se inclinou, olhando diretamente para ele. — Ela não precisa de salvação. Ela já está... completa.
— E eu nunca me senti tão viva! — Arlequina concordou com um sorriso largo, olhando para Coringa com adoração.
— Isso vai acabar em destruição. Você sabe disso, Coringa — Batman falou, frustrado, mas mantendo o controle.
— Claro que vai, rato voador! — Coringa respondeu, ainda sorrindo, mas com um toque de ameaça. — Destruição, caos, anarquia! Essa é a beleza da piada! O que seria de Gotham sem um pouco de... explosão? — ele olhou para o prédio em chamas e soltou mais uma risada alta.
— Isso acaba agora — Batman falou, cerrando os punhos.
— Não, não, meu amigo. Isso só termina quando a última risada for ouvida... e adivinha só quem vai rir por último? — Coringa respondeu rindo novamente, mas desta vez mais sombriamente.
— Nós dois, Pudinzinho... nós dois! — Arlequina respondeu, olhando para Coringa e rindo junto com ele.
— Além disso, você não vê, Batman? — gritou Coringa, com suas mãos manchadas de sangue. — Nós somos uma piada! Você é uma aberração que ainda acredita que pode salvar esta cidade! Você não compreende e nunca poderá entender este mundo em que vivemos.
Arlequina, com seus olhos fixos no Cavaleiro das Trevas, repetiu as palavras do Coringa quase como uma prece:
— Ele nunca vai entender, Pudinzinho. Eles nunca vão!
A ilusão em que estavam mergulhados era tão poderosa que se alimentava um do outro. Qualquer tentativa de realidade era esmagada pela visão distorcida que compartilhavam. O Coringa via Gotham como um palco para sua “piada mortal”, e Arlequina o via como um deus trágico, cujo destino era trazer caos à cidade. Juntos, eles eram uma tempestade imparável, alimentados pela loucura mútua.
Mas, como toda tragédia, havia um preço a ser pago. Em um raro momento de lucidez, quando Coringa havia sido capturado e estava de volta à cela em Arkham, Arlequina o fitou por um breve momento antes de ser retirada para sua própria cela. Os dois se encararam fixamente, e por um breve instante, o sorriso maníaco do Coringa desapareceu.
— Talvez... talvez eu esteja errado, Arlequina. Talvez tudo isso não passe de uma grande ilusão...
O sorriso dela vacilou, mas apenas por um segundo. Então, rindo, ela balançou a cabeça.
— Não, Pudinzinho. Você nunca está errado. Isso aqui é só mais uma parte da piada.
Em resposta, Coringa riu descontroladamente.
— Você tem razão, minha querida Arlequina. Não pense demais — ele a tranquilizou. — A realidade é uma piada, pois tudo faz parte de um grande show de comédia.
E assim, Arlequina foi retirada de sua presença, ainda rindo histericamente. Afinal, a verdadeira sanidade estava onde seu amado estava. Se era real ou não, pouco importava. No mundo que haviam criado juntos, onde o caos era o rei e a ordem era uma piada, eles governavam mesmo que fosse apenas em suas próprias mentes. E assim, o ciclo continuava. Dois amantes presos em um delírio compartilhado, onde a realidade era apenas um detalhe insignificante. Para eles, o mundo não fazia sentido sem o outro, e juntos, eles continuariam a se perder na escuridão de suas mentes fragmentadas, enquanto Gotham sofria as consequências de seu amor insano.
Naquele mundo distorcido, a única coisa real era a loucura. E, para Coringa e Arlequina, isso era tudo o que precisavam. No fim, o folie à deux havia consumido completamente ambos. Coringa e Arlequina, para sempre presos em um ciclo de loucura compartilhada, continuariam dançando no abismo da insanidade, acreditando que um dia, todos em Gotham entenderiam o que só eles podiam ver.
Mas a cidade nunca entenderia. E talvez, fosse isso o que eles mais amavam na vida.
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